PARIS E O SENA

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Mayor Anne Hidalgo has announced an “almost philosophical project” to take the famed river’s quayside back from cars.

Image Luxigon
Rendering of a proposed Seine quayside park space. (Luxigon)

Paris seems to be getting less and less motorist-friendly by the day. Following a set of promises to slash diesel usage, extend lower speed limits and bar polluting cars from the city core, Mayor Anne Hidalgo this week announced a plan to thoroughly reclaim the quayside on the right bank of the River Seine for pedestrians. With cars already banished from a long strip of the Left Bank, the Seine in central Paris will as of summer 2016 be entirely encased within two lush, motor-free parkland buffers. Sounding more French than ever, Hidalgodescribed the plan as “an urban, almost philosophical project, which consists of seeing the city in another way than through the use of cars.”

This is about far more than making things tough for drivers, however. The space freed up from redirecting cars will be broad enough to create a wide promenade, shaded by trees and with space for children’s playgrounds and sports facilities. Covering up to 3.3 km kilometers in total*, this green border will create up to 1.4 acres of new parkland while simultaneously reducing pollution. Judging by the renderings available, it’s going to look and feel delightful. The plan will also correct one of the worst planning mistakes Paris made in the 20th century (more of which later) and, perhaps best of all, probably cost no more than €8 million ($9 million).

Exactly how long the new quayside park will extend is still up for grabs until a public consultation this June decides on one of two plans. One plan covers a modest 1.5 kilometers, pedestrianizing the stretch between the eastern end of the Ile St. Louis and the western tip of the Ile de la Cité. The other is far larger, creating an additional 3.3 seamless kilometers of car-free quayside from the Pont de l’Arsenal (due South of the Bastille) up to where the riverside road plunges into a tunnel at the Tuileries Gardens, where the quay is already for walkers and cyclists only.

Sections of the lower quays of the Seine will be transformed into pedestrian promenades. (Luxigon)

That this is possible without snarling Paris traffic terribly is due to the Seine’s distinctive double-tiered embankment. The Seine actually has two separate lines of quayside. One stands above the river at street level and the other is right down on the water, sunk below high walls that separate it from the rest of the city. These two levels created a split personality for the river as it was steadily formed by embankment from the 17th century onwards. While the upper level became an attractive, salubrious promenade populated by strollers and booksellers’ stalls, the lower bank remained a commercial affair where barges offloaded their cargo.

This changed in the 1960s when, pursuing what was then considered good policy, Parisian planners started looking for new ways to speed cars into the city center. The existence of the un-built lower quays must have seemed miraculous back then—Paris could find space for four new traffic lanes without even having to demolish a single building. Certainly, converting them into roads was a lot less destructive than what took place in other cities, so often a slash and burn carving of new motor lanes into the historic fabric. At least the roaring noise the new mini-highways created was muted by being sunk down below embankment walls, while some stretches were actually encased in tunnels. Nonetheless, something was unquestionably lost. Beyond far dirtier air for central Paris, people seeking out the city’s sense of romance found themselves looking down from ancient bridges onto a screeching speedway.

Rendering of a future recreation-focused Seine quayside. (Luxigon)

The long overdue turnaround began in earnest just after the millennium. In 2002, Paris started closing down sections of the quayside to create a temporary summer beach, complete with real sand and sun loungers. Now spread to three sites along the river, the Paris Plages scheme hasn’t just shown how delightful the riverside can be, it has proved that the city could divert motor traffic without kick-starting Armageddon. Taking note, the city barred cars permanently from a long stretch of the Left Bank in 2013 to create a waterside park. The results of this plan are already impressive: 4 million visitors in its first 18 months and a 15 percent reduction in local nitrous oxide pollution.

While this sounds great, opponents point out an obvious pitfall. Closing down motorist routes doesn’t automatically reduce pollution—it can also just displace or intensify it in other places. So what will Paris do if cars banned from the quayside start to clog up other roads even more?  Hidalgo is promising an as yet un-clarified improved public transit offer to help mop things up, but overall she suggests that the best new alternative location for cars may be the scrap yard. Discussing plans for future traffic flow, she had this to say:

“All this is part of a comprehensive policy in which we assume very deliberately that there will be fewer cars in Paris. Therefore in calculating the flow of spillover traffic I don’t project myself into a world where there are as many cars as today. Objectively that will no longer be the case.”

“Praia democrática é mito”

Assim que se mudou para o Rio, em 2004, e começou a frequentar as praias cariocas, a antropóloga paulistana Julia O’Donnel se surpreendeu com uma pergunta que ouvia com frequência: Em que posto da praia você vai?

Para ela, a escolha dependia tão somente do fato de haver espaço livre ou das condições do mar em determinado trecho de areia. Começou a se interessar pelo tema, conversar com as pessoas, e tentar entender por que a praia, apesar de ser um trecho restrito, é tão dividida entre si. Levou a curiosidade para o doutorado que faria na UFRJ e a tese virou o livro “A invenção de Copacabana: culturas urbanas e estilos de vida no Rio de Janeiro”, lançado em abril pela editora Zahar. O trabalho analisa o projeto de civilidade que se construiu na orla a partir de sua ocupação pelos cariocas, entre os anos de 1890 e 1940 — e a maneira pela qual a elite, a primeira a tomar as praias para si, na virada do século XX, adotou um discurso de exclusividade em relação ao espaço. Nas últimas semanas, ao ler notícias e comentários nas redes sociais sobre a nova onda de assaltos que ocorreu em dias de praias lotadas, provocando uma reação da polícia — que anunciou delegacias móveis nas areias, reforço de policiamento e até a polêmica medida de revistar ônibus vindos da Zona Norte durante o verão —, Julia notou um eco do mesmo discurso de “faxina social” que encontrara no início do século para sua pesquisa. Um discurso que põe em xeque o mito da praia como um espaço totalmente democrático, como defende ela. Moradora de São Conrado, mas frequentadora do Leme por causa da língua negra que há décadas afeta a qualidade da praia, a pesquisadora e professora de Antropologia Social da Fundação Getúlio Vargas conversou com a Revista O GLOBO sobre a praia que encontrou como um objeto de estudo.

Como se deu a apropriação das praias pela população?

Na virada do século XIX para o XX, só se ia à praia por razões medicinais, ninguém ia à praia por prazer. Foi na Europa e nos Estados Unidos que começou a se disseminar o hábito de usar a praia como lazer, mas isso não chegava ao Brasil. As revistas elegantes da época, como a “Revista da Semana”, faziam verdadeiras campanhas para convencer a população carioca a usar as praias. No mundo inteiro, diziam que quem era civilizado ia à praia, que era elegante ir à praia. Chamo essa campanha na minha tese de “projeto praiano-civilizatório”, em que a praia deveria ser ocupada, sim, mas dentro de um modelo de “elegância e civilização”, como eles diziam. Essa campanha começa a surtir efeito a partir da década de 1920. As praias começam a encher, e isso acompanha o boom demográfico de Copacabana, a partir da década de 1940, quando o bairro começou a ser associado à nova elite do Rio. Esse primeiro momento de ocupação da praia, portanto, não é democrático. A praia era um espaço exclusivo das elites. Nem ônibus entrava ali ainda.

Quando a praia se tornou mais democrática?

No final da década de 1920, começam a chegar a Copacabana as “taiobas”, que eram os bondes de segunda classe que permitiam que os trabalhadores usassem trajes de banho. Mas, dentro da lógica das elites, começou a incomodar. O que estava acontecendo? A elite havia propagandeado um estilo de vida praiano, que não era só usar a praia, claro, mas era também ter um corpo moldado, bronzeado, elegante. A Coco Chanel apareceu nas revistas bronzeada e isso virou moda. E agora todos tinham de lidar com as praias lotadas de trabalhadores. De tanto alardear a campanha, o desejo de ter acesso ao mundo elegante à beira-mar passa também a ser a vontade de diferentes camadas sociais. E aí, no início da década de 1930, começam a aparecer textos muitíssimo inflamados nos jornais reclamando dessa suposta “invasão”.

É no início da década de 1930 que a elite começa a recobrar a tal “exclusividade”?

Sim. Começam a se referir às pessoas até como “animais”. (Lê um trecho do jornal “Beira-Mar”, de 1929, que usa em sua pesquisa: “esse referver de criaturas, bem ou mal vestidas, limpas ou sujas, de todas as cores ou nacionalidades afeia os balneários, que se assemelham a praias habitadas de focas, não a praias vaidosamente chamadas de elegantes”, ou: “Não somos dos que entendem fazer de Copacabana um lugar exclusivo dos ricos e dos estetas, o que defendemos é a ordem e a beleza social das nossas praias. Sejamos progressistas, mas separando o joio do trigo”). É a ideia de que a democracia não é compatível com a elegância.

Antropóloga Julia O’Donnell na praia de Copacabana

A praia é um território democrático?

O acesso à praia é democrático, mas a gestão do espaço não é. Essa tentativa recorrente de controlar o que pode e o que não pode, desde o primeiro “choque de ordem”, em 1917, e que regulava o tamanho dos maiôs ou o horário permitido para tomar banho, é uma tentativa de moralização da praia usando a polícia como agente. É interessante: ao mesmo tempo em que a praia é vendida como um espaço democrático, há uma gestão moral sobre esta aparente democracia, que marca nossa estrutura social, que é profundamente estratificada.

O conceito de praia democrática, então, é um mito?

Sim. É um mito. Um exemplo é a chegada do metrô ao Arpoador, que provocou aquela chiadeira da população, dizendo que ia virar “lugar de favelado”. E isso gerou, de fato, um deslocamento: há uma população segmentada na praia que é majoritariamente negra. O que no nosso país quer dizer majoritariamente pobre, por nossas peculiaridades históricas. Não existe a mistura. Se um grupo de meninos negros chega ao Posto 10 e começa a fazer uma festa, no dia seguinte as pessoas vão se mudar para o Posto 11. É fato.

Há alguma mudança no discurso do início do século para cá?

Nenhuma. É muito este discurso, ainda, do “nós” e “eles”. Um sintoma desse incômodo foi o surgimento de uma praia “exclusiva” no ano passado. Outro exemplo: moro em São Conrado e me espantei com a mobilização dos moradores do bairro contra um conjunto habitacional que seria construído perto da Rocinha, alegando “que ia desvalorizar o bairro”. Ora, a Rocinha está lá muito antes desses moradores de São Conrado, e o discurso é o mesmo que encontro nos jornais do início do século passado, uma fala de faxina, de xenofobia. Parte de um pressuposto que o bairro tem donos e que eles é que decidem o que pode ou não ser construído ali. E ainda há essa ideia de que pobres desvalorizam o bairro. Por isso essa divisão de turmas em postos me chamou a atenção quando cheguei. A praia é um ambiente juridicamente democrático, mas não como prática social. Acho muito perigosa essa mistificação da praia como ambiente de harmonia social.

Há diferença dos primeiros “choques de ordem” para o controle atual?

A presença da polícia nas praias também é uma questão interessante. É uma longa relação da praia carioca com a polícia. A notícia de que vão revistar ônibus vindos da Zona Norte, por exemplo, caberia perfeitamente nos jornais que pesquisei em 1922. É a “taioba”. Os suburbanos podem ir à praia? Podem, mas são malvistos, maltratados. Tem esse primeiro “choque de ordem”, de 1917, que era mais de controle dos costumes, mas já gerava prisão. Depois, há algumas tentativas de moralização, com Getúlio Vargas, e a presença ostensiva da polícia na orla a partir dos anos 90, com os arrastões, até o choque de ordem mais recente, regulando as barracas, o queijo coalho, o frescobol.

O que mais chamou sua atenção nessa última onda de assaltos, que provocou imagens assustadoras de revolta dos frequentadores?

É claro que a violência tem de ser reprimida, evidente, não é para haver assaltos na praia, mas não dá para comparar com os arrastões dos anos 90. Me assustou a naturalização do preconceito nas redes sociais, como a fala de que “é um absurdo ter ônibus para o Alemão de 15 em 15 minutos”. Um pânico de perder a exclusividade da praia. E é interessante que isso aconteça justamente num momento em que há todo um discurso de retomada da cidade pelas UPPs. O problema é o uso moral do discurso que se faz em torno desses acontecimentos. Não é “vamos investigar o que provocou o episódio”, mas reprimir impedindo que determinadas pessoas tenham acesso. Esse episódio mobilizou discursos, atitudes e medos que estão na praia todos os dias, só não são ditos.

Fonte: Jornal O Globo, disponível em http://oglobo.globo.com/rio/praia-democratica-mito-diz-antropologa-10919421#ixzz3Oo5KV8HE