Paulistanos se unem para criar miniflorestas públicas na cidade

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O desconhecimento que temos sobre a cor verde é proporcional à importância que ela desempenha nas cidades. No entanto, mesmo que sejamos engolidos pela rotina – de motor, fumaça, asfalto e edifícios – acontecem movimentos no sentido de proliferação e valorização de espaços arborizados nos centros urbanos, ainda que sejam mínimos, ainda que sejam no formato de miniflorestas. Como a Floresta de Bolso, primeira minifloresta pública de São Paulo, nascida graças ao esforço de moradores da região para valorizar uma área antes abandonada.

“Clima mais ameno, ar mais puro, resgate da biodiversidade local, maior retenção de água da chuva, evitando enchentes, redução de barulho e poeira e aumento da umidade do ar” estão entre os benefícios que a pequena floresta urbana pode trazer à região, conforme divulgou o The Greenest Post.

Em São Paulo, essa iniciativa nasceu da vontade do botânico Ricardo Cardim de realizar um resgate da fauna. Em entrevista publicada pelo QSocial, o botânico questiona: “Por que não vemos mais tucanos-de-bico-verde na cidade? Nem esquilos? Porque destruímos a floresta e colocamos plantas que os bichos nativos normalmente não se alimentam. Muitas espécies desapareceram, como a araucária e o cambuci, árvores nativas que já foram comuns a ponto de nomearam bairros e hoje se contam nos dedos na malha urbana”.

Essas iniciativas vão de acordo com o discurso que o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, realizou na última semana durante o Dia Internacional das Florestas (21/3). Conforme post do EcoDesenvolvimento, o secretário-geral disse que “o investimento nas florestas representa uma apólice de seguro para o planeta”, e pediu que “governos, empresários e sociedade civil adotem políticas e práticas que protejam, restaurem e mantenham as florestas saudáveis para o futuro comum do planeta”. Nesse caso, apesar da escala mínima que as miniflorestas representam, a iniciativa é válida dentro do escopo de funcionalidades positivas que oferece ao contexto das grandes cidades.

RECUPERAÇÃO DE NASCENTES

PREMIO BOM EXEMPLO 2016

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No bairro Ribeiro de Abreu, em Belo Horizonte, próximo à rua Inês Glansman, tem uma área verde onde há água que brota do chão: trata-se de uma nascente que é fonte do ribeirão do Onça e que, há mais de 30 anos, vem sendo cuidada por Júlia Machado Amaral, moradora da região e uma das finalistas do Prêmio Bom Exemplo na categoria Cidadania – iniciativa da TV Globo Minas em parceria com o jornal O TEMPO, com a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) e com a Fundação Dom Cabral.

“Quando fiquei sabendo da indicação, fiquei muito feliz. Divulgar essa ação já é como um prêmio para mim, pois manter uma nascente é preservar a vida. Todos nós precisamos de água e, por isso, precisamos valorizar nossas fontes”, afirma Júlia.

Satisfação. Aos 63 anos, ela não perde a disposição quando o assunto é a mina de água. Com balde, luvas e ferramentas na mão, trabalha na manutenção do local, recolhendo sujeiras, cuidando do solo, das plantas etc. Toda a importância que ela vê no cuidado, repassa para as pessoas, entre elas o neto Yuri, 8. “Muitas vezes ele me acompanha, me ajuda a cuidar. Ele gosta muito da natureza”, conta.

Engajada, Júlia diz também que, muito mais do que uma boa ação, proteger e preservar o local é uma questão de gratidão. “Tenho muito carinho e muito amor por essa nascente. Tive conhecimento dela quando eu comecei a construir a minha casa no bairro, há mais de 30 anos. Nela é que consegui água para erguer a residência e foi a ela que eu recorri, muitas vezes, para abastecimento, pois não tinha fornecimento de água tratada na região”, menciona.

Júlia conta ainda que, com o apoio de especialistas, conseguiu o cercamento da nascente e o plantio de árvores no entorno dela. “Eles pesquisaram o local e listaram as plantas ideais. Muitas árvores estão crescendo. No futuro teremos um pomar e várias espécies do Cerrado”, conclui.

Fiocruz mapeia a vulnerabilidade de municípios às mudanças climáticas

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RIO – Diz a antiga anedota que o clima na Amazônia só existem duas estações: a que chove o dia todo e a que chove todo dia. A verdade, claro, é muito mais complexa que isso, mas outro fato é que, de acordo com as principais projeções feitas até agora, a região será uma das que mais vai sofrer com o aquecimento global. Dependendo do cenário para a evolução das emissões mundiais dos gases do efeito estufa, em algumas áreas a expectativa é de que até o fim do século a temperatura média suba em cerca de sete graus Celsius, enquanto as precipitações podem se reduzir em mais de 40%, com longos períodos de estiagem que colocam em risco o delicado equilíbrio do bioma e, consequentemente, as populações que nele vivem.

E foi justamente em busca de dar uma dimensão humana a estes números das mudanças climáticas que uma equipe de pesquisadores coordenada por Ulisses Confalonieri, do Centro de Pesquisa René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte, cruzou os dados das previsões para o futuro do clima na região entre 2041 e 2070 com informações sobre a realidade social, econômica, ambiental e de saúde atual dos 62 municípios do estado do Amazonas para não só verificar o quão vulneráveis eles estão às possíveis alterações nos padrões do tempo como identificar quais são estas vulnerabilidades.

Segundo Confalonieri, o objetivo é ajudar os governos locais, estaduais e federal a priorizarem investimentos e melhor alocarem recursos em projetos que visem preparar os municípios às mudanças esperadas sobre três pilares: sua sensibilidade, que leva em conta fatores como pobreza, taxa de infecção por doenças associadas ao clima e situação demográfica (proporção de idosos na população, de famílias chefiadas por mulheres ou país muito jovens etc); sua exposição, que inclui o grau de preservação do ambiente e manutenção da cobertura vegetal e o histórico de eventos extremos, como secas ou inundações; e sua capacidade de resposta, ou seja, a qualidade da infraestrutura e instituições de cada município, como saneamento básico, acesso à água potável e a existência, ou não, de um departamento de Defesa Civil.

– A ideia deste índice de vulnerabilidade climática é guiar a tomada de decisões relativas a projetos e investimentos em políticas de adaptação às mudanças climáticas – diz Confalonieri, cujo grupo também vai publicar em breve resultados de levantamentos semelhantes para cinco outros estados: Espírito Santo, Pernambuco, Paraná, Maranhão e Mato Grosso do Sul. – Mas mais do que saber que município dentro de um determinado estado vai precisar de mais investimento e qual vai precisar de menos, os tomadores de decisão saberão também o porquê de alguns estarem em pior situação que outro, como se ele tem uma capacidade de resposta baixa por falta de infraestrutura ou tem uma exposição maior por ser mais sujeito a inundações para que se planeje sua proteção e se faça a prevenção dos efeitos dos eventos climáticos.

Aluna de doutorado no René Rachou e integrante da equipe responsável pelo estudo, Júlia Menezes destaca que o novo índice vai além dos indicadores de vulnerabilidade municipal já usualmente calculados pela Fiocruz hoje exatamente por incorporar uma dimensão climática à análise. Assim, por exemplo, se um município atualmente costuma enfrentar alagamentos e está preparado para isso, mas fica em uma região que no futuro do clima verá muito menos chuvas, os governos devem então investir adaptá-lo para um cenário de estiagem, e não de mais inundações.

– A mudança do clima é uma realidade e vai acontecer – lembra. – Construímos então uma ferramenta para que os governos saibam quais são suas deficiências de hoje em relação aos cenários futuros do clima, o que podem fazer para a população sofrer menos lá na frente. E como estas projeções são incertas, o melhor é se preparar.

 

VIDA SELVAGEM NAS CIDADES

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Tall buildings, abundant food sources and a lack of predators make modern cities a natural habitat for many birds and animals

Perching on the side of an old power station chimney with St Paul’s Cathedral to the north and the Shard, Europe’s tallest building, to the east is not where you might expect to glimpse the world’s fastest bird. Yet Tate Modern, and London landmarks including Battersea Power Station and the Houses of Parliament, have been home for several years to peregrine falcons. A surprising flash of the wild in the heart of the city, the powerful bird of prey is also a specialised hunter of feral pigeons, considered such an urban pest that in 2003 a ban was imposed on feeding them in Trafalgar Square.

With cities’ abundant food sources and tall buildings providing a predator-free equivalent of the species’ traditional cliff-side home, the raptor’s success has extended far beyond the capital. Having colonised urban areas from Aberdeen to Cardiff, ecologists now believe it is only a matter of time before peregrine falcons are breeding in every major UK town and city.

“All those born and bred in cities, that’s their habitat that they’ve grown up in. When they’re drifting around the country, they find little towns and cities elsewhere … and that’s what they’re used to,” says David Goode, a veteran ecologist and author of a new book, Nature in Town and Cities. “That’s why I say it won’t be long until they’re in every place.”

The peregrine is just one of many species that have invaded British cities in the last few decades, encouraged in no small part by an urban ecology movement that flourished in the 1980s. “There are those that have done well – pigeons, foxes, gulls – because of our food,” says Mathew Frith, an ecologist and policy director at the London Wildlife Trust. “There are others that have done well without our intervention, such as the black redstart, known as the ‘bombsite bird’ because of its liking for the cover that bomb sites provided.” Then there are the species that benefited from conservation efforts, such as the red kite.

A large bird of prey with a wingspan of nearly two metres, the kite was on the verge of extinction until a wildly successful reintroduction began in 1989. Today there are more than 1,000 breeding pairs in the UK. Frith believes that with kites recorded flying over Hackney, they could be breeding in London in as little as a decade as they expand from existing strongholds, such as Reading. They can also be seen in Leeds city centre, Gateshead, Manchester and Birmingham. It is a long way from past expectations of naturalists. In 1898, ornithologist William Henry Hudson thought it “exceedingly rare” that such raptors would ever return to our cities, following decades of industrialisation and urbanisation.

In the Midlands in particular, the urban wildlife movement grew as industrialisation went into reverse, and nature recolonised derelict land. And it happened despite, not because of, the traditional big conservation groups. “There was a big sand quarry in Birmingham which had wonderful wetlands and great sand cliffs. The local authority in the late 1970s decided it would be a useful landfill site, which triggered very local opposition,” recalls Chris Baines, vice-president of the Royal Society of Wildlife Trusts since 1984 and an ecological adviser to several major developments including the Thames Tideway tunnel.

“The landscape was teeming with newts and frogs but people realised in official circles that didn’t count for anything. The RSPB famously wrote to me to say it was very interesting but there can’t be anything there because it was in the middle of Birmingham.” The site was eventually saved by local people and, in Baines’s retelling, “the penny began to drop” in nature conservation circles that they needed to connect with people, and most people lived in cities.

“This is not a second-rate [version of nature],” he says, as he counts off the owls and woodpeckers that live near his home in Wolverhampton. As Goode outlines in his book, the variety of our cities lends itself to a diversity of species. “Because the city is so heterogeneous, with a great mixture of different ecological conditions, it is not surprising that a considerable variety of wildlife is able to exist.”

In Edinburgh, kestrels hunt voles at Arthur’s Seat. Exotic species such as mandarin ducks and Egyptian geese are on the verge of colonising cities. Kingfishers have brought a splash of colour to grey concrete waterways in gritty urban areas including Deptford, south-east London, and one was even seen regularly in St James’s Park in central London this winter.

Badgers and foxes are now in most major urban areas, aided by a more regular food supply than they can find in the countryside. Deer crowd on city fringes, with numbers high enough in Richmond Park to necessitate a twice-yearly cull. Otters have rebounded and can now be found in every county, and have used waterside wasteland areas and canals to make their way to the heart of cities, such as under Leeds railway station.

Water voles – Ratty in The Wind in the Willows – can be found in Bristol and Newcastle, living happily free of one of their main modern threats, imported American mink. Like the kingfishers, both have been helped by cleaner waterways as the Environment Agency has cracked down on polluters, with the UK racing to meet EU water quality standards.

But this invasion has not been entirely peaceful. There are famously more foxes living in London than there are double-decker buses and, while some people love to see them and leave out food to entice them, others pay snipers to kill foxes for £75 per animal. When a fox reportedly bit off a baby’s finger in its Bromley home in 2013 – surgeons later reattached the finger – mayor Boris Johnson backed a cull of urban foxes, calling them “a menace” and subsequently joking that they could be hunted from bicycles.

Yet experts say fox numbers in the UK are relatively stable. Professor Stephen Harris of the University of Bristol, the authority on the subject, says there are around 33,000 urban foxes. Besides, ecologists argue, killing foxes would be pointless because they are territorial, with a territory of 25 to 40 hectares on average at the smaller end. Kill one, and another simply claims the territory. “Until you manage the food issue, any kind of control is kind of pointless and expensive,” said Frith.

Foxes aren’t the only wildlife that some people want to shoot. James Marchington, a gun sports journalist and owner of the “bird table of doom”, found himself under fire from conservationists last December for publishing a video showing how to shoot ring-necked parakeets in London.

Originally from Asia, the bright green birds have gone from a population of zero to more than 30,000 in less than four decades, and are now found in London, Manchester, Birmingham and Oxford. The invasive species has the potential to be a serious agricultural pest by stripping fruit crops – if it can successfully expand into rural areas from the urban strongholds it has colonised. In 2010, they were added to the general licence, a list of birds that can be killed without a permit if they are causing significant damage to crops.

“Though the critics of my video chose not to notice, I did have a specific problem with a small number of individual birds who’d taken a liking to the apple trees in my garden … as I understand it, that’s covered by the general licence,” said Marchington, who lives on the outskirts of London, in Surrey. “I’ve grown up surrounded by shooting in the countryside and wildlife management comes naturally to me; that’s what you do.”

The RSPB disagreed, condemning the video, which, it argued, showed a leafless tree without a crop and wouldn’t justify shooting under the general licence. Marchington, who keeps chickens and feeds birds in his garden, said “we are all hypocrites” when it comes to animals. He said the reaction to the video spoke volumes about conflicted modern attitudes to wildlife. “I think people today are disconnected to nature, and yet still have a hankering to get closer to nature. That manifests itself in people going hiking at weekends or doing bushcraft. But they find it difficult to reconcile this idea that they love animals, yet if we’re going to live the way we live [eating meat], they’re [animals] going to need to be killed and we’re going to need to manage wildlife populations [to be free of pests and diseases from animals].”

Animal welfare group Peta called the video “deranged”. Charlie Jacoby, who runs the channel where the video was shown, said in an interview: “Peta lives in this Disney world where all animals and birds are furry and cuddly. I like animals and birds as well but I also see them as pests and I also like to eat them. I think Peta needs to develop more emotional intelligence about wildlife. These birds are pests and government has designated them as such. People who live in towns should be able to manage their animal problems, just as people in the countryside do.”

Another section of society appears to view urban wildlife in a more practical, albeit no less destructive, light: as a potential meal. Ecologists in Sheffield report anecdotes of migrants living rough in the city’s parks catching fish to eat and roasting squirrels. They say eastern Europeans have the skills to catch and safely cook animals. A recent study by the Food Standards Agency and the Food and Environment Research Agency appears to back up those anecdotes, finding growing evidence that more people are eating fish they have caught from rivers and canals. “This may be partly due to the increased numbers of migrants from eastern Europe where this is part of traditional culture and partly because of a desire to try new foods encouraged by celebrity chefs,” the study concluded.

Ecologist David Goode says that while there is an occasional public outcry after isolated incidents of conflict, the British are accepting of urban wildlife on the whole. He attributes the live-and-let-live attitude partly to the country’s long history of conservation movements and amateur naturalists, right back to the city-based natural history societies of the early 19th century.

Another reason for that accepting attitude could be stressed-out city dwellers’ simple self-interest. Ecologists are at pains to stress the mental health benefits of nature in cities, while a major report by the environment department found the health benefits of living with a view of a green space are worth up to £300 per person each year.

Melissa Harrison is in no doubt she’d count herself among those benefiting mentally from being around urban wildlife. Brought up in semi-rural Surrey, she realised she was very unhappy while living in heavily built-up Dalston, east London, but couldn’t put her finger on the reason why. “I went to Devon for a week, and realised that was what I needed,” she said. “I moved south to Clapham – I had no garden but could see a tree out of the window. It had a magpie nesting in it, I could watch the leaves change, I had a connection.”

Inspired by getting a dog and moving next to Streatham in south London, she wrote a well-received novel called Clay about a boy and his connection with wildlife in the city. “Writing Clay was to get other people to notice [nature around them in the city]. You don’t have to move to Dorset, people have it here, they just need to notice it,” Harrison said.

“There’s just the simple fact that we evolved in nature, we’re animals, we’re not separate. You take us completely out of that environment and people feel it as a loss, that’s almost quite wordless. It’s the kind of thing you don’t necessarily notice you’ve lost.”

The capital has been losing the equivalent of 2.5 Hyde Parks a year
But the natural riches in our cities today shouldn’t be taken for granted, observers say. Previous gains could be set back by a combination of planning reforms, pressure for new housing, particularly in the south-east, and austerity measures. The capital has been losing the equivalent of 2.5 Hyde Parks a year to new developments and the paving over of front gardens, according to one analysis. Upcoming local government budget cuts of 10% for 2015-16 are “likely to have further adverse implications for biodiversity conservation”, warns the London Wildlife Trust, which says there has already been a “substantial impact” from previous cuts this parliament.

“The enthusiasm generated in the 80s is still resulting in things being done. But there is a degree of complacency creeping in now,” said Goode. He warns that local authority budget cuts will mean they will employ fewer ecologists, resulting in “a lack of ecological awareness in planning”.

Goode gives the example of former coal yard Camley Street, which is now a small nature reserve in the middle of King’s Cross after a campaign backed by Ken Livingstone and many others stopped it being turned into a coach park. “Nowadays, you wonder whether that kind of thing would happen. There are several instances of things being set up in the 80s, and everyone was full of enthusiasm. I wonder whether they would happen now.”

How wildlife is evolving in cities

Falcons

Wildlife is changing our cities, but our cities are also changing them. Part of the peregrine falcon’s success has been learning to catch birds at night using artificial light, something they would not do in their traditional cliff and mountainside habitat. “That really is Darwinian evolution, a gradual shift of birds becoming aware of a new set of circumstances,” says ecologist David Goode.Those that excel at night hunting could thrive at others falcons’ expense.

Peppered moth

Biston betularia, a moth species, felt the impact of polluted UK cities in the 19th and early 20th centuries, with populations shifting from a white variety with black spots to a wholly black variety, which proved better in avoiding predators on sooty walls This is considered a classic case study of evolutionary pressures in action. But clean air legislation introduced in 1956 made the darker moths suddenly vulnerable in urban areas, leading to their decline. In Cambridge, the darker version is now effectively extinct.

Squirrels

Grey squirrels in cities are more likely to use visual rather than audio signals. US researchers say the behaviour may be a response to higher noise levels in urban environments, leading city squirrels to warn each other of predators using tail flagging more often than calls. Contrary to what scientists expected, urban squirrels were also more reactive to threats than their rural counterparts

Brains

Water vole, Arvicola terrestris, on an urban canal bank in Derbyshire, England.
Water vole ( Arvicola terrestris), on an urban canal bank in Derbyshire, England. Photograph: Duncan Shaw/Alamy
Cotton mice and meadow voles in urban areas have bigger brains, US scientists have found, supporting the theory that the diversity and complexity of cities increases cognition, at least in some species. Other studies have also found that species with bigger brains fare better in cities. “It is logical to conjecture that brain size can be related to the success in an urban environment, which is both novel and harsh,” said the authors of a study of passerines, the largest order of birds.

Birdsong

Several studies have shown that city birds sing at higher pitches than their countryside cousins. A survey, by Rupert Marshall of Aberystwyth University, published in the journal Proceedings of the Royal Society B, found city great tits sing at a higher pitch than those in nearby rural areas to stand out over the lower-pitched rumblings of traffic and other man-made noise. Other studies have concluded that blackbirds sing at a higher pitch because they are able to sing more loudly at higher frequencies.

Florestas de eucalipto comprometem o abastecimento de água na Grande Vitória

A região serrana capixaba foi invadida pelo eucalipto, plantado em todos os municípios. Não há
respeito sequer às áreas que reabastecem os rios, que são as encostas e topos de morros. As
conseqüências já são sentidas, pois a vazão dos rios está muito abaixo do normal, mas serão
funestas: vai faltar água para consumo humano.

Segundo informou o governo do Estado, a vazão média do rio
Santa Maria da Vitória era de mais de 16 mil litros por segundo.
Atualmente é de 5.6 mil litros por segundo. A vazão do rio Jucu
em média era de 21 mil litros por segundo, e a atual é de
menos de 8 mil litros por segundo. O rio Benevente,  que
abastece Guarapari, tinha vazão média 7 mil metros por segundo, atualmente não chega a 3 mil
litros por segundo. A vazão do rio Doce que já chegou 1,7 milhão de litros por segundo, hoje está
reduzida a 230 mil litros por segundo ­ uma redução de mas de sete vezes.

Há o alerta, que vem do campo e de ambientalistas. Valmir Noventa, um dos coordenadores do
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) assinala que os moradores das cidades,
principalmente da Grande Vitória, devem refletir sobre os problemas do abastecimento, apontar
medidas e  exigir dos governos o seu cumprimento para evitar risco de faltar água.

O governo procura jogar a culpa da falta d’água na ausência de chuvas. Mas não é bem assim.
“Não é só a questão climática que levou à perda de água nos rios. Não há políticas
governamentais para manter a produção de água”, afirma Noventa. Foi assim nos dois primeiros
governos de Paulo Hartung e no governo de Renato Casagrande. Os primeiros atos do atual
governo Paulo Hartung não permitem antever mudanças, como analisa o dirigente camponês.

Em vez de propor e criar condições para plantios de espécies da mata atlântica que tem
desenvolvimento rápido e podem gerar receita em sistemas agrossilvipastoris  ­  integração de
lavoura, pecuária e floresta  ­ os governos estimulam os plantios de eucalipto. A espécie é exótica
e consome 36,5 mil litros de água por ano quando adulta, segundo pesquisas.

Na região de montanha há desculpa de que os plantios são feitos para produção de caixas de
madeiras usadas no transporte de alimentos. Mas os plantios do eucalipto, feitos em lugar da
agricultura, acabam por atender a produção da Aracruz Celulose (Fibria).

Esta ocupação desordenada das áreas ocorreu há duas décadas, e continua. As áreas, antes
usadas em plantios de alimentos,  levou à exaustão  os recursos hídricos até na região serrana.
Nascentes estão secas e o conflito pela água já chegou à região. Uma situação já bem conhecida
e muito grave nas regiões norte e noroeste, onde os plantios de eucalipto chegaram na década
de 60, introduzidos pela Aracruz Celulose.

Este uso inadequado da água acentua qualquer problema climático, como o registrado
atualmente. Como resultado, há falta de água, já registrado em Guarapari e risco, ainda não
oficialmente admitido, de que proximamente vai faltar água na Grande Vitória.

A falta de água levará o abastecimento da população ao colapso, como alertam ambientalistas.
Ambientalistas e os dirigentes das organizações camponesas lembram que na Região Serrana há
ainda destruição de mata atlântica, já devastada. Até nas regiões estratégicas para o
abastecimento das grandes  populações do Estado como na região serrana não tem mais água, o
que vai acabar prejudicando os moradores da Grande Vitória.

Os moradores da cidade e do campo têm de discutir o problema para reverter a situação. É
preciso adotar um manejo sustentável da água, pois há conflito aberto. Ora da agricultura com a
indústria, ora com plantios de espécies que destroem a água como o eucalipto, sugere o dirigente
do MPA.

Valmir Noventa lembra que a população da Grande Vitória já é estimada em 1.8 milhão de
moradores (IBGE 2014). E só cresce, como em toda área urbana. Soluções para evitar o
desabastecimento de água são urgentes. Também para garantir a qualidade da água. Os atuais
sistemas de tratamento não tiram o resíduo químico que contamina a água, como os agrotóxicos.

Os rios também estão contaminados por esgotos sanitários e industriais lançados diretamente
nos cursos de água, em quadro que os ambientalistas definem como dramático.

Já em 2005 a Associação Barrense de Canoagem (ABC) informava que o rio Jucu apresentava
pontos com até 47 mil coliformes fecais a cada copo de água, números apurados em fevereiro
deste ano. Em 2004, o limite máximo chegou a 44 mil coliformes fecais em um copo de água.

A poluição do rio Santa Maria era de 46 vezes maior que o tolerável. Em Santa Maria de Jetibá,
foram registrados 46 mil coliformes fecais em um copo (100 mililitros) de água. Em Santa
Leopoldina, 24 mil coliformes em 100 mililitros de água. O índice satisfatório é de 1.000
coliformes por 100 mililitros.

A pesquisa apontou a presença de enterococos (bactéria) nas águas do rio: 17,5 mil enterococos
por 100 mililitros, o que representa 175 vezes mais que o índice satisfatório, de 100 enterococos
em um copo de água, em Santa Leopoldina.

Fonte: Blog Século Diário, disponível em http://www.seculodiario.com/20876/10/florestas-de-eucalipto-comprometem-o-abastecimento-de-agua-na-grande-vitoria-1

“O Cerrado está extinto e isso leva ao fim dos rios e dos reservatórios de água”

Uma ilha ambiental em meio à metrópole está no Campus 2 da Pon­tifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). É lá o local onde Altair Sales Barbosa idealizou e realizou uma obra que se tornou ponto turístico da capital: o Memorial do Cerrado, eleito em 2008 o local mais bonito de Goiânia e um dos projetos do Instituto do Trópico Subúmido (ITS), dirigido pelo professor.

Foi lá que Altair, um dos mais profundos conhecedores do bioma Cerrado, recebeu a equipe do Jornal Opção. Como professor e pesquisador, tem graduação em Antropologia pela Universidade Católica do Chile e doutorado em Arqueologia Pré-Histórica pelo Museu Nacional de História Natural, em Washington (EUA). Mais do que isso, tem vivência do conhecimento que conduz.

É justamente pela força da ciência que ele dá a notícia que não queria: na prática o Cerrado já está extinto como bioma. E, como reza o dito popular, notícia ruim não vem sozinha, antes de recuperar o fôlego para absorver o impacto de habitar um ecossistema que já não existe, outra afirmação produz perplexidade: a devastação do Cer­rado vai produzir também o desaparecimento dos reservatórios de água, localizados no Cerrado, o que já vem ocorrendo — a crise de a­bastecimento em São Paulo foi só o início do problema. Os sinais dos tempos indicam já o começo do período sombrio: “Enquanto se es­tá na fartura, você é capaz de re­partir um copo d’água com o ir­mão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá”, sentencia o professor.

“Memorial do Cerrado” – o nome deste espaço de preservação criado pelo sr. aqui no Campus 2 da PUC Goiás, é uma expressão pomposa. Mas, tendo em vista o que vivemos hoje, é algo quase que tristemente profético. O Cerrado está mesmo em vias de extinção?
Para entender isso é preciso primeiramente entender o que é o Cerrado. Dos ambientes recentes do planeta Terra, o Cerrado é o mais antigo. A história recente da Terra começou há 70 milhões de anos, quando a vida foi extinta em mais de 99%. A partir de então, o planeta começou a se refazer novamente. Os primeiros sinais de vida, principalmente de vegetação, que ressurgem na Terra se deram no que hoje constitui o Cerrado. Por­tanto, vivemos aqui no local onde houve as formas de ambiente mais antigas da história recente do planeta, principalmente se levarmos em consideração as formações vegetais. No mínimo, o Cerrado começou há 65 milhões de anos e se concretizou há 40 milhões de anos.

O Cerrado é um tipo de am­biente em que vários elementos vi­vem intimamente interligados uns aos outros. A vegetação depende do solo, que é oligotrófico [com nível muito baixo de nutrientes]; o solo depende de um tipo de clima especial, que é o tropical subúmido com duas estações, uma seca e outra chuvosa. Vários outros fatores, incluindo o fogo, influenciaram na formação do bioma – o fogo é um elemento extremamente importante porque é ele que quebra a dormência da maioria das plantas com sementes que existem no Cerrado.

Assim, é um ambiente que de­pen­de de vários elementos. Isso significa que já chegou em seu clímax evolutivo. Ou seja, uma vez degradado não vai mais se recuperar na plenitude de sua biodiversidade. Por isso é que falamos que o Cerrado é uma matriz ambiental que já se encontra em vias de extinção.

Por que o sr. é tão taxativo?
Uma comunidade vegetal é medida não por um determinado tipo de planta ou outro, mas, sim, por comunidades e populações de plantas. E já não se encontram mais populações de plantas nativas do Cerrado. Podemos encontrar uma ou outra espécie isolada, mas encontrar essas populações é algo praticamente impossível.

Outra questão: o solo do Cerrado foi degradado por meio da ocupação intensiva. Retiraram a gramínea nativa para a implantação de espécies exóticas, vindas da África e da Austrália. A introdução dessas gramíneas, para o pastoreio, modificou radicalmente a estrutura do solo. Isso significa que naquele solo, já modificado, a maioria das plantas não conseguirá brotar mais.

Como se não bastasse tudo isso, o Cerrado foi incluído na política de ex­pansão econômica brasileira co­mo fronteira de expansão. É uma á­rea fácil de trabalhar, em um planalto, sem grandes modificações geomorfológicas e com estações bem definidas. Junte-se a isso toda a tecnologia que hoje há para correção do solo. É possível tirar a acidez do solo utilizando o calcário; aumentar a fertilidade, usando adubos. Com isso, altera-se a qualidade do solo, mas se afetam os lençóis subterrâneos e, sem a vegetação nativa, a água não pode mais infiltrar na terra.

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Altair Sales Barbosa, professor da PUC Goiás

Onde há pastagens e cultivo, então, o Cerrado está inviabilizado para sempre, é isso?
Onde houve modificação do solo a vegetação do Cerrado não brota mais. O solo do Cerrado é oligotrófico, carente de nutrientes básicos. Quando o agricultor e o pecuarista enriquecem esse solo, melhorando sua qualidade, isso é bom para outros tipos de planta, mas não para as do Cerrado. Por causa disso, não há mais como recuperar o ambiente original, em termos de vegetação e de solo.

Mas o mais importante de tudo isso é que as águas que brotam do Cerrado são as mesmas águas que alimentam as grandes bacias do continente sul-americano. É daqui que saem as nascentes da maioria dessas bacias. Esses rios todos nascem de aquíferos. Um aquífero tem sua área de recarga e sua área de descarga. Ao local onde ele brota, formando uma nascente, chamamos de área de descarga. Como ele se recarrega? Nas partes planas, com a água das chuvas, que é absorvida pela vegetação nativa do Cerrado. Essa vegetação tem plantas que ficam com um terço de sua estrutura exposta, acima do solo, e dois terços no subsolo. Isso evidencia um sistema radicular [de raízes] extremamente complexo. Assim, quando a chuva cai, esse sistema radicular absorve a água e alimenta o lençol freático, que vai alimentar o lençol artesiano, que são os aquíferos.

Quando se retira a vegetação na­tiva dos chapadões,

As plantas  do cerrado são de crescimento muito lento. Quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, os Buritis que vemos hoje estavam nascendo. eles demoram 500 anos para ter de 25 a 30 metros. também por isso, o dano ao bioma é irreversível

Qual é a consequência imediata desse quadro?
Em média, dez pequenos rios do Cerrado desaparecem a cada ano. Esses riozinhos são alimentadores de rios maiores, que, por causa disso, também têm sua vazão diminuída e não alimentam reservatórios e outros rios, de que são afluentes. Assim, o rio que forma a bacia também vê seu volume diminuindo, já que não é abastecido de forma suficiente. Com o passar do tempo, as águas vão desaparecendo da área do Cerrado. A água, então, é outro elemento importante do bioma que vai se extinguindo.

Hoje, usa-se ainda a agricultura irrigada porque há uma pequena reserva nos aquíferos. Mas, daqui a cinco anos, não haverá mais essa pequena reserva. Estamos colhendo os frutos da ocupação desenfreada que o agronegócio impôs ao Cerrado a partir dos anos 1970: entraram nas áreas de recarga dos aquíferos e, quando vêm as chuvas, as águas não conseguem infiltrar como antes e, como consequência, o nível desses aquíferos vai caindo a cada ano. Vai chegar um tempo, não muito distante, em que não haverá mais água para alimentar os rios. Então, esses rios vão desaparecer.

Por isso, falamos que o Cerrado é um ambiente em extinção: não existem mais comunidades vegetais de formas intactas; não existem mais comunidades de animais – grande parte da fauna já foi extinta ou está em processo de extinção; os insetos e animais polinizadores já foram, na maioria, extintos também; por consequência, as plantas não dão mais frutos por não serem polinizadas, o que as leva à extinção também. Por fim, a água, fator primordial para o equilíbrio de todo esse ecossistema, está em menor quantidade a cada ano.

Como é a situação desses aquíferos atualmente?
Há três grandes aquíferos na região do Cerrado: o Bambuí, que se formou de 1 bilhão de anos a 800 milhões de anos antes do momento presente; os outros dois são divisões do Aquífero Guarani, que está associado ao Arenito Botucatu e ao Arenito Bauru que começou a se formar há 70 milhões de anos. O Guarani alimenta toda a Bacia do Rio Paraná: a maior parte dos rios de São Paulo, de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul – incluindo o Pantanal Mato-Grossense – e grande parte dos rios de Goiás que correm para o Paranaíba, como o Meia Ponte. Toda essa bacia depende do Aquífero Guarani, que já chegou em seu nível de base e está alimentando insuficientemente os rios que dependem dele. Por isso, os rios da Bacia do Paraná diminuem sua vazão a cada ano que passa.

Então, podemos ter nisso a explicação para a crise da água em São Paulo?
Exato. Como medida de urgência, já estão perfurando o Arenito Bauru – que é mais profundo que o Botucatu, já insuficiente –, tentando retirar pequenas reservas de água para alimentar o sistema Cantareira [o mais afetado pela escassez e que abastece a capital paulista]. Mesmo se chover em grande quantidade, isso não será suficiente para que os rios juntem água suficiente para esse reservatório.

Assim como ocorre no Can­tareira, outros reservatórios espalhados pela região do Cerrado – Sobradinho, Serra da Mesa e outros – vão passar pelo mesmo problema. Isso porque o processo de sedimentação no fundo do lago de um reservatório é um processo lento. Os sedimentos vão formando argila, que é uma rocha impermeável. Então, a água daquele lago não vai alimentar os aquíferos. Mesmo tendo muita quantidade de água superficial, ela não consegue penetrar no solo para alimentar os aquíferos. Se não for usada no consumo, ela vai simplesmente evaporar e vai cair em outro lugar, levada pelas correntes aéreas. Isso é outro motivo pelo qual os aquíferos não conseguem recuperar seu nível, porque não recebem água.

Geologicamente sendo o mais antigo, seria natural que o Cerrado fosse o primeiro bioma a desaparecer. Mas isso em escala geológica, de milhões de anos. Mas, pelo que o sr. diz, a antropização [ação humana no ambiente] multiplicou em muitíssimas vezes esse processo de extinção.

Sim. Até meados dos anos 1950, tínhamos o Cerrado praticamente intacto no Centro-Oeste brasileiro. Desde então, com a implantação de infraestrutura viária básica, com a construção de grandes cidades, como Brasília, criou-se um conjunto que modificou radicalmente o ambiente. A partir de 1970, quando as grandes multinacionais da agroindústria se apossaram dos ambientes do Cerrado para grandes monoculturas, aí começa o processo de finalização desse bioma. Ou seja, o homem sendo responsável pelo fim desse ambiente que é precioso para a história do planeta Terra.

Em que o Cerrado é tão precioso?
De todas as formas de vegetação que existem, o Cerrado é a que mais limpa a atmosfera. Isso ocorre porque ele se alimenta basicamente do gás carbônico que está no ar, porque seu solo é oligotrófico.

Diz-se que o Cerrado é o contrário da Amazônia: uma floresta invertida, em confirmação à definição que o sr. deu sobre o fato de dois terços de cada planta do Cerrado estarem debaixo da terra. Ou seja, a destruição do Cerrado é muito mais séria do que alcança a nossa visão com o avanço da fronteira agrícola. É uma devastação muito maior, porque também ocorre longe dos olhos, subterrânea.

Isso faz sentido, porque, na parte subterrânea, além do sequestro de carbono está armazenada a água, sem a qual não prospera nenhuma atividade econômica. A Amazônia terminou de ser formada há apenas 3 mil anos, um processo que começou há 11 mil anos, com o fim da glaciação no Hemisfério Norte. A configuração que tem hoje existe na plenitude só há 3 mil anos. A Mata Atlântica tem 7 mil anos. São ambientes que, se degradados, é possível recuperá-los, porque são novos, estão em formação ainda.

Já com o Cerrado isso é impossível, porque suas árvores já atingiram alto grau de especialização. Tanto que o processo de quebra da dormência de determinadas sementes são extremamente sofisticados. Uma semente de araticum, por exemplo, só pode ter sua dormência quebrada no intestino delgado de um canídeo nativo do Cerrado – um lobo guará, uma raposa. Como esses animais estão em extinção, fica cada vez mais difícil quebrar a dormência de um araticum, que é uma anonácea [família de plantas que inclui também a graviola e a ata (fruta-do-conde), entre outras].

As abelhas europeias e africanas são recentes, foram introduzidas no século passado. O professor Warwick Kerr, que introduziu a abelha africana no Brasil, na década de 1950, ainda é vivo e atua na Universidade Federal de Uber­lândia (UFU). São boas produtoras de mel, mas não estão adaptadas para fazer a polinização das plantas do Cerrado. As abelhas nativas do Cerrado, que não tem ferrão e são chamadas de meliponinas – jataí, mandaçaia, uruçu – eram os maiores agentes polinizadores naturais, juntamente com os insetos, em função de sua anatomia. Hoje estão praticamente extintas, como esses insetos, pelo uso de herbicidas e outros tipos de veneno, que combatiam pragas de vegetações exóticas em lavouras e pastagens. Quando se utiliza o pesticida para extinguir essas pragas também se mata o inseto nativo, que é polinizador das plantas do Cerrado. Por isso, se encontram muitas plantas nativas sem fruto, por não terem sido polinizadas.

A flora do Cerrado é geralmente desprezada. O que ela representa, de fato?
Nós vivemos em meio à mais diversificada flora do planeta. O Cerrado contém a maior biodiversidade florística. Isso não está na Amazônia, nem na Mata Atlântica, nem em uma savana africana ou em uma savana australiana. Nem qualquer outro ambiente da Terra. São 12.365 plantas catalogadas no Cerrado. Só as que conhecemos. A cada expedição que fazemos, cada vez que vamos a campo, pelo menos 50 novas espécies são descobertas. Dessas 12.365 plantas conhecidas, somos capazes de multiplicar em viveiro apenas 180. Isso é cerca de 1,5% do total, quase nada em relação a esse universo. E só conseguimos fazer mudas de plantas arbóreas.

Para as demais, que são extremamente importantes para o equilíbrio ecológico, para o sequestro de carbono e para a captação de água, não temos tecnologia para fazer mudas. Por exemplo, o capim-barba-de-bode, a canela-de-ema, a arnica, o tucum-rasteiro, esses dois últimos com raízes extremamente complexas. Se tirarmos um tucum-rasteiro, que está no máximo 40 centímetros acima do nível do solo, e olharmos seu tronco, vamos encontrar milhares ou até milhões de raízes grudados naquele tronco. Se tirarmos um pedaço pequeno dessas raízes e levarmos ao microscópio, veremos centenas de radículas que saem delas. Uma pequena plantinha com um sistema radicular extremamente complexo, que retém a água e alimenta os diversos ambientes do Cerrado. É algo que não se consegue reproduzir em viveiro, porque não há tecnologia. O que conseguimos é em relação a algumas plantas arbóreas.

Outro aspecto que indica que o Cerrado já entrou em vias de extinção é que as plantas do Cerrado são de crescimento muito lento. Uma canela-de-ema atinge a idade adulta com mil anos de idade. O capim-barba-de-bode fica adulto com 600 anos. Um buriti atinge 30 metros de altura com 500 anos. Nossas veredas – que existiam em abundância até pouco tempo – eram compostas de plantas “nenês” quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil, estavam nascendo naquela época e sua planta mais comum, o buriti, está hoje com 25 metros, 30 metros.

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Mas a tecnologia e a biotecnologia não fornecem nenhuma alternativa para mudar esse quadro?
Para se ter ideia da complexidade, vamos tomar o caso do buriti, que só pode ser plantado em uma lama turfosa, cheia de turfa, com muita umidade. Se o solo estiver seco, o buriti não vai vingar ali. Mas, mesmo se conseguíssemos plantar – o que é difícil, porque não existe mais o solo apropriado –, aquele buriti só atingiria a idade adulta e dar frutos depois de muitos séculos. Então, não tem como tentar dizer que se pode usar técnicas para revitalizar o Cerrado. Isso é praticamente impossível.

A interface do Cerrado, para falar em uma linguagem moderna, não é amigável para o uso da tecnologia conhecida. Não tem como acelerar o crescimento de um buriti como se faz com a soja.
Não dá para fazer isso, até porque as plantas do Cerrado convivem com uma porção de outros elementos que, para outras plantas, seriam nocivos. Por exemplo, certos fungos convivem em simbiose com espécies do Cerrado. Um simples fungo pode impedir a biotecnologia. Seria possível desenvolver, por meio de tecidos, tal planta em laboratório. Mas sem aquele fungo a planta não sobrevive. E com o fungo, mas em laboratório, ela também não se desenvolve. Ou seja, é algo extremamente complicado, mais do que podemos imaginar.

Mesmo que os mais pragmáticos menosprezem a importância de um determinado animal ou uma “plantinha” em relação a uma obra portentosa, como uma hidrelétrica, há algo que está sob ameaça com o fim do Cerrado, como a água. Isso é algo básico para todos. A contradição é que o Cerrado – assim como a caatinga e os pampas – não são ainda patrimônio nacional, ao contrário da Mata Atlântica, o Pantanal e a Amazônia. Há uma lei, a PEC 115/95 [proposta de emenda constitucional], de autoria do então deputado Pedro Wilson (PT-GO), que pede essa isonomia há quase 20 anos. Essa lei ajudaria alguma coisa?
Na prática, não poderia ajudar mais em nada, porque o que tinha de ser ocupado do Cerrado já foi. O bioma já chegou em seu limiar máximo de ocupação. Mas o governo brasileiro é tão maquiavélico e inteligente que, para evitar maiores discussões, no ano passado redesenhou todo o mapa ambiental brasileiro. Dessa forma, separou o Pantanal do Cerrado – embora o primeiro seja um subsistema do segundo –, transformou-o em patrimônio nacional e a área do Cerrado já ocupada foi ignorada e incluída no plano de desenvolvimento como área de expansão da fronteira agrícola. Ou seja, o Cerrado, em sua totalidade, já foi contemplado para não ser protegido.

O que os parques nacionais poderiam agregar em uma política de subsistência do Cerrado?
Existe um manejo inadequado dos parques existentes na região do Cerrado. Esse manejo começa com o fogo, quando se cria uma brigada para evitar incêndios no Parque Nacional das Emas, por exemplo. O fogo natural é importante para a preservação do Cerrado. Ora, se se trabalha com o intuito de preservar o Cerrado é preciso conviver com o fogo; agora, se se trabalha com a visão do agrônomo, o fogo é prejudicial, porque acentua o oligotrofismo do solo. O Cerrado precisa desse solo oligotrófico, mas, se o fogo é eliminado, as condições do solo serão alteradas e a planta nativa vai deixar de existir, porque o solo vai adquirir uma melhoria e aquela planta precisa de um solo pobre. Assim, quando se barra o uso do fogo em um parque de Cerrado, o trabalho se dá não com a noção de preservação do ambiente, mas dentro da visão da agricultura. Raciocina-se como agrônomo, não como biólogo.

Outra questão nos parques é que o entorno dos parques já foi tomado por vegetações exóticas. Entre essas vegetações existe o brachiaria, que é uma gramínea extremamente invasora que, à medida que espalha suas sementes, alcança até as áreas dos parques, tomando o lugar das gramíneas nativas. No Parque Nacional das Emas já temos gramínea que não é nativa, o que faz com que haja também vegetação arbórea, de porte maior, também não nativa. Os animais, em função do isolamento do parque, não têm mais contato com áreas naturais, como os barreiros, que forneceriam a eles cálcio e sais naturais. Quando encontramos um osso de animal morto em um parque vemos que está sem calcificação completa, porque falta esse elemento, que é obtido lambendo cinzas queimadas ou visitando os barreiros, que são salinas naturais em que existe esse o elemento. Geralmente há poucos barreiros nos parques, o que torna mais difícil a sobrevivência do animal, que acaba entrando em vias de extinção, o que está acontecendo.

Não há, em nenhum parque nacional criado, aumento da vegetação nativa ou da fauna nativa. O que há é a diminuição dos caracteres nativos daquela vegetação, bem como da fauna. Isso prova que esse isolamento não trouxe benefícios. O que poderia funcionar seria se essas áreas de preservação estivessem interligadas por meio de corredores de migração faunística. Isso evitaria uma série de erros cometidos quando se delimita uma área.

Mas, pelo que o sr. diz, hoje isso seria impossível.
Praticamente impossível, por­que as matas ciliares, que de­ve­riam servir como corredores ecológicos, de migração, foram totalmente degradadas. A maioria dos rios foi ocupada, em suas margens, por ambientes urbanos, com a presença do homem, que é um elemento extremamente predatório. Mais que isso: os sistemas agrícolas implantados chegam, em alguns locais, até a margem de córregos e rios, impedindo, também, a existência desses corredores de migração.

Fica, assim, um cenário praticamente inviável. É triste falar isso , mas, na realidade, falamos baseados em dados científicos, no que observamos. Sou o amante número um do Cerrado. Gostaria que ele existisse durante milhões e milhões de anos ainda, mas infelizmente não é isso que vemos acontecer. Se, por exemplo, você observar as nascentes dos grandes rios, verá que elas ou estão secando ou estão migrando cada vez mais para áreas mais baixas. Quando isso ocorre, é sinal de que o lençol que abastece essa nascente está rebaixando.

Observe, por exemplo, o caso das nascentes do Rio São Francis­co, na Serra da Canastra; o caso das nascentes do Rio Araguaia ou do Rio Tocantins, que tem o Rio Uru em sua cabeceira mais alta. A cada dia que passa as nascentes vão descendo mais. Vai ocorrer o dia em que chegarão ao nível de base do lençol que as abastece e desaparecerão.

Ao mesmo tempo em que o­cor­re esse fenômeno, temos um au­mento rápido do consumo de água.
Há o aumento da população. Mas, além do mais, o Cerrado entrou, nos últimos anos, por um processo extremamente complicado, que chamamos de desterritorialização. O grande capital chegou às áreas do Cerrado e expulsou os posseiros que lá moravam, por meio da falsificação de documentos, da negociata com cartórios e com políticos. Com a grilagem, adquiriu milhares de hectares e tirou os moradores antigos da região. Isso desestruturou comunidades inteiras.

Isso ainda ocorre em Goiás e em diversos lugares?
Ocorreu e está ocorrendo. E o que isso provoca? O aumento das cidades. Quase não há mais cidadezinhas na região do Cerrado, elas são de médio ou grande porte, porque a população do campo, desamparada e sem terra, veio para a zona urbana. Essas pessoas vêm buscar abrigo na cidade, que oferece a eles algum tipo de serviço. Na cidade, se transformam em outro tipo de categoria social: os sem-teto. Estes vivem aqui e ali, ocupando as áreas mais periféricas da cidade. Vão ocupar planícies de inundação, beiras de córregos, entre outros ambientes desorganizados.

Um homem que vive em um ambiente assim, que nasce, é criado e compartilha dessa desorganização, terá uma mente que tende a ser desorganizada. Ou seja, ao fazer a desterritorialização trabalhamos contra a formação de pessoas sadias. Formamos pessoas transtornadas, mutiladas mentalmente, ocupando as periferias. Não existe plano diretor que dê conta de acompanhar o desenvolvimento das áreas urbanas no Brasil, porque a cada dia chegam novas famílias nessas áreas.

Crescendo em um ambiente desorganizado, sem perspectivas para o futuro, essas pessoas acabam caindo em neuroses para a fuga. A neurose mais comum desse tipo é o uso de drogas. Acabam cometendo o que chamamos de atos ilícitos, mas provocados por uma situação socioeconômica de limitação, vivendo em ambientes precários. Essas pessoas constroem sua vida nesses locais, formam famílias e passam anos ou décadas nesses locais. Só que um dia vem um fenômeno natural qualquer – como El Niño ou La Niña – que, por exemplo, acomete aquele local com uma quantidade muito maior de chuva. Então, o córrego enche e encontra, em sua área de inundação, os barracos daquela população. Aí começa a tragédia urbana, com desabrigados e mortos. Aumenta, ainda mais, o processo de sofrimento no qual estão inseridas essas populações.

Hoje vejo muitos profissionais, principalmente arquitetos, falando em mobilidade urbana. Falam em construir monotrilhos, linhas específicas para ônibus, corredores para bicicletas, mas ninguém toca na ferida: o problema não está ali, mas na desestruturação do homem do campo. Quanto mais se desestrutura o campo, mais pessoas vêm para a cidade, que não consegue absorvê-las, por mais que se implantem linhas novas, estações e bicicletários. O problema está no drama do campo, não na cidade.

Antigamente, se usava a expressão “fixação do homem no campo”. Isso parece que ficou para trás na visão dos governos.
Desistiram porque o que manda é o grande capital. Os bancos estatais se alegram com as safras recordes, fazem propaganda disso. Eles patrocinam os grandes proprietários, só que estes não têm grande quantidade de funcionários, têm uma agricultura intensiva, mecanizada. Isso não ajuda de forma alguma a manter as pessoas na zona rural.

Uma notícia grave é a extinção do Cerrado. Outra, tão ou mais grave, que – pelo que o sr. diz – já pode ser dada, é que em pouco tempo não teremos mais água. A crise da água no Brasil é uma bomba-relógio?
A extinção do Cerrado envolve também a extinção dos grandes mananciais de água do Brasil, porque as grandes bacias hidrográficas “brotam” do Cerrado. O Rio São Francisco é uma consequência do Cerrado: ele nasce em área de Cerrado e é alimentado, em sua margem esquerda, por afluentes do Cerrado: Rio Preto, que nasce em Formosa (GO); Rio Paracatu (MG); Rio Carinhanha, no Oeste da Bahia; Rio Formoso, que nasce no Jalapão (TO) e corre para o São Francisco. Se há a degradação do Cerrado, não há rios para alimentar o São Francisco. Você po­de contar no mínimo dez afluentes por ano desses grandes rios que estão desaparecendo.

Como o sr. analisa a transposição do Rio São Francisco?
É um ato muito mais político do que científico. Ela atende muito mais a interesses políticos de grandes proprietários do Nordeste na área da Caatinga, no sertão nordestino. A transposição está sendo feita em dois canais, um norte, com 750 quilômetros e outro, leste, com pouco mais de 600 quilômetros. A água é sugada da barragem de Sobradinho (BA), através de uma bomba, para abastecer esses canais, com 10 metros de profundidade e largura de 25 metros. Ao fazer essa obra, se altera toda a mecânica do São Francisco: o rio, que corria lento, passa a correr mais rapidamente, porque está tendo sua água sugada. Seus afluentes, então, também passam a seguir mais velozes. Isso acelera o processo de assoreamento e de erosão.

Consequente­mente, aceleram a morte dos afluentes. Fazer a transposição do São Francisco simplesmente é estabelecer uma data para a morte do rio, para seu desaparecimento total. Podem até atender interesses econômicos e sociais de maneira efêmera, em curto prazo, mas em dez anos acabou tudo.

E será um processo rápido, assim?
Sim, é um processo de décadas. Basta ver o Rio Meia Ponte, na altura do Setor Jaó. Onde havia uma bonita cachoeira, na antiga barragem, há só um filete d’água. O nível da água do Meia Ponte é o mesmo do Córrego Botafogo há décadas atrás. Este praticamente não existe mais, a não ser por uma nascente muito rica no Jardim Botânico, que ainda o alimenta. Mas ele só parece mesmo exis­tir quando as chuvas o en­chem rapidamente. Mas, no outro dia, ele vira novamente um filete.

Goiânia foi planejada em função também dos cursos d’água. Tendo em vista o que ocorre hoje, podemos dizer que ela é, então, o cenário de uma tragédia hidrográfica?
Eu não diria que apenas Goiânia está realmente dessa forma. Mas foi toda uma política de ocupação do centro e do interior do Brasil que motivou essa ocupação desordenada, desde a época da Fundação Brasil Central, da Expedição Roncador–Xingu, depois a construção de Goiânia e de Brasília, a divisão de Mato Grosso e a criação do Tocan­tins. Isso é fruto do capital dinâmico que transforma a realidade. Vem uma urbanização rápida de áreas de campo, aumentando as ilhas de calor e, consequentemente, pela pavimentação, impedindo que as águas das chuvas se infiltrem para alimentar os mananciais que deram origem a essas mesmas cidades. Se continuar dessa forma, com esse tipo de desordenamento, podemos prever grandes colapsos sociais e econômicos no Centro-Oeste do Brasil. E não só aqui, mas nas áreas que aqui brotam.

O que significa quase toda a área do Brasil, não?
Sim, até mesmo a Amazônia. O Rio Amazonas é alimentado por três vetores: as águas da Cordilheira dos Andes, que é um sistema de abastecimento extremamente irregular; as águas de sua margem esquerda, principalmente do Solimões, que também é irregular, em que duas estiagens longas podem expor o assoreamento, ilhas de areias – ali foi um deserto até bem pouco tempo, chamado Deserto de Óbidos. Ou seja, o Amazonas é alimentado mesmo pelos rios que nascem no Cerrado, como Teles Pires (São Manuel), Xingu, Tapajós, Madeira, Araguaia, Tocantins. Estes caem quase na foz do Amazonas, mas contribuem com grande parte de seu volume. Ou seja, temos o São Francisco, já drasticamente afetado; o Amazonas, também afetado; e a Bacia do Paraná, afetada quase da mesma forma que o São Francisco, provavelmente com período de vida muito curto.

Será um processo tão rápido assim?
Uma vez que se inicia tal processo de degradação e de diminuição drástica do nível dos lençóis, isso é irreversível. Em alguns casos duram algumas décadas; em outros, até menos do que isso. Temos exemplos clássicos no mundo de transposições de rios que não deram certo e até secaram mares inteiros. No Mar de Aral, no Leste Europeu, há navios ancorados em sal. Sua drenagem é endorreica, fechada, sem saída para o oceano. A União Soviética, na ânsia de se tornar autossuficiente na produção de algodão, fez a transposição dos dois rios que abasteciam o mar. Resultado: no prazo de uma década, as plantações não vingaram, o mar secou e uma grande quantidade de tempestades de poeira e sal afetam 30 milhões de pessoas, causando doenças respiratórias graves, incluindo o câncer.

Com nossos rios, acontecerá o mesmo processo. A diferença é que o processo de ocupação aqui foi relativamente recente, a partir dos anos 1970. São 40 e poucos anos. Ou seja: em menos de meio século, se devastou um bioma inteiro. Não acabou totalmente porque ainda há um pouco de água. Mas, quando isso acabar, imagine as convulsões sociais que ocorrerão. Enquanto se está na fartura, você é capaz de repartir um copo d’água com o irmão; mas, no dia da penúria, ninguém repartirá. Isso faz parte da natureza do ser humano, que é essencialmente egoísta. Isso está no princípio da evolução da humanidade. A Igreja Católica chama isso de “pecado original”, mas nada mais é do que o egoísmo, apossar-se de determinados bens e impedir que outros usufruam deles. Isso já levou outros povos e raças à extinção. E pode nos levar também à extinção.

Até bem pouco tempo tínhamos duas humanidades: o homem-de-neanderthal, o Homo sapiens neanderthalensis; e o Homo sapiens sapiens. Hoje podemos falar também em duas humanidades: uma humanidade subdesenvolvida, tentando soerguer em meio a um lodo movediço; e outra humanidade, que nada na opulência. A questão é que, se essa situação persistir, brevemente teremos a pós e a sub-humanidade.

É um cenário doloroso.
É doloroso, mas são os dados que a ciência mostra. Tem jeito, tem perspectiva para um futuro melhor? Possivelmente, a saída esteja na pesquisa. Mas uma pesquisa precisa de um longo tempo para que apareçam resultados positivos. E nossas universidades não incentivam a pesquisa, o que é muito triste, porque essa é a essência de uma universidade.

O sr. vê, em algum lugar do mundo, trabalhos e pesquisas pensando em um mundo mais sustentável?
Não. O que existe é muito localizado e incipiente. Não tem grande repercussão. Mas, mesmo se fossem proveitosas, jamais poderiam ser aplicadas ao Cer­rado, que é um ambiente muito peculiar. Teria de haver pesquisa dirigida especialmente para nosso bioma. Como recuperar uma nascente de Cerrado? Eu não sei dizer. Um engenheiro ambiental também não lhe dará resposta. Nenhum cientista brasileiro sabe a resposta, porque não temos pesquisas sobre isso. Talvez poderíamos ter um futuro melhor se houvesse investimentos em pesquisa.

E a educação ocupa que papel nesse contexto sombrio?
Nós, como educadores, deveríamos pensar mais nisso – e eu penso: talvez ainda seja tempo de salvar o que ainda resta, mas se não dermos uma guinada muito violenta não terá como fazer mais nada. É preciso haver real mudança de hábitos e mudar a forma de observar os bens patrimoniais do planeta e da nossa região. A água tinha de ser uma questão de segurança nacional. A vegetação nativa, da mesma forma. Os bens naturais teriam de ser tratados assim também, porque deles depende o bem-estar das futuras gerações. Mas isso só se consegue com investimento muito alto em educação, mudando mentalidade de educadores. As escolas têm de trabalhar a consciência e não apenas o conhecimento. Uma coisa é conhecer o problema; outra, é ter consciência do problema. A consciência exige um passo a mais. Exige atitude revolucionária e radical. Ou mudamos radicalmente ou plantaremos um futuro cada vez pior para as gerações que virão.

trocando-a por outro tipo, alterou-se o ambiente. Ocorre que essa vegetação introduzida – por exemplo, a soja ou o al­go­dão ou qualquer outro tipo de cul­tura para a produção de grãos – tem uma raiz extremamente superficial. Então, quando as chuvas caem, a água não infiltra como deveria. Com o passar dos tempos, o nível dos lençóis vai diminuindo, afetando o nível dos aquíferos, que fica menor a cada ano.

Fonte: Jornal Opção, disponível em http://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-cerrado-esta-extinto-e-isso-leva-ao-fim-dos-rios-e-dos-reservatorios-de-agua-16970/