O São Francisco em mudança de curso

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Os indígenas costumavam chamar o Rio São Francisco de “Opará”, que significa “rio-mar”. Após a chegada dos portugueses ao Brasil, no entanto, ele ganhou o nome do santo italiano. Com o tempo, o curso de água, que é um dos três maiores do país, popularizou-se com a benção de seus ribeirinhos no sertão sob a alcunha de “Velho Chico”. O rio nasce em Minas Gerais, na Serra da Canastra, na cidade de São Roque de Minas. De lá, percorre longo caminho até desembocar na foz do Oceano Atlântico, na divisa entre Alagoas e Sergipe. Em seu curso pelo Nordeste brasileiro, o rio cruza toda a Bahia e o norte de Pernambuco. O caminho de pouco mais de 2.800 quilômetros é margeado por diversas comunidades sertanejas, que há seis anos convivem com uma seca histórica, a maior dos últimos cem anos. Seus diversos afluentes não são tão perenes e sofrem ainda mais com a falta de chuvas.

As secas, que abatiam a região já no século 19 e impediam que os pequenos ribeirões e afluentes do São Francisco fossem perenes, motivaram o governo imperial de Dom Pedro II a pensar na transposição das águas do rio para áreas do sertão nordestino e, inclusive, integrá-las ao Rio Tocantins, que cruza os estados de Goiás, Tocantins, Maranhão e Pará. Em 1847, Marcos Antônio de Macedo, o intendente da comarca do Crato, no Ceará, elaborou o primeiro projeto para transpor as águas do rio para o castigado sertão cearense. Saindo de Cabrobó, no interior pernambucano, as águas chegariam ao Rio Jaguaribe, já no estado vizinho. A ideia percorreu a história brasileira, estacionando em problemas de infraestrutura e falta de vontade política para uma obra que, desde o princípio, prometia ser grandiosa. Presidentes como Epitácio Pessoa, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso negaram-se a topar o desafio. Foi somente em 2003, na primeira gestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que a obra ganhou corpo, sob a tutela do então ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. “A ideia da obra [é do tempo do Império] sim e é até uma obviedade, porque você tem, no Nordeste Setentrional, essa grande esquina do Brasil, você tem dois rios perenes, o São Francisco e outro é o Parnaíba – de uma vazão muito medíocre”, explica Ciro Gomes, em entrevista ao Brasil de Fato.

O ex-governador do Ceará (1991-1994) conta que já carregava a ideia da transposição desde o início da sua vida pública. “Eu era deputado estadual, fui prefeito, fui governador, e eu sempre trago essa agenda, meio que como o sentido da minha militância”. O projeto, segundo Ciro Gomes, foi feito em apenas um dia. “A concepção toda veio muito rápido”, conta. “A gente percebeu que não eram necessárias ideias malucas de transpor 300 m³, 500 m³. Nós percebemos que, com sazonalidade e gestão, o máximo de vazão deveria ser de 76 m³ por segundo. Aí o projeto ficou muito viável. Sob o ponto de vista do custo também”. No entanto, foi a obstinação do ex-presidente que tornou o projeto realmente viável, revela Gomes. “Quando o Lula me chamou para ser ministro, eu não estava querendo, ele disse: ‘Olha, eu quero que você venha, porque nós vamos fazer a transposição do São Francisco. Se você topar, eu faço esse projeto agora’”, relembra. Para o povo nordestino, principalmente o sertanejo, Lula é o “pai da obra”. Segundo os moradores, a origem do ex-presidente – natural de Garanhuns, no interior de Pernambuco – foi o estímulo para que ele se empenhasse pessoalmente no projeto da transposição. Anos depois, em março de 2017, Lula foi à cidade de Monteiro, no interior paraibano – destino final dos 270 quilômetros do Eixo Leste do projeto de transposição – acompanhado da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), para a “Inauguração Popular da Transposição do São Francisco”. O evento foi um contraponto à visita do presidente golpista Michel Temer (PMDB), que, nove dias antes, esteve na mesma Monteiro, em função da obra.

No evento popular, Lula lembrou que, sua infância, no sertão de Pernambuco, foi decisiva para que a iniciativa fosse levada a cabo. “Eu não pensei nessa obra porque eu sou letrado. Eu pensei porque, quando eu tinha sete anos de idade, eu já carregava lata de água na cabeça. Eu sei o que o povo sofre sem água”, discursou na ocasião o ex-presidente a 50 mil pessoas, que acompanharam o lançamento na pacata cidade paraibana. Políticos e moradores presentes no grandioso ato decretavam Lula como o idealizador, o “pai” do projeto. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ), em entrevista ao Brasil de Fato, apontou que “Lula levou muita água na cabeça, sabe o que é a seca. O povo sabe que foi Lula quem colocou essa obra no papel. Chega a ser ridícula essa posição do Temer”.

A “paternidade” da transposição vinha sendo discutida dias antes, a partir de uma postagem nas redes sociais feita pelo ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência de Temer, Moreira Franco, afirmando que a ex-presidenta “Dilma não conseguiu entregar as obras” em seis anos, enquanto o governo Temer entregou em “seis meses”. Para a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), o evento daquele domingo, 18 de março deste ano, mostrou para o país, “que quem é o verdadeiro pai da obra é o Lula. Aliás, as pessoas vieram aqui, chorando, emocionadas, para dizer isso”, defendeu. “Muita gente veio falar comigo, dizendo: ‘Eles tentam enganar a gente, mas a gente sabe que quem fez essa obra foi o Lula’”, destacou na ocasião.

O cearense Junior Coutinho, 43 anos, que trabalha em uma ONG no estado vizinho, veio até a Paraíba só para acompanhar o evento com Dilma e Lula. “A transposição das águas do Velho Chico traz esperança e alento para todos nós, nordestinos. Se Deus quiser, cada vez mais, o Brasil vai reconhecer o trabalho desse grande nordestino [Lula] para o Nordeste e para o Brasil”, destacou. Pedro Limeira, paraibano de 46 anos, servidor público, afirmou durante o lançamento popular que “se existe um pai para essa obra, é Lula. A Dilma deu continuidade e o Temer apenas inaugurou”, avaliou. “A figura do Lula é uma figura emblemática, e não é de hoje. O Temer é que é o estranho no ninho”, completou o servidor.

FOCOS DE RESISTÊNCIA

Nem tudo são flores diante da transposição. Devido a suas consequências, a obra enfrentou resistência desde governadores que não se sentiram contemplados até de comitês de bacias hidrográficas e de movimentos populares, preocupados com os impactos da obra. Um dos principais opositores da iniciativa foi o bispo Luiz Flávio Cappio, do município de Barra, na Bahia, que fez até greve de fome contra o projeto. O Supremo Tribunal Federal (STF) também emitiu decisões desfavoráveis à obra e, de novembro de 2005 até dezembro de 2006, os trabalhos foram interrompidos algumas vezes. As ações questionavam o licenciamento ambiental do projeto, que, à época, ainda aguardava parecer do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama). Um dos maiores focos de resistência contra o projeto se concentrou no estado baiano. A promotora de Justiça Luciana Khoury, do Ministério Público da Bahia, é uma das figuras que questionaram as violações causadas na Bacia do São Francisco e que conseguiu paralisar a obra junto ao STF. “Nós conseguimos liminares nos dois processos e conseguimos suspender a obra durante dois anos”, lembra. Para a promotora, a transposição é um “empreendimento potencialmente causador de danos”. “[A obra] não podia deixar de ser verificada, acompanhada. Na época, a gente teve uma atuação muito integrada com os ministérios públicos de outros estados e também com o Ministério Público Federal. Com isso, nós fizemos um trabalho muito parceiro de conhecimento da proposta do projeto e identificação de irregularidades das normas; [avaliamos] se ele cumpria de fato com as etapas previstas pelas normas, do ponto de vista ambiental, e das normas de recursos hídricos”, explica a promotora. O grupo que a acompanhava teve acesso aos Estudos de Impacto Ambiental (EIAs), notas técnicas de setores do Ministério Público Federal (MPF) sobre povos e comunidades tradicionais, além de pareceres de universidades, que mostravam possíveis lacunas do projeto no meio físico e no meio socioeconômico.“O projeto previa uma quantidade de pessoas impactadas, de comunidades impactadas, muito menor do que de fato aconteceu. Além de não ter feito estudos, por exemplo, dos impactos da fauna do rio, postergando estudos para a fase de implantação do projeto”, acrescenta Khoury.

Um dos grupos que atuou com a promotora contra os impactos da obra no rio foi o Comitê da Bacia do Rio São Francisco, que participa do Conselho Gestor da Transposição e é presidido por Anivaldo de Miranda. Segundo ele, a entidade perdeu “uma batalha”, pois “as discussões foram atropeladas nos comitês de recursos hídricos; aprovada pelo conselho nacional, de acordo com a confecção que o governo impôs”. Ainda de acordo com Miranda, “a obra deveria ser mais simples”. “O Comitê não fez sugestão, mas seria possível utilizar adutoras, principalmente para regiões críticas como Campina Grande [na Paraíba]. O comitê era favorável a soluções mais rápidas. Já existe um acúmulo de conhecimento, como as cisternas, as barragens subterrâneas”, completa o presidente do Comitê.

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Arte: Karina Ramos

Outras organizações, como o Movimento dos Atingidos por Barragem (MAB), também criticaram o projeto. Em uma nota divulgada após a inauguração do Eixo Leste da obra, o movimento afirma “que não é o tipo de tecnologia para geração de energia ou captação de água que determina se elas são alternativas ou sustentáveis. O que determina, de fato, é ‘pra quê’ e ‘pra quem’ estas obras são construídas. Quem serão os beneficiados: o povo ou meramente as empresas do capital privado?”. Segundo o MAB, “no interior de sua concepção, como toda grande obra do capital, predomina o abastecimento ao agronegócio e às grandes indústrias localizadas nas regiões dos ‘portos’”. A organização lembra ainda que o empreendimento “desalojou milhares de famílias e violou os direitos humanos de centenas de comunidades, incluindo indígenas e quilombolas”. Outras preocupações que também permeiam as discussões dos críticos à obra são sobre a qualidade da água do Rio São Francisco, a manutenção da mata ciliar e uma série de programas que impediriam o lançamento de esgoto in natura, ou seja, sem tratamento, em diversos pontos do “Velho Chico”.

Arte: Karina Ramos

Segundo o Ministério da Integração, cerca de 38 Programas Básicos Ambientais foram empreendidos para minimizar os impactos da implantação das obras e potencializar os seus benefícios. Um deles, diz hoje a pasta, é o de Conservação de Fauna e Flora, “que fez parte do processo de licenciamento do empreendimento”. O programa seria responsável por monitorar e resgatar a biodiversidade vegetal e animal da região da Caatinga, mitigando os impactos negativos da obra.
Sobre a polêmica, Ciro Gomes avalia que “há uma confusão brutal” nas críticas feitas ao projeto de transposição do São Francisco. “Você não pode atribuir à transposição qualquer tipo de responsabilidade pelo problema do rio. O rio está assoreado, o rio está poluído, o rio está com as matas ciliares todas destruídas, sem que a transposição existisse”, defende. O ex-ministro afirma que a “transposição é o projeto de maior compensação ambiental da história do Brasil”. Movimentos populares e o Comitê de Bacia do rio São Francisco, contudo, apontam que os recursos para as obras de compensação estão paralisados e que alguns estados cortados pelo “Velho Chico”, como a Bahia, não dispõem de viabilidade financeira para tocar as obras. O Ministério da Integração explica, por sua vez, que o Programa de Recuperação de Áreas Degradadas “gerou modificações na área do entorno do canal e esses locais já estão contando com ações de recuperação”, que incluem plantações de mudas nativas da região”. A pasta promete ainda que “os demais trechos subsequentes do projeto serão recuperados de acordo com a finalização das obras”.

Parque Augusta: mais um ato na luta pelas cidades

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No dia 18 de abril de 2017, no Palácio da Justiça, ocorrerá a 4° audiência pública de conciliação sobre o Parque Augusta, em São Paulo. É uma nova tentativa entre os diferentes atores dessa disputa (movimentos, população, prefeitura e empresas) de chegar a um consenso sobre o destino da última área verde do centro metropolitano de São Paulo.

Essa audiência é parte da Ação Civil Pública aberta pelo Ministério Público (MP) de São Paulo onde é exigida a devolução da área verde para a cidade de São Paulo e a cobrança de R$ 500 milhões em multas das empresas Setin e Cyrela, pelo fechamento ilegal do parque para a população.

O desejo popular é que a juíza que analisa hoje a ação, Maria Gabriella Pavlópoulos Spaolonzi, condene as empresas Setin e Cyrela a devolverem o Parque Augusta e a pagarem a indenização milionária para a cidade.

Essa indenização, caso aplicada, será destinada à desapropriação das outras áreas verdes de São Paulo ameaçadas pelo mercado imobiliário. Em um momento muito oportuno, em que a Secretária do Verde e do Meio Ambiente – hoje sob o comando de Gilberto Natalini do Partido Verde – afirma não ter dinheiro disponível para cuidar dos parques existentes e muito menos, adquirir novos.

Há 40 anos, o Parque Augusta  é protegido pela população contra o assédio das construtoras e prefeitos. Nos últimos anos, tornou-se um símbolo contra a especulação imobiliária em São Paulo e contra a aliança promíscua entre Prefeitura e construtoras na exploração da coisa pública e nas práticas ilícitas de mercantilização da cidade, através da aprovação e construção de empreendimentos ilegais.

Esta será a primeira ação direta do atual prefeito, João Dória, com poder de influenciar no destino do Parque Augusta. Dória já afirmou que não pretende usar recursos da prefeitura para criar o espaço público. Porém, pesam a favor do parque a ação do MP e um acordo de repatriação de recursos fechado na gestão Fernando Haddad. Ele estabelece que R$ 25 milhões repatriados devem ser destinados, prioritariamente, para aquisição do parque. Já as relações de João Dória com as das construtoras Setin e Cyrela são conhecidas. Além de ter recebido recursos dos proprietários das construtoras, em sua campanha, o atual prefeito firmou com a Cyrela contrato para a reforma dos banheiros do Parque Ibirapuera.

Degradação da natureza e agravamento da pobreza são frutos do sistema de produção, de consumo e de especulação que impera

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Biomas brasileiros e a defesa da vida é o tema da Campanha da Fraternidade (CF) deste ano. Não é a primeira vez que a dimensão socioambiental da vida é abordada, lembra o filósofo e cientista social Ivo Poletto. Em 2007, a temática foi Fraternidade e Amazônia; em 2011, a temática enfrentou as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Poletto lembra que na primeira Campanha não foi fácil mobilizar as pessoas em favor da Amazônia, pois era vista como uma realidade distante. “Foi neste ano, com certeza, que nasceu a reivindicação em favor de uma CF que encarasse a realidade de todos os biomas do país”, avalia.

Poletto considera que a escolha do tema de 2017 se relaciona “com o avanço da consciência de muitos cristãos/ãs e, de modo especial, os animados pelas pastorais sociais, pela Cáritas e pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social”. Isso decorre do fato de que “todos os biomas estão sendo afetados por ações humanas e precisam, por isso, de uma atenção cuidadosa e de práticas que ajudem a Terra a recuperar as suas características originais”. Há outro motivo, que é “o insistente convite do papa Francisco a todas as pessoas – de modo especial na sua encíclica LaudatoSi’ – sobre o cuidado da casa comum – para que se deem conta de como a vida está ameaçada no planeta Terra e de como é urgente a mudança estrutural do sistema econômico dominante e do estilo de vida dos que estão envolvidos no produtivismo e no consumismo”.

O tema não é fácil de tratar, reconhece Poletto. “Na maior parte das vezes, a visão eclesial esteve centrada no ser humano, no seu direito a um ambiente saudável. Tem sido difícil superar o antropocentrismo, justificado até mesmo por leituras do Gênesis, em que a narrativa da Criação afirmaria o ser humano como centro, como destinatário de tudo que Deus fez”, afirma. “Não é correto dizer que a humanidade enfrenta duas crises, a social e a ambiental. Só há uma crise, de caráter socioambiental. Tanto a degradação da natureza quanto o agravamento da pobreza são frutos do sistema de produção, de consumo e de especulação que domina a terra e as pessoas.”

Ivo Poletto é filósofo e cientista social. Trabalha atualmente como assessor educacional no Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, que articula movimentos, entidades e pastorais sociais em torno da defesa dos direitos sociais da população afetada pelas mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Entre 1975 e 1992, foi o 1º secretário executivo da Comissão Pastoral da Terra; de 1993 a 2002, foi assessor da Cáritas Brasileira; em 2003 e 2004, foi membro da Equipe de Mobilização Social do Programa Fome Zero, do governo federal – sobre esse período, escreveu o livro Brasil: oportunidades perdidas – Meus dois anos no Governo Lula (Editora Garamond, 2005).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como compreender a escolha do tema “biomas brasileiros e a defesa da vida” para a Campanha da Fraternidade neste ano? E como foi sua participação na construção dessa proposta?

Ivo Poletto – A dimensão socioambiental da vida tem sido abordada diversas vezes nas Campanhas da Fraternidade. Destaco duas, por sua relação com a temática deste ano. Em 2007, a temática foi Fraternidade e Amazônia, com o lema “Vida e missão neste chão”, convidando as pessoas de todo o país a preocuparem-se com o que estava acontecendo neste bioma. Em 2011, a temática enfrentou as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global: Fraternidade e vida no Planeta, com o lema “A Criação geme em dores de parto”.

Na CF de 2007, não foi fácil mobilizar as pessoas em favor da Amazônia, vista como uma realidade distante. Como ligar com a vida na região da gente? Foi nesse ano, com certeza, que nasceu a reivindicação em favor de uma CF que encarasse a realidade de todos os biomas do país.

Por isso, a escolha deste tema tem a ver com o avanço da consciência de muitos cristãos/ãs e, de modo especial, os animados pelas pastorais sociais, pela Cáritas e pelo Fórum Mudanças Climáticas e Justiça Social, no sentido de que todos os biomas estão sendo afetados por ações humanas e precisam, por isso, de uma atenção cuidadosa e de práticas que ajudem a Terra a recuperar as suas características originais. Tem a ver também com o insistente convite do papa Francisco a todas as pessoas – de modo especial na sua encíclica Laudato Si’ – sobre o cuidado da casa comum – para que se deem conta de como a vida está ameaçada no planeta Terra e de como é urgente a mudança estrutural do sistema econômico dominante e do estilo de vida dos que estão envolvidos no produtivismo e no consumismo.

Não participei diretamente da equipe que elaborou o texto-base, mas creio que contribuí por ter sido uma das pessoas que abriu o debate sobre a importância de prestar atenção às características dos biomas, tanto entre as pastorais sociais como na Assembleia Popular.

Nessa direção, estarei disponibilizando, na forma digital, o livro Biomas do Brasil – da exploração à convivência, que elaborei ao longo dos últimos anos e que poderá contribuir nos debates sobre os biomas, de modo especial na perspectiva de repensar o Brasil a partir deles. Poderá ser encontrado nos próximos dias em www.fmclimaticas.org.br.

IHU On-Line – Como as questões ambientais têm sido tratadas pela Igreja no Brasil? A Campanha da Fraternidade deste ano subverte essa perspectiva?

Ivo Poletto – Na maior parte das vezes, a visão eclesial esteve centrada no ser humano, no seu direito a um ambiente saudável. Tem sido difícil superar o antropocentrismo, justificado até mesmo por leituras do Gênesis, em que a narrativa da Criação afirmaria o ser humano como centro, como destinatário de tudo que Deus fez. Deixou-se de lado a dimensão de que o ser humano, mulher e homem, é parte da Criação, é constituído a partir dos mesmos elementos da natureza, e que o amor gratuito de Deus se manifestou em “tudo que foi criado”, e não apenas no seu sopro que deu vida à espécie humana.

Ao convidar as pessoas e comunidades a se darem conta de que nasceram e vivem em um determinado bioma, está aberta a possibilidade de relativizar esse antropocentrismo. O ponto de partida não é o ser humano, nem mesmo a Terra como um planeta genérico, e sim os diferentes “jardins” – os biomas – que a Terra criou. Sim, a Terra, movida pela energia do espírito de Deus, tornou-se criadora de uma incrível biodiversidade e de uma sociodiversidade a partir da presença do ser humano. Não foi o ser humano o primeiro ser criado, menos ainda foi ele que criou o que constitui os ambientes favoráveis à vida. Diferentes seres humanos encontraram diferentes jardins, criados gratuitamente por Deus e pela Terra em um longo processo. Por isso, os seres humanos, ao criarem o que precisavam para viver, foram influenciados pelo ambiente que encontraram e interferiam nele, dando seguimento ao processo de criação do qual são parte de forma positiva, convivendo com o bioma ou destruindo o que havia sido criado, expondo sua própria vida ao perigo.

Por isso, será muito superficial a CF de 2017 se as pessoas e comunidades apenas se derem conta das características atuais do bioma em que vivem. A oportunidade que Deus está abrindo é dar-nos conta de que a espécie humana foi acolhida em um ambiente vivo e gerador de vida, e de que a melhor escolha teria sido a de conviver com o jardim que encontrou. E como cada bioma tem características próprias de clima, de águas, de ventos, de solo e de subsolo, de espécies vegetais, animais, aves, peixes e outros seres das águas, insetos, vale a pena perguntar-se se a situação atual de cada bioma não tem a ver com a falta de atenção a tudo isso, com a decisão de interferir neles como se fossem iguais, adaptando-os aos planos humanos, aos interesses de empresas, à cobiça de um enriquecimento sem fim.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios para trabalhar a conexão entre os princípios cristãos, a preservação do meio ambiente e o combate à pobreza e às desigualdades?

Ivo Poletto – A realidade da vida em cada bioma e em todos os biomas da Terra nos mostra que as condições da vida humana e do meio ambiente da vida estão profundamente modificadas. A velocidade das mudanças provocadas pelos seres humanos com o uso de tecnologias que resistem se submeter ao tempo e ao espaço afetam, ao mesmo tempo, ao meio ambiente e aos pobres, como nos mostra o papa Francisco em sua Laudato Si’. E por isso, já não é correto dizer que a humanidade enfrenta duas crises, a social e a ambiental. Só há uma crise, de caráter socioambiental. Tanto a degradação da natureza quanto o agravamento da pobreza são frutos do sistema de produção, de consumo e de especulação que domina a terra e as pessoas.

Por isso, o combate e a superação da pobreza e da desigualdade que afetam as pessoas, bem como do aquecimento e das mudanças climáticas que afetam o planeta, fazem parte do combate e da superação da escandalosa e criminosa concentração da riqueza e do poder no mundo, fruto de um sistema centrado no absoluto da economia de livre iniciativa dos detentores de capital e na especulação financeira sem regulações.

A perspectiva cristã, nessa realidade, é de profecia em defesa da vida. E ela valoriza o copo de água dado a quem está com sede, assim como defende quem luta pelo direito de todas as pessoas, de todos os seres vivos e da Terra à água limpa, potável. Ela valoriza como práticas de salvação as iniciativas de cuidado com as fontes, córregos e rios de cada bioma, assim como incentiva e defende como práticas de salvação as denúncias dos efeitos destrutivos das práticas de agronegócio, de indústrias, de hidrelétricas, de mineração, por contaminarem e envenenarem solos, águas e aquíferos, e por transformarem os bens naturais e as pessoas em mercadoria.

IHU On-Line – Como sensibilizar as pessoas para o fato de que o desequilíbrio do planeta é de responsabilidade de cada um e afeta a vida de todos, essencialmente dos mais pobres? Qual o papel da Igreja nesse processo?

Ivo Poletto – A primeira pergunta que devemos responder é esta: o que cada pessoa pobre faz afeta a vida de todas as pessoas, e especialmente dos outros pobres? E as práticas da esposa de um assalariado urbano afetam a vida de todas as pessoas? E as práticas dos povos indígenas, em que afetam a vida de todas as pessoas e de toda a natureza?

Essas perguntas servem para lembrar que é muito importante evitar generalizações. É verdade que tudo que fazemos, e até mesmo o que deixamos de fazer, afeta de algum modo a vida das pessoas e o ambiente da vida. Mas é igualmente verdadeiro que as responsabilidades são diferentes, e até muito, muito diferentes. É praticamente impossível comparar a responsabilidade de uma mulher ou de uma família que vive na periferia urbana ou em área rural e a de cada um dos seis homens mais ricos do mundo de 2016, que concentram em suas mãos, contas, bolsas e paraísos fiscais mais riqueza que 3,7 bilhões de pessoas, mais que a metade da humanidade. E os que enriquecem com extração, refino e venda de petróleo e carvão e gastam bilhões de dólares para evitar que essas fontes fósseis sejam substituídas por fontes mais limpas e realmente renováveis, como o sol, os ventos, carregam uma responsabilidade que deveria ser considerada crime contra a vida.

Por isso, a geração de consciência e o estímulo em favor de práticas de cuidado e amor à natureza da Terra – à natureza de cada bioma – e aos pobres partem da percepção de que a maioria da humanidade, e especialmente os mais pobres, estão sofrendo por causa das mudanças climáticas, seja por falta de água, seja por enchentes, e estão sofrendo por causa dos preços dos alimentos, dos salários baixos ou da falta de emprego e trabalho que gere renda. Ao buscar o que está causando tudo isso, é fundamental identificar os que se valem, mantêm e expandem o sistema de exploração da Terra e da humanidade. E perceber que tudo que cada pessoa, cada comunidade e cada localidade pode fazer para enfrentar o que não está bem no meio ambiente da vida e na própria vida das pessoas é muito importante porque ajuda a cuidar do jardim – do bioma – em que se vive junto com todos os seres da sociobiodiversidade; e também é importante porque dá moral para denunciar e combater os grandes poluidores, os que enriquecem explorando e estragando a natureza sem se importar com isso, presos ao seu egoísmo e à sua ganância.

Insistindo, a responsabilidade de cada pessoa e comunidade só será assumida positivamente quando vista como gesto de amor e como contribuição a um processo mais profundo, mais estrutural de enfrentamento das práticas que realmente provocam o desequilíbrio ambiental e a deterioração das condições de vida das pessoas.

IHU On-Line – Como a Laudato Si’ tem sido recebida pelo clero da Igreja no Brasil? A leitura e a análise do documento têm contribuído para as discussões na base, nas paróquias, nos grupos e nos movimentos sociais?

Ivo Poletto – Em algumas oportunidades de diálogo e formação, tenho percebido que muitas pessoas não tinham lido a Laudato Si’. Buscando as causas disso, percebi que ela não foi acolhida como deveria por parte importante do clero. Evidentemente motivei mudança de atitude, seja individualmente, seja na perspectiva de disponibilizar o texto e criar oportunidades de estudo junto às comunidades.

Por outro lado, esta mensagem do Papa foi acolhida com entusiasmo por todas as pessoas e comunidades já engajadas em práticas de cuidado do meio ambiente e de promoção dos direitos das pessoas. Este entusiasmo é perceptível também entre pessoas que não se consideram cristãs, mas agem e atuam com a perspectiva socioambiental. Para estas pessoas, a Laudato Si’ é uma mensagem profunda, com muitos elementos de análise crítica da realidade e do tempo em que vivemos, e um desafio para avançar em práticas coerentes em nível pessoal, comunitário e político que enfrentem e ajudem a mudar o que deve ser mudado para evitar que as agressões à Terra e a seus filhos e filhas tornem impossível a continuidade da vida.

IHU On-Line – De modo geral, como a Igreja, e em especial o clero, no Brasil têm recebido o papa Francisco?

Ivo Poletto – Como o Papa Francisco não fica indiferente diante de tudo que ameaça a vida dos pobres e da Terra, também as pessoas não ficam indiferentes em relação a ele. Não se trata apenas de gostar ou não de suas palavras. A relação implica as práticas e as palavras, num caminho de coerência. Por isso, há muitas pessoas que se relacionam com entusiasmo com ele, sentindo-se confirmadas ou provocadas a serem melhores. E há pessoas que se sentem incomodadas, resistindo ao convite de mudar.

Parece estranho que se reconheça que a acolhida positiva, aberta à mudança, é mais comum entre as pessoas do povo, entre os cristãos não envolvidos em “ordenações”. O clero, no seu conjunto, é menos receptivo a um Papa que promove mudanças na forma de ser da igreja, na forma da vivência da missão, na forma de coerência entre palavra e ação. Talvez isso se deva ao fato de que papas anteriores impulsionaram a formação de clérigos mais voltada para a estrutura eclesial, pouco ou nada atenta às dimensões sociais da vida. Talvez porque é menos incômodo manter-se nas estruturas já consolidadas, mesmo se isso afasta a vida cristã das dimensões mais radicais do Evangelho de Jesus de Nazaré.

Mas vale saudar as iniciativas de tornar conhecida mensagem do papa Francisco e as que buscam renovar a prática pastoral contando com ela. Na verdade, só estranha a mensagem e as práticas do Papa quem desconhece a vida, as práticas e a mensagem de Jesus de Nazaré, pois é a sua inspiração e estímulo para colocá-las em prática de forma coerente.

IHU On-Line – Há compreensão por parte do clero das assertivas pastorais do papa Francisco? De que forma as leituras e interpretações de Amoris Laetitia revelam a compreensão do clero brasileiro ao Papa?

Ivo Poletto – Pelo que tive oportunidade de perceber, creio que se pode dizer que os cristãos e cristãs, e entre eles os clérigos, apreciam melhor os convites do Papa a práticas de maior compreensão das pessoas, maior misericórdia, menos condenações. Reagem menos positivamente, e talvez até com indiferença, quando os convites vão no sentido de sair dos palácios, das casas paroquiais e das sacristias e ir para as periferias, para o encontro com Deus nos empobrecidos, nos injustiçados. E de modo particular quando o Papa sugere que se envolvam com eles, denunciem, apoiem suas iniciativas de luta por seus direitos.

A impressão que se tem é que a formação do clero nas últimas décadas foi marcada pela perspectiva de evitar se envolver em conflitos, em nome de que a mensagem cristã é para todas as pessoas, independentemente de sua condição socioeconômica. Então, tomar partido em favor dos empobrecidos seria uma prática política incorreta, porque significa colocar em questão tudo que tem a ver com a sua situação. Agora, relacionar-se com os mais ricos, frequentar suas casas e banquetes seria prática pastoral correta, não teria conotações políticas, não leva a conflitos.

Essa constatação levanta a questão: num mundo como o atual, é possível um seguimento fiel, coerente e atualizado de Jesus de Nazaré sem envolver-se nos conflitos socioeconômicos e sociopolíticos gerados por quem domina e explora sem dó nem piedade pessoas e a Terra? É possível ser seguidor e testemunha de Jesus de Nazaré sem uma espiritualidade do conflito, alimentada pela esperança e pelo amor? Estou convencido que não, e por isso creio ser absolutamente indispensável repensar a formação dos clérigos. Na verdade, sem repensar, junto com ela, a lei do celibato como única via de acesso à missão presbiteral.

IHU On-Line – Quais os maiores desafios para o pontificado de Francisco?

Ivo Poletto – Desde antes de sua escolha para a missão do papado, o bispo Bergoglio tinha consciência e deixou claro aos cardeais eleitores que as reformas necessárias à Igreja Católica, em conteúdo e forma, não eram tarefa para uma única pessoa e nem poderiam ser realizadas no curto prazo. Quando eleito, imediatamente constituiu uma comissão para ajudá-lo a definir os passos a serem dados na reforma da estrutura do Vaticano. A ela se seguiram outras, sempre na perspectiva do colegiado episcopal e cristão. E para enfrentar temas desafiadores para a pastoral, como o do acolhimento dos que vivem em segundo casamento, o caminho tem sido um longo e paciente processo de reflexão conjunta, via Sínodo.

Por outro lado, o grande desafio assumido pelo papa Francisco é o de estimular uma vivência cristã que seja fiel e coerente seguimento e testemunho de Jesus de Nazaré no mundo atual. As reformas nas estruturas administrativas são importantes, mas têm como referência esta atualização da missão.

Creio, então, que os seus dois maiores desafios são: as reformas no modo de organizar a Santa Sé e as mudanças necessárias para a fidelidade a Jesus na missão. As reações dos seus opositores estão ligadas a essas duas prioridades de seu papado. Alguns preferem continuar nos palácios, em estruturas de governo e poder mais próximas das práticas de empresários e políticos, e por isso se sentem mal diante das práticas simples e transparentes de Francisco. E como a renovação da missão exige mais misericórdia do que repetição de leis, a acusação de desvios teológicos serve para tentar a manutenção de justificativas para a acomodação. Por último, como a fidelidade a Jesus exige estar com os que Ele escolheu como os “primeiros”, os pobres, vale tudo para tentar impedir que a Igreja assuma a sua causa, envolvendo-se no processo de crítica evangélica aos que “servem ao dinheiro” como seu ídolo, passo indispensável para a construção de sociedades de justiça, de paz, de bem viver.

IHU On-Line – Qual a sua leitura sobre o momento político atual no Brasil e no mundo? E como observa movimentos e manifestações sociais nesse momento?

Ivo Poletto – A humanidade enfrenta um tempo desafiador. Conta com imensas possibilidades de vida feliz para todas as pessoas, mas as políticas econômicas dominantes estão controladas e a serviço da concentração da riqueza, da renda. Conta com mediações de comunicação que poderiam facilitar a participação democrática, mas o controle do Estado por forças conservadoras e até fascistas, bem como o controle das mídias sociais por empresas monopolistas, impedem que as decisões sejam tomadas de forma democrática. Com isso, em lugar de avançar na direção de relações de paz entre os povos, a guerra e a violência ainda são ferramentas de dominação; em lugar de utilizar as tecnologias já disponíveis e em desenvolvimento para produzir a energia necessária com fontes menos agressivas ao meio ambiente da vida, aumenta a emissão de gases de efeito estufa para a atmosfera, aumentando o aquecimento e agravando as mudanças climáticas.

O Brasil faz parte desse cenário e é exemplo de antidemocracia e de uso dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário a serviço da minoria abastada que domina e explora a natureza, os trabalhadores, os povos e comunidades tradicionais em todos os biomas. Firma-se, dessa forma, entre os campeões da desigualdade socioeconômica, da injustiça tributária, da especulação financeira, da submissão aos interesses das grandes corporações transnacionais.

Em relação aos movimentos sociais, percebe-se, por um lado, grande dificuldade para construir unidades mobilizadoras, seja porque encontravam-se relativamente desmobilizados pelas relações políticas com os governantes dos últimos 12 anos ou porque a população demora um pouco para sentir em seu cotidiano os efeitos das reformas conservadoras e elitistas. Por outro, ainda buscam formas para enfrentar a violência com que os governantes têm reprimido as mobilizações. Há sinais evidentes de que uma das estratégias de sustentação do governo federal ilegítimo, nascido de um golpe parlamentar, é a generalização do medo e a classificação das mobilizações sociais legais como ameaça terrorista à ordem imposta por quem muda a Constituição a seu bel prazer, a serviço de seus interesses.

Como todos os poderes que pretenderam perenizar-se como o “fim da história” foram derrotados por seus próprios erros e pelas forças que a eles se opuseram com propostas mais humanizadoras, com certeza haverá tempos melhores também em nosso país. O tempo atual é também oportunidade para rever criticamente os equívocos e as oportunidades perdidas no período em que a maioria da população confiou o exercício do poder político a quem se comprometeu construir um país mais justo e democrático.

IHU On-Line – A Igreja no Brasil tem sua história marcada por personagens que trouxeram à luz o debate político, nomes como dom Helder Câmara e dom Paulo Evaristo Arns, entre outros. Como avalia a participação da Igreja hoje, nesse cenário?

Ivo Poletto – A presença e atuação da Igreja Católica no Brasil não deve ser medida apenas a partir de suas lideranças. A força da palavra de dom Helder, dom Paulo Evaristo, dom Pedro dom Casaldáliga, dom Tomás Balduino, dom Ivo Lorscheiter, dom Luciano Mendes e outros tinha raízes, ao mesmo tempo, na qualidade dos cristãos/ãs e das comunidades eclesiais que animavam em suas igrejas particulares e na coerência pessoal que os levava a enfrentar as injustiças com coragem. Eram ouvidos, respeitados e até temidos porque promoviam Comunidades Eclesiais de Base dinâmicas, que fermentavam a sociedade com lutas por justiça e em favor da construção de novas formas de convivência social e política, com novas formas de economia solidária.

A presença menos profética desta Igreja na atualidade se deve ao enfraquecimento da vida pessoal e comunitária dos cristãos nas bases, fruto provavelmente da volta ao clericalismo e ao pietismo, promovidos por movimentos conservadores e por um clero formado com visão eclesiocêntrica, com pouca relação com as práticas e mensagens de Jesus de Nazaré, com medo, indiferença ou paternalismo na relação com os empobrecidos. E fruto certamente também da diminuição de lideranças capazes de estimular a qualidade da vida e da presença cristã na sociedade.

Nessa perspectiva, não faz mal orar ao Senhor que nos envie pessoas abertas à conversão permanente como o papa Francisco, capaz de promover com coragem reformas internas no modo de organizar-se como Igreja, e capaz de animar as pessoas, as comunidades, as igrejas particulares e as conferências episcopais a se converterem de forma coerente no seguimento e anúncio do Evangelho de Jesus, sendo presença revolucionária, transformadora, testemunho de esperança na história concreta de cada localidade, de cada região, de cada país, do mundo e do universo.

IHU On-Line – Como conceber outras chaves de leitura que subvertam a lógica da modernidade, propondo outras leituras da Criação, da relação entre economia e sociedade, da relação entre ser humano e meio ambiente e das desigualdades que se atualizam no século XXI?

Ivo Poletto – Esse é um tema complexo, em relação ao qual me limitarei a duas sugestões. A primeira delas é a contribuição dos povos de longa história, dos povos originários, que denominamos indígenas, na formulação de visões e formas de vida que questionam profunda e radicalmente a visão e forma de vida que se tornou dominante no Ocidente no período da modernidade, e por isso se tornou e se impôs como civilização, com pretensa única civilização. Trata-se da riqueza em todas as dimensões da vida presente na proposta do bem viver.

Ao contrário da civilização moderna, hegemonizada pelo capitalismo, que reduziu a Terra a um amontoado, ideologicamente considerado infinito, de recursos a serem apropriados e usados pela livre iniciativa para produzir mercadorias, exploração e lucros, a Terra é ser vivo, mãe de todas as formas de vida, inclusive dos seres humanos, e, por isso, cada povo deve conviver nela no território a ele destinado. Ao praticar e propor relações de cooperação entre pessoas livres de propriedade e relações que não interferem gravemente e ajudam a manter a harmonia com todos os bens e espíritos da natureza, há no bem viver não um modelo, mas uma fonte inesgotável de possibilidades de construção de comunidades e sociedades não e pós-capitalistas.

A segunda sugestão é tomar a Laudato Si’ do papa Francisco como base e ponto de partida para uma crítica radical ao sistema e à civilização dominantes – em que se extrema a apropriação e o uso de tecnologias que geram, ao mesmo tempo, destruição da Terra e das condições de vida dos pobres, e é, por isso, um sistema que mata – a partir da mensagem bíblica, centrada nas práticas e palavras de Jesus de Nazaré. Uma leitura que se aprofunda a partir da mediação da teologia franciscana da Criação.

Nada justifica a concentração da riqueza e a geração ou manutenção da miséria existente na humanidade atual, a não ser a loucura e a irracionalidade que elas revelam ser o DNA da pós-moderna sociedade dominada pelo capital financeiro globalizado, que se pretende acima de toda e qualquer lei e regulação.

Defender a Mãe terra, um programa político para toda esquerda latino-americana. Entrevista especial com Katu Arkonada

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Na América Latina, a luta por direitos básicos para melhorar a vida das pessoas ainda é uma constante. Enquanto isso, no Norte abastado, aumenta o consumo de artigos luxuosos e o extrativismo predatório, “aquele que acontece nos EUA ou na Europa por fracking ou pela construção de trens de alta velocidade”, acentua Katu Arkonada, membro da Secretaria Executiva da Rede de Intelectuais em Defesa da Humanidade, que vive e trabalha nessa realidade.

Arkonada observa que “a prosperidade dos preços elevados do petróleo foi a mesma para todos os países da América Latina e do Caribe. Mas esta prosperidade não beneficiou igualmente os setores populares, as maiorias sociais, de todos os países ricos em recursos estratégicos”. Considerada o pulmão do planeta, a Amazônia “não é de responsabilidade exclusiva do Equador”, mas um compromisso para todas as nações. “O que é de responsabilidade do Equador como país e como um governo é continuar as políticas de redistribuição da riqueza para tirar da pobreza milhões de pessoas”.

Katu Arkonada é basco e vive hoje na Bolívia, depois de ter morado durante meses em Belém do Pará, na Amazônia brasileira, trabalhando na coordenação do Fórum Social Mundial. Colaborou com a Coordenadoria Andina de Organizações Indígenas – Caoi na construção da Cúpula Continental dos Povos e Nacionalidades Indígenas, realizada em Puno, Lago Titicaca, no Peru. Foi assessor do Vice-Ministério de Planejamento Estratégico do Estado da Bolívia na construção de indicadores de Bem Viver para os projetos de desenvolvimento.

A entrevista foi publicada na revista IHU On-Line, no. 495, sob o título “A incompatível relação entre extrativismo mineral e justiça social”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em 2014, Eduardo Gudynas [1] disse em uma entrevista: “Chegamos a uma situação em que os países latino-americanos não sabem fazer outra coisa que não seja o extrativismo”. Você está de acordo com esta afirmação? Ainda estamos longe de construir um modelo pós-extrativista?

Katu Arkonada – Em primeiro lugar, devo dizer que mantenho uma postura crítica sobre as posições do progressismo ambientalista que representam Eduardo Gudynas e outros. Posições que normalmente vêm da academia ou ONGs financiadas a partir dos Estados Unidos e da Europa, e não tanto dos movimentos sociais e lutas reais.

Dito isto, a maior parte dos países latino-americanos, entre os quais podemos incluir os do núcleo duro boliviano, tais como a Bolívia, a Venezuela ou o Equador, passaram de uma situação na qual seus recursos naturais estavam nas mãos das transnacionais, à situação de, em primeiro lugar, nacionalizar estes recursos estratégicos, para em uma segunda fase avançar industrializando-os e gerar um valor agregado a estes recursos. Ou seja, a lacuna que ocorre na disputa sobre o excedente é enorme, porque agora estes recursos naturais permitem uma redistribuição da riqueza que o modelo neoliberal não permitia.

Mas esse excedente está permitindo não apenas redistribuir a riqueza e industrializar os recursos naturais, mas também abrir a possibilidade de investir em tecnologia ou outras fontes de energia, como as energias renováveis, que, embora certamente não permitam pensar em uma maneira de sair do modelo extrativista, permitem pelo menos pensar horizontes de transição. O que, no caso da Bolívia, não só acaba por reforçar o modelo econômico da economia plural, onde a economia do Estado é importante, mas também a comunitária.

IHU On-Line – Você acredita que é possível reverter 500 anos de colonialismo e extrativismo na América Latina? Existe alguma alternativa a este modelo?

Katu Arkonada – Precisamente a crítica feita a partir do progressismo ambiental evidencia como o modelo econômico extrativista e primariamente exportador na América Latina foi construído, que parte da divisão internacional do trabalho e da construção do capitalismo global, que outorgou tarefas específicas a cada Estado-nação durante a imposição do capitalismo e da modernidade.

O extrativismo é uma condição imposta pelo capital em escala global, para um Sul encarregado de fornecer matérias-primas para um Norte que, graças à exploração desse Sul, de seus povos e de sua natureza, pôde gerar suas revoluções industriais e “desenvolver-se”.

Sair deste modelo extrativista sem que se faça uma “desconexão” do sistema capitalista, sem os recursos econômicos e a tecnologia que o Norte possui e não quer transferir, é muito difícil, e muito mais para um período tão curto em termos históricos, como os 10 anos do processo de câmbio boliviano.

Em relação às alternativas, o problema do progressismo ambiental é exatamente este, que se faça um diagnóstico que pode ser exposto, mas são incapazes de, a partir de suas salas de aula e de seus centros de estudo, propor alternativas viáveis, realizáveis e consistentes com a justiça social que permita tirar milhões de pessoas da pobreza.

IHU On-Line – Você acha que houve avanços no período de governos progressistas na América Latina no que diz respeito ao extrativismo predatório?

Katu Arkonada – Em primeiro lugar devemos definir o que é o extrativismo predatório. O extrativismo predatório é aquele que acontece nos EUA ou na Europa por fracking ou pela construção de trens de alta velocidade. Esse é o progresso do “primeiro mundo”. Na América Latina estamos falando de um desenvolvimento para melhorar as condições de vida das pessoas.

Vejamos um exemplo controverso, o da construção da estrada através do TIPNIS (Território Indígena e Parque Nacional Isiboro-Secure). Neste conflito, ampliado precisamente pelo progressismo ambiental e pelos meios de comunicação da oposição, estamos falando da construção de uma estrada que vai unir dois dos nove estados da Bolívia, dois estados que até hoje, depois de 500 anos de capitalismo e “desenvolvimento”, não têm sequer uma ligação rodoviária, pelos problemas econômicos, mas também de saúde e educação, que isso gera para milhares de famílias.

IHU On-Line – No que se refere ao extrativismo, existem diferenças entre os governos que chamamos de progressistas e os governos mais associados à direita?

Katu Arkonada – A prosperidade dos preços elevados do petróleo foi a mesma para todos os países da América Latina e do Caribe. Mas esta prosperidade não beneficiou igualmente os setores populares, as maiorias sociais, de todos os países ricos em recursos estratégicos.

Enquanto na Bolívia a pobreza extrema, que em 2005 era de 38% da população no final do neoliberalismo, foi reduzida para menos da metade em 10 anos, e existe a previsão de chegar a 0 em 2025, no México, fronteira sul dos Estados Unidos e paradigma do modelo neoliberal predatório, a pobreza aumenta a cada ano e já está acima de 50%.

Ou seja, é uma posição político-ideológica na qual você como governo distribui o excedente, se você o entrega às transnacionais ou o utiliza em investimento social. Em todo caso, é um desafio para toda a América Latina passar a depender menos de fontes de energia não renováveis e apostar no uso de energias renováveis, seja ela solar, eólica ou hidrelétrica.

IHU On-Line – O Equador começou em setembro a explorar petróleo no Yasuní. Por que a iniciativa Yasuní-ITT fracassou e que conclusões podemos tirar a partir deste fracasso para que outros projetos ambientais não tenham o mesmo destino?

Katu Arkonada – A iniciativa Yasuní nos mostra nitidamente a hipocrisia do que é chamado de “comunidade internacional”, que atribui ao Sul a função de protetor florestal. A Amazônia é o pulmão do planeta, e não é de responsabilidade exclusiva do Equador protegê-lo, mas de todo o mundo. O que é de responsabilidade do Equador como país e como um governo é continuar as políticas de redistribuição da riqueza para tirar da pobreza milhões de pessoas. Neste caso, a hipocrisia está em se pedir ao Equador que não explore o petróleo sob o Yasuní, enquanto o Norte permanece em um turbilhão de “desenvolvimento” e de consumismo capitalista que está destruindo a Mãe Terra, ao mesmo tempo em que destrói nossas sociedades, através do aumento da pobreza e da desigualdade. Não é possível mais enxergar a velha Europa em crise, onde há cada vez mais pobres à medida que aumenta o consumo de bens de luxo.

IHU On-Line – Por que não há na América Latina partidos ambientalistas fortes? Você acha que esta seria uma solução para a questão ambiental?

Katu Arkonada – A questão ambiental não é uma questão que pode ser separada da justiça. A justiça ambiental faz parte da justiça social pela qual lutamos. A defesa da Mãe Terra é parte do programa político de toda a esquerda latino-americana, enquanto há partidos ecologistas, como podemos ver na Europa, que são conservadores em muitas posições políticas e ideológicas.

Em todo caso, se olharmos para a América Latina como um continente, ou no caso específico da Bolívia, não é seu modelo econômico, pensado para um país de 11 milhões de pessoas, o que está destruindo o planeta. O planeta foi destruído pelo Norte capitalista no seu desenvolvimento por 300 anos, e por isso é injusta a crítica dos processos que levam de 10 a 15 anos, pedindo-lhes que deem um salto tecnológico-industrial que para outros Estados-nação levou séculos.

De qualquer forma, temos um debate em curso ao qual nenhuma solução é dada a partir das críticas ao extrativismo, um debate global. A contradição entre o direito ao desenvolvimento e tirar o seu povo da pobreza, e os direitos da Mãe Terra, é o principal problema a nível global se pensarmos nos 2,6 bilhões de pessoas que vivem entre a China e a Índia, muitas delas em extrema pobreza. É uma situação que, para ser resolvida, e estamos falando de coisas concretas e básicas, como de todos terem direito à eletricidade, necessita uma enorme quantidade de recursos naturais, recursos que o planeta já não pode regenerar e irão se esgotar, mais cedo ou mais tarde. Este é um dos principais debates, se não o principal, que a esquerda do século XXI terá de enfrentar.

Cisterna vertical ocupa menos espaço e filtra a água da chuva para reúso

[TEXTO ORIGINAL]

Cisterna vertical ocupa menos espaço e filtra a água da chuva para reúso

Poder armazenar a água da chuva é uma estratégia importante para reduzir o desperdício de água e ainda economizar na hora de pagar a conta. O jeito mais simples de reaproveitar este recurso hídrico é utilizando uma cisterna, que capta e guarda a água para o uso posterior.

A cisterna vertical criada pela Tecnotri é um jeito ainda mais prático de aproveitar água de forma simples e fácil. Seu principal diferencial está no formato. Enquanto uma bombona comum é capaz de armazenar, em média, 220 litros de água, uma cisterna vertical modular consegue guardar até mil litros de água ocupando um espaço muito menor.

De acordo com a empresa, um módulo de mil litros pesa 48 kg, e tem apenas 1,5 metros de altura por 64 centímetros de largura. O tamanho compacto permite que o sistema seja instalado mesmo em locais com pouco espaço, como corredores, garagens e, até mesmo, sacadas, e se necessário, pode-se conectar vários módulos em um mesmo circuito, aumentando ainda mais a sua capacidade.

A cisterna modular foi desenvolvida para facilitar o reaproveitamento da água da chuva para os mais diversos fins. Por isso, ela possui saídas para conexão em registro, mangueiras e equipamentos de lavagem a jato.

Funcionamento

As cisternas são facilmente instaladas em uma residência ou espaço comercial. O único pré-requisito é que ela possa ser conectada à calha do telhado, para conseguir captar a maior quantidade possível de água.

Neste conector, as cisternas são equipadas com um filtro, que retira as folhas e outros sólidos que porventura sejam carregados. Elas também possuem um reservatório para separar o primeiro fluxo de água que normalmente está carregada de resíduos sólidos, resultante da sujeira acumulada nos telhados e uma cápsula com clorador, que ajuda a purificar a água da chuva e evita a contaminação do mosquito Aedes aegypti.

Quando se trata de armazenar água, os mosquitos não são os únicos problemas que merecem atenção. A proliferação de fungos e bactérias também pode contaminar o recurso e causar doenças aos seres humanos. Portanto, para evitar a proliferação destes organismos, a cisterna vertical modular é feita com plástico polietileno que contém ativo antimicrobiano.

Entre os kits de reúso de água desenvolvidos pela empresa está um modelo de cisterna de menor capacidade, ideal para ser conectado à máquina de lavar roupa, para reaproveitar o recurso descartado durante os ciclos de lavagem.

A instalação do sistema é muito simples e não necessita de grandes alterações estruturais ou obras civis. Basta os reservatórios serem colocados no espaço disponível e conectados à calhas coletoras de água da chuva ou nas saídas da água no descarte de máquina de lavar roupa. Feito isso, é só começar a armazenar.

O que fazer com esta água?

A água da chuva pode ser usada para os mais diversos fins. Em alguns locais do mundo ela pode ser usada até mesmo para o consumo humano. Este não é o caso no Brasil. Mas, mesmo assim, ainda existem diversos usos possíveis e indicados para ela como alternativa para reduzir os gastos de água potável. Limpeza, rega de plantas, descarga e lavagem de carro e roupas são apenas algumas das sugestões.

Além da praticidade deste sistema, ele também é totalmente seguro para impedir a proliferação de larvas de mosquitos transmissores de doenças. Além de ser totalmente fechada, o filtro com cloração não permite que os insetos se reproduzam na água armazenada.

Onde encontrar?

Os kits de reúso de água podem ser encomendados direto no site da Tecnotri. Os valores variam de R$ 658 a R$ 2.858, dependendo do modelo, da capacidade do sistema e do local de entrega ao consumidor final. A empresa envia o produto para quase todo o país.

CBHSF aprova recuperação de 340 nascentes em afluente do Velho Chico em Alagoas

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O quadro final de levantamento e diagnóstico ambiental das nascentes nas porções Média e Baixa do rio Piauí foi apresentado na tarde desta terça-feira (26 de janeiro) aos membros do Grupo de Acompanhamento de Projetos (GAP), do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, na secretaria do colegiado, em Maceió (AL). O trabalho, que é financiado pelo CBHSF, identificou 354 nascedouros, dos quais 341 tiveram aceitação dos proprietários e serão recuperados. Vale destacar que o rio Piauí é de grande importância para a região por ser o único afluente perene do Velho Chico em Alagoas.

A apresentação do levantamento e diagnóstico esteve a cargo do engenheiro Pedro Lucas de Brito, da empresa Gama Engenharia, contratada por licitação. O trabalho começou a ser feito em agosto do ano passado a partir de investimentos da ordem de R$ 506 mil, provenientes dos recursos arrecadados com a cobrança pelo uso da água bruta do São Francisco.

De acordo com o estudo, nenhum dos nascedouros apresenta boas condições. Cerca de 43% foram considerados como ruins e 30%, péssimos, de acordo com parâmetros definidos pelo Ministério da Saúde. A maioria é de pequeno porte e fica no município de Coruripe. Lá estão 123 dos chamados “olhos d’água”.

No final da reunião, ficou definida que todas as nascentes relacionadas serão recuperadas. “O Comitê dá, assim, continuidade à revitalização dessa sub bacia tão importante para a Foz do São Francisco”, resumiu o presidente Anivaldo Miranda, após a aprovação do trabalho. Encerrada essa fase, haverá a licitação para que a empresa vencedora inicie o trabalho de recuperação.

O Grupo de Acompanhamento de Projetos é formado por Jorge Izidro dos Santos, Rosa Cecília Lima, Antonio Jackson Borges dos Santos. O presidente do Comitê, Anivaldo Miranda, o coordenador da Câmara Consultiva Regional do Baixo São Francisco, Melchior Carlos do Nascimento, e o representante da Companhia de Abastecimento de Alagoas (Casal), Roberto Valois Lobo, também participaram da reunião.