Água, a tragédia invisível

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Em 2025, ou seja, em menos de oito anos, 1,8 bilhão de pessoas padecerão da mais absoluta escassez de água, e dois terços da humanidade sofrerá de estresse hídrico – a não ser que a comunidade internacional reaja e tome providências.

Cresce atualmente o medo de que o avanço da seca e dos desertos, assim como a progressiva escassez de água e a insegurança alimentar gerem um “tsunami” de refugiados e imigrantes climáticos. Diante disso, não é de estranhar que a Convenção das Nações Unidas de Luta contra a Desertificação (UNCCD, na sigla em inglês) considere a seca como “um dos quatro cavaleiros do Apocalipse”.

A demanda por água poderá aumentar 50% em 2050. Com o crescimento demográfico, particularmente nas terras secas, cada vez mais pessoas dependem do abastecimento de água potável em terras que se degradam, alerta Monique Barbut, secretária da UNCCD, que tem sede em Bonn, Alemanha.

A escassez hídrica é um dos grandes desafios do século 21. A seca e a falta d’água são consideradas os desastres naturais com maiores consequências, pois geram perdas ecológicas e econômicas a curto e a longo prazo, além de causar impactos secundários e terciários.

Para mitigar as consequências, é preciso haver uma preparação para a seca, que seja sensível às necessidades humanas e ao mesmo tempo preserve a qualidade ambiental e os ecossistemas. É necessário contar com a participação de todos os atores, inclusive dos usuários e provedores do serviço, na busca de soluções – afirma a UNCCD. “Atribui-se à seca — um perigo natural complexo, que avança lentamente e tem consequências ambientais e socioeconômicas generalizadas — mais mortes e deslocamentos de pessoas do que qualquer outro desastre natural.”

Seca, escassez hídrica e refugiados

Monique Barbut lembrou que as regiões propensas à seca e à escassez hídrica são, em geral, locais de origem de muitos refugiados. Nem a desertificação nem a seca são causas de conflitos ou migrações forçadas, mas podem elevar o risco de sua ocorrência e intensificar os já existentes, explicau ela.

“Fatores convergentes como tensões políticas, instituições frágeis, marginalização econômica, ausência de redes de segurança social ou rivalidade entre grupos criam as condições que levam as pessoas a não conseguir fazer frente às dificuldades. Um dos últimos exemplos conhecidos são a seca e a escassez de água contínuas na Síria, de 2006 a 2010”, lembrou Barbut.

Em 2045 haverá 135 milhões de pessoas desabrigadas?

A UNCCD ressalta que os desafios geopolíticos e de segurança que ameaçam o mundo são complexos, mas com a implantação de melhores práticas de gestão territorial pode-se ajudar as populações a adaptar-se às mudanças climáticas, assim como a construir capacidade de resistência à seca.

Além disso, é possível reduzir o risco de migrações forçadas e conflitos pela escassez de recursos naturais e assegurar a produção de uma agricultura sustentável e de energia. “A terra é a verdadeira aglutinadora de nossas sociedades. Reverter os efeitos de sua degradação e da desertificação por meio de uma gestão sustentável não só é possível como é o próximo passo lógico para as agendas de desenvolvimento nacionais e internacionais”, observou.

A UNCCD alerta que 12 milhões de hectares de terras produtivas tornam-se estéreis a cada ano, devido à seca e à desertificação, o que representa a redução da oportunidade de produzir 20 milhões de toneladas de grãos. “Não podemos seguir permitindo que as terras se degradem, quando deveríamos elevar a produção de alimentos em 70% para alimentar, em 2050, toda a população mundial”, ressalta.

“A intensificação sustentável da produção de alimentos com menos insumos, que evitam maior desmatamento e a expansão de cultivos em áreas vulneráveis, deve ser uma prioridade para os políticos responsáveis”, sugere. Além disso, a secretaria da UNCCD ressalta que o aumento das secas e das inundações repentinas — as mais fortes, mais frequentes e mais generalizadas — destroem a terra, principal reserva de água doce da Terra. “A seca mata mais pessoas que qualquer outra catástrofe ligada ao clima, e avançam os conflitos entre comunidades por causa da escassez de água”, afirmou. “Mais de um bilhão de pessoas não têm acesso à água, e a demanda aumentará 30% até 2030”, acrescentou.

Segurança nacional e migrações

Mais de 40% dos conflitos dos últimos 60 anos estão relacionados ao controle e à divisão de recursos naturais, o que expõe um número cada vez maior de pessoas pobres à escassez hídrica e à fome, e cria as condições para a falência de Estados e conflitos regionais, alerta a UNCCD.“Grupos não estatais aproveitam-se dos grandes fluxos migratórios e das terras abandonadas”, observa. “Quando bens naturais, como a terra, são mal administrados, a violência pode converter-se no principal meio para o controle dos recursos naturais, e isso os tira das mãos de governos legítimos”, alerta.

O número de migrantes vem crescendo rapidamente, em escala mundial, há 15 anos, chegando a 244 milhões em 2015, mais que os 222 milhões de 2010 e os 173 milhões de 2000. A UNCCD recorda a relação entre esse número de migrantes e as dificuldades em matéria de desenvolvimento, em particular as consequências da degradação ambiental, a instabilidade política, a insegurança alimentar e a pobreza, assim como a importância de atender os fatores e as causas de raiz da migração irregular.

A perda de terras produtivas faz com que as pessoas elejam opções arriscadas. Nas áreas rurais, onde elas dependem de terras pouco produtivas, a degradação dos solos é responsável pela migração forçada, explica a secretária. “A África é particularmente suscetível, pois mais de 90% de sua economia depende de recursos sensíveis ao clima, como a agricultura de subsistência, que precisa das chuvas.”

“A não ser que mudemos nossa forma de administrar a terra, nos próximos 30 anos poderemos deixar um bilhão de pessoas, ou mais, vulneráveis e sem opções, a não ser fugir ou lutar”, disse ela. Melhorar o rendimento e a produtividade da terra permitirá aumentar a segurança alimentar e o rendimento dos usuários de terras e agricultores mais pobres, recomenda a UNCCD. “Por sua vez, estabiliza a renda da população rural e evita o deslocamento desnecessário de pessoas e suas consequências.”

Por outro lado, a UNCCD trabalha com parceiros como a Organização Internacional para as Migrações para fazer frente aos desafios colocados pela degradação de terras, os movimentos massivos de pessoas e suas consequências. Também procura demonstrar como a comunidade internacional pode aproveitar as capacidades e habilidades dos migrantes e refugiados, além de ressaltar o valor das remessas que eles enviam a seus países para construir a capacidade de resistência.

Vegetação exuberante da Amazônia corre risco de ser substituída por gramíneas

Os prognósticos das últimas pesquisas sobre a Amazônia indicam que, futuramente, o novo regime de clima da floresta poderá ser mais parecido com o do Cerrado, por conta de dois fatores: o aumento do desmatamento e os efeitos das mudanças climáticas, informa o físico Henrique Barbosa à IHU On-Line. “Com as mudanças climáticas, esperamos que a temperatura na Amazônia aumente e as chuvas diminuam. Isso também vai causar um aumento nos períodos de seca, e as secas ficarão mais secas”, diz na entrevista a seguir, concedida por telefone.

Coautor de um estudo internacional que analisa as consequências da seca e do desmatamento na Amazônia, o pesquisador explica que, se o regime de clima da floresta for alterado, “haverá uma substituição da vegetação exuberante da Amazônia por uma vegetação mais rala, com gramíneas e árvores espaçadas, ou seja, a vegetação nessa região será mais parecida com a atual vegetação do Cerrado”. As mudanças na vegetação, por sua vez, impactarão diretamente o ciclo hidrológico da Amazônia, e como consequência haverá uma diminuição das chuvas nas regiões Sul e Sudeste do país.

“Chove muito na Amazônia e uma das razões disso é que a floresta emite muito vapor de água para a atmosfera. Mas quando se troca a vegetação nativa por outra – ao desmatar e trocar a vegetação nativa por soja ou pastagem, por exemplo -, diminui-se sobremaneira a quantidade de água que essa vegetação devolve para a floresta”, frisa. E adverte: “O que nosso estudo faz é alertar para o perigo de que essas mudanças que estamos impondo à Amazônia podem estar causando um processo de savanização do bioma, mesmo naquelas regiões que não foram perturbadas”.

Na avaliação de Henrique Barbosa, manter uma floresta “heterogênea” é fundamental para diminuir os efeitos da seca. “Se a vegetação for toda igual, a floresta como um todo responde de maneira igual às mudanças de chuva e de temperatura. Isso significa que, quando a temperatura for alterada de modo a causar efeitos na vegetação, toda a floresta sentirá esses efeitos, ou seja, a floresta inteira será perturbada de uma hora para a outra. (…) Isso demonstra que a própria biodiversidade da floresta, especialmente a vegetal, é importantíssima para manter a estabilidade dela”.

Henrique Barbosa é doutor em Física pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. Entre 2004 e 2008 atuou como pesquisador assistente no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais – Inpe e atualmente leciona no Instituto de Física da Universidade de São Paulo – USP.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as evidências ou hipóteses que indicam que a Amazônia pode entrar num ciclo de desmatamento e seca nos próximos anos?

Henrique Barbosa – Existem evidências científicas de como a floresta interage com a atmosfera, ou seja, de como a atmosfera e a biosfera interagem, e quais são os mecanismos de retroalimentação que existem entre elas. Nesse panorama, uma das coisas que é clara para os cientistas é que a cobertura de vegetação que encontramos em uma localidade, por exemplo, na floresta tropical úmida da Amazônia ou na Caatinga, para citar dois exemplos, pode não ser estável. O que isso significa? Imagine um sistema com mais de um ponto de equilíbrio. Os dois sistemas de equilíbrio existentes são uma vegetação parecida com o Cerrado e outra, com a Amazônia. O estado em que esses sistemas de equilíbrio vão se encontrar dependerá das condições climáticas, ou seja, dos regimes de precipitação e da variação de temperatura.

Pontos de equilíbrio

Vou explicar isso dando o seguinte exemplo: é como se tivéssemos uma caixa de papelão numa sala. Quando empurramos essa caixa, ela é afastada, mas se mantém na mesma posição. No entanto, se a empurrarmos demais, ela vai tombar de lado e vai encontrar outra posição de equilíbrio. O equilíbrio da vegetação e dos biomas ocorre mais ou menos desse modo, porque os biomas têm mais de um ponto de equilíbrio, dependendo da distribuição da vegetação e, especialmente, da temperatura e da umidade típica de cada região. Então, se perturbarmos demais essas duas variáveis climatológicas – temperatura e umidade -, o tipo de vegetação de determinado bioma pode ser alterado.

As evidências que temos são de que a Amazônia teve dois status de equilíbrio: um com temperaturas mais altas e menos precipitação, no qual a vegetação era muito mais parecida com a do Cerrado, e outro com bastante chuva, com temperaturas mais amenas e sem grande variabilidade, que é o que se tem hoje na Amazônia.

Ciclo de desmatamento e seca: Cerrado se expandirá sobre a Amazônia

Fiz essa explicação introdutória para dizer, então, o que é esse ciclo de desmatamento e seca, o qual foi apontado em nosso estudo. Uma das questões que abordamos no estudo foi tentar identificar e quantificar a importância dos mecanismos de retroalimentação entre a floresta e a atmosfera.

Quando o homem emite mais carbono para a atmosfera, aumenta o efeito estufa e entramos nesse processo de mudanças climáticas antrópicas, causadas pelo homem. E com as mudanças climáticas, esperamos que a temperatura na Amazônia aumente e as chuvas diminuam. Isso também vai causar um aumento nos períodos de seca, e as secas ficarão mais secas. Portanto, considerando essas possibilidades, é mais provável que o novo regime do clima seja parecido com o do Cerrado. Isso significa que nas regiões de fronteira entre a Amazônia e o Cerrado, à medida que as árvores forem morrendo e novas forem nascendo, haverá uma substituição da vegetação exuberante da Amazônia por uma vegetação mais rala, com gramíneas e árvores espaçadas; ou seja, a vegetação nessa região será mais parecida com a atual vegetação do Cerrado.

Esse não é um processo que acontece da noite para o dia, vai ocorrer no tempo de vida das plantas. Por conta das mudanças climáticas, há uma chance maior de que a vegetação típica do Cerrado domine o espaço da Amazônia, e, à medida que o desmatamento continuar aumentando na região, esse quadro será acelerado.

Desmatamento interfere no ciclo de chuvas

Chove muito na Amazônia, e uma das razões disso é que a floresta emite muito vapor de água para a atmosfera. Mas, quando se troca a vegetação nativa por outra – ao desmatar e trocar a vegetação nativa por soja ou pastagem, por exemplo -, diminui-se sobremaneira a quantidade de água que essa vegetação devolve para a floresta.

De onde vem essa água? Sempre do oceano e, no caso brasileiro, do oceano Atlântico, próximo à costa do Pará. Essa água evapora do oceano, é carregada pelos ventos, entra por cima do continente e chove. Como as árvores da Amazônia puxam muito a água que está no solo e fazem a respiração, elas acabam emitindo bastante vapor de água para a floresta. Então esse vapor de água que as árvores emitem se junta com o que sobrou de vapor de água na atmosfera depois da primeira chuva; todo esse vapor de água continua sendo carregado pelos ventos, e vai chover novamente mais para frente.

É justamente por causa da quantidade de água que a Amazônia emite para a atmosfera, que há uma grande quantidade de chuvas na região. Se a vegetação da Amazônia fosse diferente, ou seja, composta de vegetações que não emitissem tanta precipitação para a atmosfera, acabaria secando o ar que vem do oceano e só choveria nas regiões próximas da costa. Entretanto, como as árvores da Amazônia têm uma evapotranspiração muito grande, elas conseguem sustentar esse ciclo de vapor de água, e a vegetação faz essa reciclagem do vapor de água que veio do oceano. Se a atual vegetação da Amazônia for trocada por pastagem, vai chover bastante, mas a água, ao invés de ser devolvida para a atmosfera, correrá para os rios e irá embora.

Então, quando desmatamos uma certa região e trocamos uma floresta por pastagem, a região será afetada como um todo e isso vai gerar implicações em outras regiões. Nesse caso, tanto a Amazônia quanto o Pantanal e o Sudeste serão afetados, porque a nova vegetação não vai mais ser capaz de emitir tanto vapor de água para a atmosfera, e com isso vai diminuir a precipitação, mesmo numa região que nunca teve sua vegetação alterada. Então, se perturbarmos um pedaço da floresta, consequentemente perturbaremos uma parte da floresta que nunca foi tocada, por causa desse vínculo que existe no ciclo do vapor de água.

IHU On-Line – Quais são as novidades apontadas pelo estudo do qual o senhor participa, em relação ao fluxo e ao ciclo das águas na Amazônia?

Henrique Barbosa – Essa explicação que fiz sobre o fluxo e o ciclo das águas é bastante geral, e já tínhamos conhecimento do modo como esse ciclo se dava. O que fizemos de diferente nesse estudo – e fomos o único grupo que fez isso até hoje – foi considerar o transporte do vapor de água em cascata. Vou explicar como isso funciona. Normalmente, quando os cientistas avaliam a importância da Amazônia para as chuvas no Sudeste do Brasil, eles usam diversos tipos de modelos de observação e tentam, de alguma maneira, acompanhar a água que foi evapotranspirada pela floresta e verificar por onde ela passa e quando e onde chove.

Ciclo de água intermediário

O que fizemos de diferente foi escrever um modelo e desenhar um conjunto de equações que consigam representar vários ciclos de água intermediários; ou seja, até chegar ao ponto de interesse, por exemplo, no Sudeste, a água sai da Amazônia, se transforma em chuva no meio do caminho, entra no solo, é puxada de novo por outras águas naquela região, é emitida de novo para a atmosfera, vai mais para frente, chove outra vez, evapora de novo. Conseguir acompanhar esse ciclo das águas em vários ciclos de evaporação, precipitação e reevaporação, precipitação e reevaporação novamente, é uma novidade. Isso traz uma contribuição a mais. A nossa estimativa – e a estimativa da maioria dos estudos recentes – é de que a água que sai diretamente das plantas da Amazônia e vai para a atmosfera é responsável por 20% das chuvas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil. Quando consideramos que a água que saiu da Amazônia pode se transformar em chuva no meio do caminho, por exemplo, no Pantanal, e depois evaporar novamente e ir para o Sudeste, percebemos que a responsabilidade da Amazônia pelas chuvas no Sul e Sudeste do país é ainda maior, cerca de 25%. É a primeira vez que foi feita a verificação desse transporte de água em cascata, e usamos esse mesmo processo no estudo que foi publicado recentemente na Nature.

Ciclo de desmatamento e seca

O que percebemos é que, quando consideramos esse transporte em cascata, o ciclo de desmatamento e seca fica mais intensificado do que se poderia prever se fosse considerado apenas o transporte do vapor de água direto, de um lugar para o outro. Então, o que observamos é que já estamos sentindo os efeitos das mudanças climáticas e as mudanças nos regimes de precipitação na Amazônia e, ao mesmo tempo, continuamos desmatando – na verdade o desmatamento voltou a aumentar nesses últimos dois anos. Ou seja, estamos forçando o sistema e contribuindo para que diminuam as chuvas e aumentem as temperaturas, o que deve levar a essa transição de uma floresta tropical úmida para uma vegetação típica do Cerrado.

IHU On-Line – É possível verificar que percentual da Amazônia já tem uma vegetação mais parecida com a do Cerrado?

Henrique Barbosa – É muito difícil avaliar, porque esse é um processo lento que acontece numa escala de tempo do ciclo de vida das árvores, então é algo a ser verificado em mais de vinte anos. De todo modo, as regiões que foram desmatadas se parecem muito mais com o Cerrado do que com a Amazônia, e toda a região conhecida como Arco do Desmatamento já sofre com isso, como Rondônia, Acre e Pará.

Nesse sentido, o que nosso estudo faz é alertar para o perigo de que essas mudanças que estamos impondo à Amazônia podem estar causando um processo de savanização do bioma, mesmo naquelas regiões que não foram perturbadas. Nosso estudo se concentra especificamente na Amazônia, mas esse cenário também pode acontecer nos demais biomas. Certamente se mudar o regime de precipitação e temperatura na região do Cerrado, por exemplo, a vegetação vai sofrer e vai haver mudanças.

IHU On-Line – Então, se o ciclo hidrológico da Amazônia for alterado, serão alterados os ciclos hidrológicos de todos os biomas do país?

Henrique Barbosa – Sim, por causa dessa influência da água que vem da Amazônia e que alimenta a precipitação em outras regiões no continente sul-americano: 20 ou 25% das chuvas da região Norte da Argentina e do Sul e Sudeste do Brasil são geradas da água que vem da Amazônia. Se essa quantidade de água for reduzida, espera-se que as chuvas diminuam nessas outras regiões.

Para fazer esse cálculo, também temos que considerar a variabilidade climática, ou seja, chove mais no verão e menos no inverno. Mas isso não significa que em todo verão chove a mesma quantidade. Em alguns verões chove muito e, em outros, chove pouco. Essa variação de chuvas de um ano para o outro significa que estamos provocando uma mudança que é difícil de separar da variabilidade natural do sistema.

IHU On-Line – O que seria preciso fazer para reverter ou evitar esse ciclo de desmatamento e secas que está sendo previsto para a Amazônia?

Henrique Barbosa – É preciso vontade política dos governantes para querer fazer essa mudança. Por razões diferentes, entre elas vontade política e preço de commodities, nos dois governos Lula e no primeiro governo Dilma, conseguiu-se controlar muito o desmatamento, o qual foi reduzido a quase zero. Contudo, essa urgência sobre o assunto foi deixada de lado, tendo em vista outros problemas que o país estava enfrentando, e os políticos passaram a se concentrar mais em outras pautas.

De todo modo, não se pode deixar de ter a preservação da floresta como um dos itens principais da lista do que se deve fazer, principalmente para quem está na posição de definir as leis, as estratégias de manejo e a legislação ambiental. Como cientista, posso fazer pesquisa e tentar educar as pessoas para transmitir esse conhecimento. Como jornalista, você pode ajudar divulgando esses estudos. Agora, como população, poderíamos ir a Brasília pressionar os políticos, mas, em última instância, são aqueles que estão com a caneta na mão que irão escrever a lei.

IHU On-Line – Gostaria de acrescentar algo ou explicitar algum outro ponto do estudo?

Henrique Barbosa – Uma coisa interessante que observamos é que, se a floresta for heterogênea, o efeito da seca pode ser diminuído. Se a vegetação for toda igual, a floresta como um todo responde de maneira igual às mudanças de chuva e de temperatura. Isso significa que, quando a temperatura for alterada de modo a causar efeitos na vegetação, toda a floresta sentirá esses efeitos, ou seja, a floresta inteira será perturbada de uma hora para a outra. Portanto, quanto mais heterogênea for a floresta – se em certas localidades existirem árvores que são mais resistentes ao estresse hídrico e, em outras localidades, árvores que são menos resistentes; em outras existirem árvores que aguentam mais a variação de temperatura e, em outras, árvores que aguentam menos, ou seja, se há essa variabilidade grande, tal como se observa hoje na Amazônia -, maior a possibilidade de estabilizar esse ciclo negativo de desmatamento, de redução das chuvas, de transição de floresta para cerrado. Quando a floresta é heterogênea, esse ciclo não consegue se propagar tão rápido. Isso demonstra que a própria biodiversidade da floresta, especialmente a vegetal, é importantíssima para manter a estabilidade dela, sem falar na sua importância para o desenvolvimento científico e para o desenvolvimento de remédios.

Por que devemos nos importar com a Amazônia?

Outra questão que gostaria de comentar é por que devemos nos importar se um tipo de vegetação vai desaparecer na Amazônia, se outro tipo de vegetação vai surgir em seu lugar. Isto é, por que devemos nos preocupar se a vegetação da Amazônia pode ser substituída por uma vegetação de Cerrado? Uma das questões centrais é que as árvores da Amazônia são todas muito grandes, têm troncos enormes, ou seja, possuem de 30 ou 40 metros de altura, e a quantidade de carbono armazenado nessas árvores é muito grande. Então, se uma árvore dessas morre e nasce uma muito menor no local, vai haver uma diferença entre duas massas de carbono e essa diferença vai para a atmosfera. Nesse processo de substituição da vegetação da Amazônia pela vegetação do Cerrado, aumentaríamos muito a quantidade de carbono na atmosfera e, consequentemente, aumentariam as mudanças climáticas, as mudanças de temperatura e precipitação e também o processo de savanização. Por isso, temos que ter cuidado com a Amazônia.

Se fizermos uma lista dos países mais poluidores do mundo, o Brasil está em oitavo lugar, justamente por causa do desmatamento e das queimadas na Amazônia. Se não considerarmos o desmatamento e as queimadas, o Brasil nem aparece nessa lista, porque a atividade industrial brasileira é muito pequena. Então, temos de pensar não só em preservar a floresta, mas também nos efeitos que essa preservação acarreta para as mudanças climáticas, porque se não fizermos isso, os efeitos serão muito maiores não só na Amazônia, mas no mundo todo. Se o nível das águas subir por conta do aquecimento global, como está sendo previsto, a população que vive na região costeira será completamente afetada.

Irracional

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O ano é 2093 e o mundo como o conhecemos colapsou. A temperatura do planeta subiu 11°C em média, o nível do mar elevou-se em 8 metros, pelo menos 1,5 bilhão de pessoas tiveram de migrar em massa após serem deslocadas de suas casas, mais de 70% das espécies foram extintas, entre elas o icônico urso-polar. O cenário catastrófico previsto pela historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, em seu mais recente livro – The Collapse of Western Civilization (O Colapso da Civilização Ocidental, ainda sem tradução para o português) – é uma ficção, mas fortemente amparado na realidade. Na prática, é só um pouco mais dramático do que as estimativas feitas pela ciência.

Valendo-se de dados científicos e dos acontecimentos dos últimos anos, ela e o historiador Eric M. Conway imaginam o que pode acontecer se a humanidade falhar em agir diante da informação robusta que existe sobre as mudanças climáticas. É um alerta assustador, às vésperas da Conferência do Clima da ONU, que será realizada em Paris, no final do ano, sobre como tudo pode dar muito errado. Mas é também um lembrete de que as informações disponíveis para evitar o pior estão ao alcance dos governantes. Basta agir.

Naomi se tornou uma das principais vozes nos Estados Unidos na defesa de ações contra as mudanças climáticas e no combate aos negacionistas do problema. Ela foi a primeira a mostrar que é consenso entre a esmagadora maioria da comunidade científica que o clima está mudando por ação humana e foi a responsável, junto com Conway, por desmascarar um grupo de “especialistas” que, financiados pelas mais variadas indústrias, trabalham para lançar dúvida sobre o que a ciência diz.

Esse punhado de pessoas, de acordo com a dupla, vem atuando desde as primeiras pesquisas que mostravam relação entre consumo de tabaco e o câncer até os estudos sobre as mudanças climáticas. A denúncia foi feita no livro Merchants of Doubt (Mercadores da Dúvida, sem tradução em português), de 2010, que foi transformado em um documentário de mesmo nome lançado no começo deste ano.

Em entrevista ao Aliás (em parte concedida no interior de Massachusetts, onde ela mora), Naomi analisou a política americana em relação às mudanças climáticas e as últimas ações do presidente Barack Obama (que lançou no começo de agosto um plano de corte das emissões das usinas termométricas a carvão). Ela também fala sobre o comportamento dos cientistas em relação à opinião pública sobre o tema e o impacto que o papa Francisco, que publicou sua encíclica ambiental em junho e vai visitar os Estados Unidos em setembro, pode ter sobre essa situação.

Sua publicação mais recente é justamente uma introdução à versão em livro da encíclica, que chegou às livrarias americanas no começo de agosto visando atingir um público além dos católicos. Ela escreve: “A essência da crítica (feita pelo papa) é que nossa situação não é um acidente – é a consequência da forma como nós pensamos e agimos: nós negamos as dimensões morais de nossas decisões e confundimos progresso com atividade. Nós não podemos continuar a pensar e agir desse jeito, desconsiderando tanto a natureza quanto a justiça, e esperar prosperar com isso. Não é só amoral, não é nem mesmo racional”.

Como a sra. avalia a política atual dos EUA em relação às mudanças climáticas?

Apesar de algumas tentativas do presidente Obama, a situação é totalmente terrível, porque a liderança do Partido Republicano ainda está oficialmente em negação do problema. A esperança é que isso talvez chegue a um fim logo, porque também há republicanos mais sensíveis à questão que estão se manifestando nos bastidores, como Bob Inglis (ex-deputado pela Carolina do Sul que defende que os conservadores aceitem as evidências científicas das mudanças climáticas e ajam em relação aos subsídios dados aos combustíveis fósseis) e George Schultz (secretário de Estado na administração Reagan e coautor do relatório Negócio de Risco, que mostra os danos econômicos que as mudanças climáticas podem causar aos EUA). Sabemos que há alguns líderes republicanos que já entenderam que não se trata de uma falácia, mas que ainda não se sentem capazes de falar abertamente em público. Então, acho que as próximas eleições podem ser importantes, especialmente após a divulgação da encíclica do papa Francisco. Há uma oportunidade aí para os moderados dizerem: temos de parar de ter só uma posição às escondidas sobre esse assunto e nos posicionarmos à frente dessa questão. Isso poderia acontecer. A questão é saber se de fato vai acontecer.

Como seria esse passo?

É o que eu sempre digo: eu continuo esperando por um “momento Nixon vai a China”. Richard Nixon era um notório anticomunista, mas fez uma ousada e histórica viagem para a China. Politicamente, foi chocante. Mas algumas pessoas argumentaram que ele pôde fazer isso justamente porque ele era tão anticomunista que ninguém poderia acusá-lo de estar virando comunista. Nixon pôde ir à China de um modo como nenhum democrata jamais poderia ir naquela época. A moral da história é que alguns republicanos, como Lindsey Graham (senador pela Carolina do Sul desde 2003, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano e que nos últimos meses têm criticado seu partido por não acreditar no que a ciência diz sobre as mudanças climáticas) ou John Boehner (presidente da Câmara dos EUA), poderiam dizer: chegou o momento para nós reformularmos o modo como pensamos sobre o ambiente e percebermos que é possível ter prosperidade e crescimento econômico e proteger o ambiente ao mesmo tempo. Dizer que não são coisas excludentes – pelo contrário: se não fizermos nada sobre as mudanças climáticas, essa será a real ameaça à prosperidade.

Falando sobre o papa, chama a atenção como a comunidade científica americana aguardava ansiosamente pelo pronunciamento dele como algo com potencial de mudar a política dos EUA sobre a questão. Por que a ciência, de repente, passou a botar tanta esperança em um pronunciamento religioso? 

Isso nos mostra como política nos EUA ficou estranha. Afinal, quão bizarro é ter os cientistas mal podendo conter a ansiedade por um pronunciamento papal sobre uma questão que concerne à ciência, à cultura e à sociedade? A minha interpretação é que houve tanta ansiedade em torno da encíclica porque cientistas são cientistas e eles não sabem como falar sobre questões culturais e morais. Não são treinados para fazer isso, não se sentem confortáveis fazendo isso. Mas nem sempre foi assim. Durante a Segunda Guerra e depois, muitos cientistas se posicionaram contra o uso de armas nucleares, mas era um tempo diferente, com pessoas diferentes. Agora, sobre as mudanças climáticas, eles falam em termos científicos: quantos graus Celsius de aquecimento, quantos milímetros por década de aumento do nível do mar… Só que isso não é uma maneira de falar ao coração das pessoas. Para a maioria das pessoas normais, isso não significa nada. Cientistas não conseguem passar a mensagem de por que isso importa. Porque, para fazer isso, é necessário colocar o problema de maneira pessoal, emocional, econômica, social e moral. Isso é um pouco o que fazemos no livro O Colapso… Tentamos contar a história do ponto de vista humano. Mas o que o papa está fazendo vai além em vários graus de magnitude, porque ele está colocando em termos morais ao dizer que o que está acontecendo é uma injustiça. É algo que os cientistas não se sentem capazes de dizer, mesmo sendo algo que eles saibam, com o qual se preocupam, se incomodam e do qual falam em privado. O papa pode fazer o que os cientistas não podem. Há 20, 30 anos eles acharam que os líderes políticos nos EUA fariam isso, mas eles não fizeram. E o papa agora resolveu assumir essa responsabilidade. Acredito que a comunidade científica de certo modo se sente aliviada com isso.

E o catolicismo nem é majoritário nos EUA.

Verdade. Mas o papa ainda é visto como uma autoridade moral por muitas pessoas, não só pelos católicos. E também é importante porque muitos dos líderes republicanos de direita neste país são católicos. Rick Santorum (pré-canditato à Presidência) e John Boehner, por exemplo. A Suprema Corte está repleta de católicos. E Santorum e Boehner têm criticado o que eles chamam de “cafeteria catholics” (algo como católicos do self-service), que escolhem quais regras da Igreja querem seguir. Bom, se eles defendem que não é certo escolher o que seguir, como vão agir com o papa dizendo que é preciso fazer algo contra as mudanças climáticas e que isso não é uma questão científica, mas moral, que é uma questão de justiça?

O que pode acontecer quando o papa se dirigir ao Congresso em setembro? Os republicanos podem ficar constrangidos, numa saia justa que talvez os faça agir?

Honestamente, acho que a maioria ali não é mais capaz de ficar constrangida. Mas o impacto pode ser grande no público. A esperança é que se o papa falar claramente sobre o assunto, pedindo ações dos EUA, e isso tiver uma ampla cobertura da imprensa, muitas pessoas comuns vão ouvir, pessoas que podem não ter dado muito atenção ao problema ou nem sabem o que pensar sobre ele. E elas vão ouvir o papa dizendo que isso é real e, veja, ele não é cientista querendo financiamento para sua pesquisa, não é alguém só querendo ganhar atenção. Afinal, oras, ele é o papa, pode conseguir toda a atenção que ele quiser. Então por que ele estaria tratando desse problema se ele não achasse que é verdade? Quando as pessoas perceberem isso, pode ser que mude o tom da conversa.

Mas mesmo do lado dos democratas a situação não é tão boa. Obama recentemente anunciou seu Plano de Energia Limpa, fez o anúncio conjunto com a China. Mas também defendeu recentemente a exploração de 

petróleo no Ártico.

Pois é, isso não faz nenhum sentido. Em muitas dessas ações eu normalmente não concordo, mas até entendo a lógica. Agora, com o Ártico, não é o caso. Fiquei muito irritada depois daquele anúncio. É como dar com uma mão e tirar com a outra. Não existe um progresso real (para uma economia verde) se o país continua investindo em novas formas de obter recursos fósseis. É por isso que me envolvi com o movimento de desinvestimento em combustíveis fósseis (proposto por alunos de Harvard para que a universidade deixe de investir no setor). Uma pessoa não pode dizer que é séria a respeito das mudanças climáticas e ao mesmo tempo dar apoio a novos investimentos em combustíveis fósseis. Se faz isso, ou está mentindo para o mundo ou para si mesma.

Seu novo livro destaca como o Ocidente vai sofrer com as mudanças climáticas. Por que a sra. acha que o Oriente, especialmente a China, será menos afetado?

Principalmente porque a China tem historicamente sido a civilização mais resiliente de todas, mas também porque – e isso é um argumento central do livro – se as coisas ficarem realmente ruins, as democracias terão mais dificuldade para responder do que os regimes mais autoritários. Democracias não podem simplesmente ordenar que as pessoas se movam para outros locais. Elas não podem simplesmente confiscar recursos – medidas que podem ser necessárias em casos de catástrofes naturais que levem a interrupção do fornecimento de comida e água, por exemplo. Mas governos autoritários fazem isso. E isso é um forte argumento de por que nós temos de agir agora em vez de esperar até que as coisas fiquem muito ruins.

No livro vocês estimam um futuro bastante pessimista, até mais dramático que os piores cenários do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Por que escolheram uma situação tão catastrófica?

Tentamos explorar como se pareceria o pior cenário, e nos baseamos em um trabalho anterior que fiz com Keynyn Brysse (historiadora da Universidade Princeton) e outros, que sugere que cientistas, no passado, subestimaram as ameaças ao planeta. Então extrapolamos aquela descoberta para sugerir que as estimativas atuais do IPCC também podem ser um pouco baixas. E, infelizmente, o nosso cenário está parecendo cada vez menos implausível.

Quais situações dão sinais de que os piores cenários podem se concretizar?

A evidência mais óbvia que dá suporte a isso vem do manto de gelo da Antártida Ocidental. Por décadas – literalmente, desde os anos 1970 -, cientistas sabem que o aquecimento global ameaça sua estabilidade, o que poderia levar a muitos metros, talvez dezenas de metros, de elevação do nível do mar. Mas quase todo mundo achava que a ameaça era pequena e muito distante. Muita gente achava que os efeitos não seriam vistos por séculos. Alguns chegaram a considerar que seriam essencialmente hipotéticos. Agora nós descobrimos, em um estudo científico publicado no ano passado, que cientistas encontraram evidências de que a Antártida já começou a se desestabilizar e que seu rompimento pode, na verdade, ser uma coisa certa (apesar de o tempo para isso acontecer continue incerto). Quando esse estudo foi publicado, eu pensei: meu Deus! Nós achamos que pudéssemos estar exagerando em nossa história, mas parece que o nosso “exagero”, no final das contas, não foi exagerado coisa nenhuma.