Califórnia: primeiro estado dos EUA a etiquetar herbicida Roundup como cancerígeno

A primeira do país, a Agência de Proteção Ambiental da Califórnia (Cal/EPA, por sua sigla em inglês) informou que pensa em reclassificar o glifosato – ingrediente tóxico ativo do herbicida Roundup, da Monsanto – por saber que provoca câncer.

Segundo uma “notícia de intenção”, publicada recentemente pelo Escritório de Avaliação de Risco Sanitário Ambiental (OEHHA, por sua sigla em inglês), pertencente à Cal/EPA, a ação entra no âmbito da Proposta 65, da Califórnia, que obriga o Estado a publicar uma lista de produtos químicos conhecidos por serem causa de câncer, defeitos pré-natais e outros danos reprodutivos.

A mesma lei, também conhecida como Lei de Responsabilidade pela Água Potável Segura e os Tóxicos, de 1968, exige também que certas substâncias identificadas pela Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC, por sua sigla em inglês), dependente da Organização Mundial da Saúde (OMS), sejam incorporadas à lista de cancerígenos.

O anúncio da agência estatal californiana, de 04 de setembro último, responde à classificação do glifosato pela IARC, no último mês de março, como “provável cancerígeno em seres humanos”.

“Os estudos de casos de exposição ocupacional realizados nos Estados Unidos, Canadá e Suécia informaram um incremento de risco de linfoma não de Hodgkin, que persiste depois de ajustar outros pesticidas”, expressou a IARC acerca do herbicida. Também há “convincentes provas” de que pode provocar câncer em testes de laboratório com animais.

Parece que a Califórnia é o primeiro estado do país a fazer essa avaliação do polêmico produto químico, segundo o doutor Nathan Donley, cientista do Centro para a Diversidade Biológica. “Pelo que sei, esta á a primeira agência reguladora dos Estados Unidos que determina que o glifosato é um cancerígeno”, explicou o doutor Donley em um e-mail para a EcoWatch. “Trata-se de uma conquista muito grande”.

O Roundup, o emblemático herbicida da Monsanto, é utilizado nos cultivos de todo o mundo e é o mais conhecido dos antipragas dos EUA. A gigante do agronegócio sustenta que seu produto é seguro e exige que a OMS retire seu informe.

Apesar das reclamações da empresa, muitos anos de investigação relacionam o Roundup com inúmeros problemas de saúde e do meio ambiente; também se registra uma diminuição recorde das mariposas monarca. Em junho último, a França proibiu a venda do Roundup em lojas de jardinagem devido à inquietação por sua toxicidade.

No está claro se outros estados seguirão os passos da Califórnia, ainda que este estado, especificamente, ponha ênfase especial nas leis de etiquetagem comercial.

“Se quaisquer outros estados acabam resolvendo que o glifosato é um cancerígeno, não creio que disponham dos requisitos de etiquetagem que a Proposta 65 proporciona o Estado da Califórnia”, diz Donley. “São os requisitos de rotulagem os que realmente dão ao consumidor a informação que necessitam para tomar uma decisão informada acerca de comprar ou não um produto específico”.

Aparte do glifosato, há outros três produtos químicos – tetracloreto de carbono, paration e malation – que também estão na relação de causadores de câncer da Cal/EPA. A agência avisa que tem a intenção de, em um prazo de 30 dias, acrescentar estes produtos químicos aos aproximadamente 800 já conhecidos por sua carcinogenia, informa a agência RT.

Sam Delson, porta-voz da OEHHA, disse à Agri-Pulse que as assinaturas que empregam 10 ou mais pessoas e utilizem os produtos químicos que figuram nessa lista devem “advertir clara e razoavelmente” sobre os danos que podem ocasionar esses produtos.

A lista não restringe o uso nem a venda das substâncias que especifica; o público está autorizado até o próximo dia 05 de outubro a apresentar comentários acerca da proposta.

A porta-voz da Monsanto, Charla Lord, disse à Agri-Pulse que o “glifosato é uma ferramenta eficaz e valiosa para os granjeiros e outros usuários, muitos deles do Estado da Califórnia. Em breve, proporcionaremos informação científica detalhada à ORHHA sobre a segurança do glifosato e trabalharemos para que nenhuma lista potencial afete a utilização nem as vendas do glifosato na Califórnia”.

Advogados dos consumidores aprovaram a iniciativa da Cal/EPA.

“Dado que o setor de pesquisa da Organização Mundial da Saúde declarou, recentemente, que o glifosato provavelmente seja um cancerígeno para os seres humanos; a inclusão na lista regida pela Proposta 65 e a exigência de que seja etiquetado como tal são os seguintes passos lógicos”, disse Rebecca Spector, diretora do Centro de Segurança Alimentar da Costa Oeste, a EcoWatch[TEXTO ORIGINAL]

Colapso dos rios brasileiros

[TEXTO ORIGINAL]

Colapso dos rios brasileiros, imagem do rio Salgadinho poluídoEsta matéria  tem o objetivo de  comentar sobre a sorte de TODOS OS RIOS QUE DESAGUAM NA COSTA BRASILEIRA. Cem por cento deles está contaminado por poluição, e 99%, completamente assoreados, já não se prestam à navegação.  O poder público é omisso, conivente, incapaz de cumprir obrigações básicas como prover as cidades de saneamento básico, coleta e tratamento de lixo, educação de boa qualidade, aplicar e fazer cumprir  a legislação ambiental, etc. Cansei de ouvir de especialistas da academia a frase: “nossa legislação ambiental é perfeita, só que inexequível”. Porque? Por que falta vontade política, investimentos, e eficiência nos gastos públicos.

O outro problema dramático é a falta de educação da população. Das classes mais abastadas, portanto em condições de se informar, às mais baixas, quase todos jogam lixo nas ruas, riachos, rios, ou espaços públicos como as praias. O resultado é assustador,  um pré-réquiem para os rios brasileiros.

Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul não tem grandes rios, apenas arroios. O grande corpo d’água do estado é o lago Guaíba.

Santa Catarina

Colapso dos rios brasileiros, rio ararangua, SC
O vale do Ararangua. Não se deixe impressionar pela beleza. As águas do rio estão podres

A poluição do Araranguá

Um dos maiores, se não o maior rio do estado, é o Araranguá. Pesquisando  sobre ações do Comitê de Bacias,  encontram-se platitudes como esta…

Vamos desenvolver capacitações, recuperação de vegetação, buscar técnicas de solução para as fontes de poluição existentes, a identificação de contaminantes nos rios…

Ahã, então tá. Estamos no século 21, é hora do blá-blá-blá ir pro saco. A hora é agora! O Brasil pede ação!

O rio Tubarão

Além do Araranguá, há outro rio importante no estado, o  Tubarão. A seguir relato que fiz na primeira, e minuciosa, viagem do Mar Sem Fim:

No passado ele era estreito e sinuoso (o rio Tubarão) depois, no final dos anos 70, seu curso foi alterado (em razão de enchentes). Então ficou largo e reto, quase um canal. E foi dragado diversas vezes…no caminho passamos em frente à Usina Termoelétrica Jorge Lacerda, instalada em suas margens, uma das maiores do país (482 mil kW) que opera a partir da queima de carvão. Toda a bacia do Tubarão está comprometida, degradada pelos rejeitos da extração e beneficiamento do carvão, atividade comum no sul de Santa Catarina, e também pela poluição industrial. A cor da água é de um marrom leitoso e, em suas margens, quase não há mata ciliar substituída por pastos e fazendas de camarão.

O rio Araranguá é ainda pior

 O rio serpenteia por entre um vale muito verde até a altura da praia. Então faz uma curva para o norte quando seu curso segue paralelo à faixa de areia uns bons 500 metros, até desviar para a direita, cortando a praia ao meio, para seu encontro com o mar. A poluição do Araranguá se intensifica na região de Criciúma, onde há grandes minas de carvão. A água usada para lavar o mineral ou, “rejeitos peritosos”, é jogada no Araranguá. Para piorar seu curso passa para uma região onde há grandes culturas de arroz, uma das que mais usa herbicidas e agrotóxicos. Juntando-se a estes fatores a rápida urbanização do município, e a crônica falta de investimentos em saneamento básico, o resultado não poderia ser outro: alta poluição

Acrescento que o Ararangua teve sua mata ciliar decepada o que gerou erosão e assoreamento. O rio, que antes recebia barcos de porte médio, hoje não pode nem com jangadas…

Colapso dos rios brasileiros, rio-Araranguá-sc
Foz do Araranguá

Paraná

A baía de Paranaguá é o acidente geográfico mais notável da costa deste estado e, como todos os outros corpos d’água que desaguam no mar, está comprometida

Fabian Sá, doutorando em Geoquímica Ambiental, da UFPR, nos falou da contaminação da baía de Paranaguá por metais pesados, arsênico e níquel. As duas substâncias, ele constatou, apresentaram níveis acima dos da Resolução do Conama, que trata a questão.

Colapso dos rios brasileiros,imagem do porto de paranaguá-
Embarque se soja deixa o ar espesso em Paranaguá

O segundo ponto notável da costa do estado é a baía de Guaratuba, também contaminada…

A baía de Guaratuba é pequena, se comparada a Paranaguá. São “apenas” 52 km de estuário e, de acordo com Rangel Angelotti, da Universidade Federal do Paraná, o maior conflito, e pressão,  diz respeito ao crescimento populacional das cidades do entorno. Como sempre o saneamento básico é pífio, o crescimento desordenado das cidades, uma constante, e o Estado, que nunca tem tempo de planejar, segue atrás, correndo contra o prejuízo, assim definiu o professor Rangel.

São Paulo e o Ribeira de Iguape

O Lagamar é um gigantesco estuário cercado pelo maior trecho contínuo de mata atlântica do Brasil. Ligando os dois extremos, Paraná e São Paulo, há uma série de canais que começam em Iguape, sul de São Paulo, e seguem até Paranaguá, no norte do Paraná recebendo a água do mar por várias “aberturas”, ou barras.O interior dos canais e baías são cercados dos dois lados por imensos manguezais, um dos mais importantes ecossistemas marinhos: várias espécies de peixes, crustáceos e moluscos, além de uma infinidade de aves marinhas que usam suas copas como habitat, dependem dele para seu ciclo de vida.

Colapso dos rios brasileiros, mapa do rio Ribeira de Iguape e o canal do valo grande
Ilustração mostra o desvio que fizeram no Ribeira de Iguape, com a abertura do Canal do Valo Grande, algoz do Lagamar. Faz mais de 20 anos que o canal está aberto

Biodiversidade do Lagamar e o vilão: Canal do Valo Grande

Apenas a Mata Atlântica, em seus 7% restantes, concentra cerca de 20 mil espécies vegetais o que corresponde a 35% de todas as espécies brasileiras. Parte deste tesouro esta se perdendo há anos sem que se tome uma providência para minimizar o risco. O grande vilão é o Canal do Valo Grande, espécie de “atalho” feito pelo homem no rio Ribeira de Iguape em 1852. Naquele tempo o porto de Iguape era um dos mais importantes do Sul do Brasil e ficava defronte a cidade. Por ele era escoada a produção agrícola, especialmente o arroz. O rio Ribeira serpenteava por trás da cidade até atingir sua barra alguns quilômetros ao norte de Iguape. Para economizar tempo, decidiu-se abrir este canal ligando o Ribeira diretamente ao “Mar Pequeno”, onde ficava o porto.

Consequências da abertura do Valo Grande

Desde então a cidade de Iguape literalmente naufragou. O canal, que deveria ter no máximo 40 metros, sofreu os efeitos da erosão provocada pela vazão do rio. Hoje tem mais de 300 metros de largura. Grande parte da cidade foi tragada. Junto com a enorme vazão vieram toneladas de sedimentos e muita água doce. Os sedimentos assorearam o Mar Pequeno e a barra de Icapara, inviabilizando o porto. E a água doce, que continua a fluir livremente até hoje, está matando o manguezal e provocando o fechamento de bocas de rios com capim. Com a morte do manguezal desapareceram os peixes. Não há mais ostras nas raízes aéreas do mangue, ou siris e caranguejos na área alagada. Outra consequência foi o assoreamento da calha do Ribeira. O curso natural do rio perdeu sua força e, na barra, o mar e os sedimentos marinhos começaram a entrar. O resultado é desastroso para a biodiversidade de todo o Lagamar.

Valo Grande fechado uma única vez desde sua abertura

Desde a abertura no século passado apenas uma vez o canal foi fechado. Aconteceu no anos 70 quando Paulo Egydio Martins era governador. Nesta época o Jornal da Tarde fez uma grande campanha pelo fechamento do Valo. Paulo Egydio comprou a briga. Uma barragem de pedras foi construída mas não durou muito. Em 1983 uma grande cheia do Ribeira destruiu a contenção, e a água doce voltou a invadir o Lagamar, situação que persiste até hoje.

Rio de Janeiro, baía de Guanabara

Passamos  pelo vão da ponte Rio- Niterói e navegamos para a Ilha do Fundão, podendo ver no fundo da baía uma cena sinistra: uma espécie de cemitério de navios. São imensos cascos, alguns ainda com o convés de pé, antigos, abandonados, adernando enferrujados à espera da morte. Como é caro desmonta- los, eles ficam ali aguardando não sei qual desastre para se desintegrarem de vez, provocando mais um problema ecológico na maltratada Baía de Guanabara. Na ilha do Fundão novas cenas de terror. A poluição nesta parte (lado Oeste) é tamanha que flagramos pescadores passando a rede na praia e recolhendo dela três camarões, um siri, um pé de tênis, vários copos e muitos sacos de plástico. Degradante.

Colapso dos rios brasileiros, imagem da refinaria da baía de Guanabara
Baía de Guanabara: duas refinarias, três portos, dezenas de estaleiros, centenas de oficinas clandestinas, e 9 milhões de pessoas no entorno SEM saneamento básico

Problemas da baía de Guanabara

Nove milhões de pessoas vivem no entorno da baía, e há duas refinarias dentro dela: a Duque de Caxias, da Petrobrás, e outra privada, do Grupo Peixoto de Castro. Três portos, diversos estaleiros, milhares de oficinas clandestinas; 15.000 litros por segundo de  esgoto doméstico jogado in natura (Eliane Canedo de Freitas Pinheiro, livro “Baía de Guanabara); uma frota de automóveis poluentes circulando em toda sua volta; assoreamento dos rios; ocupação desordenada das bacias hidrográficas; e 16 municípios em volta. De quem é a culpa senão do estado? Ou melhor, da ausência do estado. Pagamos impostos escorchastes e temos de volta 15 mil litros de esgoto in natura, por segundo, despejados no maior cartão postal do país.

Colapso dos rios brasileiros, imagem de manguezal poluído
A baía de Guanabara recebe 15 mil litros de esgoto não tratado por segundo, todos os dias!

Espírito Santo

Havia o Rio Doce. Havia. A Samarco, a Vale e a BHP deram cabo dele. O rio está morto, o cenário é o pior possível, disse Luciano Magalhães, diretor do Saae (Serviço Autônomo de Água e Esgoto), de Baixo Guandu (ES). Morte anunciada em razão de uma legislação frouxa e inexistência de fiscalização, portanto, mais uma vez, co-autoria do poder público. Além da Samarco, propriedade da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton, o governo federal também deveria ser punido.

Colapso dos rios brasileiros, rio Doce
A morte do rio Doce, fuzilado pela Samarco, Vale, BHP Billiton e o Governo Federal

A gigante BHP e seu dedo podre

O governo federal foi tão omisso que não se preocupou com o histórico de acidentes da empresa. A BHP Billiton tem dedo podre. Acidentes graves são frequentes onde atua. Um dos piores aconteceu em Papua-Nova Guiné, ao abrir uma mina de ouro e cobre, a OK Tedi Copper Gold Mine, em 1984. Durante 20 anos despejou, dia após dia, 80 mil toneladas de rejeitos contendo cobre, cádmio, zinco e chumbo, diretamente na bacia do rio Fly, o que arruinou terras de milhares de agricultores, envenenando 2.000 quilômetros quadrados de floresta. A empresa tem espertise em detonar rios. Em Papua Nova Guiné matou dois de uma só vez:  o Fly e o Ok Tedi. Para fugir das responsabilidades, assinou acordos com líderes comunitários, aborígenes que, sem saber que estavam assinando, isentaram a empresa do pagamento de indenizações. O histórico podre da BHP gerou um relatório alternativo, BHP Billiton Dirty Energy, em 2011, disponível na internet. Ele informa sobre a destruição de comunidades na Colômbia, acidentes na Indonésia e Austrália. E mostra os resultados da empresa:  fiz uma rápida pesquisa no site do Mining Journal. No campo ‘Search here’, digitei  ‘accidents caused by BHP’. O que apareceu foi assustador. Nada menos que 18.178 resultados!  É inacreditável. Faça o teste e verá.

Colapso dos rios brasileiros
Mais de 10 mil resultados para a pesquisa: acidentes causados pela BHP Billiton

BAHIA

A maioria dos rios é de pequeno porte, exceção ao Jequitinhonha, cuja extensão é de cerca de mil quilômetros. O rio nasce em Minas Gerias, no Pico do Itambé, na Serra do Espinhaço. Como quase todos os grandes rios que deságuam na costa, o Jequitinhonha recebeu duas barragens para a geração de energia. A primeira, em 1944, e a segunda, em 2006, ambas em Grão Mogol, MG.

Colapso dos rios brasileiros, rio jequitinhonha
Jequitinhonha: por estas água navegavam navios de porte médio

A geração de energia hídrica  tem dois lados que devem ser analisados. Um, positivo, é a geração de energia limpa; outro, negativo, é o que isso significa para o meio ambiente. As barragens acabam com várias espécies de peixes, que não podem mais cumprir seu ciclo de vida fazendo a piracema. Elas  também afetam a flora, e a fauna.

O vale do Jequitinhonha tem 79 mil Km2, abriga 900 mil pessoas, e é extremamente pobre. Os 75 municípios não contam com serviço de coleta e tratamento de lixo, muito menos esgotos tratados, que são despejados, in natura, no leito do rio. Outra ameaça são os garimpos ilegais, altamente poluentes. A corrida do ouro começou ainda no século XVII, e não parou até hoje.

jColapso dos rios brasileiros, mapa do rio jequitinhonha
Mapa: http://www.achetudoeregiao.com.br

O Diagnóstico Ambiental da Bacio do rio Jequitinhonha, de autoria do IBGE, Ministério do Planejamento, diz que

pelas características físicas regulares de clima e relevo associadas às condições sócio- econômicas, sobre tudo de saneamento básico, a bacia do Jequitinhonha configura-se  um desafio às políticas governamentais.

Mais uma vez o poder público reconhece o fracasso de suas políticas. E mudamos de estado.

SERGIPE

Há dois rios importantes no estado, o Vaza Barris, e o rio Sergipe. O primeiro nasce na Bahia e tem 450 quilômetros de extensão. O rio não tem barragens para gerar energia, mas tem uma para a construção do açude Cocorobó, perto da foz. O rio é histórico. A construção deste açude afogou Canudos que, na descrição de Euclides da Cunha

era uma tapera dentro de uma furna

A água do Vaza Barris é quase uma exceção entre os rios que desaguam na costa. Ela foi considerada “regular” em análise feita pela SOS Mata Atlântica. O rio Sergipe é menor em extensão, apenas 210 quilômetros mas, assim como o Vaza Barris, nasce na Bahia, e atravessa Sergipe no sentido oeste/leste até desaguar no Atlântico, entre os municípios de Aracaju e Barra dos Coqueiros.

Colapso dos rios brasileiros, imagem do rio vaza barris
O Vaza- Barris (fofo: blogdoliraneto)

Os principais problemas hídricos e ambientais da bacia são: lixeiras a céu aberto; deficiência de sistema de esgoto; desmatamento; contaminação por fontes diversas e irregularidades no abastecimento de água; má qualidade da água; uso intensivo de agrotóxicos; desperdício de água; exploração de areia e de argila; queimadas; deficiência de educação ambiental; pesca e caça predatórias e enchentes

SERGIPE/ALAGOAS

A foz do São Francisco é a divisa dos dois estados. Infelizmente, o “rio da integração nacional”, tão importante na história do Brasil,  é um eloquente exemplo do que não se deve fazer em rios.

Colapso dos rios brasileiros, foto da foz do rio S Francisco
Foz do São Francisco, o Farol do Cabeço ficava em terra firme. A erosão engoliu a cidade inteira

Entre 2008 e 2012 uma equipe de pesquisadores liderada pelo professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, Pernambuco, promoveu 212 expedições ao longo e no entorno do São Francisco. Era o tempo da divulgação da transposição do rio… Em seguida o estudo foi reunido no livro “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação” (Andrea Jakobsson Estúdio). O trabalho é considerado o mais profundo estudo sobre a Caatinga, único bioma exclusivo do Brasil. O título do primeiro capítulo é emblemático:

A extinção inexorável do rio São Francisco

Os problemas são inúmeros mas, talvez, os mais graves sejam as grandes barragens para a produção de energia, há cinco delas (em Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Paulo Afonso e Xingó) que geram 15% da energia produzida no país e, agora, a megalômana obra  de transposição de suas águas  orçada inicialmente em 4,5 bilhões de reais, número que  já supera os 8 bilhões!

Colapso dos rios brasileiros
Até 1992 a vila do Cabeço e o Farol do Cabeço ficavam em terra firme…

Mas há muitos outros problemas, entre eles a quantidade imensa de esgotos não tratados jogados no leito, ao longo de seus quase três mil quilômetros da nascente até a foz. As barragens impedem a piracema. Como os peixes não podem mais subir o rio para se reproduzirem, o declínio das espécies e cardumes é evidente.

Para encerrar, o livro mostra que restou apenas 4% da vegetação original das margens do São Francisco. Sem mata ciliar a erosão toma conta das margens contribuindo para o assoreamento do leito.

 Alagoas ainda conta com outros rios, menos importantes, como o São Miguel, o Camaragibe, e o Santo Antônio.

PERNAMBUCO

Estes estado não se notabiliza por grandes rios. Existem alguns, como o Formoso, Sirinhaém,  e Jaboatão, no litoral Sul; e os dois rios que cortam Recife, o Capibaribe, e o Beberibe. Finalmente, no litoral norte há o rio Jaguaribe, bem maior que os demais.
Curiosamente o Capibaribe recebe forte carga de resíduos químicos lançados pelas indústrias têxteis do município de Toritama, distante 167 quilômetros de Recife. Um estudo apresentado na 61a reunião da SBPC informou as providências
Colapso dos rios brasileiros
Rio Capibaribe (foto: etienecabral)
Diante dessa realidade, em 2003 a CPRH constatou que nenhuma das 56 lavanderias vistoriadas possuía alvará de funcionamento. Em 2004, foram firmados Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) entre as lavanderias, Órgão Ambiental e o Ministério Público, com o objetivo de enquadramento às normas ambientais vigentes.
Como sempre, o poder público não faz sua parte
Porém, a fiscalização foi reduzida e, segundo as entrevistas realizadas e consultas a artigos recém publicados, atualmente a realidade continua praticamente a mesma.
Pesquisa mostra que o tratamento de esgotos na região metropolitana de Recife deixa a desejar
 Apenas 42% do volume de água consumido são tratados, segundo dados do estudo. Os municípios de Jaboatão dos Guararapes, Olinda e Paulista, que representam 1,3 milhão de habitantes, apresentaram uma piora em todos os três índices entre 2000 e 2010. Nas cidades litorâneas da RMR, 549 mil residências não contam com cobertura de esgoto. A única cidade da região a apresentar melhora nos índices foi o Recife, mas ainda assim apresenta um déficit de quase 60% na coleta de esgoto.
Pra onde vai o esgoto? Pros rios, em seguida, pro mar.
O rio Beberibe não fica atrás; como o Capibaribe, não passa de ‘esgoto a céu aberto’, uma vez mais, por omissão do estado. Veja resultados de pesquisas
Com base em todos os resultados obtidos ao longo desses quatro anos, pode-se dizer que as águas do rio Beberibe apresentam-se comprometidas, devido ao baixo valor de oxigênio, a alta DBO e índices elevados de nitrogênio e fósforo (indicadores de eutrofização) nessas águas. Apresentando elevada carga poluidora justamente nas zonas homogêneas populacionais densas (BE30, 45, 50). A atividade antrópica é responsável pela atual situação do rio (ocupação irregular das margens dos rios e a falta de saneamento básico). Necessitando assim de ações urgentes que possibilitem a sua recuperação e proteção
Colapso dos rios brasileiros
O Beberibe (foto:amigosdeoracao)
O rio Jaguaribe não foge à sina dos outros. Pesquisas mostram que

É bastante notório o alto grau de desmatamento da bacia hidrográfica do Rio Jaguaribe, podendo-se afirmar que 80% desta, pelo menos, já não conta com qualquer tipo de vegetação… o que faz aumentar as taxas de evaporação e rebaixamento do lençol freático, gerando erosões nas camadas superficiais do solo…Os materiais oriundos destas erosões são levados para a calha do rio, causando o seu assoreamento.

As comunidades que se situam nas margens do Rio Jaguaribe, foram implantadas sem planejamento, de uma forma desordenada e sem um mínimo de infra-estrutura…
PARAÍBA
O rio Paraíba é o mais importante do estado seja por sua extensão, 300 quilômetros, seja pela relevância econômica. A bacia do Paraíba tem 18.000 quilômetros quadrados, e ocupa 32% da área do estado. E mais uma vez, a situação se repete. Vejamos o que diz um estudo da Universidade Federal da Paraíba
As águas do Rio Paraíba, na área correspondente a sede urbana do município de Caraúbas, PB, estão recebendo uma elevada carga orgânica, devido principalmente aos efluentes domésticos, que não são tratados adequadamente, contaminando as águas superficiais et ambém as reservas hídricas subterrâneas…Os impactos ambientais nesse ecossistema também foram identificados pela ocorrência de processos erosivos e construções de empreendimentos nas margens do rio…A  expansão da  Algaroba- Prosopis juliflora- (espécie exótica que ocorre em regiões áridas e semi- adidas da Ásia, África, e América do Norte, introduzida no Nordeste na década de 40)   foi elencada como um problema ambiental que modifica não só a paisagem, mas o ecossistema por completo…
Colapso dos rios brasileiros
Em primeiro plano a cidade de João Pessoa. Mais atrás, o Paraíba do Norte, ao fundo, Cabedelo.
Finalmente, no litoral Norte do estado há o rio Mamanguape, o segundo em importância, pela extensão e pelo que representou no processo de ocupação do estado. Como se sabe, nos primórdios da colonização os rios brasileiros eras as estradas da época. Através deles o colonizados penetrava o sertão. O Mamanguape tem 170 quilômetros de extensão. Como quase  todos os outros rios brasileiros, o Mamanguape perdeu sua mata ciliar entrando em seguida no ciclo do assoreamento. Estudo publicado em 2011 informa
Buscando a atender as necessidades de uma sociedade que cada vez mais faz uso indiscriminado dos seus recursos naturais e aceitando um modelo de desenvolvimento devastador que prioriza a produção em escala industrial, sem se preocupar com os impactos ambientais ocasionados pelo rejeite inadequado de poluentes no meio ambiente
O trabalho também aborda o papel do estado…
Percebendo que esta mesma sociedade, começa a colher os frutos da aplicação secular desse modelo, trazendo no dia a dia os problemas que ainda nem sequer os governantes tiveram o interesse de se colocar em prática em prol da sustentabilidade da região
Infelizmente escrever sobre os rios brasileiros que desaguam na costa se torna um trabalho monótono e repetitivo. O diagnóstico se repete de norte ao sul do país. É lamentável.
RIO GRANDE DO NORTE
Colapso dos rios brasileiros
Esgoto in natura no Potengi (foto: tribuna do norte)
Grandes rios não são o forte do Nordeste brasileiro, ao contrário, muitos deles são  intermitentes. Aparecem e desaparecem em função das chuvas. O mais importante é o Piranhas- Açu, que desagua no mar na altura da cidade de Macau. O Apodi- Mossoró é o segundo em importância, ele deságua entre os municípios de Grossos, e Areia Branca, tradicionais produtores de sal. O Potengi também é importante especialmente porque banha a capital, e é onde se localiza o Porto de Natal. O Rio Grande do Norte tem mais quatro rios, entre eles o Ceará- Mirim, o Jacu, o rio Trairi,o Seridó e, finalmente, o Curimataú.
Por sua importância, vamos abalizar o Potengi. O Jornal Tribuna do Norte publicou uma matéria em 2009 onde, um dos sub-títulos era:
Especialistas temem pela morte do rio.
A matéria informa que uma bióloga da ONG Navima, analisou a água do Potengi
e registrou uma quantidade de 20 mil coliformes fecais para 100 mililitros de amostra, valor muito superior ao permitido pelo CONAMA. O jornal explica que a mesma análise foi feita nas ostras, maior filtradora existente nas água, quando foram encontrados 2 mil coliformes para a mesma quantidade de água
Para encerrar diz o texto do jornal
Diante de todos os problemas característicos do rio Potengi, o poder público troca acusações e tenta se desviar da responsabilidade que lhe é devida
Como se vê, nada de novo no front…
CEARÁ
O Ceará tem vários rios menores. O maior, e mais importante é o Jaguaribe, no litoral Leste do estado. Depois, seguindo a ordem Leste- Oeste, o rio Ceará que, se não banhasse a capital do estado, nem merecia ser citado. Em seguida, o rio Mundaú, depois o Camocim e, finalmente, na fronteira com o Piauí temos mais dois, o Timonha e o rio Ubatuba, sendo que o último já é Piauí.
Colapso dos rios brasileiros
A foz do jaguaribe estuprada pela carcinicultura
O Jaguaribe foi detonado em sua foz pela famigerada carcinicultura que, além de poluir, extirpou o manguezal que protegia a foz do rio. Foi um massacre impiedoso. Custo a acreditar que as autoridades do estado deixaram o rio entregue a aventureiros, até porque ele é o mais importante, o mais extenso, com 633 Km, e ainda abastece a região metropolitana de Fortaleza.
Colapso dos rios brasileiros
Carcinicultura, algoz da foz do Jaguaribe
Mas não é só na foz que existe o problema. O Diário do Nordeste diz que na cidade de Igatu, com 100.000 habitantes, o Jaguaribe recebe esgotos não tratados, fossas com gordura, fezes, urina e restos de alimentos. O jornal adverte que “a degradação do mais importante rio do Ceará é prova de uma evidente falta de políticas públicas para a preservação do meio ambiente”.
PIAUÍ
O estado tem vários rios menores mas, o maior, e mais importante, é o Parnaíba. Ele “nasce como uma riacho na Chapada das Mangabeiras, banha 22 municípios, serve como didisa entre Piauí e Maranhão, e tem 1.485 Km de extensão”.
O Parnaíba é um dos mais importantes rios do Nordeste e, assim como os outros, está na UTI. Os esgotos, e o assoreamento estão deixando o rio cada vez mais raso”.
Réquiem para rios brasileiros
Ilustração para a degradação do Parnaíba (piseichao.com)
De acordo com  o G1 o motivo principal é  que a capital, Teresina, tem uma baixa cobertura sanitária, “são apenas 17%  de todo o esgoto da capital que é coletado para tratamento, o restante vai parar nos fundos dos rios Parnaíba e Poti”.
Estudo realizado por Dinael Lima informa que
Pode-se concluir nesta pesquisa que o problema maior dos resíduos domésticos e industriais que são despejados no Rio Parnaíba são de resolução necessária e urgente…A população precisa de maior conscientização de que as ações de despejo de rejeitos em rios podem aumentar a escassez de água e comida…As indústrias, como visto, também são potenciais depositantes de lixo nos rios (principalmente as de pequeno porte) e isso gera a necessidade da criação de um rigoroso programa de gerenciamento de resíduos por profissionais devidamente capacitados
Como se vê, o Parnaíba é mais um rio condenado, impróprio para a navegação, impróprio para a vida marinha, que despeja esgotos da capital, Teresina, e dos 22 municípios que atravessa, diretamente  no mar.
Colapso dos rios brasileiros
Esgoto in natura no Parnaíba (foto:ebah.com.br)
MARANHÃO
A rede hidrográfica maranhense é, em sua maior parte, pertencente à bacia do Norte e Nordeste. Entre os principais rios do Estado se encontra o Parnaíba, dividido com o Piauí na região fronteiriça entre os dois Estados. Outros rios que banham o território do Maranhão são o Gurupi (zona de fronteira com o Pará), o Tocantins (zona de fronteira do Maranhão comTocantins), Turiaçu, Itapecuru, Pindaré, Grajaú e Mearim.
Já falamos do Parnaíba, fronteira sul do estado, vamos agora abordar o Gurupi, fronteira norte. Nosso objetivo na matéria é mostrar as condições precárias dos rios  que desaguam na costa, por isso não vamos falar do Tocantins, cuja bacia é a segunda em importância para o estado. Ainda assim, saibam que o Tocantins é outro rio que está morrendo.
Colapso dos rios brasileiros, imagem do rio Gurupi, MA
Rio Gurupi. À esquerda, o Maranhão; à direita, o Pará
O Gurupi faz fronteira entre o Maranhão e o Pará. O rio Gurupi é cenário constante de garimpo proibido. Estive lá há, gravado programas da série de unidades de conservação, naveguei pelo rio e conversei com os nativos. É só a fiscalização dar moleza e voltam os garimpos, a contaminação por mercúrio, etc. Mas a tese que encontrei elenco outros problemas:
Os principais problemas ambientais são decorrentes da extração de madeira, desmatamento e queimadas.
Ainda assim, parece que este ainda é um rio saudável.
PARÁ
Chegamos ao maior rio brasileiro, e do mundo, o Amazonas. Ele é o único rio ainda navegável, entre todos que deságuam na costa.

Poluição na foz do Amazonas

Colapso dos rios brasileiros
O Amazonas na altura de Manaus (foto: manausam.org.br)

Todo o esgoto doméstico de Macapá vai direto para o rio.

O presidente da Companhia de Água e Esgoto da Amapá, Caesa, Ruy Smith Neves, afirmou ao G1 que apenas 3% da população é servida por rede de coleta de esgoto em Macapá. O resto vai direto pro rio. Macapá tem cerca de 370 mil habitantes. Portanto, é enorme a quantidade de esgotos jogados na foz do grande rio. De acordo com Ruy

A poluição é tamanha que a ONG Instituto Amigos em Açãoconsidera ter sido de uma irresponsabilidade imensurável deixar o rio chegar nessas condições. A prefeitura de Macapá [deve responder] em relação ao lixo, e a Caesa, quanto ao esgoto despejado no rio. Lixo e esgoto são os dois maiores poluidores

Colapso dos rios brasileiros
Lixo nas margens do Amazonas (foto: G1)

Um ambientalista de Macapé, Almeida Júnior, presidente do Instituto Ecológico e Cultural Amigos em Ação, comparou o rio Amazonas com o rio Tietê. Almeida acrescentou que em média cada morador de Macapá, munícipio com maior número de habitantes do estado, produz diariamente cerca de meio litro de esgoto que vai direto para o rio Amazonas e seus afluentes. Como são 370 mil habitantes, vezes o.50 litros, o resultado é que diariamente 185 mil litros de esgoto não tratados são jogados na foz do rio.

Sem falar na poluição industrial dos portos, estaleiros, e oficinas de Belém; ou ainda a poluição oriunda de Manaus. Carlos Durigan, mestre em ecologia explicou:

O resíduo sólido que está depositado no entorno de Manaus não vai se degradar tão cedo, para alguns desses materiais são centenas de anos.  A questão do acúmulo desses materiais altera o ambiente das espécies que vivem por lá. Durante a seca a gente vê, durante a cheia não, fora os que ficam no fundo. Manaus tem muito problema de resíduos de casas e indústrias, além das embarcações que ficam no entorno da cidade e naquela área da marina.

Colapso dos rios brasileiros
Poluição do Amazonas defronte a Macapá (foto: G1)

AMAPÁ

O estado tem 4 rios que desaguam no mar: o Oiapoque, o Caciporé, o Calçoene, e o rio Araguari. Todos, sem exceção, estão poluídos com metais pesados, especialmente o mercúrio, usado no garimpo. A maioria ainda conserva parte significativa de sua mata ciliar, mas o desmatamento continua a avançar; e a poluição dos rios é tido como um dos maiores problemas do estado.

Colapso dos rios brasileiros, imagem de esgoto no rio Oiapoque
Rio Oiapoque, todo o esgoto gerado pelos 15 mil habitantes é despejado no rio

Na internet é possível encontrar matérias alarmantes como “rio Amazonas vira depósito de lixo a céu aberto“. Outras dizem que a poluição do rio Cassiporé é tão intensa que as tartarugas-da- amazônia podem desaparecer.

RESULTADO

De todos os rios que desaguam na costa só o Amazonas é navegável para qualquer tipo de embarcação. Todos os outros sofreram tamanho assoreamento, que alguns só são navegáveis por canoas.

Quanto à poluição, o diagnóstico é bem pior: todos, sem exceção, estão contaminados. Alguns, como o São Francisco; o Ararangua, em Santa Catarina; a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro; o Potengi, no Rio Grande do Norte; o Beberibe, e o Capiberibe, em Recife, estão em estado terminal.

QUER PROVA MAIOR DAS PEGADAS IRREVERSÍVEIS QUE A NOSSA GERAÇÃO TEM DEIXADO ??

Até 50, 60 anos atrás, todos os rios citados na matéria eram limpos e navegáveis. Em menos de meio século, detonamos todos eles deixando uma dura pegada para as gerações futuras.

Elas encontrarão dificuldade em reconhecer a beleza, e biodiversidade, brasileira; e terão como desafio conseguir água para abastecer as grandes cidades e a população.

Nada se compara ao rio Salgadinho,  Maceió, que desaguava no mar

Por que deixei este por último, e por que usei o verbo no passado, “desaguava”? Porque, como disse, nada se compara à ele. E se não abrirmos os olhos, se não pressionarmos o poder público, todos os outros são candidatos a serem os próximos Salgadinhos. Isso não é rio, é um filme de horror.

Fiocruz mapeia a vulnerabilidade de municípios às mudanças climáticas

[TEXTO ORIGINAL]

RIO – Diz a antiga anedota que o clima na Amazônia só existem duas estações: a que chove o dia todo e a que chove todo dia. A verdade, claro, é muito mais complexa que isso, mas outro fato é que, de acordo com as principais projeções feitas até agora, a região será uma das que mais vai sofrer com o aquecimento global. Dependendo do cenário para a evolução das emissões mundiais dos gases do efeito estufa, em algumas áreas a expectativa é de que até o fim do século a temperatura média suba em cerca de sete graus Celsius, enquanto as precipitações podem se reduzir em mais de 40%, com longos períodos de estiagem que colocam em risco o delicado equilíbrio do bioma e, consequentemente, as populações que nele vivem.

E foi justamente em busca de dar uma dimensão humana a estes números das mudanças climáticas que uma equipe de pesquisadores coordenada por Ulisses Confalonieri, do Centro de Pesquisa René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte, cruzou os dados das previsões para o futuro do clima na região entre 2041 e 2070 com informações sobre a realidade social, econômica, ambiental e de saúde atual dos 62 municípios do estado do Amazonas para não só verificar o quão vulneráveis eles estão às possíveis alterações nos padrões do tempo como identificar quais são estas vulnerabilidades.

Segundo Confalonieri, o objetivo é ajudar os governos locais, estaduais e federal a priorizarem investimentos e melhor alocarem recursos em projetos que visem preparar os municípios às mudanças esperadas sobre três pilares: sua sensibilidade, que leva em conta fatores como pobreza, taxa de infecção por doenças associadas ao clima e situação demográfica (proporção de idosos na população, de famílias chefiadas por mulheres ou país muito jovens etc); sua exposição, que inclui o grau de preservação do ambiente e manutenção da cobertura vegetal e o histórico de eventos extremos, como secas ou inundações; e sua capacidade de resposta, ou seja, a qualidade da infraestrutura e instituições de cada município, como saneamento básico, acesso à água potável e a existência, ou não, de um departamento de Defesa Civil.

– A ideia deste índice de vulnerabilidade climática é guiar a tomada de decisões relativas a projetos e investimentos em políticas de adaptação às mudanças climáticas – diz Confalonieri, cujo grupo também vai publicar em breve resultados de levantamentos semelhantes para cinco outros estados: Espírito Santo, Pernambuco, Paraná, Maranhão e Mato Grosso do Sul. – Mas mais do que saber que município dentro de um determinado estado vai precisar de mais investimento e qual vai precisar de menos, os tomadores de decisão saberão também o porquê de alguns estarem em pior situação que outro, como se ele tem uma capacidade de resposta baixa por falta de infraestrutura ou tem uma exposição maior por ser mais sujeito a inundações para que se planeje sua proteção e se faça a prevenção dos efeitos dos eventos climáticos.

Aluna de doutorado no René Rachou e integrante da equipe responsável pelo estudo, Júlia Menezes destaca que o novo índice vai além dos indicadores de vulnerabilidade municipal já usualmente calculados pela Fiocruz hoje exatamente por incorporar uma dimensão climática à análise. Assim, por exemplo, se um município atualmente costuma enfrentar alagamentos e está preparado para isso, mas fica em uma região que no futuro do clima verá muito menos chuvas, os governos devem então investir adaptá-lo para um cenário de estiagem, e não de mais inundações.

– A mudança do clima é uma realidade e vai acontecer – lembra. – Construímos então uma ferramenta para que os governos saibam quais são suas deficiências de hoje em relação aos cenários futuros do clima, o que podem fazer para a população sofrer menos lá na frente. E como estas projeções são incertas, o melhor é se preparar.

 

NESTE CHAO TUDO DA

[texto original]

Quando vi, por acaso, o belíssimo documentário Neste chão tudo dá, ou sua versão reduzida, realizado por Felipe Pasini, Ilana Nina e Monica Soffiatti, fiquei impressionado não só com a simplicidade genial do vídeo, mas principalmente por não entender porque o Brasil, todo o Brasil, não conhece esse trabalho espantoso sobre solos ruins e degradados.

O documentário é de 2008
. Sim, já são 7 anos. No Google não há notícias sobre Götsch na grande mídia brasileira, nunca foi convidado para o Roda Viva, óbvio…

Ernst Götsch, claro, com esse nome não é brasileiro de nascimento, mas suíço. Ele chegou ao Brasil em 1982 e desde 1984 vive em uma fazenda no sul da Bahia. Mas seu trabalho o faz um grande brasileiro desconhecido fora de sua área de atuação. Veja abaixo texto de Dayane Andrade e o documentário.

“O nome da Fazenda [de Ernst], como de costume na região, era uma crônica da realidade local: “Fazenda Fugidos da Terra Seca”. Aproximadamente 500 hectares de terra tornada improdutiva devido às práticas de: corte de madeira, repetidos ciclos de cultivo de mandioca nas encostas dos morros, criação de suínos nas baixadas e formação de pastagens por meio de fogo ao longo das margens da estrada que corta a fazenda. Ali continuaria o desenvolvimento obssessivo de seus experimentos em Sistemas Agroflorestais Sucessionais, alcançando alta produtividade em grande variedade de espécies vegetais, com destaque para o cacau e a banana. Além de alimentar sua família e dali tirar sua renda, a consequência de sua intervenção pôde ser empiricamente observada mais tarde. A Mata Atlântica ressurgia na área, com todas as suas características de flora e fauna. Hoje são cerca de 410 hectares de área reflorestada, dos quais 350 foram transformados em RPPN, além de 120 hectares de Reserva Legal. Cerca de 14 nascentes ressurgiram na fazenda que hoje, seguindo a tradição cronista, passou a chamar-se “Fazenda Olhos d’Água”.

Referência internacional em Sistemas Agroflorestais Sucessionais, Ernst Gotsch desenvolveu uma apurada técnica de plantio cujos princípios e práticas podem ser aplicados a diferentes ecossistemas. “Amazônia, Cerrado, Altiplano Boliviano, Caatinga, eu vi que todos esses lugares podem ser um paraíso quando bem trabalhados”. Com uma visão da agricultura que reconcilia o ser humano com o meio ambiente, Gotsch tem artigos publicados, mas nunca escreveu sobre o conjunto de suas observações, pois acredita que sua pesquisa não está acabada. E, mesmo sobre as conclusões a que já chegou, diz que “não há o que ser dito, pois é óbvio”, com a clareza daquilo que dá certo que, naturalmente, nos salta aos olhos”

GUERRAS SILENCIOSAS

[texto original]

Eduardo Febbro - De Paris

Paris – Quanto vale a vida? “Para começar, um bom copo de água”, responde com ironia Jerôme, um dos participantes do Fórum Mundial Alternativo de Água (FAME) que se reuniu na França, paralelamente ao muito oficial Fórum Mundial da Água (FME). Duas “cúpulas” e duas posturas radicalmente opostas que expõem até o absurdo o antagonismo entre as multinacionais privadas da água e aqueles que militam por um acesso gratuito e igual a este recurso natural cuja propriedade é objeto de uma áspera disputa nos países do Sul. Basta apontar a identidade dos organizadores do Fórum Mundial da Água para entender o que está em jogo: o Fórum oficial foi organizado pelo Conselho Mundial da Água. Este organismo foi fundado pelas multinacionais da água Suez e Veolia e pelo Fundo Monetário Internacional, incansáveis defensores da privatização da água nos países do Sul.

O mercado que enxergam diante de si é colossal: um bilhão de seres humanos não tem acesso à água potável e cerca de três bilhões de seres humanos carecem de banheiro. O tema da água é estratégico e tem repercussões humanas muito profundas. Os especialistas calculam que, entre 1950 e 2025 ocorrerá uma diminuição de 71% nas reservas mundiais de água por habitante: 18 mil metros cúbicos em 1950 e 4.800 metros cúbicos em 2025. Cerca de 2.500 pessoas morrem por dia por não dispor de um acesso adequado à água potável. A metade delas é de crianças. Comparativamente, 100% da população de Nova York recebe água potável em suas casas. A porcentagem cai para 44% nos países em via de desenvolvimento e despenca para 16% na África Subsaariana.

As águas turvas dos negócios e as reivindicações límpidas da sociedade civil, que defende o princípio segundo qual a água é um assunto público e não privado e uma gestão racional dos recursos, chocam-se entre si sem conciliação possível. Um exemplo dos estragos causados pela privatização desse recurso natural é o das represas Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira, a oeste do Amazonas, no Brasil. As duas represas têm um custo de 20 bilhões de dólares e, na sua construção, estão envolvidas a multinacional GDF-Suez e o banco espanhol Santander. A construção dessas imensas represas provocou o que Ronack Monabay, da ONG Amigos da Terra, chama de “um desarranjo global”. As obras desencadearam um êxodo interior dos índios que viviam na região. Eles foram se refugiar em outra área ocupada por garimpeiros em busca de ouro e terminaram enfrentando-se com eles.

“Deslocamento de populações, inundação de terras agrícolas e de matas e esgotamento de espécies aquáticas são algumas das consequências nefastas dessas megaestruturas”, denuncia Ronack Monabay. As represas se Santo Antônio e Jirau ameaçam também várias populações indígenas ao longo do rio Madeira: os Karitiana, os Karipuna, os Uru-eu-Wau-Wau e os Katawixi. Outros grupos como os Parintintin, os Tenharim, os Pirahã, os Jiahui, os Torá, os Apurinã, os Mura, os Oro Ari, os Oro Bom, os Cassupá e os Salamãi também estão ameaçados. Nenhuma destas populações indígenas foi consultada sobre a viabilidade dos projetos. Eles foram impostos a elas, juntamente com todos os males que os acompanham.

O exemplo do Brasil é extensivo a outros projetos similares em Uganda ou Laos, onde as multinacionais da água semeiam a destruição. O direito à água para todos foi reconhecido pelas Nações Unidas em 2010. No entanto, esse reconhecimento está longe de ter se materializado em fatos. Emmanuel Poilane, diretor da Fundação France Libertés, criada por Danielle Miterrand, falecida esposa do também falecido presidente socialista François Miterrand, lembra de um dado revelador: “dos 193 países que integram a ONU, só 30 deles inscreveram esse direito na Constituição. Mas esses 30 países são todos do Sul”. O Norte quer água privada para encher os caixas de seus bancos e pouco importa o custo humano que a escassez de água pode causar às populações destes países.

A este respeito, Emmanuel Poilane recorda que “a cada três segundos morre uma criança por falta de água”. A própria existência do Fórum Mundial da Água, organizado por um Conselho Mundial da Água composto por multinacionais e pelo FMI é uma aberração. A batalha entre público e privado se deslocou inclusive para o Senado francês. No curso de um debate, um dos senadores socialistas lembrou que esse fórum não é uma instância das Nações Unidas, mas sim um lugar onde “se fazem negócios privilegiados entre as multinacionais”. É urgente que a água seja objeto de uma reapropriação cidadã”. Não é o caso. As instâncias internacionais estão ausentes porque os lucros à vista são colossais. A gestão da água foi confiscada pelos interesses privados.

Brice Lalonde, coordenador da Rio+20, cúpula da ONU para o Meio Ambiente, prometeu que a água será “uma prioridade” da reunião que será realizada no Rio de Janeiro em junho. O responsável francês destaca neste sentido o paradoxo que atravessa este recurso natural: “a água é uma espécie de jogo entre o global e o local”. E neste jogo o poder global das multinacionais se impõe sobre os poderes locais.

As ONGs não perdem as esperanças e apostam na mobilização social para contrapor a influência das megacorporações. Neste contexto preciso, todos lembram o exemplo da Bolívia. Jacques Cambon, organizador do Fórum Alternativo Mundial da Água e membro da ONG Aquattac, recorda o protesto que ocorreu na cidade de Cochabamba: “dezenas de milhares de pessoas manifestaram-se na rua em protesto contra o aumento da tarifa da água potável imposto pela multinacional norteamericana Bechtel”.

A guerra da água é silenciosa, mas existe: conflito em Barcelona causado pelo aumento das tarifas, quase guerra na Patagônia chilena por causa da construção de enormes represas e da privatização de sistemas fluviais inteiros, antagonismos em Barcelona e em muitos países africanos pelas tarifas abusivas aplicadas pelas multinacionais. A pérola fica por conta da Coca Cola e de suas tentativas de garantir o controle em Chiapas, México, das reservas de água mais importantes do país. Jacques Cambon está convencido de que “o problema do acesso à água é um problema de democracia. Enquanto não se garantir o acesso e a gestão da água sob supervisão de uma participação cidadã haverá guerras da água em todo o mundo”.

A senadora brasileira Katia Abreu (PSD), que também é presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), propôs durante o Fórum uma iniciativa para “proteger em escala mundial as zonas essenciais à preservação dos recursos de água”. As palavras, no entanto, se chocam com a dura realidade: a das multinacionais e a da própria natureza. A ONU apresentou na França um informe sobre o impacto da mudança climática na gestão da água: secas, inundações, transtornos nos padrões básicos de chuva, derretimento de geleiras, urbanização excessiva, globalização, hiperconsumo, crescimento demográfico e econômico. Cada um destes fatores, constitui, para as Nações Unidas, os desafios iminentes que exigem respostas da humanidade.

A margem de manobra é estreita. Nada indica que os tomadores de decisão estão dispostos a modificar o rumo de suas ações. A mudança climática colocou uma agenda que as multinacionais, os bancos e o sistema financeiro resistem a aceitar. Seguem destruindo, em benefício próprio e contra a humanidade. Ante a cegueira das multinacionais, a solidariedade internacional e o lançamento daquilo que se chamou na França de “um efeito mariposa” em torno da problemática da água são duas respostas possíveis para frear a seca mundial.

RESPIRANDO DO CARBURADOR DE UM CARRO

[texto original]

The scene could be straight from a science-fiction film: a vision of everyday life, but with one jarring difference that makes you realise you’re on another planet, or in a distant future era.

A sports class is in full swing on the outskirts of Beijing. Herds of children charge after a football on an artificial pitch, criss-crossed with colourful markings and illuminated in high definition by the glare of bright white floodlights. It all seems normal enough – except for the fact that this familiar playground scene is taking place beneath a gigantic inflatable dome.

“It’s a bit of a change having to go through an airlock on the way to class,” says Travis Washko, director of sports at the British School of Beijing. “But the kids love it, and parents can now rest assured their children are playing in a safe environment.”

The reason for the dome becomes apparent when you step outside. A grey blanket hangs in the sky, swamping the surroundings in a de-saturated haze and almost obscuring the buildings across the street. A red flag hangs above the school’s main entrance to warn it’s a no-go day: stay indoors at all costs. The airpocalypse has arrived.
A sports class inside the inflatable clean-air dome at the British School of Beijing.

Beijing’s air quality has long been a cause of concern, but the effects of its extreme levels of pollution on daily life can now be seen in physical changes to the architecture of the city. Buildings and spaces are being reconfigured and daily routines modified to allow normal life to go on beneath the toxic shroud.

Paper face masks have been common here for a long time, but now the heavy-duty kind with purifying canister filters – of the sort you might wear for a day of asbestos removal – are frequently seen on the streets. On bad days, bike lanes are completely deserted, as people stay at home or retreat to the conditioned environments of hermetically-sealed malls. It’s as if the 21-million-strong population of the Chinese capital is engaged in a mass city-wide rehearsal for life on an inhospitable planet. Only it’s not a rehearsal: the poisonous atmosphere is already here.

The British School is the latest of Beijing’s international colleges to go to the drastic lengths of building an artificial bubble in which to simulate a normal environment beneath the cloak of smog. Earlier this year, the nearby International School of Beijing lavished £3m on a pair of domes covering an area of six tennis courts, with hospital-grade air-filtration systems, following the lead of the Beijing satellite of exclusive British private school Dulwich College, which opened its own clean-air dome last year.

“Pollution is what all the parents are talking about,” says Nicole Washko, Travis’s wife, who also works at the school where their two daughters go, too. “More and more ex-pat families are leaving this country for the sake of their kids’ health. So if all the other schools have a dome, then we’ve got to have a dome.” A non-toxic learning environment is perhaps the least parents might expect, when they’re paying £20,000-a-year fees.

The British School has recently undergone a complete filtration overhaul, as if preparing for atmospheric armageddon, with new air curtains installed above the doors and almost 200 ceiling-mounted air purifiers put in to complement the floor-standing kind in each classroom. Windows must remain closed, and pupils must adhere to the strict air safety code. Reception classes stay indoors when the air quality index (AQI) hits 180 – measured on an official scale of 500 by various sensors across the city. For primary kids the limit is 200, while the eldest students are allowed to brave the elements up to 250. Anything above 300 and school trips are called off. The World Health Organisation, meanwhile, recommends a safe exposure level of 25.

“We were finding our sports fixtures were being cancelled so often, and kids were getting cabin fever from being kept in doors so much of the time,” says Travis Washko. “But now we have the dome, it’s perfect weather all year round.”

The day I arrive in Beijing, the AQI hits 460, just 40 points away from maximum doom. It’s the kind of air that seems to have a thickness to it, like the dense fug in an airport smokers’ cubicle. It sticks in the back of your throat, and if you blow your nose at the end of the day, it comes out black. Pedalling around the city (I am one of the only cyclists mad enough to be on the road) is an eerie experience – not just for the desolation, but for the strange neon glow coming from signs at the top of invisible buildings, like a supernatural, carcinogenic version of the northern lights. The midday sun hangs in the sky looking more like the moon, its glare filtered out by the haze.

Daily talk of the AQI has become a national pastime amongst ex-pats and Chinese locals alike. Air-quality apps are the staple of every smartphone. Chinese microblogs and parenting forums are monopolised by discussions about the best air filters (sales of the top brands have tripled over the last year alone) and chatter about holidays to “clean-air destinations” like Fujian, Hainan and Tibet.

This year’s Beijing marathon, held on a day that exceeded 400 on the scale, saw many drop out when their face-mask filters turned a shade of grey after just a few kilometres. Some said it felt like running through bonfire smoke. With such hazardous conditions increasingly common, it’s not surprising that foreign companies are now expected to pay a “hardship bonus” of up to 20 or 30% to those willing to work in the Chinese capital.

And yet denial still persists. Many Beijingers tend to use the word “wumai” (meaning haze), rather than “wuran” (pollution), to describe the poor air quality – and not just because it’s the official Newspeak of weather reports. It’s partly because, one local tells me, “if we had to face up to how much we’re destroying the environment and our bodies every day, it would just be too much.” A recent report by researchers in Shanghai described Beijing’s atmosphere as almost “uninhabitable for human beings” – not really something you want to be reminded of every day.
October’s Beijing marathon saw many competitors drop out because of the pollution levels.

When I first came to Beijing in 2003, as a volunteer English teacher, my students told me that the city’s air wasn’t nearly as bad as London’s. “We know about your ‘pea-soupers’,” they would say, conjuring images of ye olde England shrouded in Dickensian gloom, happily ignoring the murky haze outside their own classroom window (then more often caused by sand storms than coal-burning power plants). Ten years later, the same former students are all too aware of the problem.

“We never used to have days as bad as this,” says Li Yutong, who has recently returned to Beijing after several years studying in Australia and working in Hong Kong. “I used to play football outside and go running, but you just can’t do that any more. School kids seem to get sick more often now – and they’re much fatter because they don’t play outside.”

Our school was sited across the street from the national Centre for Disease Control and Prevention, which proved to be an alarming neighbour when SARS broke out and we watched the constant train of ambulances. Now its attentions have turned to an airborne threat of a different kind. In June, the centre released data which suggested that the average 18-year-old Beijinger will spend as much as 40% of their remaining years in ill-health – potentially suffering from cancer, cardiovascular or respiratory disease. Breaking the usual government silence on the issue, China’s former health minister, Chen Zhu, spoke out in January to reveal that between 350,000 and 500,000 people die prematurely each year here as a result of air pollution.

In response to mounting pressure, the government has introduced a host of new laws and regulations, increasing fines for environmental violations, and attempting to shut down high carbon-emission factories. But there is little to suggest any of their measures are having an effect.

“To be able to monitor these factories, local officials are supposed to visit them in person,” says Zhang Kai, lead campaigner on air pollution at Greenpeace East Asia. “But there is just no capacity to do that, and no policy in place to punish the polluting factories effectively.”
British artist Matt Hope has designed a ‘breathing bicycle’ which filters air as you pedal, then feeds it into your mask.

The national “airmageddon” has spawned a host of other attempts to solve the problem, ranging from the miraculous to the madcap. In the western city of Lanzhou, officially deemed by the World Health Organisation to have the worst air in China, officials have proposed digging great gullies into the surrounding mountains in the hope of trapping polluted air in a gigantic landscape gutter, like an atmospheric ha-ha. But Lanzhou’s poor air quality is caused less by burning coal and car fumes than by the local penchant for blowing up mountains with dynamite. More than 700 peaks are being levelled to provide swathes of flat land for development, and blowing out a huge gulley would only add to the problem.
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Other solutions proposed in Beijing have a more futuristic air. Environmental scientist Yu Shaocai has proposed fitting water sprinklers to the tops of tall buildings, to try and “wash” the smog out of the sky. “Water should be sprayed into the atmosphere like watering a garden,” Yu wrote in the journal Environmental Chemistry Letters, noting that most urban pollution hangs below 100m, so it could be caught by an artificial shower from the city’s taller towers. An expert in “wet deposition” (how rain can clean particles from the air), he thinks he’s got the science sorted, and the main challenge is just to “design the specific spray system that can spray a good raindrop size and [ensure] the most scavenging efficiencies for the air pollution.” But his hastily Photoshopped visuals of garden sprinklers stuck on top of skyscrapers don’t do much to inspire confidence.

In fact, wet deposition has long been hailed as a possible solution by higher powers, with their lofty pretensions to control the elements. China’s Meteorological Administration issued a paper last year which ambitiously declared all local officials would be able to use artificial rain to clear away smog by 2015. And as the Washington Post reported, the idea might not be so far from reality: because of chronic water shortages, China has invested heavily in artificial rain since the late 1950s. The country now boats a battery of 7,000 cloud-seeding artillery guns, the same number of launchers for chemical-bearing rockets, and more than 50 planes – all manned by an army of 50,000 employees, ready to launch full-scale warfare on the weather.
Daan Roosegaarde’s plan for a smog-free park uses buried coils of copper to create an electrostatic field that attracts smog particles.

At the other end of the scale are the initiatives that aim to affect people’s attitudes on the ground. Driven by an effort to raise awareness of the smog problem and spur the government into action, a host of critical art projects have been spawned. British artist Matt Hope has designed a “breathing bicycle”, a home-made Heath Robinson-style contraption that filters air as you pedal along and feeds it through a tube into a fighter-pilot breathing mask. Cycling around the hutong alleys, looking like Darth Vader being attacked by a hoover, he’s certainly attracted some funny looks.

“It’s a provocational prototype,” Hope says. “It’s pretty archaic, but then burning coal is pretty archaic too. It’s an intentionally ridiculous solution to a ridiculous problem.”

Another plucky Dutch designer thinks he can turn the pollution into a lucrative commodity. Over the past few months, Daan Roosegaarde has been meeting with the mayor of Beijing to talk through his plan for “electronic vacuum cleaners” to be installed in parks across the city, to suck smog from the skies. It might sound far-fetched, but he says his working prototype should be ready by next summer.

“I want to move away from statistics and the usual factsheet discussion,” says Roosegaarde, talking at excitable break-neck speed, a man on a mission. “If you create a place that’s 75% cleaner than the rest of the city, you create a powerful incentive for people to clean the whole city.”
Roosegaarde’s ‘smog ring’ houses 1,000 cubic metres of smog in a 1mm-cube carbon crystal.

His proposal, developed in partnership with scientists at the Technological University of Delft in the Netherlands, uses buried coils of copper to create an electrostatic field that attracts smog particles, creating a kind of halo of clean air above it. “It’s similar to how static electricity attracts your hair,” Roosegaarde says. “We charge the smog particles and suck them to the ground.”

He has also developed a mobile version which uses the same technology, but housed in a vertical totem-pole structure that sits atop a small temple-like pavilion, akin to those found in Beijing’s parks. It’s here where the real alchemy will happen. “We’re going to turn dust into diamonds,” Roosegaarde says. “We will condense a 1,000 cubic metres of smog down into a millimetre-cube carbon crystal – which we will set like a diamond on a ring.” When you buy a smog ring, he says, you’re effectively donating 1,000 cubic metres of clean air to the city.

“I like the idea that you can take a problem and turn it into something desirable,” Roosegaarde adds. “Of course it’s not a practical solution, but I’m hoping that smog jewellery will get people talking about the problem – and when they see these clear circles of blue sky above the parks, they’ll demand clean air for the whole city.”

The volume of discontent has been rising since Beijingers got a chance to see exactly what clear blue skies looked like last month, when miraculous weather was laid on for visiting world leaders, in town for the high-profile Apec summit. With the kind of draconian measures unseen since the 2008 Olympics, the entire region was locked down to guarantee clear skies for the precious week. Production in all factories within a 125-mile radius of the city was suspended, half the cars were banned from the roads, schools were closed, and public-sector workers were given compulsory holidays. No weddings were registered, no passports issued, no taxes paid, no fresh products delivered, and no banks open. Bodies went uncremated and burials were partly suspended.
A Chinese soldier enjoys the ‘Apec blue’ sky after Beijing imposed drastic measures to reduce pollution levels for the recent summit.

A Chinese soldier enjoys the ‘Apec blue’ sky after Beijing imposed drastic measures to reduce pollution levels for the recent summit. Photograph: Narendra Shrestha/EPA

The result? A climatic Potemkin facade of perfect blue skies – which soon became an internet meme, coining the term “Apec blue”.
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“It’s not sky blue or ocean blue. It’s not Prussian blue or Tiffany blue,” wrote one user of the microblogging site, Weibo. “A few years ago it was Olympic blue, and now it’s Apec blue.” It quickly came to mean something of fleeting, artificial beauty, probably too good to be true. “He’s not really into you,” went one recurring online saying. “It’s just an Apec blue.”

Returning to Beijing during the Apec week was like arriving in a completely different city. What had been a ghostly world of streets that disappeared if more than a block away, became a wide-open place of grand avenues terminating at distant mountains, visible for the first time.

And back at the British School, the smog dome was empty. Pupils were enjoying a rare outdoor lesson beneath a different kind of artificial roof – the crystal clear canopy of Apec blue.

SOBRE CLIMA E CAPITALISMO

[texto original]

Naomi Klein talvez seja a pessoa mais esperançosa na face da terra. A despeito de sua aterradora avaliação sobre as consequências das mudanças climáticas globais, a maioria delas inevitáveis, em seu livro de 2014 This Changes Everything: Capitalism vs. the Climate (Isso Muda Tudo: Capitalismo versus Clima), a escritora e ativista canadense acredita na capacidade dos humanos em mudar o curso das coisas.

As mudanças climáticas não são uma ‘questão’ a ser somada à lista de coisas com as quais se preocupar, ao lado de creches e impostos”, escreve Klein. “São antes a convocação para um despertar civilizacional. Uma mensagem poderosa – falada na linguagem de incêndios, enchentes, secas e extinção –, dizendo que precisamos de um modelo econômico inteiramente novo e uma nova maneira de partilhar este planeta. Dizendo que temos de evoluir.”

Colaboradora de publicações como The Nation e The Progressive, e autora de livros que incluem A Doutrina de Choque, sobre como interesses poderosos usam um conjunto de crises conectadas para abrir seu caminho, Klein não é poliana, ao dimensionar a enormidade do desafio. Ele propõe, entre outras coisas, tramar “a extinção das mais ricas e poderosas indústrias que o mundo jamais conheceu – as indústrias de petróleo e de gás.” Mas sua receita é até mesmo mais ambiciosa: “A solução para o aquecimento global não é consertar o mundo, é nos consertar a nós mesmos.”

Klein argumenta que os humanos podem vir a recriar o mundo e a natureza de seu relacionamento com ele porque necessitam. Seu livro foi chamado no The New York Times de “o mais sério e consciente sobre meio ambiente desde Primavera Silenciosa” e o “primeiro livro verdadeiramente honesto já escrito sobre as mudanças climáticas” na revista Time. E agora é assunto de um documentário que o acompanha, também denominado This Changes Everything, que Klein está divulgando em viagens pelo mundo. (Para informações sobre exibição, veja o site do filme).

Conversei com Klein pelo telefone em meados de outubro, quando ela estava em Seattle, acompanhando uma projeção. Falamos sobre seu livro, seu otimismo qualificado, seus pensamentos sobre o papa Francisco e o presidente Obama, sua visão sobre como a humanidade pode mudar, e mais.

Naomi: "Ações individuais importam -- por provarem que as coisas que necessitamos fazer para baixar nossas emissões melhoram nossa qualidade de vida. Mas não são um substituto para o trabalho político.

Seu livro apresenta dois futuros possíveis: ou a humanidade rompe de modo dramático com práticas passadas, especialmente a adesão ao sistema econômico capitalista, ou tendemos inevitavelmente para uma catástrofe sem paralelos. Considerando como nossa estrutura social e política está profundamente comprometida com os ditames do capitalismo, este último cenário não seria mais provável?

TEXTO-MEIO

Sim. (Risos.) Não defendo a ideia de que as probabilidades estão a nosso favor. Argumento que a aposta é tão alta que temos uma responsabilidade moral sem precedentes, de fazer todo o possível para aumentar nossas chances. E considero que há mais espaço para debater os custos do capitalismo do que em qualquer momento da minha vida. Isso foi até tema do primeiro debate dos candidatos do Partido Democrata à presidência dos EUA. Há alguns sinais reais de mudança, desde as eleições na Grécia e da eleição de Jeremy Corbyn como líder do Partido Trabalhista britânico, até a campanha de Bernie Sanders à Casa Branca e as iniciativas do papa Francisco. Penso que se se tratasse apenas das mudanças climáticas, não teríamos chance. Mas o fato de que este modelo econômico está esmagando as pessoas em tantas frentes simultaneamente cria o potencial para um tipo de política de coalizão que é avalizada pela ciência; e que usa os prazos definidos pela ciência em relação às mudanças climáticas para agir com ousadia e rapidez. Mas, se eu fosse apostar, não apostaria a nosso favor, não.

Você sugere que o problema real por traś das mudanças climáticas não é a natureza humana, nem mesmo os gases de efeito estufa – mas uma história que vimos contando a nós mesmos nos últimos 400 anos. Você poderia elaborar isso?

As mudanças climáticas são, entre outras coisas, uma crise de narrativa. E essa narrativa nasceu nos anos 1600, sustentada pela visão de Francis Bacon e René Descartes. Eles tinham a ideia, revolucionária naquele tempo, de que a Terra não era um sistema vivo, uma mãe a ser reverenciada e temida, mas, ao contrário, algo inerte, que poderia ser inteiramente conhecida e da qual se poderia extrair riquezas indefinidamente.

Mas a ideia de que poderíamos dominar a natureza e agir sem pensar nas consequências entrou em colapso com as mudanças climáticas. O aquecimento global nos coloca, os seres humanos, em nosso lugar, de uma maneira profundamente perturbadora para uma visão de mundo baseada na dominação. Mas é algo a ser abraçado, se você tem uma visão de mundo baseada em interconexão. É o que a maioria dos cientistas tem, cada vez mais.


Você observa que as mudanças climáticas afetarão os países pobres desproporcionalmente e forçarão um êxodo maciço de pessoas de países-ilhas e nações da África sub-saariana. A partir daí, pergunta: “Como trataremos os refugiados das mudanças climáticas que chegarem em nossos portos em botes precários”? A atual onda antiimigrantes na Hungria – ou entre os candidatos à presidência dos EUA pelo Partido Republicano – sugere uma resposta?

Quando pensamos num futuro mais quente, não se trata apenas do calor, a seca, as tempestades. Tem a ver com as sociedades tornando-se mais mesquinhas, porque esta é a lógica capitalista diante da escassez: o-vencedor-leva-tudo. Estamos vendo exatamente isso, na crise dos refugiados. Essa crise tem suas raízes em guerras por recursos, em que o acesso a combustíveis fósseis teve papel central. E um dos aceleradores do conflito civil na Síria foram as mudanças climáticas. A Síria viveu uma seca recorde nos últimos anos, o que levou a uma explosão de violência.

Estamos vendo o melhor e o pior do que são capazes os humanos. Seres humanos somo complexos. Somos egoístas, gananciosos, racistas, horrendos e belos, cheios de solidariedade e compaixão – tudo ao mesmo tempo. Sistemas diferentes ativam diferentes partes de nós. Por isso, viramos as costas à crise dos refugiados, em que o Ocidente teve grande papel em criar. Mas também vemos atos de generosidade tremendos – milhares de pessoas na Islândia e na Alemanha abrindo suas casas, e comunidades organizando-se para amparar refugiados.

Precisamos reconhecer essa complexidade e pensar: que sistemas trazem à tona nosso melhor e nosso pior self. Porque isso irá determinar como respondemos a essa crise.

Uma das partes mais devastadoras do seu livro é a exposição da absoluta insensatez da noção segundo a qual a inovação humana encontrará, de alguma maneira, um modo de capturar todos os gases de efeito estufa. Mas não a tecnologia não terá de ser parte da resposta, e o mercado não pode ajudar esse processo?

A tecnologia é parte da solução, e o fato de o preço da energia solar ter baixado cerca de 95% nos últimos seis anos, a ponto de estar equivalendo ao dos combustíveis fósseis em vários grandes mercados, é parte do que torna essa esperança esperançosa. As tecnologias melhoram o tempo todo. Isso se deve a uma combinação de fatores, não apenas o mercado. A Alemanha investiu bilhões em pesquisa e desenvolvimento, de que estamos nos beneficiando agora. Mas o mercado também teve um papel. Penso que o perigo surge quando dizemos a nós mesmos que o mercado, ou a tecnologia, irão resolver o problema por nós; e podemos simplesmente relaxar.

Numa comunicação que fez no College of the Atlantic, você disse: “A dura verdade é que a resposta à questão ‘o que eu posso, como indivíduo, fazer para deter as mudanças climáticas’ é: nada”. Explique o que quis dizer com isso.

Parte do que combatemos é o triunfo da lógica do mercado – essa ideia de que nosso maior poder é o de consumidores. Definitivamente, há coisas que você pode fazer como indivíduo para minimizar sua contribuição ao problema. Você pode parar de comer carne, pode parar de viajar de avião, pode fazer da sua vida um experimento em baixo-carbono, se quiser. Mas tais atos como indivíduos não dão a partida para essa transformação da economia global de que estamos falando.

Ações individuais importam, por provarem para nós que as coisas que necessitamos fazer para baixar nossas emissões melhoram nossa qualidade de vida – nos tornam mais saudáveis, mais felizes. Isso cria um exemplo para outros e alimenta nosso trabalho político. Mas não é um substituto para o trabalho político.

Você foi convidada pelo Vaticano para discutir a encíclica das mudanças climáticas do papa Francisco, que chega essencialmente à mesma conclusão que chegamos, de que responder às mudanças climáticas requer mudanças fundamentais em nosso modelo econômico capitalista e consumista. Que diferença faz que o papa Francisco tenha assumido essa causa? Não seriam os católicos bastante espertos para ignorar os ensinamentos e as posições da igreja?

Eles são, mas penso que esse papa é um líder transformador, de modo que ele é mais difícil de ignorar, talvez, que o papa Bento XVI. Eu sempre estimulei as pessoas a ler a encíclica, independentemente de sua fé ou falta dela. Sou uma feminista secular e considero-o um documento profundamente inspirador, muito bem escrito. E olhe para o modo como as pessoas reagiram ao papa Francisco em sua visita aos Estados Unidos. Você viu a habilidade dele em tocar as pessoas. Penso que ele está usando seu poder e plataforma de modo extremamente inspirador.

Você foi criticada por Katha Pollitt por não ver o “ponto cego” do papa – a adesão da igreja à desigualdade de gênero e sua oposição à contracepção, ainda que a superpopulação certamente colabore para enfrentar o problema das mudanças climáticas. A igreja católica não seria parte do problema?

Antes de mais nada, não é verdade que eu não vejo os pontos cegos. Eu me apresentei bem abertamente como uma feminista quando estava no Vaticano. Quando escrevi meu livro, debati se era o caso de argumentar que as liberdades reprodutivas das mulheres eram parte da batalha contra as mudanças climáticas. E o que ouvi [de outras feministas] foi muita dúvida sobre a instrumentalização dos direitos reprodutivos com o objetivo de gerar ação sobre as mudanças climáticas.

Numa sociedade patriarcal, se você disser que precisamos controlar a população para enfrentar as mudanças climáticas, terá de lidar com muitos precedentes de situações em que mulheres negras, ou indianas, são particularmente atingidas por campanhas de esterilização em massa. Acredito fortemente no direito de escolha das mulheres, e no direito à contracepção. Mas não acredito nisso por causa das mudanças climáticas; acredito porque acredito. Penso que esses direitos deveriam ser defendidos por seus próprios méritos. Também acredito que o controle populacional é frequentemente um modo de mudar de assunto, dos hábitos de consumo dos ricos, em sua maior parte pessoas brancas, para os hábitos de procriação dos pobres, em sua maioria pessoas negras e mestiças. É um modo de tirar nosso pescoço da forca. Se você olha os números, o maior crescimento populacional e as taxas de natalidade mais altas ocorrem em partes do mundo com as emissões mais baixas. O que impulsiona o crescimento das emissões é o consumo ao estilo do Ocidente.

Como você avalia o presidente Obama quanto ao enfrentamento das mudanças climáticas?


Nos últimos seis meses, temos visto mais liderança do que durante toda a sua presidência. E é muito pouco, muito tarde. As reduções de emissão de CO² que ele propõe não estão de modo algum próximas do que devem ser. Como presidente, ele abriu vastos novos territórios para a extração de combustíveis fósseis, incluindo terras públicas que não deveria abrir. Penso que a decisão de permitir que a Shell perfurasse no Ártico foi desastrosa. Podemos ficar tremendamente agradecidos porque a empresa, em grande parte por causa dos danos que estava causando a sua imagem, ao ativismo e ao preço do petróleo, a empresa decidiu que a atividade não vale a pena por enquanto.

Penso que as restrições impostas pelo governo Obama reduziram a velocidade da exploração, mas teria sido tão mais significativo simplesmente dizer não. No momento em que as companhias de combustíveis fósseis têm cinco vezes mais carbono em suas reservas, precisamos que líderes políticos digam: “Você precisa deixá-lo no solo.”

Por um breve momento, alguns anos atrás, parecia que dar alguns passos no sentido de enfrentar as mudanças climáticas poderia ser uma área de acordo bipartite, nos EUA. Agora parece que os republicanos, incluindo os que estão concorrendo à presidência, tentam desqualificar a iniciativa como – para citar Chris Christie – uma ideia da esquerda selvagem”. Como esse assunto pode ser tão deturpado na política partidária?

Os republicanos entendem que fazer o que precisamos fazer em face das mudanças climáticas é absolutamente antiético para seu projeto político. Se você não acredita em governo, se você não acredita em tributar corporações ou os muito ricos, se não acredita que há um lugar para a ação coletiva, então não haverá uma resposta para as mudanças climáticas. E mesmo quando você tem os chamados esforços bipartidários a partir de gente como Bob Inglis [ex-congressista republicano da Carolina do Sul], que apoia um imposto sobre receitas de carbono, compensadas por reduções de impostos de renda e corporativos, não é muito melhor do que a negação, porque isso não faria nada nada para resolver o problema.

De modo que o meu argumento é de que precisamos mudar a ideologia do país; esse é o projeto. A direita foi bem sucedida nisso com Reagan e Thatcher. Eles moveram o polo da política para a direita de forma dramática. E não vamos a lugar nenhum até que movimentemos o polo na outra direção.

SOBRE TOXICO

[texto original]

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Defensores da mineradora ignoram definição de toxicidade para amenizar impactos do rompimento da barragem em Mariana; não somente metais pesados têm efeito nocivo

E agora o leitor decidirá: a lama da Samarco que arrasou povoados em Mariana e já chegou ao mar, matando milhares de peixes, aves, algas… é tóxica ou não é tóxica? (Atente: isso independe de conter ou não metais pesados.)

Pois está em curso uma operação para minimizar a catástrofe. O que passa pela definição de que a lama não seria tóxica. Ora, a lama produziu, em si, efeitos nocivos a organismos diversos. Retirou oxigênio da água, asfixiou 11 toneladas de peixes, matou  tartarugas, caranguejos, caramujos, camarões, galinhas, bois, um rio inteiro (ainda que por alguns meses ou anos). Como não seria tóxica?

O Centro de Vigilância Sanitária, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, define como agente tóxico “qualquer substância capaz de produzir um efeito tóxico (nocivo, danoso) num organismo vivo, ocasionando desde alterações bioquímicas, prejuízo de funções biológicas até sua morte”. E o risco tóxico, o que seria? “É a capacidade inerente de uma substância produzir efeitos nocivos num organismo vivo ou ecossistema”.

A Fiocruz informa, em seu site, que não existem substâncias químicas sem toxicidade:. “Não existem substâncias químicas seguras, que não tenham efeitos lesivos ao organismo”. Nada, portanto, de associar o termo apenas à ingestão de metais pesados – como vêm fazendo a empresa e seus defensores. Lembremos que um cigarro possui 4.700 substâncias tóxicas.

A BATALHA DOS EXAMES

A página do Serviço Geológico do Brasil, uma companhia do governo federal, informa: “Novos resultados descartam aumento de metais pesados no Rio Doce”. Ou seja, por esses exames (feitos em apenas 40 coletas), a lama não seria tóxica especificamente em relação a metais pesados: cobre, chumbo e mercúrio, entre outros.

Mas mesmo nesse caso há controvérsias: e o ferro e o manganês? Um laudo encomendado pela própria Vale informa que os níveis das duas substâncias estão acima do recomendado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Ainda que, na descrição feita pela empresa, e logo replicada acriticamente pela imprensa, sem risco para seres humanos.

Ou seja, há ênfase apenas no impacto direto em organismos humanos. Como se as substâncias não fossem tóxicas para outros seres vivos. Sem redução de danos, reduzam-se as palavras.

Diante da minimização, muitos fazem uma pergunta singela: por que, então, a necessidade de barragens? Por um motivo simples: a polpa (a lama de areia e silte combinada com os rejeitos) da mineração tem o efeito tóxico que se viu nas últimas semanas. Mesmo sem metais pesados.

E porque não se trata somente da saúde de humanos, por ingestão ou contato direto; e sim da saúde de ecossistemas inteiros. Afetam a fauna, a flora. E também os humanos. As barragens surgiram, no século 20, porque o material despejado afetava os poços de irrigação e o solo; e os produtores constatavam a diminuição da colheita.

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Até aqui nem estamos questionando os testes feitos pela própria empresa. Ou considerando a necessidade de testes que não sejam encomendados pelas partes interessadas. Uma coleta feita em Governador Valadares logo após a catástrofe identificou níveis altíssimos de ferro e manganês. E este pode gerar problemas ósseos, intestinais, ampliar problemas cardíacos.

O Instituto Mineiro de Gestão das Águas fez outros testes e detectou a presença de chumbo, arsênio e cádmio nas águas do Rio Doce, nos dias subsequentes ao rompimento da barragem. Uma das consequências possíveis, câncer. Quem vai dizer que não existem esses riscos (ou que as substâncias não tenham saído da barragem), a própria Samarco? Ou pesquisadores independentes?

UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA

A Vale (dona da Samarco, junto com a BHP Billinton, e que também despejou resíduos na barragem rompida) já está até falando que a lama vai ter efeito de adubo no reflorestamento. Ou seja, não somente se minimiza o impacto brutal no ecossistema, como se tem a desfaçatez de apresentar um possível benefício “no reflorestamento”. Mais ou menos como os defensores do agronegócio, que chamam os agrotóxicos de “defensivos”.

Está desde o dia 5 de novembro em curso uma batalha por discursos. As evidências das primeiras semanas começam a ser esquecidas: as fotos dos povoados destruídos, a narrativa – ainda incompleta – sobre as 23 pessoas que morreram, a evidente destruição ambiental. A morte de um rio, a dor dos pescadores (como os das fotos deste artigo, feitas pelo Instituto Últimos Refúgios), agricultores e povos indígenas que se viram sem água. A ameaça aos ecossistemas marinhos.

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E agora começa a investida na reconstrução conveniente dos fatos. Movida a insensibilidade e escárnio em relação às vítimas, todas elas – humanos ou não. Aposta-se na falta de memória e na falta de bom senso para se dizer que o Rio Doce estará restabelecido em cinco meses, como se fosse pouco, e que a lama até vai virar um adubozinho. E nem tinha tanto veneno assim, não é mesmo? Nem se matou diretamente pessoas por ingestão de chumbo.

“A mineração é a alma de Minas. O Estado só é o que é por causa do ouro, do diamante e do minério”Bernardo Paz, Inhotim

[texto original]

LUCAS FERRAZ
AVENER PRADO

ENVIADOS ESPECIAIS AO QUADRILÁTERO FERRÍFERO (MG)

A tragédia de proporções ainda incalculáveis que brotou do coração da região mineradora de Minas Gerais expôs os conflitos e os dilemas da atividade no Estado.

No último dia 5, cerca de 40 bilhões de litros de lama foram derramados após o rompimento de uma barragem em Mariana com rejeitos da mineradora Samarco, presidida por Ricardo Vescovi e controlada pelas gigantes Vale e a anglo-australiana BHP Billiton.

O “tsunami”, que também tinha lama de uma mina da Vale, presidida por Murilo Ferreira, destruiu um vilarejo, matou peixes, invadiu o litoral do Espírito Santo, abalou o abastecimento de água de cidades ao longo do caminho e deixou ao menos 8 mortos e 11 desaparecidos –há cinco corpos sem identificação.

Os danos do desastre –ocorrido na cidade mineira que mais arrecadou com a extração mineral neste ano– já eram registrados, numa escala imensamente menor, há décadas nas cidades do chamado Quadrilátero Ferrífero.

Área na região central que concentra a maior parte da população urbana do Estado, o Quadrilátero engloba a capital, Belo Horizonte, e municípios cuja razão de ser é a mineração, como Congonhas, Nova Lima, Itabira e Brumadinho, além de Mariana e Ouro Preto, onde as primeiras minas foram cavadas no final do século 17.

Transformações urbanísticas, mudanças inteiras de comunidades, danos ambientais e o funcionamento de barragens de rejeito em áreas urbanas são alguns dos eventos conhecidos da população dessas cidades.

Quase sempre, as mudanças foram feitas com a anuência do poder público.

Responsável por 17% do PIB de Minas, a mineração não causa dependência somente aos governos municipais e estadual: ONGs, projetos ambientais e até instituições culturais se mantêm graças ao dinheiro das empresas do setor.

No ano passado, segundo o governo mineiro, o Quadrilátero Ferrífero foi responsável quase pela metade do minério de ferro exportado pelo Brasil.

“Espero que essa tragédia ajude a repensar o modelo de mineração em Minas Gerais. Ele deve ser revisto”, diz o médico Apolo Heringer Lisboa, 72, um dos fundadores do Projeto Manuelzão, que luta pela defesa da bacia hidrográfica do rio das Velhas, um dos tantos que cortam o Quadrilátero.

Como mostrou a tragédia em Mariana, a forte dependência da mineração foi acompanhada de um afrouxamento dos órgãos de controle e fiscalização do Estado, que não têm estrutura adequada para acompanhar uma atividade tão grande e intensa.

Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, em toda cidade mineradora há dezenas de procedimentos abertos pelo órgão que vão de queixas de moradores a inquéritos sobre eventuais danos ambientais.

O governo de Minas Gerais e seus órgãos ambientais, contudo, nem sequer têm inventariado os danos causados na região histórica pela mineração, que financia campanhas eleitorais no Executivo e no Legislativo.

DEPENDÊNCIA

No Parque Serra do Rola-Moça, que se espalha por cidades como Belo Horizonte, Nova Lima, Brumadinho e Ibirité, a mineração descontrolada deixou uma cratera numa área que circunda o local.

A exploração da mina foi liberada pelo Estado, nos anos 1990, sem que a pequena mineradora responsável –que não existe mais– apresentasse um projeto técnico. Anos depois, a Justiça embargou a área, atualmente abandonada.

“Esse é um grande exemplo do que uma mina não pode ser. Não somos contra a mineração, mas há lugares que nunca poderiam ser liberados para exploração”, diz a ambientalista Maria Dalce Ricas, da AMDA (Associação Mineira de Defesa do Ambiente).

Em Brumadinho (a 53 km da capital), logo abaixo das montanhas do Rola-Moça, o empresário Bernardo Paz utilizou as antigas minas de sua mineradora, a Itaminas, para instalar o Instituto Inhotim, museu dedicado à arte contemporânea e que se mantém graças à mineração.

A Vale, a maior mineradora do Brasil, é um “patrocinador master” do instituto de Paz, conforme suas palavras, além de também ser parceira comercial da Itaminas.

“A mineração é a alma de Minas. O Estado só é o que é por causa do ouro, do diamante e do minério”, ressalta.

Paz verbaliza a preocupação de muitos no Estado: a mineração, após o desastre de Mariana, não pode ser demonizada.

Vinte dias após a tragédia, o Legislativo mineiro aprovou projeto de lei proposto pelo governador Fernando Pimentel (PT) que acelera a concessão de licenças ambientais a empresas de mineração.

Críticos do projeto, como ambientalistas, apostavam que o clima de comoção gerado após o desastre em Mariana poderia contribuir para o texto ser barrado.

LABORATÓRIO

Itabira (a 100 km de BH), cidade onde a Vale foi criada nos anos 1940 pelo então presidente Getúlio Vargas (em 1997, foi privatizada por FHC), é um laboratório para a exploração do minério de ferro em larga escala e exemplo das contradições da indústria mineral.

Um dos municípios que mais arrecada impostos da mineração no Estado, Itabira decretou este ano estado de calamidade financeira. A queda acentuada do preço da tonelada de minério de ferro e o desaquecimento do mercado internacional embaraçaram as contas municipais.

As mudanças na geografia provocadas pela mineração são visíveis em toda a cidade. Bairros inteiros já foram removidos. O caso mais recente é o da Vila Paciência, localizado ao lado da linha ferroviária –por onde é escoado o minério– e de uma mina da empresa.

As explosões de dinamites na área afetavam a estrutura das casas e faziam com que pedras de minério fossem arremessadas no bairro.

A empresa disse que a desativação da antiga vizinhança era necessária para “aumentar a área de amortecimento” de suas operações.

Mas o processo de aquisição das casas, que começou em 2007, estancou sobretudo nos dois últimos anos. De centenas de imóveis, restaram na Vila Paciência apenas 29, alguns deles isolados em lotes que, agora, pertencem à Vale.

“Vi o bairro nascer e, agora, estou vendo ele morrer”, disse a aposentada Maria das Graças Teixeira, 65, que mora há quase 50 anos na Vila Paciência. Sua casa está rodeada por lotes vazios. “O pior de tudo foi perder os vizinhos”, conta.

Itabira tem na destruição do pico do Cauê uma das principais marcas da mineração: o antigo pico que tanto encantava o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade hoje é uma enorme cratera que vem sendo utilizada pela Vale justamente como área de rejeito.

Contradição é o que mais se vê nas cidades mineradoras de Minas Gerais. Em Itabira, ela pode ser personificada na figura do aposentado da Vale João Batista, 61. Sua casa, onde mora há 15 anos e adquirida graças ao trabalho na mineradora, está ao lado da barragem do Pontal, uma das seis existentes na cidade e a primeira de grande porte a ser construída no Estado. A área tem capacidade para receber mais de 122 bilhões de litros de lama.

A empresa afirma que a barragem é segura e que ela passou por fiscalização do Estado em junho. A mineradora, no entanto, diz que após o acidente na barragem de Fundão, em Mariana, fez uma “verificação detalhada das condições estruturais de suas barragens”.

A expansão do reservatório de rejeitos do Pontal nos últimos anos mudou o curso de um córrego, que agora passa a cinco metros do quintal de João Batista.

“A barragem já superou [em altura] minha casa. Não dá para ficar em paz quando chove. Eles falam que é muito seguro, mas a natureza, quando cobra, não avisa que vai cobrar. A insegurança e o medo tomam conta”, afirma.

Ao encontrar a reportagem da Folha, nesta semana, Batista terminava de escrever mais uma carta para a empresa reclamando da situação ao lado de sua casa. Nunca recebeu resposta, mas ele não se importa.

“Acho que a empresa também não vai responder a essa carta. Mas tudo bem, alguma coisa eu preciso fazer”, afirmou.

EXILADOS POLÍTICOS

[texto original]