TRAUMAS

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A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares está há uma semana em Mariana (MG), município que sofre as consequência do rompimento das barragens de rejeitos da empresa Samarco, subsidiária da mineradora Vale do Rio Doce.

Sete profissionais – cinco médicos, um comunicador e uma psicóloga – estão na região com o propósito fazer diagnósticos de saúde da população e analisar os efeitos de médio e longo prazos que a lama tóxica pode ter.

Para Ellen Machado Rodrigues, integrante da Rede de Médicos, a prioridade para a população de Bento Rodrigues é a realocação.

“Tem cerca de 630 pessoas abrigadas em pousadas, e uma resposta definitiva do que vai acontecer com elas está demorando”, declarou. Ela conta que um dos problemas para a saúde é que a alimentação foi padronizada em marmitas, o que pode gerar dificuldades para quem tem doenças crônicas, como diabetes. “Se fosse por um tempo mais curto, talvez não tivesse muito impacto. Mas faz mais de 20 dias e não há solução”, criticou.

A alimentação e o abrigo estão sendo bancados pela empresa Samarco e há uma proposta de que a empresa alugue casas temporariamente para a população, até que ela seja realocada em um novo local e tenha moradia definitiva.

Ellen aponta, no entanto, que não será possível recuperar a forma como as pessoas viviam. “Bento Rodrigues era uma comunidade rural, com muitos agricultores familiares. Como a região foi inviabilizada por conta da lama, além do prejuízo da moradia, ficou o prejuízo do sustento econômico”, disse.

O dano psicológico causado pelo rompimento das barragens é notável na população, principalmente, as que perderam familiares e conhecidos.

“Participamos de uma reunião com familiares das pessoas desaparecidas. Muito do sofrimento está sendo prolongado porque há dificuldades para finalizar o reconhecimento dos corpos que foram encontrados. Há mais de uma semana, quatro corpos foram encontrados, mas não reconhecidos. Essa dinâmica de busca e reconhecimento está sendo realizada de maneira pouco transparente e as famílias estão sentido dificuldade nesse diálogo com o poder público e com a Samarco”, avaliou.

Com a proposta de ajudar na organização das famílias, a Rede de Médicos tem promovido espaços coletivos para facilitar o diálogo entre os moradores, além de reuniões com os familiares para conversas, orientações e apoio.

Danos imprevisíveis

Os médicos pretendem ficar por mais 15 dias em Mariana, mas o acompanhamento que a Rede quer fazer em relação às vítimas da tragéida é de longo prazo. “Os danos da contaminação são bem mais amplos. Vamos precisar de tempo para ter mais claro que tipo de efeito isso terá”, afirma Ellen.

Para ela, o papel da Rede, como ator político, é o de estar do lado da população. “As pessoas vão ter que reorganizar suas vidas e para isso vão precisar de uma rede de apoio para ter garantidos seus direitos de reparação, ressarcimento e reconstituição, inclusive de reparação do ambiente onde elas estão vivendo. A Rede tem que contribuir na busca de garantir que o poder público faça valer essa reparação junto à empresa”, avaliou.

Um diagnóstico de saúde será feito pelos médicos após entrevistas com os moradores e contato com o sistema de saúde de Mariana. A Rede espera que o material coletado sirva tanto de denúncia para a população atingida, como para orientar as pessoas sobre sua saúde, como lidar com a água e o solo após a contaminação.

“Esperamos também que isso possa pressionar o Poder Público a fazer uma grande revisão dos parâmetros de segurança de barragens, ampliar o rigor de fiscalização e obrigar uma reparação da Samarco, que não seja apenas focadas no individual e ressarcimento material das pessoas, como também ao meio ambiente”, acrescentou.

OS ESQUECIDOS

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Paracatu de Baixo (Mariana) – No dia em que a zona quente da crise deflagrada pelo rompimento de barragens da Samarco foi transferida para Governador Valadares, que teve visita presidencial, anúncio de multa de R$ 250 milhões para a mineradora, batalha por água e protestos na linha da ferrovia Vitória a Minas, a situação em um dos povoados mais atingidos em Mariana denuncia o abandono de moradores afetados pelos primeiros impactos da onda de lama liberada pela tragédia. Durante um dia e uma noite, a equipe do Estado de Minas testemunhou a situação da comunidade de Paracatu de Baixo, onde, em vez de bombeiros e agentes da Defesa Civil, moradores se arriscam sozinhos em construções condenadas e improvisam passarelas atirando pedaços de pau sobre uma camada de lama e minério que varia da altura dos joelhos à do queixo de um adulto.

Sem ninguém para avaliar a solidez das casas, 80% delas destruídas pela avalanche, entram nas moradias trincadas e até sem partes das paredes para resgatar móveis, objetos de valor, utensílios domésticos, documentos e recordações de família que foram poupados da onda de rejeitos. Enquanto um vasto número de equipes atua em Bento Rodrigues, o povoado de Mariana que foi mais destruído pela avalanche de rejeitos, no dia 5, Paracatu de Baixo, a segunda comunidade mais afetada do município da Região Central, só conta com o apoio dos próprios habitantes, que não aceitaram uma remoção para Mariana, nas buscas pelo que sobrou do desastre.

Do total de uma centena de casas, restaram intactas duas dezenas. E é dessas habitações no alto da comunidade, com a luz fraca do fim da madrugada ofuscando a iluminação de postes, que surgem os primeiros a despertar em Paracatu de Baixo. São os vaqueiros, trazendo cordas, baldes de alumínio e banquinhos nas mãos. Os melhores pastos, que ficavam nas várzeas do Rio Gualaxo do Norte, foram varridos pela lama que seguiu pela calha do curso d’água e obrigou que tocassem o gado para os morros. Em um desses altos é que Livaldo Marcelino, de 37 anos, improvisou um curral para tirar leite de sete vacas. “Foi uma corrida desesperada, com a lama subindo depressa atrás da gente – e eu ainda tenho um joelho quebrado. Por causa desse aperto todo, as vacas estão estressadas, arredias. Como não deu tempo de apartar todos os bezerros, eles estão mamando à vontade. Só consigo tirar metade dos 40 litros que conseguia antes”, lamenta o vaqueiro.

Durante o dia, o movimento no distrito é intenso. O ruído dos tratores e caminhões de sucção de prestadoras de serviço da Samarco ecoa pelos quarteirões ainda tomados por lama e água barrenta, enquanto tentam desimpedir a avenida principal. Fileiras de desabrigados passam se espremendo pelas trilhas íngremes batidas de gado nas colinas que beiram a lama ou dentro do próprio terreno movediço. “Minha casa ficava no meio do lote e as dos meus filhos, em volta. Estão todas debaixo do minério. Estamos dormindo em Mariana e de dia a gente vai e volta uma 20 vezes, para carregar o que pode ser salvo. Como sou da folia de reis, estou mais preocupado com os nossos instrumentos. Por enquanto só salvei uma sanfona e uma bandeira”, conta o lavrador José Patrocínio de Oliveira, de 85.

As cercas de arame das propriedades se tornaram varais para secar roupas, equipamentos eletrônicos, elétricos e até uma bíblia. No amontoado que foi arrancado das casas e misturado pelo lamaçal se encontra de tudo: camas, geladeiras, televisores, bonecas, bicicletas, roupas, cosméticos, tacos de sinuca e livros. Engradados de cerveja entupidos de barro são empilhados perto das portas dos cinco bares que funcionavam no povoado, agora arrasados, antes famosos por fritar os melhores pastéis da região.

Os lavradores José Horta, de 50, e Raimundo Gonçalves, de 48, enfrentaram as rachaduras nas casas para recuperar pelo menos suas ferramentas de trabalho. Mas, mesmo quando conseguiram vencer a lama, improvisando passarelas com pedaços de pau, a decepção foi grande. “Desenterrei a motosserra e a moto. Mas nenhuma das duas funciona mais. Estou sem saber como fazer, porque eram meu ganha pão. Como vou conseguir serviço e ter dinheiro para minha família comer?”, indagava José Horta.

Sidney Lopes/EM/D.A Press


MATILHAS FAMINTAS
Às 19h, as máquinas da Samarco se silenciam e as vans levam para Mariana os trabalhadores e a maioria dos moradores de Paracatu de Baixo. A escuridão acentua a sensação de deserto em ruas e casas vazias. Logo os uivos de cães abandonados ecoam de todas as partes. Bandos desses animais famintos perambulam entre as ruínas sobre o lamaçal. Qualquer um que porventura trombe com a matilha é logo cercado e farejado pelos animais de rabos inquietos, sedentos por atenção.

Luzes de lamparinas e velas avistadas por entre as casas mais altas levam à dona de casa Maria de Oliveira, de 76, que vagava pela vizinhança com filhos e parentes procurando os poucos que, como ela, resistem. “Daqui, só saio morta. No dia da lama, quando me levaram para Mariana, passei a noite sem dormir, sem comer, só esperando a manhã para voltar. Comprei querosene e velas para ter luz, trouxe água e comida (doados). Agora, não saio mais”, disse. Um dos filhos dela, Pedro de Oliveira, de 26, conta que o medo de que outra barragem se rompa ressurge a cada chuva. “A gente mal dorme. Fiquei com a tragédia na cabeça. Ainda me lembro do rio sendo tomado, da lama vindo e de todo mundo correndo para o alto. As crianças choravam, as mulheres berravam, os velhos pediam socorro. Teve até quem dormisse no cemitério”, conta ele, que diz se sentir abandonado por autoridades e até por quem se dispõe a ajudar. “Estamos esquecidos”, resume.

Vídeo mostra situação de Paracatu de Baixo

TRAUMAS

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  • Bombeiro resgata cadela de dentro da lama em Paracatu de Baixo, em Mariana (MG)

    Bombeiro resgata cadela de dentro da lama em Paracatu de Baixo, em Mariana (MG)

Além de toda a tragédia humana e ambiental causada pelo rompimento das barragens da Samarco em Mariana (MG), há também um drama que foi notado pelos bombeiros que trabalham no resgate dos desaparecidos: os animais.

Os cães que viviam nas casas que foram destruídas no distrito de Bento Rodrigues se recusam a deixar o local e avançam em quem tenta tirá-los dali. Vários outros bichos como cavalos, patos e vacas têm sido resgatados, apresentando tremores, hipotermia e certa agressividade.

Para a doutora Ceres Berger Faraco, professora do curso de medicina veterinária da Uniritter e presidente da Associação Médico Veterinária Brasileira de Bem-Estar Animal, os cachorros também ficam em luto e, assim como os humanos, após uma tragédia, sentem estresse pós-traumático.

Felipe Dana/AP

Moradores carregam cachorro ferido resgatado da lama em Bento Rodrigues, em Mariana (MG)

“As pessoas que os cães confiavam não estão mais ali. Muitos deles se perderam das pessoas. Eles estão inseguros e amedrontados. Isso é uma espécie de estresse pós-traumático. Houve uma mudança abrupta da rotina deles”, afirmou.

Leo Fontes/O Tempo/Estadão Conteúdo

Cão é resgatado em área devastada pela enxurrada causada pelo rompimento das barragens da mineradora Samarco

A bióloga especialista em comportamento animal e fundadora da Ethos Animal, Helena Truksa, concorda com esta explicação. Para ela, os cães ficam completamente sem saber o que fazer em um cenário de destruição como o de Mariana (MG).

“Suas casas foram destruídas, sua família desapareceu ou morreu e eles se viram sozinhos em meio ao caos, sem saber ao certo como agir. Por terem perdido tudo, é normal que os cães prefiram ficar nos escombros da casa do que sair e se aventurar em um mundo desconhecido”, afirmou.

Segundo Faraco, os cães não são naturalmente agressivos. Esses episódios ocorrem quando os animais sentem muito medo. Assim como as pessoas, os cachorros também sentiram a tragédia e perceberam que os vínculos que tinham com as pessoas e outros bichos se perderam.

“É claro que o cachorro não sabe qual é o motivo que causou seu estresse, mas ele percebe a mudança total de seu ambiente. Para se sentir seguro e tranquilo, o animal tem de ter um controle daquelas condições que fazem sua rotina”, explicou.

Douglas Magno/AFP

Bombeiro resgata uma cadela de dentro da lama em Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (MG)

Se não forem tratados, os animais podem ficar com traumas permanentes. Segundo a professora, há relatos de cães que passaram anos esperando a volta do dono que já havia morrido.

Leo Fontes/O Tempo/Estadão Conteúdo

Cão cheio de lama foi resgatado de área atingida pela enxurrada causada pelo rompimento das barragens

“Os cachorros esperam e sofrem de luto como a gente. A questão do estresse e da perda do ambiente é uma situação de luto. Eles ficam instáveis como nós”, contou.

Para Truksa, os cães podem, inclusive, ter lembrança do momento mais estressante que passaram ao perderem a casa e os donos.

“Caso o cachorro vivencie alguma outra situação semelhante, nem precisaria ser no mesmo nível desta, poderia ser bem menos intensa, ou até mesmo a simples visão ou cheiro de algum detalhe que o cão tenha visto no dia, pode fazê-lo se lembrar instantaneamente do dia da tragédia, futuramente, se lembrará da experiência nociva e apresentará medo acentuado”, contou.

“Os sintomas do estresse são respiração ofegante, aumento da frequência cardíaca e liberação de hormônios relacionados ao estresse na corrente sanguínea [cortisol]. A longo prazo, se não tratado, o trauma instalado pode se acentuar e comprometer a saúde do animal”, completou.

Douglas Magno/AFP

Pato coberto de lama é encontrado em meio a escombros em Paracatu de Baixo, subdistrito de Mariana (MG)

Há também de se levar em conta que cachorros são bichos extremamente apegados ao território e, por isso, geralmente são mais resistentes em deixar o local onde costumam viver. Em Bento Rodrigues, alguns bombeiros tentaram resgatar os cães que insistem em viver no meio da lama e dos escombros. No entanto, por causa da agressividade, a equipe de resgate desistiu e agora apenas alimenta os animais.

Para Faraco, após esse primeiro período de resgate das pessoas, é preciso repensar uma estratégia para tirar os cães que insistem em permanecer por ali.

“Existem pessoas treinadas para resgatar animais em acidentes. Os animais necessitam de um tempo de aproximação para conseguir a confiança “, afirmou.

Ricardo Moraes/Reuters

Integrante de equipe de resgate acaricia cavalo enquanto tenta resgatá-lo da lama no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG)

Já Truksa defende que os cães sejam retirados dos escombros de maneira rápida, com cuidado e supervisão de um veterinário.

“A operação precisa ser efetuada com agilidade, dada a situação emergencial, e em se tratando de animais que podem oferecer risco à integridade física das pessoas, pode-se buscar auxílio de um veterinário que aplicará ou autorizará o uso de sedativos leves para minimizar o estresse da captura dos animais e evitar possíveis lesões aos profissionais que efetuarão o resgate”, afirmou.

Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Moradores tentam tirar uma vaca de dentro da lama que atingiu Barra Longa (MG), após o rompimento de barragens

REFUGIADOS

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Gente da roça, acostumada à vida do campo, os desabrigados de subdistrito Bento Rodrigues, em Mariana (MG), reclamam de terem tido o cotidiano alterado de maneira brusca e serem obrigados a conviver com uma rotina de “confinamento” nos hotéis da cidade.

Apesar de quererem morar novamente em sítios e casas, eles não pretendem voltar para o subdistrito, temerosos com um novo rompimento.

“Não pretendo morar mais perto de barragem. Ninguém confia mais em ficar lá, não. Pode romper novamente”, disse o montador de andaimes Carlos Roberto dos Reis, 33.

O coordenador da Defesa Civil de Minas, coronel Helberth Figueiró de Lourdes, já havia afirmado que iria recomendar para ninguém voltar ao subdistrito.

Sobre a indenização do desastre, Reis afirma que espera uma solução rápida. “Eu espero que Deus ilumine e a gente não precise brigar com eles [a empresa Samarco]. Eles sabem que a culpa é deles.”

Da roça para o quarto de hotel

Mais de 600 desabrigados estão vivendo precariamente desde o rompimento das barragens de Fundão e de Santarém, da empresa Samarco, na quinta-feira (5). A empresa tem custeado a hospedagem e a alimentação das vítimas.

“O bom é estar na casa da gente. Não há lar melhor. Tenho que ficar 24 horas olhando a minha filha porque ela não tem noção de onde estamos. Toda hora tem gente desconhecida aqui, isso é perigoso. Ela tinha costume de brincar na rua, com as casas de portas abertas”, afirmou Reis, que divide um quarto com a mulher e a filha.

Os moradores afirmaram que, se antes tinham suas casas com bastante espaço verde em volta, agora lidam com quartos de hotéis e pousadas, muitos deles localizados na região central da cidade histórica, com movimento grande de carros no seu entorno.

O lavador José da Paixão do Carmo, 40, disse que, apesar de ter recebido alimentação desde que chegou ao hotel, na sexta-feira passada (6), a rotina em um quarto está sendo uma experiência ruim.

“Não tem como explicar o que está acontecendo com a gente. Para a gente melhorar, precisamos ir para uma casa que seja nossa”, afirmou.

Carmo disse ter perdido a residência onde morava com a mulher e três filhos, além de um carro.

“Eu espero que a gente volte a ter uma casa, para colocar a nossa família dentro e continuar com a nossa vida. Espero que eles não separem a comunidade, porque a gente era muito unido lá”, relatou.

Carmo disse que sente muita falta do local onde morava, por causa de plantação que tinha. Ele ainda lamenta pela filha, que não pode mais sair para brincar, pois ele afirmou ter medo de ela ser atropelada.

“Eu sou um cara de roça. Tinha um lote grande, com uma horta grande, com árvores e passarinho cantando. Eu vou ter isso mais? Não vou. Agora estou aqui, com a minha mulher e minha filha em apenas um quarto. A gente está sofrendo com isso”, contou.

Já em um hotel mais afastado do centro, o ajudante de pedreiro Francislei Jordane do Carmo, 21, disse que passa os dias “olhando os carros passarem na rua”. Ele está no local com a mulher.

“Não está bom, não, mas é melhor que ficar na rua. Lá em Bento a gente ficava pelo mato afora, lá era o melhor lugar do mundo. Não temos isso mais. Agora a gente fica olhando os carros passarem na rua. No quarto não dá para ficar muito tempo porque é calor demais. Agora é só almoçar, jantar e dormir”, disse.

O primo Maurício Geraldo Inácio, 20, disse que a rotina em um hotel, para quem não está acostumado, é “difícil”.

“Difícil mesmo é acostumar com o lugar. Estou acostumado com a tranquilidade de lá (Bento Rodrigues). Aqui é muito apertado e não temos nada para fazer. Lá, nós podíamos jogar bola, nadar. Aqui é ficar dentro dos quartos ou na rua. A gente vem aqui fora, fica um tempo, depois volta para dentro”, enfatizou.

Assédio

Os moradores de Bento Rodrigues têm sido procurados por advogados para fazerem ações individuais contra a Samarco.

O promotor Guilherme Meneghin, que está recolhendo informações para uma ação coletiva, disse que ações individuais podem ser feitas, mas acredita que uma ação coletiva seria mais rápida. “E, se a pessoa não concordar com os valores da indenização, pode recorrer individualmente”.

O QUE ESTÁ EM SEGUNDO PLANO

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Mariana

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A barragem que rompeu histórias

“Era 11h35, eu cheguei na varanda e disse: meu Deus eu to sonhando. Dava pra ouvir as pessoas gritar. Eu pensei que ia morrer. Passei a noite toda acordada vigiando!”, são as palavras de Dona Maria, conhecida como Zoca, na comunidade de Gesteira, um dos distritos atingidos pelo rompimento das barragem de Fundão e Santarém, da Mineradora Samarco.

Zoca, 73 anos, foi precisa no horário porque foi neste exato momento, no dia 5 de novembro, que sua história foi rompida por um mar de lama que levou embora tudo o que conquistou na vida junto com seu marido, Zé Carlos, 77 anos. Ele busca esperança na expectativa de que a empresa irá restituir tudo o que ele perdeu, e lamenta: “perdi tudo o que tinha. Nem sei o que vai ser. Nossa maior renda era isso, tão cedo eu não posso mexer nesse trem. Minha pá, enxada, tudo o que eu tinha para trabalhar estava no rancho”, diz, apontando para a fazenda soterrada.

O povoado de Gesteira fica a cerca 60 km das barragens que se romperam, e não foi avisado, segundo os moradores, pela Samarco, sobre o ocorrido. Se não fora os familiares que moram em Mariana (MG) ligar e, a partir daí, a notícia se espalhar, a chance de todos morrerem seria enorme.

Os moradores da região, inclusive os das fazendas que seguem o Rio Gualacho, que corta as comunidades, e antecedem Gesteira, afirmam que somente os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu foram informados pela empresa a respeito do rompimento. Mesmo assim, o contato não foi suficiente,  muitas pessoas dessas duas regiões afirmam não terem recebido nenhum aviso, segundo o jornal El País.

O caminho para as comunidades isoladas

Para chegar às comunidades de Gesteira, Cidreira e Mandioca, acompanhei, durante dois dias, os Bombeiros Civis de Minas Gerais e os jipeiros e socorristas voluntários da Cruz Vermelha, que, inclusive, não mediram esforços para ajudar às vitimas da tragédia.

O único acesso a Mandioca e a Cidreira era a pé pelas montanhas e pastos que cercam a região, ou aéreo, no caso, para resgates e entrega de água e alimentos. Foram aproximadamente 12 horas de caminhada para chegar às famílias e listar suas necessidades emergenciais.

Famílias de Cidreira e Mandioca

Dirceu da Luz, 72 anos, perdeu tudo. O que restou foi a roupa do corpo e angústia de ver uma vida inteira arruinada em instantes. Tudo foi adquirido ao lado da esposa, Geralda da Luz, 67 anos. E ao lado dela viu tudo se arrastar. “Tinha umas coisinhas de pobre, mas era nossa, né! Pra nós que é da roça as coisas são mais difíceis. A gente pensa em recuperar de novo as coisas que a gente perdeu, mas não sei como. Nossa idade não permite trabalhar mais, a gente não aguenta!”, conta Geralda.

O casal, que mora em Mandioca, terminou de pagar a última prestação do guarda roupa, com o dinheiro da aposentadoria, no início desse mês. O fogão novo que compraram não existe mais, foi arrastado na mesma semana que pagaram a primeira parcela, conta Mônica, filha do casal. Minha mãe comprou o fogão dos sonhos, tadinha! Tinha divido em 10 vezes, foi embora!”.

Dirceu venceu um câncer no intestino há 4 anos e, segundo a esposa, o tratamento lhe rendeu a perda da visão de um dos olhos, e frisa: “o colírio é muito caro!”. Já velho, seu corpo o trai. “Quando ele cisma trabalhar, ele sofre muito com dor”, conta a companheira. Enquanto isso, “resta esperar”.

Adão e Francisca Gonçalves são casados e moram em Cidreira. Assim como o vizinho Dirceu, perderam tudo. Da casa, sobraram apenas alguns detalhes que a lama não cobriu.

Pelo quintal, animais mortos já causam mal cheiro. Entre eles, o fusca azul da família que foi arrastado com a força do barro. “Nosso carrinho era tudo pra nós. Temos um filho doente, ele tá em Mariana, e o carro a gente usava toda semana pra levá-lo ao ponto e buscar”, lamenta, Adão. Das suas convicções após a tragédia, uma delas ele insiste em dizer: “o próprio homem que fez isso com nós, por causa da ganância por dinheiro!”.

Maria da Penha de Castro, 55 anos, mora no Sítio do Moinho, o lugar fica às margens do Rio Gualacho. Ela ficou sabendo do que estava por vir por familiares e amigos, às 15h. “Como pediram pra não ficarmos em casa, ficamos lá no meio do pasto. Ouvíamos a zueira a horas”, conta, se lembrando de que já se tinha dimensão do que viria antes mesmo de chegar. Abaixo, o depoimento de sua filha, Angélica Souza:

Zilmar Marcelo Cota e Vitor José Cota moram em Cidreira, são irmãos e produtores rurais. Zilmar perdeu tudo que tinha. Vitor, as pastagens e plantações e, devido à falta de luz e acesso fácil a sua fazenda, tem sido obrigado a jogar, diariamente, 200 litros de leite fora.

Outros depoimentos podem ser assistidos aqui.

Dei lugar aos vídeos neste post porque entendo que eu jamais conseguiria expressar a dor e a realidade de cada um dos entrevistados. Entre as vítimas, o que se guarda, acima de tudo, é o agradecimento pela vida, mas isso deixo para um deles dizer. Com a palavra, Antônio Marcos: