Irracional

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O ano é 2093 e o mundo como o conhecemos colapsou. A temperatura do planeta subiu 11°C em média, o nível do mar elevou-se em 8 metros, pelo menos 1,5 bilhão de pessoas tiveram de migrar em massa após serem deslocadas de suas casas, mais de 70% das espécies foram extintas, entre elas o icônico urso-polar. O cenário catastrófico previsto pela historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, em seu mais recente livro – The Collapse of Western Civilization (O Colapso da Civilização Ocidental, ainda sem tradução para o português) – é uma ficção, mas fortemente amparado na realidade. Na prática, é só um pouco mais dramático do que as estimativas feitas pela ciência.

Valendo-se de dados científicos e dos acontecimentos dos últimos anos, ela e o historiador Eric M. Conway imaginam o que pode acontecer se a humanidade falhar em agir diante da informação robusta que existe sobre as mudanças climáticas. É um alerta assustador, às vésperas da Conferência do Clima da ONU, que será realizada em Paris, no final do ano, sobre como tudo pode dar muito errado. Mas é também um lembrete de que as informações disponíveis para evitar o pior estão ao alcance dos governantes. Basta agir.

Naomi se tornou uma das principais vozes nos Estados Unidos na defesa de ações contra as mudanças climáticas e no combate aos negacionistas do problema. Ela foi a primeira a mostrar que é consenso entre a esmagadora maioria da comunidade científica que o clima está mudando por ação humana e foi a responsável, junto com Conway, por desmascarar um grupo de “especialistas” que, financiados pelas mais variadas indústrias, trabalham para lançar dúvida sobre o que a ciência diz.

Esse punhado de pessoas, de acordo com a dupla, vem atuando desde as primeiras pesquisas que mostravam relação entre consumo de tabaco e o câncer até os estudos sobre as mudanças climáticas. A denúncia foi feita no livro Merchants of Doubt (Mercadores da Dúvida, sem tradução em português), de 2010, que foi transformado em um documentário de mesmo nome lançado no começo deste ano.

Em entrevista ao Aliás (em parte concedida no interior de Massachusetts, onde ela mora), Naomi analisou a política americana em relação às mudanças climáticas e as últimas ações do presidente Barack Obama (que lançou no começo de agosto um plano de corte das emissões das usinas termométricas a carvão). Ela também fala sobre o comportamento dos cientistas em relação à opinião pública sobre o tema e o impacto que o papa Francisco, que publicou sua encíclica ambiental em junho e vai visitar os Estados Unidos em setembro, pode ter sobre essa situação.

Sua publicação mais recente é justamente uma introdução à versão em livro da encíclica, que chegou às livrarias americanas no começo de agosto visando atingir um público além dos católicos. Ela escreve: “A essência da crítica (feita pelo papa) é que nossa situação não é um acidente – é a consequência da forma como nós pensamos e agimos: nós negamos as dimensões morais de nossas decisões e confundimos progresso com atividade. Nós não podemos continuar a pensar e agir desse jeito, desconsiderando tanto a natureza quanto a justiça, e esperar prosperar com isso. Não é só amoral, não é nem mesmo racional”.

Como a sra. avalia a política atual dos EUA em relação às mudanças climáticas?

Apesar de algumas tentativas do presidente Obama, a situação é totalmente terrível, porque a liderança do Partido Republicano ainda está oficialmente em negação do problema. A esperança é que isso talvez chegue a um fim logo, porque também há republicanos mais sensíveis à questão que estão se manifestando nos bastidores, como Bob Inglis (ex-deputado pela Carolina do Sul que defende que os conservadores aceitem as evidências científicas das mudanças climáticas e ajam em relação aos subsídios dados aos combustíveis fósseis) e George Schultz (secretário de Estado na administração Reagan e coautor do relatório Negócio de Risco, que mostra os danos econômicos que as mudanças climáticas podem causar aos EUA). Sabemos que há alguns líderes republicanos que já entenderam que não se trata de uma falácia, mas que ainda não se sentem capazes de falar abertamente em público. Então, acho que as próximas eleições podem ser importantes, especialmente após a divulgação da encíclica do papa Francisco. Há uma oportunidade aí para os moderados dizerem: temos de parar de ter só uma posição às escondidas sobre esse assunto e nos posicionarmos à frente dessa questão. Isso poderia acontecer. A questão é saber se de fato vai acontecer.

Como seria esse passo?

É o que eu sempre digo: eu continuo esperando por um “momento Nixon vai a China”. Richard Nixon era um notório anticomunista, mas fez uma ousada e histórica viagem para a China. Politicamente, foi chocante. Mas algumas pessoas argumentaram que ele pôde fazer isso justamente porque ele era tão anticomunista que ninguém poderia acusá-lo de estar virando comunista. Nixon pôde ir à China de um modo como nenhum democrata jamais poderia ir naquela época. A moral da história é que alguns republicanos, como Lindsey Graham (senador pela Carolina do Sul desde 2003, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano e que nos últimos meses têm criticado seu partido por não acreditar no que a ciência diz sobre as mudanças climáticas) ou John Boehner (presidente da Câmara dos EUA), poderiam dizer: chegou o momento para nós reformularmos o modo como pensamos sobre o ambiente e percebermos que é possível ter prosperidade e crescimento econômico e proteger o ambiente ao mesmo tempo. Dizer que não são coisas excludentes – pelo contrário: se não fizermos nada sobre as mudanças climáticas, essa será a real ameaça à prosperidade.

Falando sobre o papa, chama a atenção como a comunidade científica americana aguardava ansiosamente pelo pronunciamento dele como algo com potencial de mudar a política dos EUA sobre a questão. Por que a ciência, de repente, passou a botar tanta esperança em um pronunciamento religioso? 

Isso nos mostra como política nos EUA ficou estranha. Afinal, quão bizarro é ter os cientistas mal podendo conter a ansiedade por um pronunciamento papal sobre uma questão que concerne à ciência, à cultura e à sociedade? A minha interpretação é que houve tanta ansiedade em torno da encíclica porque cientistas são cientistas e eles não sabem como falar sobre questões culturais e morais. Não são treinados para fazer isso, não se sentem confortáveis fazendo isso. Mas nem sempre foi assim. Durante a Segunda Guerra e depois, muitos cientistas se posicionaram contra o uso de armas nucleares, mas era um tempo diferente, com pessoas diferentes. Agora, sobre as mudanças climáticas, eles falam em termos científicos: quantos graus Celsius de aquecimento, quantos milímetros por década de aumento do nível do mar… Só que isso não é uma maneira de falar ao coração das pessoas. Para a maioria das pessoas normais, isso não significa nada. Cientistas não conseguem passar a mensagem de por que isso importa. Porque, para fazer isso, é necessário colocar o problema de maneira pessoal, emocional, econômica, social e moral. Isso é um pouco o que fazemos no livro O Colapso… Tentamos contar a história do ponto de vista humano. Mas o que o papa está fazendo vai além em vários graus de magnitude, porque ele está colocando em termos morais ao dizer que o que está acontecendo é uma injustiça. É algo que os cientistas não se sentem capazes de dizer, mesmo sendo algo que eles saibam, com o qual se preocupam, se incomodam e do qual falam em privado. O papa pode fazer o que os cientistas não podem. Há 20, 30 anos eles acharam que os líderes políticos nos EUA fariam isso, mas eles não fizeram. E o papa agora resolveu assumir essa responsabilidade. Acredito que a comunidade científica de certo modo se sente aliviada com isso.

E o catolicismo nem é majoritário nos EUA.

Verdade. Mas o papa ainda é visto como uma autoridade moral por muitas pessoas, não só pelos católicos. E também é importante porque muitos dos líderes republicanos de direita neste país são católicos. Rick Santorum (pré-canditato à Presidência) e John Boehner, por exemplo. A Suprema Corte está repleta de católicos. E Santorum e Boehner têm criticado o que eles chamam de “cafeteria catholics” (algo como católicos do self-service), que escolhem quais regras da Igreja querem seguir. Bom, se eles defendem que não é certo escolher o que seguir, como vão agir com o papa dizendo que é preciso fazer algo contra as mudanças climáticas e que isso não é uma questão científica, mas moral, que é uma questão de justiça?

O que pode acontecer quando o papa se dirigir ao Congresso em setembro? Os republicanos podem ficar constrangidos, numa saia justa que talvez os faça agir?

Honestamente, acho que a maioria ali não é mais capaz de ficar constrangida. Mas o impacto pode ser grande no público. A esperança é que se o papa falar claramente sobre o assunto, pedindo ações dos EUA, e isso tiver uma ampla cobertura da imprensa, muitas pessoas comuns vão ouvir, pessoas que podem não ter dado muito atenção ao problema ou nem sabem o que pensar sobre ele. E elas vão ouvir o papa dizendo que isso é real e, veja, ele não é cientista querendo financiamento para sua pesquisa, não é alguém só querendo ganhar atenção. Afinal, oras, ele é o papa, pode conseguir toda a atenção que ele quiser. Então por que ele estaria tratando desse problema se ele não achasse que é verdade? Quando as pessoas perceberem isso, pode ser que mude o tom da conversa.

Mas mesmo do lado dos democratas a situação não é tão boa. Obama recentemente anunciou seu Plano de Energia Limpa, fez o anúncio conjunto com a China. Mas também defendeu recentemente a exploração de 

petróleo no Ártico.

Pois é, isso não faz nenhum sentido. Em muitas dessas ações eu normalmente não concordo, mas até entendo a lógica. Agora, com o Ártico, não é o caso. Fiquei muito irritada depois daquele anúncio. É como dar com uma mão e tirar com a outra. Não existe um progresso real (para uma economia verde) se o país continua investindo em novas formas de obter recursos fósseis. É por isso que me envolvi com o movimento de desinvestimento em combustíveis fósseis (proposto por alunos de Harvard para que a universidade deixe de investir no setor). Uma pessoa não pode dizer que é séria a respeito das mudanças climáticas e ao mesmo tempo dar apoio a novos investimentos em combustíveis fósseis. Se faz isso, ou está mentindo para o mundo ou para si mesma.

Seu novo livro destaca como o Ocidente vai sofrer com as mudanças climáticas. Por que a sra. acha que o Oriente, especialmente a China, será menos afetado?

Principalmente porque a China tem historicamente sido a civilização mais resiliente de todas, mas também porque – e isso é um argumento central do livro – se as coisas ficarem realmente ruins, as democracias terão mais dificuldade para responder do que os regimes mais autoritários. Democracias não podem simplesmente ordenar que as pessoas se movam para outros locais. Elas não podem simplesmente confiscar recursos – medidas que podem ser necessárias em casos de catástrofes naturais que levem a interrupção do fornecimento de comida e água, por exemplo. Mas governos autoritários fazem isso. E isso é um forte argumento de por que nós temos de agir agora em vez de esperar até que as coisas fiquem muito ruins.

No livro vocês estimam um futuro bastante pessimista, até mais dramático que os piores cenários do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Por que escolheram uma situação tão catastrófica?

Tentamos explorar como se pareceria o pior cenário, e nos baseamos em um trabalho anterior que fiz com Keynyn Brysse (historiadora da Universidade Princeton) e outros, que sugere que cientistas, no passado, subestimaram as ameaças ao planeta. Então extrapolamos aquela descoberta para sugerir que as estimativas atuais do IPCC também podem ser um pouco baixas. E, infelizmente, o nosso cenário está parecendo cada vez menos implausível.

Quais situações dão sinais de que os piores cenários podem se concretizar?

A evidência mais óbvia que dá suporte a isso vem do manto de gelo da Antártida Ocidental. Por décadas – literalmente, desde os anos 1970 -, cientistas sabem que o aquecimento global ameaça sua estabilidade, o que poderia levar a muitos metros, talvez dezenas de metros, de elevação do nível do mar. Mas quase todo mundo achava que a ameaça era pequena e muito distante. Muita gente achava que os efeitos não seriam vistos por séculos. Alguns chegaram a considerar que seriam essencialmente hipotéticos. Agora nós descobrimos, em um estudo científico publicado no ano passado, que cientistas encontraram evidências de que a Antártida já começou a se desestabilizar e que seu rompimento pode, na verdade, ser uma coisa certa (apesar de o tempo para isso acontecer continue incerto). Quando esse estudo foi publicado, eu pensei: meu Deus! Nós achamos que pudéssemos estar exagerando em nossa história, mas parece que o nosso “exagero”, no final das contas, não foi exagerado coisa nenhuma.

Vale/Samarco exige que idosa com osteoporose prove incapacidade de torcer roupa para repor Máquina de Lavar

idosa Samarco Vale Mariana máquina lavar

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Na madrugada do dia 6 de novembro de 2015, Teófila Siqueira e Francisco Marcelino recebiam ansiosos as notícias que vinham dos moradores do distrito de Gesteira, o mais atingido na zona rural da cidade de Barra Longa (MG). “Estava uma confusão na rua: carros buzinando, pessoas correndo, gritos. Muita gente na praça. Chiquinho já estava dormindo e eu rezando. Era mais de meia-noite quando a vizinha veio nos chamar pra dizer que a enchente tava chegando.”, conta Teófila, mais conhecida como Dona Cenita.

Chiquinho lembra que, por volta das 4 horas da madrugada, estava na beira do Rio do Carmo e achava que ele não ia subir muito. “Mas certa hora, eu peguei um pedaço de pau para afastar as folhas que vinham descendo e vi que não era água. Aí eu gritei: Cenita, isto não é água, é lama!”, conta agitado o senhor de 71 anos.

Ao perceber que o rio vinha subindo, correram, pegaram os patos, as galinhas e um cachorro que estava no quintal e levaram todos, com muita dificuldade, para embaixo da casa. “Achávamos que ali não ia chegar. Moramos aqui há quase 30 anos e a maior enchente que pegamos aqui, que foi em 1996, só chegou perto da primeira coluna da casa. Mas aí não teve jeito. A lama veio subindo, subindo, tomando tudo. Nós corremos e tudo foi embora”, conta Cenita, emocionada.

Uma lama que afoga lembranças e traz violação de direitos

Chiquinho mostra da cozinha da casa o que sobrou do quintal: lama, buracos, uma montanha de barro que sufoca o pé de manga, as ruínas do galinheiro que foi encoberto pela lama, um tanquinho estragado, muita sujeira, mau cheiro. E ele recorda:

“Ei vi minhas ferramentas tudo debaixo do barro. Perdi um plaina. Quando eu quero fazer um caixote eu tenho minha plaina pra limpar a tábua. Foi uma maquita pra serrar minhas tábuas. Tava tudo embaladinha, apodreceu tudo na água. A mesa tombou justamente no lado que ela tava, assim. E eu vendo daqui descendo. Fazer o que, né?! Desceu até caminhão no barro, a maquita não vai? Vai!!”, recordou Chiquinho.

Mas, além dos prejuízos no quintal que era fonte de renda e trabalho do casal, foi-se embora muitos utensílios básicos da família. Entre eles, tanquinho e máquina de lavar. Desde a tragédia, Dona Cenita e Chiquinho, que moram sozinhos, ou conseguem ajuda de vizinhos para lavar a roupa ou eles se revezam para torcer o que não dá para esperar. Exercendo o seu direito, eles pediram a Samarco Mineração, dona da barragem que rompeu, que reponham, pelo menos, a máquina de lavar, que é de grande utilidade, até para garantir a higiene.

Para a surpresa da senhora de 69 anos, ao fazer o pedido, uma assistente social exigiu que ela provasse que tinha realmente necessidade. “Ela me pediu que eu apresentasse um laudo médico que provasse que eu não tenho força para torcer a roupa. Eu tenho osteoporose, tomo vários remédios”, conta surpresa a idosa. Quando foi levar o marido em um neurologista na cidade de Ponte Nova, aproveitou e pediu o médico para fazer o laudo. Mas ele, igualmente surpreso, disse que não poderia fazer porque não era a sua área. Dona Cenita, então, foi em um posto de saúde de Barra Longa e pediu um laudo para uma médica clínica geral que acabou dando um relatório simples que foi entregue à assistente social.

Para Thiago Alves, membro da coordenação estadual do MAB que está morando em Barra Longa para acompanhar as famílias atingidas, este é mais uma situação que mostra o descaso da empresa com a população. “Este é um episódio absurdo, inaceitável, viola direitos básicos daqueles que são os mais vulneráveis. Temos visto muito isto nesta cidade. Por isto, temos feito um trabalho de acompanhamento por família, buscando visitar, ouvir as pessoas, ser uma presença solidária, mas, ao mesmo tempo, insistindo com todos que é preciso se organizar para garantir os direitos: se a Samarco age assim em questões básicas, imagine quando formos discutir indenização e reassentamento”, questiona Thiago.

Cenita e Chiquinho moram no bairro Morro Vermelho, que tem 20 casas desocupadas e 3 condenadas. Eles mudam ainda esta semana para uma casa alugada enquanto a deles é reformada. O casal espera que a máquina seja entregue ainda esta semana. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) cobrará explicações da empresa sobre o ocorrido, exigirá que as máquinas e outros utensílios básicos sejam entregues sem pré-condições e continuará as denúncias dos desmandos da Samarco em Barra Longa e região.

Por que organizações ambientais estão em silêncio diante da Vale

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Uma das mais importantes áreas do litoral brasileiro, do ponto de vista científico e turístico, o santuário de Abrolhos tem a maior biodiversidade de corais do Atlântico.

Mancha no oceano que chegou à região sul da Bahia e já atingiu o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, local com maior biodiversidade de corais do Atlântico, está sendo monitorada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) com a suspeita de que a lama da barragem de Mariana tenha atingido o município de Caravelas.

Marilene Ramos, presidente do Ibama e conselheira do Clube de Engenharia , e Claudio Maretti, presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em entrevista coletiva, informaram que a mancha, segundo especialistas, pode ser a lama de rejeitos de mineração da Samarco, concentrada na foz do Rio Doce. A mancha vinha se espraiando no último mês para o sul do litoral do Espírito Santo, mas, nos últimos dois dias, devido às fortes chuvas na área, passou a se espalhar também na direção norte.

Onde estão os ambientalistas?

O Ibama já notificou a Samarco para realizar coletas e avaliar se a mancha vem do Rio Doce. A coleta das primeiras amostras foi feita nesta quinta-feira, 7 de janeiro, com a previsão dos resultados saírem em dez dias. O impacto ambiental causado pela mancha na biodiversidade da região será avaliado com muito cuidado e pode levar tempo para ser totalmente conhecido. “O dano imediato é a redução da produtividade da vegetação marinha, fitoplanctons e corais, o que causa prejuízo para a vida marinha. É como se eu cobrisse a Mata Atlântica ou a Amazônia com uma fumaça que dificultasse a realização de fotossíntese”, explicou Maretti. Os impactos serão sentidos a longo prazo e especialistas não descartam a possibilidade de extinção de corais.

Saiba mais: Mariana: As consequências do maior desastre ambiental do Brasil

O que chama atenção neste cenário de descaso e impunidade que marca a tragédia de Mariana é o silêncio de organizações ambientais estrangeiras, que não se manifestam acerca desse quadro de destruição. Por que se calam? De repente, desapareceu a agilidade que demonstram nas ações jurídicas e manifestações nacionais e internacionais contra empreendimentos associados ao uso de tecnologia de ponta, infraestrutura ou logística, tão necessários ao desenvolvimento soberano do país. Tão pródigas em manifestações contra a indústria nuclear, a construção de hidrelétricas com reservatórios e eclusas, eixos rodoferroviários e fluviais sumiram da mídia; quando muito a noticiam em seus sites. Por que o silêncio e o imobilismo? Não há nada a dizer sobre a maior tragédia ambiental do País?

Estudantes desenvolvem sistema que alerta sobre alagamento em BH

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O ano era 2014 e Alysson Andrade estudava, por meio do programa Ciência Sem Fronteiras, na universidade norte-americana Illinois Institute of Technology. Durante o curso de Sistemas Embarcados, o jovem estudante de Ciências da Computação precisava apresentar como trabalho de conclusão um projeto que trouxesse benefícios à sociedade.

Durante esse momento de brainstorm, o estudante teve a ideia de desenvolver um sistema capaz de detectar inundações provenientes de rios e canais. “Com a ajuda de dois colegas de classe – Luiz Pinto e Israel Aires – fiz um protótipo que detectava o nível da água e informava em caso de risco eminente de inundação”, recorda.

Ao regressar para o Brasil e retomar o estudos no Centro Universitário de Belo Horizonte – Uni-BH, os estudantes deram continuidade ao projeto, desenvolvendo uma metodologia baseada em redes de sensores sem fio e análise de dados.

Segundo Alysson, os sensores captam informações sobre temperatura, umidade e pressão. Os aparelhos são espalhados ao longo do percurso dos rios e canais para coletar dados brutos e prever alagamentos.Os dados coletados em tempo real são utilizados para analisar a probabilidade de inundação baseada nos dados históricos do local.

Alerta no mobile
De acordo com os desenvolvedores, o projeto prevê a criação de um aplicativo. “Estamos à procura de parceiros para continuar o desenvolvimento do aplicativo. Portanto, ainda não há previsão para o lançamento do app”, ressalta.

Para abranger todas as áreas de enchentes em BH, a ideia é buscar a contribuição de usuários nas redes sociais. “Queremos analisar grandes quantidades de postagens e atualizar, em tempo real, um mapa mostrando quais os locais que estão alagados e que devem ser evitados” conclui.

H2O

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Começou como uma brincadeira, mas o assunto é muito sério. Uma empresa canadiana que comercializa ar fresco engarrafado esgotou em apenas quatro dias o primeiro “stock” para a China, o país mais poluente do mundo. Pequim, aliás, emitiu a 8 de Dezembro, pela primeia vez na história, um alerta vermelho devido à situação ambiental.

A Vitality Air foi fundada no ano passado em Edmonton por brincadeira, como contou ao “Telegraph” Moses Lam, que fundou a “start-up” com Troy Paquette. Tudo começou quando os canadianos colocaram à venda no Ebay um saco de plástico cheio de ar. O primeiro leilão rendeu-lhes pouco mais de 50 cêntimos, mas o segundo saco já foi vendido por cerca de 150 euros. “Foi quando percebemos que há um mercado para isso”, disse Lam à publicação inglesa.

A empresa comercializa garrafas de oxigénio e de ar puro recolhido nas Montanhas Rochosas (em Lake Louise e Banff) na América do Norte, para a Índia e para o Médio Oriente, mas hoje é a China o seu maior mercado externo. E as vendas começaram há menos de dois meses. “O nosso primeiro carregamento de 500 garrafas de ar fresco foi vendido em quadro dias”, relata o empreendedor. A caminho estão mais quatro mil garrafas, a maioria já previamente compradas. O grande desafio é, agora, continuar a responder à elevada procura, até porque cada garrafa de ar fresco é enchida manualmente. Segundo a “CNN“, é o próprio Lam que, de quinze em quinze dias, faz uma viagem de quatro horas até ao Parque Nacional Banff e passa as dez horas seguintes a engarrafar ar.

Não se pense que é barato. De acordo com o site da empresa, uma garrafa de 7,7 litros de ar fresco ronda os 21 euros, enquanto que uma de três litros ronda os 12 euros (fora portes de envio). Percebe-se, por isso, por que é que são as mulheres chinesas com elevado poder económico as principais clientes, adquirindo estes produtos para as suas famílias ou para oferecerem como presentes. “Na China, o ar fresco é um luxo, algo muito precioso”, conclui, ao “Telegraph”, Harrison Wang, representante da empresa no país.

O “Telegraph” lembra que esta não é a primeira vez que se vende ar puro no país. No ano passado, o artista Liang Kegang arrecadou cerca de 700 euros por um frasco de vidro com ar que recolheu em Provence, França. E, já em 2013, um multimilionário chinês começou a vender latas de ar oriundo supostamente de zonas menos industrializadas do país: em dez dias, foram compradas 8 milhões.

SOBRE TOXICO

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Defensores da mineradora ignoram definição de toxicidade para amenizar impactos do rompimento da barragem em Mariana; não somente metais pesados têm efeito nocivo

E agora o leitor decidirá: a lama da Samarco que arrasou povoados em Mariana e já chegou ao mar, matando milhares de peixes, aves, algas… é tóxica ou não é tóxica? (Atente: isso independe de conter ou não metais pesados.)

Pois está em curso uma operação para minimizar a catástrofe. O que passa pela definição de que a lama não seria tóxica. Ora, a lama produziu, em si, efeitos nocivos a organismos diversos. Retirou oxigênio da água, asfixiou 11 toneladas de peixes, matou  tartarugas, caranguejos, caramujos, camarões, galinhas, bois, um rio inteiro (ainda que por alguns meses ou anos). Como não seria tóxica?

O Centro de Vigilância Sanitária, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, define como agente tóxico “qualquer substância capaz de produzir um efeito tóxico (nocivo, danoso) num organismo vivo, ocasionando desde alterações bioquímicas, prejuízo de funções biológicas até sua morte”. E o risco tóxico, o que seria? “É a capacidade inerente de uma substância produzir efeitos nocivos num organismo vivo ou ecossistema”.

A Fiocruz informa, em seu site, que não existem substâncias químicas sem toxicidade:. “Não existem substâncias químicas seguras, que não tenham efeitos lesivos ao organismo”. Nada, portanto, de associar o termo apenas à ingestão de metais pesados – como vêm fazendo a empresa e seus defensores. Lembremos que um cigarro possui 4.700 substâncias tóxicas.

A BATALHA DOS EXAMES

A página do Serviço Geológico do Brasil, uma companhia do governo federal, informa: “Novos resultados descartam aumento de metais pesados no Rio Doce”. Ou seja, por esses exames (feitos em apenas 40 coletas), a lama não seria tóxica especificamente em relação a metais pesados: cobre, chumbo e mercúrio, entre outros.

Mas mesmo nesse caso há controvérsias: e o ferro e o manganês? Um laudo encomendado pela própria Vale informa que os níveis das duas substâncias estão acima do recomendado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Ainda que, na descrição feita pela empresa, e logo replicada acriticamente pela imprensa, sem risco para seres humanos.

Ou seja, há ênfase apenas no impacto direto em organismos humanos. Como se as substâncias não fossem tóxicas para outros seres vivos. Sem redução de danos, reduzam-se as palavras.

Diante da minimização, muitos fazem uma pergunta singela: por que, então, a necessidade de barragens? Por um motivo simples: a polpa (a lama de areia e silte combinada com os rejeitos) da mineração tem o efeito tóxico que se viu nas últimas semanas. Mesmo sem metais pesados.

E porque não se trata somente da saúde de humanos, por ingestão ou contato direto; e sim da saúde de ecossistemas inteiros. Afetam a fauna, a flora. E também os humanos. As barragens surgiram, no século 20, porque o material despejado afetava os poços de irrigação e o solo; e os produtores constatavam a diminuição da colheita.

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Até aqui nem estamos questionando os testes feitos pela própria empresa. Ou considerando a necessidade de testes que não sejam encomendados pelas partes interessadas. Uma coleta feita em Governador Valadares logo após a catástrofe identificou níveis altíssimos de ferro e manganês. E este pode gerar problemas ósseos, intestinais, ampliar problemas cardíacos.

O Instituto Mineiro de Gestão das Águas fez outros testes e detectou a presença de chumbo, arsênio e cádmio nas águas do Rio Doce, nos dias subsequentes ao rompimento da barragem. Uma das consequências possíveis, câncer. Quem vai dizer que não existem esses riscos (ou que as substâncias não tenham saído da barragem), a própria Samarco? Ou pesquisadores independentes?

UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA

A Vale (dona da Samarco, junto com a BHP Billinton, e que também despejou resíduos na barragem rompida) já está até falando que a lama vai ter efeito de adubo no reflorestamento. Ou seja, não somente se minimiza o impacto brutal no ecossistema, como se tem a desfaçatez de apresentar um possível benefício “no reflorestamento”. Mais ou menos como os defensores do agronegócio, que chamam os agrotóxicos de “defensivos”.

Está desde o dia 5 de novembro em curso uma batalha por discursos. As evidências das primeiras semanas começam a ser esquecidas: as fotos dos povoados destruídos, a narrativa – ainda incompleta – sobre as 23 pessoas que morreram, a evidente destruição ambiental. A morte de um rio, a dor dos pescadores (como os das fotos deste artigo, feitas pelo Instituto Últimos Refúgios), agricultores e povos indígenas que se viram sem água. A ameaça aos ecossistemas marinhos.

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E agora começa a investida na reconstrução conveniente dos fatos. Movida a insensibilidade e escárnio em relação às vítimas, todas elas – humanos ou não. Aposta-se na falta de memória e na falta de bom senso para se dizer que o Rio Doce estará restabelecido em cinco meses, como se fosse pouco, e que a lama até vai virar um adubozinho. E nem tinha tanto veneno assim, não é mesmo? Nem se matou diretamente pessoas por ingestão de chumbo.