O extrativismo como projeto de sociedade

161019-navios

[TEXTO ORIGINAL]

À medida em que o extrativismo e os processos políticos assentados neste modelo começam a mostrar rachaduras, pela abrupta queda dos preços das commodities, estamos em melhores condições para compreender suas características profundas e as limitações das análises anteriores. Uma delas, e devemos assumir a autocrítica em primeira pessoa, consiste em ter mirado primordialmente o aspecto ambiental, e depredador da natureza, deste modelo de conversão de bens comuns em mercadorias.

Agora podemos dar um passo a mais, algo que já fizeram os zapatistas há mais de uma década, quando definiram este modelo como quarta guerra mundial. O outro erro de vulto foi considerar o extrativismo como modelo econômico, seguindo o conceito de acumulação por desapropriação de David Harvey. Em suma, ao erro de ter centrado as críticas – de modo quase exclusivo – na questão ambiental, somou-se o do economicismo, de que adoecemos muitos dos formadosno marxismo.

O capitalismo não é uma economia, mas um tipo de sociedade (ou formação social), apesar de existir, evidentemente, uma economia capitalista. Com o extrativismo sucede algo similar. Se a economia capitalista é acumulação por extração de mais-valia (reprodução ampliada do capital), a sociedade capitalista produziu a separação da esfera econômica da política. A economia extrativista — de conquista, roubo e pilhagem — é apenas um aspecto de uma sociedade extrativista, ou uma formação social extrativista, que é a característica do capitalismo na fase em que o capital financeiro é dominante.

Para além dos termos, interessa sublinhar que vivemos numa sociedade cuja cultura dominante é de apropriação e roubo. Por que enfatizar a existência, hoje, de uma cultura extrativista — diferente da que foi hegemônica em outros períodos do capitalismo? Porque nos ajuda a compreender em que tipo de mundo vivemos e as características do modelo contra o qual nos rebelamos.

Para compreender melhor em que consiste essa cultura, seria necessário compará-la com a cultura hegemônica nos períodos anteriores. Por exemplo, durante o predomínio da indústria e do Estado desenvolvimentista. Naquela época, os trabalhadores manuais da indústria sentiam orgulho de seu oficio por serem produtores de riqueza social (embora uma parte substancial fosse apropriada pelo patrão). Este orgulho tomava forma de consciência de classe quando se identificavam os interesses próprios por meio da resistência aos exploradores. Não era o orgulho tolo de quem acredita ser superior, mas o produto do lugar que os operários ocupavam na sociedade; lugar que não haviam herdado, mas construído por meio de uma luta longa e paciente.

Entre meados do século 19 e as primeiras décadas do 20, os operários – e às vezes as operárias – formavam a si mesmos à luz de velas, logo após rígidas jornadas de 12 de trabalho, criando espaços próprios de encontro e ócio (escolas, teatros, bibliotecas, cooperativas, sindicatos). Instituíram formas de vida com base na ajuda mútua, criaram maravilhas como a Comuna de Paris e a Revolução de Outubro, além de uma larga série de insurreições urbanas. Tinham motivos para ter a autoestima elevada.

Na vida cotidiana, a cultura operária girava em torno do trabalho, da austeridade por convicção, da poupança como norma da vida e da solidariedade como religião. O macacão de trabalho e o capacete eram sinais de identidade que circulavam em seus bairros, uma vez que não queriam vestir-se como os patrões. Tudo em suas vidas, desde a moradia até os hábitos, diferenciava-os dos exploradores. Essa cultura tinha traços opressores, como bem sabem as mulheres e os filhos dos operários industriais. Mas, era uma cultura própria, baseada no autocultivo de si mesmos, não na imitação de cima.

Esta longa explanação busca chegar a um ponto central: a cultura operária podia conectar com a emancipação. A cultura extrativista vai a contrapelo. Embora portasse elementos opressivos, aquela cultura continha aspectos valiosos, potencialmente anticapitalistas.

A cultura extrativista é o resultado da mutação gerada pelo neoliberalismo, montado no capital financeiro. O trabalho não tem o menor valor positivo; este lugar é ocupado agora pela pilhagem e suas faces auxiliares, o consumismo e a ostentação. Onde antes havia o orgulho por fazer, a cultura gira agora em torno da ostentação de marcas e modas. Enquanto os operários condenavam o roubo, por razões estritamente éticas, hoje festeja-se a rapina, mesmo que as vítimas sejam vizinhos, amigos e até a família.

Nem toda a sociedade nutre esta forma de viver, é claro. Mas são maneiras de viver que ganharam terreno em sociedades onde os jovens não têm emprego digno nem lugar, nem a possibilidade de construir um ofício trabalhando, nem de conseguir um mínimo ascenso social após anos de esforço. Não há nem memória daquele passado, o que é mais pernicioso, por violar a dignidade.

O extrativismo evaporou os sujeitos, porque na chamada “produção” eles já não estão presente. Inclusive na esfera da reprodução da vida, o sistema esforça-se por mercantilizar tudo — do nascimento à alimentação, arremetendo contra o papel central das mulheres nesses espaços. Aí está a importância das micro-resistências: os bairros, os territórios populares, as praças, as feiras de troca, as festas de rua, os  espaços coletivos de qualquer tipo tipo. Elas alimentam as grandes rebeliões.

Se é certo que a cultura hegemônica do extrativismo obstrui os processos emancipatórios, a organização e as resistências, estamos diante da necessidade imperiosa de trabalhar o contrapeso dessa cultura. O cimento do novo mundo está aí, na vida cotidiana. Por isso, o empenho nos trabalhos coletivos, em todas as resistênciais. Esses trabalhos moldam uma cultura nova, que resgata o melhor de la cultura operária e tenta aplacar as opressões.

FAO: pastoreio causou 80% do desflorestamento no Brasil entre 1990-2005

Criação de gado na região Norte. Foto: EBC

[TEXTO ORIGINAL]

Mais de 80% do desflorestamento ocorrido no Brasil no período de 1990 a 2005 foi associado à conversão de terras em terrenos de pastoreio, mostrou relatório divulgado nesta segunda-feira (18) pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), denominado “O estado das florestas no mundo”.

A participação do pastoreio no desflorestamento é maior no Brasil do que em outros seis países da região analisados no mesmo período: Argentina, Bolívia, Paraguai, Venezuela, Colômbia e Peru, de acordo com a FAO.

Segundo a agência da ONU, além do pastoreio, o cultivo comercial foi responsável por cerca de 10% do desflorestamento no Brasil no período analisado, enquanto outras formas de exploração da terra, cultivo em pequena escala, agricultura mista, infraestrutura responderam juntos pelos demais 10%.

Na análise dos sete países consolidados, o estudo apontou que 71% do desflorestamento ocorreu devido ao aumento da demanda de pastos; 14% devido aos cultivos comerciais e menos de 2% devido à infraestrutura e à expansão urbana.

A expansão dos pastos causou a perda de ao menos um terço das florestas em seis dos países analisados. A exceção foi o Peru, onde o aumento das terras cultiváveis em pequena escala foi o fator dominante para 41% do desflorestamento.

Na Argentina, a expansão dos pastos foi responsável por 45% do desflorestamento, enquanto a expansão de terras cultiváveis comerciais respondeu por mais de 43%.

Agricultura comercial

O estudo concluiu que a agricultura comercial é a principal causadora do desflorestamento na América Latina.

Particularmente na Amazônia, a produção do agronegócio para os mercados internacionais foi o principal fator de desflorestamento, fruto de práticas como o pastoreio extensivo, o cultivo de soja e as plantações de coqueiro-de-dendê.

“A agricultura comercial não pode continuar crescendo à custa das florestas e dos recursos naturais da região”, disse Jorge Mexa, oficial florestal da FAO.

Meza destacou que políticas como a vinculação de incentivos agrícolas a critérios ambientais, a adoção de práticas silvipastoris — combinação intencional de árvores, pastagem e gado numa mesma área e manejados de forma integrada —, o pagamento por serviços ambientais e a recuperação dos pastos degradados podem evitar a ampliação da fronteira agrícola em detrimento das florestas.

Apesar de o desflorestamento continuar em alta na região, em 2015 sua taxa se reduziu em quase 50% quando comparada a 1990. Esta redução também foi significativa na Amazônia, fruto de políticas de desenvolvimento sustentável impulsionadas pelos países que dividem a bacia amazônica.

Segundo o documento da FAO, desde 1990 mais de 20 países melhoraram sua segurança alimentar e mantiveram ou aumentaram sua cobertura florestal, demonstrando que não é necessário cortar árvores para produzir mais alimentos.

Vincular os subsídios agrícolas às normas ambientais

Em vários países, as subvenções agrícolas em grande escala fomentaram o desflorestamento, já que aumentam a rentabilidade da produção agropecuária e geram pressão para ampliar a fronteira agrícola. Exemplos disso na região são o pastoreio extensivo e a produção de soja em escala industrial.

Uma opção de política para evitar esses danos, segundo a FAO, é vincular os incentivos e mecanismos de fomento público recebidos pela agricultura comercial ao cumprimento de normas ambientais.

O relatório destacou que uma reforma desse tipo ocorreu no Brasil, que passou a vincular os subsídios ao crédito rural com critérios ambientais, evitando a perda de 270 mil hectares de florestas que haviam sido destruídas para aumentar a produção de carne bovina.

A iniciativa brasileira “Bolsa Verde” foi outro exemplo citado pela FAO: um programa de transferência condicionada que entrega recursos a milhares de famílias pobres em troca de manter a cobertura vegetal e gerir seus recursos naturais de forma sustentável.

Fiocruz mapeia a vulnerabilidade de municípios às mudanças climáticas

[TEXTO ORIGINAL]

RIO – Diz a antiga anedota que o clima na Amazônia só existem duas estações: a que chove o dia todo e a que chove todo dia. A verdade, claro, é muito mais complexa que isso, mas outro fato é que, de acordo com as principais projeções feitas até agora, a região será uma das que mais vai sofrer com o aquecimento global. Dependendo do cenário para a evolução das emissões mundiais dos gases do efeito estufa, em algumas áreas a expectativa é de que até o fim do século a temperatura média suba em cerca de sete graus Celsius, enquanto as precipitações podem se reduzir em mais de 40%, com longos períodos de estiagem que colocam em risco o delicado equilíbrio do bioma e, consequentemente, as populações que nele vivem.

E foi justamente em busca de dar uma dimensão humana a estes números das mudanças climáticas que uma equipe de pesquisadores coordenada por Ulisses Confalonieri, do Centro de Pesquisa René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte, cruzou os dados das previsões para o futuro do clima na região entre 2041 e 2070 com informações sobre a realidade social, econômica, ambiental e de saúde atual dos 62 municípios do estado do Amazonas para não só verificar o quão vulneráveis eles estão às possíveis alterações nos padrões do tempo como identificar quais são estas vulnerabilidades.

Segundo Confalonieri, o objetivo é ajudar os governos locais, estaduais e federal a priorizarem investimentos e melhor alocarem recursos em projetos que visem preparar os municípios às mudanças esperadas sobre três pilares: sua sensibilidade, que leva em conta fatores como pobreza, taxa de infecção por doenças associadas ao clima e situação demográfica (proporção de idosos na população, de famílias chefiadas por mulheres ou país muito jovens etc); sua exposição, que inclui o grau de preservação do ambiente e manutenção da cobertura vegetal e o histórico de eventos extremos, como secas ou inundações; e sua capacidade de resposta, ou seja, a qualidade da infraestrutura e instituições de cada município, como saneamento básico, acesso à água potável e a existência, ou não, de um departamento de Defesa Civil.

– A ideia deste índice de vulnerabilidade climática é guiar a tomada de decisões relativas a projetos e investimentos em políticas de adaptação às mudanças climáticas – diz Confalonieri, cujo grupo também vai publicar em breve resultados de levantamentos semelhantes para cinco outros estados: Espírito Santo, Pernambuco, Paraná, Maranhão e Mato Grosso do Sul. – Mas mais do que saber que município dentro de um determinado estado vai precisar de mais investimento e qual vai precisar de menos, os tomadores de decisão saberão também o porquê de alguns estarem em pior situação que outro, como se ele tem uma capacidade de resposta baixa por falta de infraestrutura ou tem uma exposição maior por ser mais sujeito a inundações para que se planeje sua proteção e se faça a prevenção dos efeitos dos eventos climáticos.

Aluna de doutorado no René Rachou e integrante da equipe responsável pelo estudo, Júlia Menezes destaca que o novo índice vai além dos indicadores de vulnerabilidade municipal já usualmente calculados pela Fiocruz hoje exatamente por incorporar uma dimensão climática à análise. Assim, por exemplo, se um município atualmente costuma enfrentar alagamentos e está preparado para isso, mas fica em uma região que no futuro do clima verá muito menos chuvas, os governos devem então investir adaptá-lo para um cenário de estiagem, e não de mais inundações.

– A mudança do clima é uma realidade e vai acontecer – lembra. – Construímos então uma ferramenta para que os governos saibam quais são suas deficiências de hoje em relação aos cenários futuros do clima, o que podem fazer para a população sofrer menos lá na frente. E como estas projeções são incertas, o melhor é se preparar.

 

FLORES E ESGOTOS

[texto original]

Empresa incubada na Inova-UFMG substitui estações mecanizadas por plantas que funcionam como purificadores da água

As andanças do biólogo André Baxter Barreto pelo exterior em busca de informações sobre a tecnologia wetlands construídos – em português, terras alagadas – podem contribuir para a popularização, no Brasil, de um sistema de tratamento de esgotos industriais e domésticos que reproduz, com uso da vegetação, o ambiente filtrante dos pântanos, prescindindo de energia elétrica, produtos químicos e maquinários.

“Após experiência em uma empresa internacional como gerente de projetos para construção de wetlands, escrevi um plano de negócio, submetido em novembro do ano passado à Inova, incubadora de empresas da UFMG”, relata André Baxter. Esse plano deu origem à empresa Wetlands Construídos, que tem o biólogo como gestor executivo e conta ainda com quatro profissionais das áreas de engenharia ambiental, engenharia de produção, arquitetura e urbanismo e química industrial. A meta é realizar a primeira venda ainda em 2015.

O pesquisador, que se especializou em Saneamento e Meio Ambiente pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG, onde concluirá o doutorado em 2016, enumera a ausência de odor, lodos e ruído como vantagens dos wetlands em relação às estações convencionais. A harmonia paisagística, no entanto, é o diferencial “mais interessante” do método, na avaliação de Baxter. “A incorporação de elementos de arte e paisagismo muda a visão da sociedade sobre saneamento ambiental, pois transforma aquela ETE desagradável em um ícone de marketing ambiental e sustentabilidade”, destaca o doutorando.

Desde 2006, André Baxter se dedica ao estudo dos wetlands, também conhecidas como Sistemas Alagados Construídos (SAC). Há dois anos, como atividade do seu doutorado-sanduíche, ele visitou o Centro Helmholtz para pesquisas ambientais (Alemanha) e a Universidade Boku (Áustria), onde estabeleceu contato com avançadas pesquisas sobre esses sistemas. Neste ano, também conheceu sistemas em escala real na França e na Inglaterra.

Engenharia

Segundo o empreendedor, os wetlands podem ser de escoamento horizontal, em que o líquido entra numa extremidade e sai na outra, ou vertical, em que o líquido se espalha na superfície e é drenado pelo fundo do tanque. As dimensões também variam conforme a demanda. “Primeiramente, escava-se um tanque raso em terra. O interior dessa bacia é impermeabilizado e preenchido com o meio suporte, composto de britas ou seixos. A vegetação é plantada nas britas, e as plantas se enraízam até a zona de água. Ali se forma um emaranhado de raízes e pedras, onde se adere uma comunidade microbiológica, que reproduz o ambiente dos pântanos. O efluente é purificado por essa biomassa, que degrada a matéria orgânica e remove seus nutrientes”, detalha o pesquisador.

Entre as espécies de macrófitas mais empregadas em wetlands, estão a taboa (Typha latifolia), o junco (Juncus effusus) e a cana de jardim (Canna x generalis). Essas plantas, junto com microrganismos, conseguem remover de 80% a 99% da matéria orgânica e sólidos em suspensão e até 40% de nitrogênio presentes no esgoto. Além dos efluentes domésticos e industriais, a tecnologia tem potencial para ser empregada no tratamento de chorume de aterros sanitários, no tratamento preliminar de águas para abastecimento e de águas de drenagem pluvial, entre outras aplicações.

A baixa necessidade de manutenção é outra vantagem do sistema wetland, já que depende apenas do serviço de jardinagem para podar as plantas, evitar a proliferação de pragas e ervas daninhas. “São também necessárias a limpeza rotineira da etapa de gradeamento, quando ocorre a remoção de sólidos grosseiros, e uma manutenção básica nas áreas de entorno”, diz André Baxter.

Segundo o biólogo, a tecnologia existe em alguns lugares do Brasil, como em condomínios na região Sul, mas seu potencial de crescimento é grande. Além de empreendimentos imobiliários e industriais, ele lista, entre os principais mercados para os wetlands, a atividade agrícola, em que se pode aproveitar a biomassa, colher o vegetal cultivado e irrigar plantações com a água de reúso. “Mas existem outras possibilidades. No entorno de Paris, conheci wetlands que recebem lodos orgânicos, os desidratam e os transformam em composto orgânico após longos períodos de estabilização”, exemplifica.

Desvantagem

O pesquisador admite que a necessidade de áreas com dimensões relativamente elevadas – 1 a 2 metros quadrados/habitante – pode dificultar a instalação dos wetlands em comparação com as estações compactas. No caso de um condomínio residencial, projetado para 500 pessoas e com 100 lotes, André Baxter calcula que a construção de um wetland demandaria área equivalente a um lote. “Em Belo Horizonte, por exemplo, não há espaço disponível para tratar o esgoto da cidade inteira. Embora não seja a solução definitiva para todas as situações, o sistema é alternativa econômica e sustentável, principalmente em um cenário de crise hídrica”, sustenta o doutorando.

SOUS LE PAVE, A FLORESTA

[texto original]

árvore pata de vaca Bauhinia - árvores de São Paulo 1 - foto de Ricardo Cardim - direitos reservados

Árvore comum na arborização de São Paulo, e geralmente exigente quanto as condições de solo, uma pata-de-vaca (Bauhinia blakeana) cresceu na junta de dilatação do movimentado viaduto de acesso da Marginal do Rio Pinheiros a Avenida dos Bandeirantes, Zona Sul de São Paulo.

Não conheço outro exemplar da espécie vivendo “nas alturas” como esse, e ainda mais adulto e florescendo. Essa espécie é originária de Hong-Kong e suas flores lembram orquídeas, sendo muito ornamentais. Na Mata Atlântica temos uma árvore do mesmo gênero, a B. forticata, de flores menos vistosas e com a cor branca.

árvore pata de vaca Bauhinia - árvores de São Paulo - foto de Ricardo Cardim - direitos reservados

Florestas de eucalipto comprometem o abastecimento de água na Grande Vitória

A região serrana capixaba foi invadida pelo eucalipto, plantado em todos os municípios. Não há
respeito sequer às áreas que reabastecem os rios, que são as encostas e topos de morros. As
conseqüências já são sentidas, pois a vazão dos rios está muito abaixo do normal, mas serão
funestas: vai faltar água para consumo humano.

Segundo informou o governo do Estado, a vazão média do rio
Santa Maria da Vitória era de mais de 16 mil litros por segundo.
Atualmente é de 5.6 mil litros por segundo. A vazão do rio Jucu
em média era de 21 mil litros por segundo, e a atual é de
menos de 8 mil litros por segundo. O rio Benevente,  que
abastece Guarapari, tinha vazão média 7 mil metros por segundo, atualmente não chega a 3 mil
litros por segundo. A vazão do rio Doce que já chegou 1,7 milhão de litros por segundo, hoje está
reduzida a 230 mil litros por segundo ­ uma redução de mas de sete vezes.

Há o alerta, que vem do campo e de ambientalistas. Valmir Noventa, um dos coordenadores do
Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) assinala que os moradores das cidades,
principalmente da Grande Vitória, devem refletir sobre os problemas do abastecimento, apontar
medidas e  exigir dos governos o seu cumprimento para evitar risco de faltar água.

O governo procura jogar a culpa da falta d’água na ausência de chuvas. Mas não é bem assim.
“Não é só a questão climática que levou à perda de água nos rios. Não há políticas
governamentais para manter a produção de água”, afirma Noventa. Foi assim nos dois primeiros
governos de Paulo Hartung e no governo de Renato Casagrande. Os primeiros atos do atual
governo Paulo Hartung não permitem antever mudanças, como analisa o dirigente camponês.

Em vez de propor e criar condições para plantios de espécies da mata atlântica que tem
desenvolvimento rápido e podem gerar receita em sistemas agrossilvipastoris  ­  integração de
lavoura, pecuária e floresta  ­ os governos estimulam os plantios de eucalipto. A espécie é exótica
e consome 36,5 mil litros de água por ano quando adulta, segundo pesquisas.

Na região de montanha há desculpa de que os plantios são feitos para produção de caixas de
madeiras usadas no transporte de alimentos. Mas os plantios do eucalipto, feitos em lugar da
agricultura, acabam por atender a produção da Aracruz Celulose (Fibria).

Esta ocupação desordenada das áreas ocorreu há duas décadas, e continua. As áreas, antes
usadas em plantios de alimentos,  levou à exaustão  os recursos hídricos até na região serrana.
Nascentes estão secas e o conflito pela água já chegou à região. Uma situação já bem conhecida
e muito grave nas regiões norte e noroeste, onde os plantios de eucalipto chegaram na década
de 60, introduzidos pela Aracruz Celulose.

Este uso inadequado da água acentua qualquer problema climático, como o registrado
atualmente. Como resultado, há falta de água, já registrado em Guarapari e risco, ainda não
oficialmente admitido, de que proximamente vai faltar água na Grande Vitória.

A falta de água levará o abastecimento da população ao colapso, como alertam ambientalistas.
Ambientalistas e os dirigentes das organizações camponesas lembram que na Região Serrana há
ainda destruição de mata atlântica, já devastada. Até nas regiões estratégicas para o
abastecimento das grandes  populações do Estado como na região serrana não tem mais água, o
que vai acabar prejudicando os moradores da Grande Vitória.

Os moradores da cidade e do campo têm de discutir o problema para reverter a situação. É
preciso adotar um manejo sustentável da água, pois há conflito aberto. Ora da agricultura com a
indústria, ora com plantios de espécies que destroem a água como o eucalipto, sugere o dirigente
do MPA.

Valmir Noventa lembra que a população da Grande Vitória já é estimada em 1.8 milhão de
moradores (IBGE 2014). E só cresce, como em toda área urbana. Soluções para evitar o
desabastecimento de água são urgentes. Também para garantir a qualidade da água. Os atuais
sistemas de tratamento não tiram o resíduo químico que contamina a água, como os agrotóxicos.

Os rios também estão contaminados por esgotos sanitários e industriais lançados diretamente
nos cursos de água, em quadro que os ambientalistas definem como dramático.

Já em 2005 a Associação Barrense de Canoagem (ABC) informava que o rio Jucu apresentava
pontos com até 47 mil coliformes fecais a cada copo de água, números apurados em fevereiro
deste ano. Em 2004, o limite máximo chegou a 44 mil coliformes fecais em um copo de água.

A poluição do rio Santa Maria era de 46 vezes maior que o tolerável. Em Santa Maria de Jetibá,
foram registrados 46 mil coliformes fecais em um copo (100 mililitros) de água. Em Santa
Leopoldina, 24 mil coliformes em 100 mililitros de água. O índice satisfatório é de 1.000
coliformes por 100 mililitros.

A pesquisa apontou a presença de enterococos (bactéria) nas águas do rio: 17,5 mil enterococos
por 100 mililitros, o que representa 175 vezes mais que o índice satisfatório, de 100 enterococos
em um copo de água, em Santa Leopoldina.

Fonte: Blog Século Diário, disponível em http://www.seculodiario.com/20876/10/florestas-de-eucalipto-comprometem-o-abastecimento-de-agua-na-grande-vitoria-1