“O PODER NÃO ESTÁ NA CADEIRA DE UM CONGRESSISTA, MAS NAS RUAS”

[TEXTO ORIGINAL]

O ativista Oscar Oliveira, 59 anos, foi um dos integrantes da Coordenadora da Água, movimento que originou uma das lutas sociais mais importantes da história moderna da Bolívia, a Guerra da Água (2000), que fez aniversário neste mês de abril. O movimento, que teve a participação de nomes importantes do cenário político boliviano, como o então sindicalista Evo Morales, impediu que se privatizasse a água de Cochabamba. Oliveira foi líder do maior sindicato nacional, o Federación de Trabajadores Fabriles de Cochabamba, na década de 1990, mesma época em que Evo era líder do sindicato dos cocaleros. Juntos, participaram também da Coordenadora do Gás (Guerra do Gás, 2003) e várias outras manifestações sociais por quase dez anos.

Em 2006, quando Evo chegou à presidência, convidou o companheiro de luta para ser seu ministro do Trabalho. Mas Oliveira recusou o convite e vive até hoje como ativista de movimentos de base. “Considero que o poder, para mudar nossa vida, não está na cadeira de um congressista, mas nas ruas”, acredita. Hoje, dá assistência a crianças, filhos de campesinos em escolas rurais, apoiando processos produtivos e organizativos entre as escolas e as comunidades locais. Ao relembrar a vitória da Guerra da Água e analisar o quadro político atual da Bolívia, afirma: “ganhamos, mas perdemos”.

A entrevista a seguir foi feita em Morellos, México, durante uma palestra que o ativista dá todos os anos para jovens jornalistas e líderes de movimentos sociais de todo o mundo. O evento faz parte de uma escola autônoma que debate “como mudar o mundo” por meio da força organizada dos povos, escola em que Oliveira é professor desde 2005.

Fórum – Quando começou o seu envolvimento com lutas e causas sociais?

Oscar Oliveira – Acredito que a sociedade sempre está em movimento, mais do que movimentos sociais organizados. Vivo em um país que está constantemente em resistência civil, não somente pelos bens materiais, mas pelo bem da voz das pessoas e da dignidade humana… Mas comecei a questionar a sociedade boliviana quando morreu meu melhor amigo por uma bala perdida. Nós tínhamos 9 anos e estávamos na escola. Depois desse episódio, percebi que vivia em um cenário caótico. Lembro ainda de quando minha mãe, para sustentar a família pobre e de muitos filhos, cortou o cabelo grande que tinha por anos para vendê-lo em troca de comida.

Um segundo momento foi quando comecei a trabalhar em fábricas, aos 16 anos. Lá, tive contato com o sindicato dos trabalhadores e trabalhadoras. A partir daí, fui adquirindo certos valores e uma cultura comum à classe operária. Aprendi a pensar a longo prazo, em como ser disciplinado, a analisar quais são os obstáculos, a ter uma estratégia de ação e organização a qual antes não tinha consciência. Aprendi a importância de fazer a divisão de trabalho de acordo com a capacidade e sabedoria de cada indivíduo. Depois tive a oportunidade de fazer parte de movimentos de comunidades indígenas e campesinas na Bolívia.

Fórum – Como nasceu o movimento que resultou na Guerra da Água de Cochabamba?

Oliveira – O modelo vigente em 2000 no país era o da exploração do capital e monopólio do poder. Dos movimentos indígenas e campesinos, que sempre existiram na Bolívia, nasceu algo em comum a todos eles: a bandeira de luta contra a privatização dos bens nacionais, sobressaindo-se o tema da privatização da água em Cochabamba. A importância da Guerra da Água não foi somente recuperar o recurso natural como um bem do povo, mas houve uma dimensão política, econômica e organizacional que serviu de inspiração a muitos outros movimentos do período na Bolívia. Nós de Cochabamba demonstramos que era possível organizar e derrotar inimigos muito poderosos, como bancos, empresas internacionais, partidos políticos e demais instrumentos de repressão do Estado, como o Exército e a polícia.

A experiência em estratégias de resistência civil que os povos indígenas adquiriram em anos de repressão foi o fator principal. Tivemos que aprender a sobreviver na Bolívia, mesmo que poucas vezes tenhamos conseguido uma vitória de fato. Além disso, tanto na Bolívia como em outras partes do mundo, o capital nos havia colocado contra a parede de uma tal maneira que não tínhamos mais para onde retroceder. Tínhamos duas alternativas: avançar ou morrer. Decidimos avançar, mesmo sabendo que poderíamos morrer, porque nossas únicas armas para frear a exploração sempre foram nossos próprios corpos.

A interação entre as diversas bases do movimento também foi fundamental: associações de moradores, bases campesinas, comerciantes e os sindicatos estavam alinhados. O contexto social foi outro ponto positivo: o mundo moderno nos deu ferramentas para nos comunicar mais depressa e com mais gente. Hoje não tem como fazer um movimento sem pensar: como vou difundir essa informação? Como vou fazer visível meu movimento e meus inimigos ao resto do mundo?

Fórum – Quais são essas ferramentas do mundo moderno à disposição das lutas sociais?

Oliveira – Os instrumentos da internet, como o Facebook, são indispensáveis na estratégia de comunicação. Em 2000, não existiam as redes sociais, mas a internet nos ajudou muito. Lembro que a notícia da Guerra da Água de Cochabamba chegou à Islândia. O povo de lá fez um ato simbólico, que também chegou à Bolívia por meio da internet e que nos deu muita força: os trabalhadores finlandeses foram ao consulado boliviano no país e jogaram água no prédio com um carro de bombeiros. Foi muito simbólico receber um ato de solidariedade de um povo que não fala nossa língua e que está do outro lado do planeta. Esta rede de solidariedade mundial só é possível pelas ferramentas da internet. Na Guerra da Água, soubemos casar a comunicação básica do de boca em boca com a virtual para criarmos um grande processo deliberativo.

Fórum – Independente das ferramentas, quais pontos tornam um movimento social vitorioso?

Oliveira – Analisar o que está acontecendo política e socialmente no mundo; identificar quais são os pontos em comum que seu movimento tem com outros do mundo todo, pois as dificuldades geralmente são as mesmas em todo lugar; identificar os pontos em comum entre os vários inimigos que temos em nosso movimento e nos outros; se comunicar com esses outros movimentos para não nos sentirmos sozinhos.

Fórum – O que era a ideia do “Nós somos a coordenadora”, que aparece na Guerra da Água e, três anos depois, na Guerra do Gás?

Oliveira – Quanto mais a comunicação interna crescia entre todos os membros do movimento, mais sentíamos a necessidade de criar uma organização de liderança. Precisávamos estar informados e unidos em torno de uma proposta concreta, mas queríamos uma forma organizativa não convencional, em que não houvesse hierarquias verticais, com ordens de cima para baixo. Queríamos uma organização horizontal e participativa. Unidade, organização e mobilização eram as palavras do movimento. Assim, todos nós éramos coordenadores do movimento. Não tínhamos um único líder, pois todas as pessoas e em todas as partes do movimento poderiam assumir a liderança. Éramos pessoas de todas as idades, desde crianças, jovens, homens, mulheres até senhores e senhoras, e o poder estava com todas elas. Lembro-me de um dia em que prenderam todos os porta-vozes da Coordenadora daquele dia. Para a surpresa do Estado, declaramos: “que má sorte terem prendido esses membros. Mas o movimento continua, porque todos somos a Coordenadora”. E o movimento continuou, com mais força, inclusive.

Fórum – O presidente Evo Morales assume em 2006 com a esperança de mudança muito forte entre seus eleitores. As manifestações populares não acabaram, contudo. Como você avalia quais são as dificuldades de se manifestar popularmente na Bolívia de hoje?

Oliveira – Os governos anteriores a Evo tinham leis que criminalizavam os protestos sociais. Essas leis não prosperaram, obviamente. As repressões hoje são feitas de outra maneira, porém, de forma mais sutil: colocar barricadas nas ruas e cercar manifestantes. Eu diria que no governo de Morales estão se estabelecendo normas que penalizam as manifestações. Em 2009, por exemplo, o governo propôs um código de leis trabalhistas novo estabelecendo a possibilidade de serem presos dirigentes sindicais que impedissem o ingresso de trabalhadores que não concordassem com greves. A proposta não virou realidade porque os trabalhadores se manifestaram.

A Lei de Mineração, que estão querendo aprovar, é outro exemplo. Ela estabelece prisão para grupos ou comunidades contrários à extração de minérios em certas regiões. Há também perseguição, não somente aos opositores de direita do governo, mas também aos que criticam e questionam as políticas públicas perante o aparato judicial. Existem muitos opositores na Bolívia, hoje, respondendo processos… Algumas semanas atrás, Morales pediu desculpas pela atitude que estava tendo com os cocaleros [camponeses plantadores de coca que defendem a folha como símbolo da sua cultura, do qual Evo foi líder do sindicato] de ter bloqueado o país na época de luta desses camponeses. Ele disse que não se dava conta que o bloqueio afetava tanto a economia. Essa atitude foi, para mim, a prova de como o governo mudou sua visão perante a política social desde quando assumiu a presidência.

Em 2011, eu e mais 24 companheiros, que nos manifestávamos contra a construção de uma estrada que passaria na floresta amazônica, fomos acusados de tentar matar o chanceler da Bolívia. Estamos respondendo um processo até hoje. Digo, como um governo que sabe que isso não é certo, pode inventar um caso desse contra 25 dirigentes sociais só porque se opuseram a um modelo de desenvolvimento adotado pelo Estado?

Fórum – É um paradoxo para um governo progressista…

Oliveira – Sim, e esse paradoxo temos visto em quase todos os governos sul-americanos modernos. As mesmas ações do Estado com seus manifestantes têm ocorrido no Equador, no Brasil, em 2013, e no Chile segue vigente a Lei Antiterrorismo de Pinochet, por exemplo. Creio que é uma legitimação da criminalização dos protestos sociais sul-americanos frente à incapacidade desses governos em estabelecer diálogo com o povo.

Fórum – Então, o que mudou desde o que se viveu no contexto da Guerra da Água, em 2000, para os movimentos sociais contemporâneos?

Oliveira – Basicamente, o que mudou é que naquele tempo tínhamos muito claro quem era o inimigo: o capital internacional e os mesmos políticos que sempre estavam no poder. Hoje, as coisas estão um tanto complicadas e distorcidas. Temos um governo que veio da gente, dos sindicatos. Ele fala a nossa linguagem, conhece as nossas táticas de ação, sabe onde está o poder e por isso sabe manipular os espaços deliberativos. Toda a energia que vimos em movimentos como a Guerra da Água, que contagiava todas as pessoas, está acabada. Não existe mais essa força social que possa redefinir um horizonte, que seja capaz de recriar um espaço para discutirmos um problema social do país e criar agendas sociais. Os grandes movimentos da Bolívia de hoje foram captados pelo governo. O aparato estatal segue em uma estrutura vertical de poder, que está nas mãos de poucos, com uma Constituição criminal, repressora e autoritária… Os possíveis espaços de discussão não existem mais. Não há uma participação efetiva da população na tomada de decisões.

O mais grave para mim é a distinção ideológica que se tem feito: ou se está a favor do governo, ou se é um reacionário ou direitista. Como se existisse um único partido político e todo o resto fosse pró-capitalista financiado pela Embaixada dos EUA. Zerou a possibilidade de autonomia, de uma voz própria dos movimentos, sem que haja uma pressão ou gerência por parte do Estado. Isso sem falar no modelo econômico, baseado no extrativismo da nossa mineração, apoiado e financiado pelo Banco Mundial, uma instituição que sabemos que não é nem um pouco generosa. Hoje, o Banco Mundial aplaude as políticas sociais do governo na Bolívia.

Fórum – Morales veio do meio popular de manifestações sociais e sindicais da mesma época que você. Qual seu contato com ele hoje, tanto na condição de ex-líder sindical e de ex-companheiro de resistência civil?

Oliveira – Bom, eu e Evo nos conhecemos desde o ano 84 ou 85. A primeira vez que nos encontramos não foi em um momento muito agradável (risos). Era uma mobilização de cocaleros e Evo questionou o sindicato do qual eu fazia parte sobre número de trabalhadores que entraram na marcha com a gente. Para ele, deveríamos ter mobilizado uma quantidade maior. Tivemos uma discussão no meio da rua. Acredito que na ocasião ele desconhecia toda a história do movimento sindical e foi mais uma discussão ideológica de ambos os lados.

Depois desse dia, tivemos a oportunidade de trabalhar juntos nos anos 1990, quando o sindicato dos cocaleros se mudou para o prédio do sindicato que eu presidia, o Federación de Trabajadores Fabriles. A partir de 1996, fizemos muitas marchas juntos em proteção à folha de coca, a dignidade de trabalhadores e sobre a situação dos campesinos na Bolívia. Fizemos quatro marchas simbólicas em La Paz, em que caminhamos por 400 quilômetros. Estive junto de Evo até o ano de 2005, quando ele se juntou com outros movimentos sociais importantes na Bolívia, como o movimento indígena, e foi capaz de fazer uma grande mudança na política do país. Também estabelecemos vários espaços de luta e ação juntos, como a Coordenadora da Água e Coordenadora do Gás [Guerra do Gás, 2003].

Em 2006, no seu primeiro mandato, Evo me convidou para ser seu ministro do Trabalho. Não aceitei porque considero que o poder, para mudar nossa vida, não está na cadeira de um congressista, mas nas ruas. Nestes oito anos que se seguiram, tive poucas oportunidades de falar pessoalmente com Evo. A última vez foi um ano atrás, para tratar da liberdade de um companheiro sindical que está preso há mais de dois anos por se opor à estatização de uma empresa social, um ex-companheiro do próprio presidente que lutou conosco por 30 anos…

Se acho que Evo irá se reeleger nas eleições deste ano? Acho que sim, e também não quero que o governo fascista de antes volte ao poder. Mas o que temos que discutir, daqui em diante, na Bolívia e nos demais países vizinhos, é a crise de representatividade que o povo sofre. A luta não é mais entre direita e esquerda ou entre partidos políticos, é do povo e das lutas autônomas. Como diz uma escritora mexicana, não somos mais Estados-Nações, somos Estados-Corporações. Temos que pensar de maneira coletiva para mudar as coisas.

Cinco passos das ações vitoriosas da Guerra da Água

Passo 1 – Associações comunitárias colocaram bandeiras da Bolívia na entrada de suas casas. Aos poucos, as bandeiras começaram a chamar a atenção de moradores e turistas, que batiam nas portas para perguntarem o porquê do símbolo nacional em suas casas.

Passo 2 – Os moradores, preparados para a pergunta, respondiam que a água havia sido privatizada e explicavam como essa ação interferia de maneira negativa na vida de milhares de pessoas.

Passo 3 – Ao difundir de boca em boca a informação da água privatizada, o movimento cresceu por toda parte de Cochabamba. Mais famílias aderiram. Decidiu-se então que ninguém pagaria pela conta de água.

Passo 4 – Com as faturas que não paravam de chegar, o movimento fez uma grande fogueira na praça central.

Passo 5 – A situação seguiu assim por cinco meses. Antes que a polícia pudesse entrar na casa dos moradores, esses construíram barricadas com móveis, brinquedos e paus nas portas e portões. Protegidos, não saíram de casa por oito dias. No nono dia, a água em Cochabamba deixou de ser privatizada.

Amigos, amigos, negócios à parte. É o recado a Evo Morales

[TEXTO ORIGINAL]

26/01/2006

CARACAS – Antes da mais nada, muito sangue indígena e camponês manchou os paralelepípedos das ruas de Cochabamba, La Paz e El Alto antes do pleito histórico que elegeu Evo Morales presidente da Bolívia. Tombaram bolivianos na luta contra a privatização da água em Cochabamba, em 2000, em 2003 na luta contra a taxação do salário mínimo, sugerida pelo FMI e que acabou derrubada por um levante de dois dias e um saldo de 30 mortos, e na guerra contra a privatização do gás, que custou 100 vidas. Houve um levante contra a multinacional Suez, em El Alto, que levou ao rompimento do contrato de privatização da água no ano passado, e dois foram os presidentes derrubados pela pressão popular.

Liderança da guerra da água de 2000 em Cochabamba, Oscar Oliveira fez questão de relembrar estes fatos em um debate quarta-feira (25) sobre a vitória de Evo, ao enviar um recado não só aos entusiastas como ao próprio companheiro e agora chefe de Estado: não foi um presidente que foi eleito, mas sim um projeto político. Que está acima de qualquer individualidade ou representação institucional.

A sinalização de que os movimentos sociais mais organizados da Bolívia – inclusive aqueles em cujas fileiras Evo se formou liderança nacional em um passado recente – devem se manter autônomos e independentes em relação ao governo é um aviso claro de que o presidente está em um ambiente político no qual qualquer deslize pode transformar a comemoração dos movimentos sociais por sua vitória em novo período de instabilidades e, por que não, gerar um outro levante contra o governo.

No cerne deste posicionamento, explica Oliveira, está a preocupação de que não se repita na Bolívia o que aconteceu basicamente no Equador com Lucio Gutierrez – apoiado e derrubado pelo movimento indígena -, no Brasil com Lula e no Uruguai com Tabaré Vasquez.

“A principal reflexão que devemos fazer é onde estão nos levando as mudança de governos. Se isso mudou a vida das pessoas, se combateu o neoliberalismo, se aumentou a participação popular. Temos que avaliar isso. Se não aconteceu, é só reformismo que mantém a estrutura de exploração. Nós na Bolívia não vamos aceitar simples reformas. Vamos apoiar o governo enquanto fizer transformações. Não queremos ser uma Argentina, um Brasil ou um Uruguai onde só ha desânimo entre as organizações sociais”, avisa Oliveira.

A prova de fogo para Evo está bem clara: terá que nacionalizar os hidrocarburos e convocar uma assembléia constituinte nos próximos cinco meses. “E não aceitamos esse discurso de nacionalização responsável, de que há multinacionais bandidas e não bandidas. Todas são, inclusive a Petrobrás, que nos desculpem nossos amigos brasileiros”, afirma Oliveira.

Contrato de casamento
A semelhança do momento boliviano com o que o Brasil viveu em 2002 com a eleição de Lula não está apenas na origem dos dois presidentes, ambos advindos do movimento popular, ou na comoção internacional que causaram. A mesma responsabilidade que a esquerda brasileira outorgou a Lula na época é dada agora a Evo pelo movimento indígena. “Evo é um companheiro de rua e rebeldia, e se fracassar ninguém mais acreditará em nós”, pondera Humberto Cholango, líder da Confederação das Nações Indígenas do Equador (Conaie). “Nesse momento, a responsabilidade é da Bolívia e de seus movimentos, que devem ser fiscalizadores de seu governo”.

Segundo Cholango, a “Evomania” que vem tomando conta da região andina já está suscitando no Equador a procura por um próprio candidato indígena, mas ele alerta: não é um presidente indígena que vai resolver, é o projeto político. “Descolonizar um país é refundar e reestruturar um novo sistema político, econômico e social. E temos que ter em conta que a oligarquia não estará disposta a perder”.

Román Loayza, líder da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia, também reforça a perspectiva de que está em jogo, na Bolívia, a implementação de um projeto gestionado pelos movimentos sociais por anos. A consolidação deste processo, defende Loayza, será acima de tudo a nova assembléia constituinte, já aprovada pelo Congresso. “É uma questão de vida ou morte, definirá como se administrará o Estado e seus recurso naturais. E não acho que ‘el hermano’ Evo Morales nos trairá. Com o que viu com seus olhos e escutou com seus ouvidos não nos trairá”.

Inquietações
A forma como vão se relacionar os movimentos sociais com o governo ainda é um fator preocupante para Oscar Oliveira. Convidado pelo presidente eleito para assumir o ministério do Trabalho, declinou em nome de uma autonomia imprescindível, em sua avaliação, para validar o projeto político que sustentou a eleição de Evo. A “cooptação” de outras lideranças pelo governo, principalmente em El Auto, para ele é um fator preocupante, assim como preocupam recentes ruídos no diálogo dos movimentos com o governo e uma aparente relutância em chamar os atores sociais para o debate sobre as decisões governamentais.
“Estou muito preocupado, e não queria expressar isso neste Fórum e diante de tanta gente tão esperançosa, mas o grande perigo que vejo no governo de Evo Morales é a intenção demonstrada nas últimas semanas de cooptar todos os movimentos. Se perdermos a autonomia, essa capacidade inventiva, de proposição, de mobilização autônoma, para construir nossos próprios espaços políticos às margens do aparato estatal, vejo um processo muito perigoso para Evo Morales. Essa capacidade do movimento indígena e camponês de se mobilizar é a nossa grande força para a construção de um novo projeto, que, creio, é irreversível. Se alguém quiser contestar essa força, vai haver novamente levantes e mortes”.

Oliveira também detectou atritos com o próprio MAS, que estaria se opondo fortemente à idéia de realização de uma assembléia dos movimentos sociais em fevereiro para preparar e discutir a Assembléia Constituinte. “Não vamos esperar sentados seis meses à espera da Constituinte. Estamos sentindo um certo autoritarismo por parte do governo, uma falta de abertura para o diálogo, que não nos chega com um bom sinal. O que queremos dizer é que há um perigo de fracasso se Evo não realizar todas as mudanças estruturais nesses primeiros meses de governo, quando tem todo o apoio popular, uma popularidade que chega a 70%. Essa é nossa demanda”.

Bolívia: Tipnis no meio do caminho

[TEXTO ORIGINAL]

“Acredito que o Tipnis é a definição do presente e do futuro, não apenas da Bolívia, mas de uma grande parte dos povos que lutam para que a humanidade não se destrua”

Talvez a melhor maneira de apresentar Oscar Oliveira seja lembrando que, em 2000, ele foi um dos articuladores da Guerra da Água. No episódio, indígenas, camponeses e trabalhadores urbanos conseguiram desprivatizar o serviço de abastecimento de água na cidade de Cochabamba. Junto com a Guerra do Gás, a Guerra da Água abalou a política boliviana no começo do século e mudou a correlação de forças sociais do país. Como consequência, anos depois, Evo Morales seria eleito presidente.

Naquele então, Oscar, como ele mesmo diz, era apenas um operário. Mas, depois de lutar contra a ganância empresarial sobre um recurso que, acredita, é um direito humano, Oscar passou a ser também um lutador social. Já participou de debates ao lado do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no Fórum Social Mundial de 2005, e foi convidado pelo presidente Evo Morales para assumir o Ministério da Água. Negou-se, preferindo continuar na militância popular. Pode ser que já tinha previsto o que aconteceria mais para frente.

Então apoiado e idolatrado pela população, hoje Evo Morales se encontra numa delicada situação política. O motivo é a estrada que o líder aymará quer construir sobre a Terra Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis). Oscar Oliveira está participando da resistência — que ganhou adeptos após a violenta repressão da polícia contra a marcha indígena que se desloca à capital, La Paz — e conversou conosco a respeito. Em poucas palavras, ele toca nos pontos nevrálgicos que rodeiam o projeto: IIRSA, cocaleros, destruição ambiental e modelos de desenvolvimento. Sem esquecer, claro, a incoerência do discurso oficial.

Quais os interesses em disputa no Tipnis? Existem cocaleros na região? São aliados ou inimigos políticos dos indígenas?

Sim, existe uma invasão cocalera na região. Aliás, os cocaleros do Tipnis estão pressionando Evo Morales para legalizar seus assentamentos, que obviamente são ilegais, pois há várias leis que protegem a conservação do parque — que também é um território indígena. Tipnis quer dizer Terra Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure, porque seus limites geográficos estão definidos por dois rios: o rio Isiboro e o rio Sécure. É uma reserva protegida.

Além disso, a região — o coração do Tipnis, que seria atravessado pelo trecho 2 da rodovia — é rico em gás, petróleo, madeira e outros recursos naturais que já foram loteados por empresas brasileiras, como a Petrobras, e a francesa Total. O Brasil está muito interessado numa estrada para transportar sua produção ao continente asiático, principalmente à China.

Estes projetos formam parte da IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana). Você pode procurar na internet e ver quantos projetos de saqueio existem para atender os interesses de grandes transnacionais e que estão sendo executados em parceria com os governos “progressistas” da Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai e Argentina. Existe um banco brasileiro com negócios aqui, mas que também tem megaprojetos no Equador e Peru. Esse banco é a ponta de lança para os interesses que chamamos “novo imperialismo brasileiro”, ao qual o governo boliviano se subordinou totalmente.

Se o governo continua incentivando o cultivo da folha de coca no Tipnis, esta coca irá ao narcotráfico e haverá uma depredação total do território. Até porque já existe um excedente de produção. Atualmente, o número de cocaleros na região é 1,5 vezes maior que o de indígenas — ou seja, já são 9 mil. A coca está sendo produzida com agrotóxicos para baratear os custos de mão de obra na colheita. Em cinco anos, os solos se empobrecem e é necessário conseguir novas terras. Por isso, os cocaleros querem ocupar o Tipnis. As consequências serão terríveis, não apenas para os indígenas, mas também para a biodiversidade.

Quais os argumentos a favor e contra a construção da rodovia passando pelo Tipnis?

Acredito que, no fundo, os argumentos favoráveis e contrários à construção desta estrada no Tipnis deu visibilidade e confrontou duas concepções diferentes do que se conhece como “desenvolvimento” ou bom-viver, um dos conceitos pregados pelo governo Evo Morales. Existe um discurso demagógico — como o do presidente — que assume a defesa dos direitos da Mãe Terra em fóruns internacionais, mas dentro do país faz o contrário, entregando nosso território e suas riquezas à voracidade das transnacionais para que continuem saqueando nossos recursos, como fazem desde a época da Colônia, seguindo um modelo de destruição. Existem, também, as exigência de nossos povos em estabelecer um novo modelo econômico e social, que talvez ainda não esteja estabelecido com nitidez, mas temos certeza de que precisamos de algo diferente do que existia com os governos neoliberais.

Então, acredito que o Tipnis é a definição do presente e do futuro, não apenas da Bolívia, mas de uma grande parte dos povos que lutam para que a humanidade não se destrua, que a Pacha Mama não seja ferida de morte. Aqui dizemos: a Pacha Mama é eterna, os Estados e governos, não. Isso é verdade. Ou você é filho da Terra, e vive, ou é filho do sistema, e morre. A luta contra essa estrada já possui uma dimensão de vida, que vai além do econômico, político, financeiro ou técnico.

Como estão as manifestações em Cochabamba? Quais setores da sociedade estão mais ativos?

Acredito que, em Cochabamba e em todo o país, começaram a mobilizar-se setores da classe média, sobre tudo jovens, não apenas para apoiar os indígenas, mas contra a soberbia e o desprezo que o governo tem dedicado às demandas e iniciativas de autonomia. Isso é grave. Há também personalidades importantes na luta, como Alejandro Almaraz, que até um ano e meio atrás era vice-ministro de Terras do governo Evo Morales.

PS. Este post passou por uma correção no dia 17/10. Ao contrário do que informava anteriormente, a Guerra da Água aconteceu em 2000 — e não em 2003.