Amazônia tem “oceano subterrâneo”

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A Amazônia possui uma reserva de água subterrânea com volume estimado em mais de 160 trilhões de metros cúbicos, estimou Francisco de Assis Matos de Abreu, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA), durante a 66ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que terminou no dia 27 de julho, no campus da Universidade Federal do Acre (UFAC), em Rio Branco.

O volume é 3,5 vezes maior do que o do Aquífero Guarani – depósito de água doce subterrânea que abrange os territórios do Uruguai, da Argentina, do Paraguai e principalmente do Brasil, com 1,2 milhão de quilômetros quadrados (km2) de extensão.

“A reserva subterrânea representa mais de 80% do total da água da Amazônia. A água dos rios amazônicos, por exemplo, representa somente 8% do sistema hidrológico do bioma e as águas atmosféricas têm, mais ou menos, esse mesmo percentual de participação”, disse Abreu durante o evento.

O conhecimento sobre esse “oceano subterrâneo”, contudo, ainda é muito escasso e precisa ser aprimorado tanto para avaliar a possibilidade de uso para abastecimento humano como para preservá-lo em razão de sua importância para o equilíbrio do ciclo hidrográfico regional.

De acordo com Abreu, as pesquisas sobre o Aquífero Amazônia foram iniciadas há apenas 10 anos, quando ele e outros pesquisadores da UFPA e da Universidade Federal do Ceará (UFC) realizaram um estudo sobre o Aquífero Alter do Chão, no distrito de Santarém (PA).

O estudo indicou que o aquífero, situado em meio ao cenário de uma das mais belas praias fluviais do país, teria um depósito de água doce subterrânea com volume estimado em 86,4 trilhões de metros cúbicos.

“Ficamos muito assustados com os resultados do estudo e resolvemos aprofundá-lo. Para a nossa surpresa, descobrimos que o Aquífero Alter do Chão integra um sistema hidrogeológico que abrange as bacias sedimentares do Acre, Solimões, Amazonas e Marajó. De forma conjunta, essas quatro bacias possuem, aproximadamente, uma superfície de 1,3 milhão de quilômetros quadrados”, disse Abreu.

Denominado pelo pesquisador e colaboradores Sistema Aquífero Grande Amazônia (Saga), o sistema hidrogeológico começou a ser formado a partir do período Cretáceo, há cerca de 135 milhões de anos.

Em razão de processos geológicos ocorridos nesse período foi depositada, nas quatro bacias sedimentares, uma extensa cobertura sedimentar, com espessuras da ordem de milhares de metros, explicou Abreu.

“O Saga é um sistema hidrogeológico transfronteiriço, uma vez que abrange outros países da América do Sul. Mas o Brasil detém 67% do sistema”, disse.

Uma das limitações à utilização da água disponível no reservatório, contudo, é a precariedade do conhecimento sobre a sua qualidade, apontou o pesquisador. “Queremos obter informações sobre a qualidade da água encontrada no reservatório para identificar se é apropriada para o consumo.”

“Estimamos que o volume de água do Saga a ser usado em médio prazo para abastecimento humano, industrial ou para irrigação agrícola será muito pequeno em razão do tamanho da reserva e da profundidade dos poços construídos hoje na região, que não passam de 500 metros e têm vazão elevada, de 100 a 500 metros cúbicos por hora”, disse.

Como esse reservatório subterrâneo representa 80% da água do ciclo hidrológico da Amazônia, é preciso olhá-lo como uma reserva estratégica para o país, segundo Abreu.

“A Amazônia transfere, na interação entre a floresta e os recursos hídricos, associada ao movimento de rotação da Terra, cerca de 8 trilhões de metros cúbicos de água anualmente para outras regiões do Brasil. Essa água, que não é utilizada pela população que vive aqui na região, representa um serviço ambiental colossal prestado pelo bioma ao país, uma vez que sustenta o agronegócio brasileiro e o regime de chuvas responsável pelo enchimento dos reservatórios produtores de hidreletricidade nas regiões Sul e Sudeste do país”, avaliou.

Vulnerabilidades

De acordo com Ingo Daniel Wahnfried, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), um dos principais obstáculos para estudar o Aquífero Amazônia é a complexidade do sistema.

Como o reservatório é composto por grandes rios, com camadas sedimentares de diferentes profundidades, é difícil definir, por exemplo, dados de fluxo da água subterrânea para todo sistema hidrogeológico amazônico.

“Há alguns estudos em andamento, mas é preciso muito mais. É necessário avaliarmos, por exemplo, qual a vulnerabilidade do Aquífero Amazônia à contaminação”, disse Wahnfried, que realizou doutorado direto com Bolsa da FAPESP.

Diferentemente do Aquífero Guarani, acessível apenas por suas bordas – uma vez que há uma camada de basalto com dois quilômetros de extensão sobre o reservatório de água –, as áreas do Aquífero Amazônia são permanentemente livres.

Em áreas de floresta, essa exposição do aquífero não representa um risco. Já em áreas urbanas, como nas capitais dos estados amazônicos, isso pode representar um problema sério. “Ainda não sabemos o nível de vulnerabilidade do sistema aquífero da Amazônia em cidades como Manaus”, disse Wahnfried.

Segundo o pesquisador, tal como a água superficial (dos rios), a água subterrânea é amplamente distribuída e disponível na Amazônia. No Amazonas, 71% dos 62 municípios utilizam água subterrânea (mas não do aquífero) como a principal fonte de abastecimento público, apesar de o estado ser banhado pelos rios Negro, Solimões e Amazonas.

Já dos 22 municípios do Estado do Acre, quatro são totalmente abastecidos com água subterrânea. “Apesar de esses municípios estarem no meio da Amazônia, eles não usam as águas dos rios da região em seus sistemas públicos de abastecimento”, avaliou Wahnfried.

Algumas das razões para o uso expressivo de água subterrânea na Amazônia são o acesso fácil e a boa qualidade desse tipo de água, que apresenta menor risco de contaminação do que a água superficial.

Além disso, o nível de água dos rios na Amazônia varia muito durante o ano. Há cidades na região que, em períodos de chuva, ficam a poucos metros de um rio. Já em períodos de estiagem, o nível do rio baixa 15 metros e a distância dele para a cidade passa a ser de 200 metros, exemplificou.

Vocês têm fome de quê?

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Elaborado por pesquisadores do Brasil, Chile, México e da Alemanha, o Atlas da carne – fatos e números sobre os animais que comemos propõe dezenas de perguntas inquietantes. Você sabia que a produção de carne agrava as desigualdades globais? E que está relacionada ao desmatamento da Amazônia? A publicação mapeia a produção industrial de carne no mundo e como ela atinge recursos hídricos e solos, influencia as mudanças climáticas e as relações sociais. O lançamento acontece na quinta-feira, dia 29 de setembro, no Espacio 945, localizado na Rua Conselheiro Ramalho, 945 – Bixiga – São Paulo (SP).

O Atlas também registra como a criação animal em escala industrial traz consequências como a fome, já que a produção intensiva fica sempre em primeiro plano, em detrimento das necessidades nutricionais de cada país. O cercamento de terras para esse objetivo também causa o deslocamento de pequenos produtores, intensificando problemas sociais. A perda de biodiversidade também é outra grave consequência desse avanço sobre as terras. O Atlas, portanto, indica esses e outros impactos do consumo de carne, seja ela bovina, suína, de aves e de outros tipos como búfalos e ovelhas.

A publicação busca disseminar o máximo de informação quanto aos efeitos da produção de carne e às alternativas a esse modelo predador. Segundo o Atlas, se o consumo de carne continuar crescendo, em 2050 os agricultores e agricultoras terão que produzir 150 milhões de toneladas extra de carne, agravando os problemas. O Atlas da Carne estimula, assim, reflexões sobre como implementar uma pecuária “ecológica, social e ética” como contraponto ao agronegócio nos Estados Unidos, na União Europeia e na América Latina. A publicação traz alternativas ao atual modelo, como a de produzir e consumir a carne localmente, evitando o transporte por milhares de quilômetros. Quer, assim, mostrar ao consumidor de carne toda a cadeia de produção.

No Brasil, onde a crise hídrica já bateu à porta, para cada quilo de carne gastam-se 15 mil litros de água. E a criação intensiva, visando à exportação, leva ao uso de fármacos para erradicar doenças e acelerar a engorda. A contaminação do solo e da água, entre outras, são as consequências. A despeito disso, a demanda global por carne aumenta, mais rapidamente nos países emergentes e de forma cadenciada nos Estados Unidos e na Europa.

O Atlas está em sua terceira edição na Alemanha e já foi publicado em espanhol, inglês e francês. O Brasil ilustra bem a cadeia de produção, pois é um dos maiores produtores de soja do mundo, grão utilizado sobretudo como ração animal. Ao consumir a carne, o cidadão ingere também agrotóxico, usado no cultivo desse defensivo agrícola. A sanha por terra de produtores de soja e outros levam, muitas vezes, à grilagem, à expulsão de pequenos agricultores e a assassinatos de líderes camponeses e indígenas no Brasil. A produção da soja também se desdobra em desmatamento na Amazônia, visto, em maior escala, no Cerrado e no Pantanal, que sofrem também com o avanço das áreas de pastagens, pondo em risco importantes biomas. A pecuária intensiva gera quase um terço dos gases de efeito estufa em nível global.

Lançamento: O lançamento reunirá André Campos, jornalista da ONG Repórter Brasil; Letícia Tura, diretora da Ong FASE; Maureen Santos, coordenadora do programa de Justiça Socioambiental da Fundação e organizadora da versão brasileira do Atlas; e o jornalista e blogueiro Leonardo Sakamoto que fará a moderação. Na ocasião também será lançado o livro Cadeia industrial da Carne – Compartilhando ideias e estratégias sobre o enfrentamento do complexo industrial do complexo industrial global da carne da FASE, resultado da troca de ideias de um encontro sobre a temática.

O extrativismo como projeto de sociedade

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À medida em que o extrativismo e os processos políticos assentados neste modelo começam a mostrar rachaduras, pela abrupta queda dos preços das commodities, estamos em melhores condições para compreender suas características profundas e as limitações das análises anteriores. Uma delas, e devemos assumir a autocrítica em primeira pessoa, consiste em ter mirado primordialmente o aspecto ambiental, e depredador da natureza, deste modelo de conversão de bens comuns em mercadorias.

Agora podemos dar um passo a mais, algo que já fizeram os zapatistas há mais de uma década, quando definiram este modelo como quarta guerra mundial. O outro erro de vulto foi considerar o extrativismo como modelo econômico, seguindo o conceito de acumulação por desapropriação de David Harvey. Em suma, ao erro de ter centrado as críticas – de modo quase exclusivo – na questão ambiental, somou-se o do economicismo, de que adoecemos muitos dos formadosno marxismo.

O capitalismo não é uma economia, mas um tipo de sociedade (ou formação social), apesar de existir, evidentemente, uma economia capitalista. Com o extrativismo sucede algo similar. Se a economia capitalista é acumulação por extração de mais-valia (reprodução ampliada do capital), a sociedade capitalista produziu a separação da esfera econômica da política. A economia extrativista — de conquista, roubo e pilhagem — é apenas um aspecto de uma sociedade extrativista, ou uma formação social extrativista, que é a característica do capitalismo na fase em que o capital financeiro é dominante.

Para além dos termos, interessa sublinhar que vivemos numa sociedade cuja cultura dominante é de apropriação e roubo. Por que enfatizar a existência, hoje, de uma cultura extrativista — diferente da que foi hegemônica em outros períodos do capitalismo? Porque nos ajuda a compreender em que tipo de mundo vivemos e as características do modelo contra o qual nos rebelamos.

Para compreender melhor em que consiste essa cultura, seria necessário compará-la com a cultura hegemônica nos períodos anteriores. Por exemplo, durante o predomínio da indústria e do Estado desenvolvimentista. Naquela época, os trabalhadores manuais da indústria sentiam orgulho de seu oficio por serem produtores de riqueza social (embora uma parte substancial fosse apropriada pelo patrão). Este orgulho tomava forma de consciência de classe quando se identificavam os interesses próprios por meio da resistência aos exploradores. Não era o orgulho tolo de quem acredita ser superior, mas o produto do lugar que os operários ocupavam na sociedade; lugar que não haviam herdado, mas construído por meio de uma luta longa e paciente.

Entre meados do século 19 e as primeiras décadas do 20, os operários – e às vezes as operárias – formavam a si mesmos à luz de velas, logo após rígidas jornadas de 12 de trabalho, criando espaços próprios de encontro e ócio (escolas, teatros, bibliotecas, cooperativas, sindicatos). Instituíram formas de vida com base na ajuda mútua, criaram maravilhas como a Comuna de Paris e a Revolução de Outubro, além de uma larga série de insurreições urbanas. Tinham motivos para ter a autoestima elevada.

Na vida cotidiana, a cultura operária girava em torno do trabalho, da austeridade por convicção, da poupança como norma da vida e da solidariedade como religião. O macacão de trabalho e o capacete eram sinais de identidade que circulavam em seus bairros, uma vez que não queriam vestir-se como os patrões. Tudo em suas vidas, desde a moradia até os hábitos, diferenciava-os dos exploradores. Essa cultura tinha traços opressores, como bem sabem as mulheres e os filhos dos operários industriais. Mas, era uma cultura própria, baseada no autocultivo de si mesmos, não na imitação de cima.

Esta longa explanação busca chegar a um ponto central: a cultura operária podia conectar com a emancipação. A cultura extrativista vai a contrapelo. Embora portasse elementos opressivos, aquela cultura continha aspectos valiosos, potencialmente anticapitalistas.

A cultura extrativista é o resultado da mutação gerada pelo neoliberalismo, montado no capital financeiro. O trabalho não tem o menor valor positivo; este lugar é ocupado agora pela pilhagem e suas faces auxiliares, o consumismo e a ostentação. Onde antes havia o orgulho por fazer, a cultura gira agora em torno da ostentação de marcas e modas. Enquanto os operários condenavam o roubo, por razões estritamente éticas, hoje festeja-se a rapina, mesmo que as vítimas sejam vizinhos, amigos e até a família.

Nem toda a sociedade nutre esta forma de viver, é claro. Mas são maneiras de viver que ganharam terreno em sociedades onde os jovens não têm emprego digno nem lugar, nem a possibilidade de construir um ofício trabalhando, nem de conseguir um mínimo ascenso social após anos de esforço. Não há nem memória daquele passado, o que é mais pernicioso, por violar a dignidade.

O extrativismo evaporou os sujeitos, porque na chamada “produção” eles já não estão presente. Inclusive na esfera da reprodução da vida, o sistema esforça-se por mercantilizar tudo — do nascimento à alimentação, arremetendo contra o papel central das mulheres nesses espaços. Aí está a importância das micro-resistências: os bairros, os territórios populares, as praças, as feiras de troca, as festas de rua, os  espaços coletivos de qualquer tipo tipo. Elas alimentam as grandes rebeliões.

Se é certo que a cultura hegemônica do extrativismo obstrui os processos emancipatórios, a organização e as resistências, estamos diante da necessidade imperiosa de trabalhar o contrapeso dessa cultura. O cimento do novo mundo está aí, na vida cotidiana. Por isso, o empenho nos trabalhos coletivos, em todas as resistênciais. Esses trabalhos moldam uma cultura nova, que resgata o melhor de la cultura operária e tenta aplacar as opressões.

Este negócio quer levar uma jabuticabeira ao seu apartamento

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São Paulo – Diante de uma rotina cada vez mais corrida, especialmente nos grandes centros urbanos, muitos negócios apostam no resgate de uma época mais simples. Já falamos sobre a volta dos bolos caseirosdos livros infantis, por exemplo.

Mesmo as pessoas mais urbanas podem ter na memória uma visita a uma fazenda ou sítio – e, lá, a experiência com árvores e frutas tiradas do pé. É essa lembrança que a empresa familiar Jabuticabeira quer resgatar.

O negócio, além de vender a árvore frutífera fisicamente, também aceita encomendas online, com espécies que podem ser plantadas na terra ou em vaso. Ou seja: seu apartamento pode resgatar um pouco dessa experiência de infância.

Só no ano passado, a Jabuticabeira entregou cerca de 3 mil árvores – e, mesmo em ano de crise, pretende aumentar as vendas.

O começo da Jabuticabeira

Antes de inaugurar a Jabuticabeira, o empreendedor Fernando Grando trabalhava no segmento de fertilizantes. Ele passou a infância no interior de São Paulo e conta que sempre foi apaixonado pelo campo.

Aos poucos, foi formando seu próprio pomar e percebeu a demanda que os consumidores tinham pelas jabuticabeiras.

“O projeto nasceu da observação do meu pai de como as pessoas tem paixão por essa fruta, que é 100% brasileira. Muitas passaram pelo interior do país em algum momento da infância e tiveram contato com essa fruta, seja na casa de uma avó, de uma tia ou de um amigo”, explica Pedro Grando, filho de Fernando que é co-fundador e engenheiro agrônomo da empresa.

“É dessa lembrança que identificamos a possibilidade de realizar o sonho dessas pessoas de ‘resgatar’ essa memória. Além disso, seus filhos e netos podem ter a oportunidade de colher uma fruta no jardim de casa.”

A empresa Jabuticabeira foi criada há mais de 20 anos e, no começo, comercializava as sementes. Depois, passou a vender mudas. Por fim, os empreendedores identificaram uma oportunidade na comercialização da jabuticabeira já produzindo frutos.

Hoje, o negócio conta com quatro áreas distintas de plantio, nas cidades de Cerquilo e Laranjal Paulista (São Paulo). No total, são mais de 50 mil árvores plantadas.

Entrada na internet: consultoria e processo de venda

Porém, as estratégias de marketing tradicionais, como anúncios, já não funcionavam tão bem: era preciso reinventar o negócio para continuar crescendo. Por isso, a Jabuticabeira resolveu entrar para o mundo digital, abrindo seu site em 2008.

Quem coordenou esse projeto foi Pedro. “Percebemos que precisávamos ir ao encontro do nosso público alvo, e a internet oferecia essa oportunidade. Por meio do website podemos interagir, responder a dúvidas, ensinar e mostrar parte do nosso trabalho. Dessa forma, as vendas passaram a ser muito mais dinâmicas. Inclusive, atendemos por WhatsApp também”, explica o engenheiro agrônomo.

Primeiro, o cliente informa dados como o porte da jabuticabeira e a variedade desejada (o site oferece dez variedades). Então, há perguntas mais técnicas: qual será o local de plantio e como é o acesso à residência, para poder levar a planta até o ponto em que será plantada. “Essas perguntas fazem com que sejamos mais rápidos no processo de entrega da jabuticabeira”, explica Pedro.

A venda no Jabuticabeira.com é associada a uma consultoria – todos os funcionários da empresa são treinados por engenheiros agrônomos para entender bem sobre o produto comercializado.

“Normalmente, nosso cliente já nos procura sabendo que irá conversar com especialistas e isso nos ajuda bastante”, conta Aline Grando, filha de Fernando que também entrou para o negócio, como gerente comercial. “Assim que o cliente seleciona qual tipo de jabuticabeira quer, nós mandamos fotos, medidas, vídeos e o que mais for necessário para que ele faça uma compra consciente.”

Aline também ressalta que um dos diferencias da empresa, além de sua segmentação e da consultoria, é o pós-venda. “O cliente recebe a árvore com nosso certificado de origem e um manual de cuidados básicos. Além disso, como temos a data do plantio, informamos para ele, via e-mail, o dia exato para iniciar a adubação da Jabuticabeira. Por fim, mantemos um canal de comunicação direta com o cliente para ajuda-lo com dúvidas e também para comemorarmos os primeiros frutos.”

Além do site, a Jabuticabeira possui perfis nas redes Facebook, Instagram e YouTube. Lá, a empresa posta informações sobre a empresa, sobre as variedades de árvores, sobre os cuidados com as plantas e os bastidores da produção.

Uma jabuticabeira pode custar a partir de 150 reais (mini-árvore, com cerca de cinco anos). Porém, o negócio se especializa em jabuticabeiras adultas e extremamente produtivas, com cerca de 13 anos de idade. Essas podem custar de 1 mil até 6 mil reais, um valor que depende principalmente da variedade de jabuticabeira escolhida pelo cliente. O ticket médio é de 1,2 mil reais.

“Vale lembrar que são 13 anos de cultivo, irrigação, fertilização, podas, cuidados, ou seja, oferecemos a oportunidade de abreviar o tempo para quem deseja colher frutas no quintal”, afirma Pedro.

Resultados e planos

Aline conta que a internet ajudou ainda mais a empresa a entrar em contato com as pessoas comuns. Na venda física, quem mais marca presença são os paisagistas e as lojas revendedoras. Já na internet, há mais presença de pessoas que amam jabuticabeiras sem fazer disso uma parte de sua profissão.

“Esse é um público que já se acostumou a encontrar tudo o que deseja na internet, mas se surpreende ao saber que pode escolher e receber em casa uma jabuticabeira produzindo também por esse meio”, explica a gerente comercial.

A estratégia online foi acertada: hoje, as transações digitais representam 80% do faturamento da Jabuticabeira.

Mesmo com os tempos de crise econômica, a Jabuticabeira pretende aumentar as vendas em relação do ano passado em 30%.

Para isso, aposta em parcerias com lojas selecionadas. Essas revendedoras comercializarão as árvores da Jabuticabeira de forma exclusiva – uma “espécie de mini franquia”, diz Aline. “Também abrimos um novo show room, em Itu [São Paulo], visando estar mais próximo daquele cliente que deseja escolher a sua árvore pessoalmente.”

Cortar custos onde possível e ser mais sustentável também está nos planos. “No começo do ano, concluímos a automação da nossa irrigação. Com esse trabalho, vamos economizar mais de 50% do recurso hídrico necessário para cultivar nossas plantas”, afirma Pedro.

FAO: pastoreio causou 80% do desflorestamento no Brasil entre 1990-2005

Criação de gado na região Norte. Foto: EBC

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Mais de 80% do desflorestamento ocorrido no Brasil no período de 1990 a 2005 foi associado à conversão de terras em terrenos de pastoreio, mostrou relatório divulgado nesta segunda-feira (18) pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), denominado “O estado das florestas no mundo”.

A participação do pastoreio no desflorestamento é maior no Brasil do que em outros seis países da região analisados no mesmo período: Argentina, Bolívia, Paraguai, Venezuela, Colômbia e Peru, de acordo com a FAO.

Segundo a agência da ONU, além do pastoreio, o cultivo comercial foi responsável por cerca de 10% do desflorestamento no Brasil no período analisado, enquanto outras formas de exploração da terra, cultivo em pequena escala, agricultura mista, infraestrutura responderam juntos pelos demais 10%.

Na análise dos sete países consolidados, o estudo apontou que 71% do desflorestamento ocorreu devido ao aumento da demanda de pastos; 14% devido aos cultivos comerciais e menos de 2% devido à infraestrutura e à expansão urbana.

A expansão dos pastos causou a perda de ao menos um terço das florestas em seis dos países analisados. A exceção foi o Peru, onde o aumento das terras cultiváveis em pequena escala foi o fator dominante para 41% do desflorestamento.

Na Argentina, a expansão dos pastos foi responsável por 45% do desflorestamento, enquanto a expansão de terras cultiváveis comerciais respondeu por mais de 43%.

Agricultura comercial

O estudo concluiu que a agricultura comercial é a principal causadora do desflorestamento na América Latina.

Particularmente na Amazônia, a produção do agronegócio para os mercados internacionais foi o principal fator de desflorestamento, fruto de práticas como o pastoreio extensivo, o cultivo de soja e as plantações de coqueiro-de-dendê.

“A agricultura comercial não pode continuar crescendo à custa das florestas e dos recursos naturais da região”, disse Jorge Mexa, oficial florestal da FAO.

Meza destacou que políticas como a vinculação de incentivos agrícolas a critérios ambientais, a adoção de práticas silvipastoris — combinação intencional de árvores, pastagem e gado numa mesma área e manejados de forma integrada —, o pagamento por serviços ambientais e a recuperação dos pastos degradados podem evitar a ampliação da fronteira agrícola em detrimento das florestas.

Apesar de o desflorestamento continuar em alta na região, em 2015 sua taxa se reduziu em quase 50% quando comparada a 1990. Esta redução também foi significativa na Amazônia, fruto de políticas de desenvolvimento sustentável impulsionadas pelos países que dividem a bacia amazônica.

Segundo o documento da FAO, desde 1990 mais de 20 países melhoraram sua segurança alimentar e mantiveram ou aumentaram sua cobertura florestal, demonstrando que não é necessário cortar árvores para produzir mais alimentos.

Vincular os subsídios agrícolas às normas ambientais

Em vários países, as subvenções agrícolas em grande escala fomentaram o desflorestamento, já que aumentam a rentabilidade da produção agropecuária e geram pressão para ampliar a fronteira agrícola. Exemplos disso na região são o pastoreio extensivo e a produção de soja em escala industrial.

Uma opção de política para evitar esses danos, segundo a FAO, é vincular os incentivos e mecanismos de fomento público recebidos pela agricultura comercial ao cumprimento de normas ambientais.

O relatório destacou que uma reforma desse tipo ocorreu no Brasil, que passou a vincular os subsídios ao crédito rural com critérios ambientais, evitando a perda de 270 mil hectares de florestas que haviam sido destruídas para aumentar a produção de carne bovina.

A iniciativa brasileira “Bolsa Verde” foi outro exemplo citado pela FAO: um programa de transferência condicionada que entrega recursos a milhares de famílias pobres em troca de manter a cobertura vegetal e gerir seus recursos naturais de forma sustentável.

Transposição do Rio São Francisco: má gestão dos recursos hídricos leva Nordeste brasileiro à exaustão

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Entrevista especial com João Suassuna

“É preciso saber que percentual de água o São Francisco pode dispor para depois avaliarmos que tipo de projeto vamos realizar, inclusive para saber se vamos resolver todo ou parte do problema hídrico e de abastecimento da região”, adverte o engenheiro agrônomo.

“Depois de analisar e acompanhar a atual situação do Rio São Francisco, diria que o Estado deveria ter apostado na revitalização do rio: precisávamos primeiro ter água de boa qualidade e em volume no Rio São Francisco para futuramente discutir se seria preciso uma transposição”, diz João Suassuna à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

Segundo ele, mesmo se a transposição tivesse sido concluída, dada a atual situação de seca no Nordeste brasileiro – quadro que se repete há cinco anos – “hoje não seria possível retirar água do São Francisco para abastecer 12 milhões de pessoas”, frisa.

Apesar dessa situação, Suassuna defende a conclusão da obra “porque do contrário” ela “será um elefante branco, ou seja, seria assumir um atestado de incompetência gastar 8,2 bilhões de reais num projeto e deixá-lo se transformar num elefante branco”. Entretanto, alerta, “depois da conclusão, teremos um problema grave: de onde retirar água para satisfazer as necessidades de 12 milhões de pessoas que estão sedentas no Nordeste”.

Na entrevista a seguir, João Suassuna apresenta um panorama da exaustão hídrica das represas nordestinas e também comenta a proposta do governo interino de Michel Temer de investir 10 bilhões de reais na revitalização do Rio São Francisco nos próximos dez anos. Trata-se de “uma ação louvável”, diz, mas “se o governo Temer pretende gastar 10 bilhões na revitalização do São Francisco, ele tem que olhar para a região e entendê-la de uma forma sistêmica, porque, do contrário, não acredito numa revitalização”, adverte.

Suassuna também comenta brevemente os casos de corrupção envolvendo a transposição do Rio São Francisco e frisa que, por enquanto, segundo informações do Tribunal de Contas da União – TCU, “200 milhões de reais estão envolvidos em superfaturamento nessas obras, o que não foi esclarecido ainda diante da opinião pública. Sabemos que várias das empreiteiras envolvidas na Lava Jato atuam na obra de transposição do Rio São Francisco e há necessidade de que essas informações sejam muito bem esclarecidas diante da sociedade, para que ela perceba o que está acontecendo e possa, depois, julgar esse projeto da transposição do rio. É dinheiro público que está envolvido na ‘jogada’ e não podemos deixar essa situação ser conduzida da forma como está sendo; a população tem que se manifestar”.

IHU On-Line – Qual é a situação do Rio São Francisco hoje? Recentemente o senhor informou que a represa de Sobradinho, uma das principais da região, está funcionando com 25% da sua capacidade. O que isso significa em termos de abastecimento da população?

João Suassuna – Depois analisar e acompanhar a atual situação do Rio São Francisco, diria que o Estado deveria ter apostado na revitalização do rio: precisávamos primeiro ter água de boa qualidade e em volume no Rio São Francisco para futuramente discutir se seria preciso uma transposição. O que está acontecendo hoje? O rio está seco, o Nordeste está precisando de água, e se a transposição tivesse sido concluída, hoje não seria possível retirar água do São Francisco para abastecer 12 milhões de pessoas.

Gostaria de fazer uma observação sobre a situação da bacia do Rio São Francisco: há cinco anos ocorrem secas sucessivas no Nordeste, porque as chuvas foram abaixo da média. Além disso, há um problema muito sério de uso excessivo das águas de subsolo na bacia do São Francisco. Essas águas abastecem a vazão de base, a qual tem uma importância muito grande no regime volumétrico do Rio. Para se ter uma ideia, existe um aquífero na Bacia, chamado Urucuia, o qual é o mais importante no que diz respeito à gestão da vazão e da quantidade de água que corre no seu leito através desses aquíferos e chega a Sobradinho.

Metade da vazão de Sobradinho é proveniente do aquífero Urucuia. É em cima desse aquífero que hoje está se expandindo a cultura da soja, que está sendo irrigada com pivô central. Mas o problema é que quando se irriga com pivô central, está se secando os aquíferos, e ao secar os aquíferos, se interfere nas vazões de base.

A represa de Sobradinho, quando foi construída, tinha a finalidade de regularizar a vazão de 2.060 metros cúbicos por segundo do rio São Francisco. Com a retirada dessas águas do subsolo, essa vazão média está caindo e está atualmente em 1.850 metros cúbicos, quer dizer, a tendência é cair mais ainda. Somada a essa retirada de água exacerbada do subsolo e somados esses anos de seca, a represa de Sobradinho está atuando com 25% da sua capacidade, com a perspectiva de entrar em volume morto no próximo mês de novembro, segundo laudos já apresentados por técnicos. Ou seja, teremos um problema muito sério porque a população que vive na margem do São Francisco não terá água para beber e para irrigar as suas culturas.

HU On-Line – Qual é a atual situação das obras de transposição do Rio São Francisco iniciadas no governo Lula?

João Suassuna – Até o final da gestão Dilma, essas obras estavam cerca de 80% concluídas. A gestão Temer está dando sinais de que quer investir não na conclusão da obra de transposição, mas na revitalização do rio, e já se fala em alocar 10 bilhões de reais para isso. É uma ação louvável, não resta dúvida, mas acho que devem concluir esse projeto da transposição, porque do contrário essa obra será um elefante branco, ou seja, seria assumir um atestado de incompetência gastar 8,2 bilhões de reais num projeto e deixá-lo se transformar num elefante branco. Então, acho que a transposição deve ser concluída. Contudo, depois da conclusão, teremos um problema grave: de onde tirar água para satisfazer as necessidades de 12 milhões de pessoas que estão sedentas no Nordeste. O São Francisco não vai ter essa água.

Por isso, defendo que os hidrólogos têm de sair a campo novamente para identificar quais são as reais necessidades de água para beber. Tem de se encontrar um volume que seja capaz de atender às necessidades dos nordestinos. Esse trabalho precisa ser feito também na bacia do Rio São Francisco para saber que volume de água o rio tem para oferecer no sentido de atender às necessidades da população. Os hidrólogos tinham uma ideia de qual era esse volume antigamente, mas o cenário hidrológico mudou e, além disso, há muitas cisternas instaladas na área rural. Então, essa nova equação ainda não foi feita. Identificado esse volume, vamos ter que partir para a identificação de uma instituição que garanta a distribuição da água e que não sofra ingerências políticas para abrir e fechar essas torneiras.

Você pode me perguntar que instituição é essa. De fato, é difícil encontrar uma instituição que não sofra ingerências políticas, mas quem sabe a polícia federal tenha que intervir para garantir a distribuição da água, porque às vezes a situação chega a um ponto que vira caso de polícia.

IHU On-Line – Por que considera que é mais importante concluir a transposição do rio ao invés de iniciar um novo projeto que visa à revitalização? Dada a atual crise, será possível investir nesses dois projetos?

João Suassuna – Porque só faltam 20% para concluir a obra. O meu receio é que depois do dinheiro que foi gasto, essa obra vire um elefante branco. Não podemos deixar que o São Francisco entre no hall da lista negra. Se der para começar a revitalização e concluir a obra, seria o mais viável.

A transposição serviria para resolver um problema emergencial que está ocorrendo em Campina Grande, porque o principal reservatório que abastece a cidade e outros 18 municípios está funcionando com 7% de sua capacidade. Então há a previsão de a represa que abastece Campina Grande entrar em volume morto. Se isso acontecer, veja o problema que vamos ter: 450 mil pessoas, que é a população dessa região, ficarão sem água, mas elas têm que ser abastecidas de alguma forma, ou seja, precisa chegar água para essas pessoas terem o que beber.

Mas com a atual situação do Nordeste, com todas as represas numa situação de exaustão, essa água virá de onde? A única solução será a água do São Francisco. Por isso defendo a conclusão do projeto, para que a transposição possa resolver, de forma emergencial, esse problema que está acontecendo hoje em Campina Grande. Se não colocar esse projeto a funcionar, Campina Grande não terá água para dar de beber ao seu povo. Fala-se em implementar outros sistemas, como os de adução de engate rápido, e isso é possível, mas vamos tirar a água de onde? É nisso que temos de pensar.

Os hospitais de Campina Grande estão sendo abastecidos por caminhões-pipa; isso é uma loucura. Se a transposição tivesse sido concluída, já estaria chegando água para resolver esse problema. Mas para que a água chegue não podemos descuidar desse trabalho que lhe falei anteriormente: temos de saber que volumes de água o São Francisco pode nos fornecer.

IHU On-Line – Como está avaliando o novo programa de revitalização do Rio São Francisco, anunciado pelo governo interino, chamado de Novo Chico, que pretende gastar 10 bilhões até 2026, e atuar em três frentes: recuperação das nascentes e áreas degradadas, modernização de agricultura irrigada e programa de aquicultura; conclusão de 124 projetos de saneamento; e gestão e fiscalização ambiental com recuperação de unidades de conservação?

João Suassuna – É uma proposta interessante; não resta dúvida. Todas as lagoas do São Francisco estão com problemas sérios porque o rio não está tendo volumes suficientes para reabastecer as lagoas. E quando as lagoas secam, os peixes somem. Temos que olhar para tudo isso de modo sistêmico e entender que a gota de esgoto que cai no Rio das Velhas vai poluir outras regiões, porque moramos num vaso fechado que é o planeta Terra. Essa proposta de revitalização é importante, mas como eu já disse anteriormente, temos de saber também que volumes de água o Rio São Francisco vai poder fornecer. Precisamos avaliar isso porque é a partir desse número que será possível planejar a irrigação que está sendo feita no Rio São Francisco, planejar que quantidade de água será lançada das represas do São Francisco etc.

IHU On-Line – É possível fazer esse cálculo rapidamente?

João Suassuna – Esse é um trabalho que demora, mas que precisa ser começado. Não podemos ficar de mãos atadas, ver o Nordeste seco, sem uma gota d’água e sem saber o que fazer.

IHU On-Line – Como o senhor avalia a nova proposta para o São Francisco à luz do projeto anterior de transposição do governo Lula? Em que aspectos essas propostas se diferenciam?

João Suassuna – Se a obra de transposição não tivesse sido feita, a situação seria outra. Inclusive, o Lula fez questão de enaltecer um diferencial ao dizer que sua proposta era diferente da de Fernando Henrique Cardoso. A proposta de FHC, ele dizia, apenas visava à transposição das águas, mas o Lula dizia que queria mais, queria investir na revitalização do rio. Eu fiquei muito animado naquela época, porque ele inclusive deu início a essa proposta ao criar uma subsecretaria só para mexer com a revitalização do São Francisco, mas a vontade foi diminuindo de tal modo que começaram a investir muito mais na transposição do que na revitalização, chegando ao ponto de que em uma determinada época o orçamento da transposição era de 1 bilhão de reais e o da revitalização era de 100 milhões. A partir daí não pude mais acreditar num projeto de revitalização em que se aplicava 10% do que estava sendo investido num projeto de transposição. Já nessa época eu comecei a não acreditar no projeto de revitalização do rio São Francisco do governo Lula, com essa divisão de recursos.

Estamos numa situação emergencial no Nordeste, e se você me perguntasse se esse projeto resolveria a situação do Rio, eu diria sinceramente: resolveria se chegássemos a detectar qual é o volume de água que o São Francisco pode dispor. É preciso saber que percentual de água o São Francisco pode dispor para depois avaliarmos que tipo de projeto vamos realizar, inclusive para saber se vamos resolver todo ou parte do problema hídrico e de abastecimento da região. Depois de voltarmos à situação de chuvas e os reservatórios estarem abastecidos, temos de fazer um trabalho de gestão dos recursos hídricos, porque do contrário voltaremos à estaca zero.

Para não dizer que não foi feito nada, houve uma ação de tratamento de saneamento em algumas regiões, mas ficou somente nisso. A revitalização de uma bacia é uma coisa muito maior porque tem que resolver a questão de reflorestamento das matas ciliares, cuidar dos vazamentos sanitários, olhar a parte de dragagem dos rios que já estão assoreados, cuidar da fauna, mas nada disso foi feito.

Se o governo Temer pretende gastar 10 bilhões na revitalização do São Francisco, ele tem que olhar para a região e entendê-la de uma forma sistêmica, porque, do contrário, não acredito numa revitalização.

IHU On-Line – Como a discussão política tem repercutido na região em que está sendo realizada a transposição do Rio São Francisco neste momento de crise e de risco de abastecimento de água, dado que várias empreiteiras e políticos estão sendo denunciados na Lava Jato por conta da corrupção envolvendo essas grandes obras, por exemplo?

João Suassuna – Tenho acompanhado essas questões e inclusive já estão divulgando informações sobre a má administração dos recursos públicos nas obras da transposição. O Tribunal de contas da União já chegou à conclusão de que 200 milhões de reais estão envolvidos em superfaturamento nessas obras, o que não foi esclarecido ainda diante da opinião pública. Sabemos que várias das empreiteiras envolvidas na Lava Jato atuam na obra de transposição do Rio São Francisco e há necessidade de que essas informações sejam muito bem esclarecidas diante da sociedade, para que ela perceba o que está acontecendo e possa, depois, julgar esse projeto da transposição do rio. É dinheiro público que está envolvido na “jogada” e não podemos deixar essa situação ser conduzida da forma como está sendo; a população tem que se manifestar.

Se você fizer uma pesquisa hoje na região setentrional do Nordeste, 99% das pessoas dirão que são favoráveis à obra, porque ainda não a receberam. O resto do Nordeste é contra a obra porque não vai participar do recebimento dessas águas. De outro lado, parte da população que era favorável ao projeto, já está achando que ele não vai sair por causa das “falcatruas” que são feitas em torno da má administração do dinheiro público e porque vários dos canais da transposição estão rachando e ninguém está ligando para isso. Tudo isso está fazendo a opinião do nordestino mudar em relação ao projeto. Isso é lamentável de dizer? Sim, mas ninguém mais acredita nesse projeto.

O problema maior do Nordeste é a falta de gestão dos recursos hídricos, porque os principais açudes do Nordeste estão em uma situação lamentável em termos de volume de água por conta de uma má gestão desses volumes. Quando se constrói uma represa de grande porte, essa represa regulariza o rio que foi represado num volume de regularização. Para você ter uma ideia, se utilizarmos o volume dessa represa em volumes maiores do que a da regularização, a represa seca, mesmo se tiver enormes volumes de água.

O que acontece hoje no Nordeste é que os volumes de regularização dessas represas estão sendo menores do que o volume de água que está sendo retirado dela. Isso leva à exaustação e foi assim que acabaram com açudes em várias regiões. Diante dessa situação, a solução apresentada é trazer água do Rio São Francisco, mas essa água vem de uma parte do rio que também já está praticamente seca. Quando essa água chegar à represa, ela vai continuar sendo mal gerida e, portanto, a água do São Francisco nessas represas também vai acabar. Essa é a triste situação hídrica do Nordeste brasileiro.

Hortas urbanas, muito mais que moda hipster

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A Habitat III, conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) dedicada às cidades, vai explorar as possibilidades da agricultura urbana como solução para garantir a segurança alimentar. Mas em Nova York teve um impacto muito maior. Nas cidades de todo o mundo são registrados níveis históricos de desigualdade. Mesmo em Nova York, coração do mundo rico, muitos setores não têm garantida sua segurança alimentar.

Na Habitat III, que acontecerá de 17 a 20 de outubro, em Quito, capital do Equador, será a primeira vez em 20 anos que a comunidade internacional se reunirá para analisar as consequências da urbanização e pensar em uma nova estratégia global, a Nova Agenda Urbana.

Em Nova York, o preço dos alimentos aumentou 59% desde 2000, ao contrário do salário médio dos trabalhadores adultos, que só aumentou 17%. Cerca de 42% das famílias não têm renda suficiente para cobrir suas necessidades de alimentação, moradia, vestimenta, transporte e saúde, mas superam a quantia necessária para poder receber assistência estatal.

Em 2015, foi criado o plano OneNYC, vinculado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, que pretende tirar cerca de 800 mil pessoas da pobreza em uma década. “O OneNYC tem grandes expectativas e se esforça muito para atender a igualdade no sistema de alimentação e na gestão de desperdícios, garantindo que cada vez mais cidadãos tenham acesso a alimentos saudáveis e bons”, explicou à IPS Michael Hurwitz, diretor do mercado verde GrowNYC e que trabalha no OneNYC.

Hurwitz acrescentou que,“em uma cidade como Nova York, a agricultura urbana pode ter vários papéis: além de alimentar sua população, educa, oferece espaços seguros e ajuda a compensar o orçamento destinado à alimentação”. A agricultura urbana desempenha um papel significativo na alimentação da população das cidades em todo o mundo.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 800 milhões de pessoas cultivam verduras e frutas ou criam animais nas cidades, produzindo o que, segundo o Instituto Worldwatch, representa a assombrosa proporção de 15% a 20% da produção mundial de alimentos. Isso ocorre em lugares do mundo onde a agricultura urbana ou periurbana representa de 50% a 70% do consumo de verduras da cidade.

Na África, estima-se que cerca de 40% das populações urbanas se dedicam à agricultura. Quem vive nas cidades há muito tempo, ou quem chegou há pouco, planta porque tem forme, sabe como cultivar, além de o valor da terra ser baixo e os fertilizantes baratos. Mas nos Estados Unidos, a agricultura urbana provavelmente tenha maior impacto sobre a segurança alimentar em lugares que, de certa forma, são mais parecidos com o Sul global, isto é, cidades onde a renda média é baixa e há uma grande necessidade de alimentos acessíveis.

Hurwitz observou o poder transformador da agricultura quando foi trabalhador social em Redhook, no Brooklyn, bairro onde a renda de 40% dos moradores era inferior a US$ 10 mil por ano. Nesse lugar, trabalhou em uma horta comunitária com adolescentes de 16 e 17 anos, em um programa vinculado ao sistema judicial. Os jovens levavam o que colhiam para suas casas ou vendiam em mercados, restaurantes locais e outros estabelecimentos.

“Nossos jovens se tornaram agentes de mudança em suas comunidades. Ninguém queria trabalhar com muitos dos adolescentes com os quais trabalhamos, mas, quando se converteram na principal fonte de alimentos saudáveis em seu bairro no mercado de produtos orgânicos, seus colegas, e os adultos, se deram conta de que, na realidade, estavam gerando uma mudança na comunidade”, acrescentou Hurwitz.

O sistema foi ampliado por meio da GrowNYC, uma organização não governamental que funciona no escritório do prefeito de Nova York, Bill de Blasio, e trabalha com seis mil jovens por ano e oferece material para que o pessoal docente trabalhe com eles na aula. Seu programa Grow to Learn (Cultivar para Aprender) está encarregado de todas a hortas escolares da cidade. Além disso, administra um projeto de mini empréstimos e oferece assistência técnica e capacitação para os professores sobre o cuidado com as hortas.

No Bronx Sul, o mais pobre dos 435 distritos congressuais dos Estados Unidos em 2010, vivem 52 mil nova-iorquinos com renda bem baixa, 42 mil dos quais abaixo da linha de pobreza, e é conhecido como “deserto alimentar”. Quando a GrowNYC foi a esse bairro pela primeira vez, um policial alertou seu pessoal: “Não queiram entrar, porque não é seguro”, recordou Hurwitz. “Mas em dois meses uma área difícil se converteu em uma esquina grandiosa, de maravilhosa atividade porque havia jovens vendendo alimentos aos seus vizinhos”.

Há anos o programa Learn it, Grow it, Eat it (Aprenda, Cultive, Coma), da GrowNYC, trabalha com escolas no Bronx Sul, ajudando a formar líderes ambientais, contou Hurwitz. A iniciativa cuida de um dos postos agrícolas de jovens da organização, capacitando-os em administração e agricultura para que possam gerenciar seus próprios postos de venda. “Vimos muitos começarem em nosso mercado e passarem a ser administradores do programa”, acrescentou.

Em Nova York não se trata só de produzir uma quantidade padronizada de alimentos para as comunidades necessitadas, mas de refletir a diversidade cultural. “Em nosso programa temos quem cultive produtos por cerca de US$ 240 mil por hectare em Staten Island”, a ilha diante de Manhattan, pontuou Huwirtz. Os mexicanos plantam cultivos tradicionais para alimentar sua comunidade. Se não fosse isso, não teriam acesso aos alimentos com os quais estão acostumados.

Surgiram os grandes operadores de estufas e estas ficaram em moda. Mas o cultivo de uma variedade limitada de verduras de grande qualidade não bastará para alimentar as populações urbanas. “Preferiria que se destinassem US$ 2 milhões para a preservação de plantações rurais a fim de alimentar as cidades”, opinou Hurwitz. “Dessa forma seria possível levar alimento às cidades, garantir que todos tivessem acesso a ele e assegurar que as propriedades continuem sendo viáveis”, acrescentou.

Os prognósticos indicam que a população das cidades duplicará nos próximos 30 anos, segundo o Atlas de Expansão Urbana. “A segurança alimentar relacionada com a urbanização é um dos grandes temas que atrairão a atenção dos participantes da Habitat III”, destacou Juan Close, diretor da ONU Habitat.

Governo expulsa da floresta comunidades que mais preservam a floresta

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Uma casa queimada, instrumentos de trabalho apreendidos, comércio e roça proibidos. Tratados como uma ameaça à preservação, os ribeirinhos do rio Iriri, no Pará, sofrem pressão para abandonar o “beiradão” – a beira do rio é mais do que o lugar onde vivem, mas o lugar onde se fazem vivos. Por ações como essas, o cientista social Mauricio Torres trata o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) por ICMBope, em referência ao Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Nesta entrevista, ele revela as contradições na postura do Ministério do Meio Ambiente sobre as unidades de conservação: “São permissivos em relação à usina hidrelétrica de Belo Monte, mas quando veem um ribeirinho numa canoa, ‘deus do céu, tira esse monstro daqui que ele vai acabar com a Amazônia’”, ironiza.

Profundo conhecedor da região e de sua gente, Torres baseia suas críticas em um longo trabalho de pesquisa de campo realizada na Estação Ecológica Terra do Meio, publicada no livro digital Não existe essa lei no mundo, rapaz!. Nele, junto com Daniela Alarcon, traça um retrato da violência contra os beiradeiros do rio Iriri, caso exemplar do modo como comunidades são perseguidas, ameaçadas e expulsas de unidades de conservação pelo Ibama (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis) e mais recentemente pelo ICMBio.

A Estação Ecológica Terra do Meio faz parte do Mosaico de Unidades de Conservação de mesmo nome, entre os rios Xingu e Tapajós, no Pará. O mosaico foi criado após a morte da irmã Dorothy Stang para fazer frente à grilagem, à exploração comercial da madeira e à pecuária. Os estudos indicavam que a área deveria ser uma Reserva Extrativista, modalidade que prevê o uso da floresta pelas comunidades. Em vez disso, as famílias ficaram dentro de uma Estação Ecológica, modelo com restrições à presença humana.

Se os ribeirinhos do Iriri são considerados uma ameaça à preservação, não muito longe dali, no Rio Xingu, são um entrave à construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, que vai alagar 510 quilômetros quadrados e pode gerar desmatamento de até cinco mil quilômetros quadrados, segundo estimativa do Imazon (Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia).

Na última semana, o Ministério Público Federal do Pará divulgou relatório de inspeção que denuncia a remoção de famílias de seus territórios com indenizações irrisórias ou a áreas de reassentamentos consideradas inadequadas. “Está em curso um processo de expropriação dos meios de produção da vida dos grupos ribeirinhos impactados pela UHE Belo Monte”, afirma Thais Santi, procuradora da República em Altamira, na apresentação do relatório.

Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo, Torres vive em Santarém nos intervalos do trabalho de campo que realiza para diversas organizações, entre elas o Ministério Público Federal. Ele narra o impacto que a saída do beiradão tem sobre a vida dessas famílias, cuja identidade e existência estão apoiadas nos marcos do território.

Repórter Brasil – O Ibama e o ICMBio agiram de forma violenta contra os beiradeiros?

Mauricio Torres – Desde a criação da unidade de conservação, os beiradeiros estão imersos em um quadro de violência cotidiana e violação de direitos. O órgão ambiental responsável pela gestão – antes o Ibama e agora o ICMBio – por muito tempo fez pressão para que as famílias reduzissem sua produção e impediu a comercialização do excedente, reduzindo as condições de sobrevivência. Durante nossa pesquisa em campo, um bombeiro que acompanhou uma operação do Ibama na Estação Ecológica da Terra do Meio nos contou que o então chefe da unidade de conservação ordenou a expulsão de moradores e chegou a atear fogo na casa de uma família.

Além disso, direitos como educação, saúde e transporte são negligenciados. Assim, vem ocorrendo um processo de expulsão, causado tanto pelas pressões impostas pelo Estado ao modo de vida desse grupo, quanto por abandono e privação de direitos constitucionais.

Houve outros casos de violência e pressão explícitas?

Os moradores contam que uma gestora do Ibama recolheu todas as facas, enxadas e terçados – instrumentos de trabalho – das famílias ribeirinhas, considerando que eram “armas brancas”. Uma violência absurda. Foram apreendidas as baterias de energia usadas pelas famílias para fazerem as festas. Ou seja, são retiradas não só as condições que forneciam as possibilidades materiais, como as que permitiam um mínimo de sociabilidade. Quando essas famílias, num átimo de desespero, abandonavam tudo e se lançavam no mundo sem nada além do que elas pudessem carregar, o Ibama, e depois o ICMBio, diziam com orgulho que elas haviam deixado o local espontaneamente.

É importante registrar que a coisa muda bastante com a chegada da última gestora da unidade de conservação, Tathiana Chaves de Souza. Ela teve sensibilidade em relação a esses grupos, de modo que, depois da sua chegada, essas pressões se aliviaram muito. Em compensação, as limitações começaram a vir de Brasília.

O que os ruralistas fazem ao negar certas etnias como índios é muito parecido com o que o ICMBio faz ao negar a condição de comunidade tradicional

A legislação não protege as comunidades tradicionais desse tipo de ação?

A lei é bem clara: as comunidades tradicionais que vivem em unidades de conservação – mesmo naquelas de proteção integral – têm direito a permanecer nessas áreas. As condições dessa permanência devem constar em acordos firmados entre os ocupantes e o órgão ambiental. A Constituição Federal e a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho garantem o direito à permanência dessas famílias. Mas chegavam os servidores do Ibama, muitos sem qualquer preparo sobre o conceito de comunidades tradicionais, para concluir que os grupos não eram comunidades tradicionais.

Esse questionamento é referendado pelos gabinetes do órgão em Brasília, o que não é despreparo. É um questionamento conveniente à entrega de territórios tradicionalmente ocupados para concessão florestal, para grandes projetos de infraestrutura logística. É uma violação do direito das comunidades tradicionais à autoidentificação. O que os ruralistas fazem ao negar certas etnias como índios é muito parecido com o que a direção do ICMBio faz ao negar a certos grupos a condição de comunidade tradicional.

O ICMBio não tem competência, no sentido de atribuição, para esse diálogo. É um órgão focado na questão ambiental. Eu dei aula em três cursos de formação de gestores ingressos no ICMBio. O tempo destinado à discussão acerca dos territórios tradicionalmente ocupados e de comunidades tradicionais era absurdamente pequeno, duas ou quatro horas. A duração das aulas de tiro era maior.

Por isso você fala em ICMBope?

Eu digo que às vezes o ICMBio parece ser o ICMBope, com ações policialescas e repressivas. Eu não estou condenando ações de repressão ao madeireiro. Eu estou falando de ações policialescas e repressivas contra o ribeirinho, como as famílias que vivem em diferentes unidades de conservação sofreram não sei quantas vezes. Quando analisamos a atuação do órgão ambiental em face dos povos e comunidade tradicionais, encontramos coisas aberrantes. E isso vem piorando.

O ICMBio parece ser o ICMBope, com ações policialescas e repressivas. Não estou condenando ações de repressão ao madeireiro. Eu estou falando de ações contra o ribeirinho

A criação do mosaico de Unidades de Conservação da Terra do Meio reduziu os conflitos e a grilagem?

No Pará, adotou-se uma política de combater grilagem com a decretação de unidades de conservação. E isso não é algo automático, pois as unidades de conservação não são instrumentos de regularização fundiária, mas de proteção ambiental. A decretação da unidade de conservação torna a área não “grilável”, não passível de ser apropriada privadamente. Mas são muito precários – se não inexistentes – os procedimentos para se retomar as terras em poder de grileiros. O fato é que a regularização fundiária virou um grande gargalo das unidades de conservação.

Os grileiros foram expulsos ou sofreram pressão como os beiradeiros?

O mosaico da Terra do Meio é o único caso que eu conheço em que quase todas as grilagens foram expulsas. Mas isso foi feito pelo MPF. Até hoje, o ICMBio não moveu uma ação de reintegração contra os grileiros que ocupavam ou os poucos que restam no mosaico. Por exemplo, em áreas que estavam fora da jurisdição do procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida, responsável pela ação, há grileiros instalados que nunca foram sequer incomodados. Se o órgão tem um bom tráfego na questão ambiental, é precário na questão fundiária. Faltam instrumentos legais para que o ICMBio tenha competência de arrecadar as terras que devem ser transferidas para o seu nome.

Famílias foram expulsas, em um primeiro momento por causa dos grileiros, e depois pela pressão do órgão gestor da Estação Ecológica. Como isso é vivido por elas?

Eu trabalhei com expropriados do Parque Nacional da Amazônia, no rio Tapajós, na década de 1970. A principal queixa era a educação dos filhos. A frase que muitas famílias repetiam era: “eles não nos obedecem mais”. Quando falo educação, estou indo muito além da escolarização. Sabemos, de Aristóteles a Foucault, que o mestre ensina porque é investido de uma autoridade conferida pelo saber. Esse saber é local.

Eu conheci verdadeiros sábios, com um conhecimento extremamente profundo sobre a floresta, sobre seus usos, seus perigos, seus remédios, suas possibilidades de fartura. Quando essa família sai, e vão trabalhar como guarda noturno ou como faxineira, são desprovidos desse saber. Eu conheci uma senhora que disse que o marido remava dois dias pra pescar no lugar onde eles viviam, que ele não sabia pescar em outro lugar, e a última frase dela foi: “ele não era mais”. Esse “não era” sem o complemento é extremamente eloquente. Ele não era mais. Ponto.

O impacto de expropriar essas famílias é irreparável. Como se indeniza o túmulo de um filho que ficou lá no beiradão?

A identidade de beiradeiro, como qualquer outra, é apoiada em uma memória do grupo, construída em cima daquelas histórias ancoradas naquelas pedras dos rios, naquelas seringueiras, naquelas castanheiras. Na hora em que você priva as pessoas de tudo isso, você priva o grupo da memória e abala suas identidades.

O impacto de expropriar essas famílias é irreparável. Como se indeniza o túmulo de um filho que ficou lá no beiradão, perto da antiga morada de uma família expulsa?

Existe uma orientação do Ministério do Meio Ambiente de que a presença dessas populações é incompatível com essas Unidades de Conservação?

Há, dentro do ICMBio, duas tendências: a preservacionista, que é avessa à ocupação humana em unidades de conservação, e a conservacionista, que entende que, se as áreas que hoje correspondem a unidades de conservação foram ocupadas por povos e comunidades tradicionais durante séculos e estão bem conservadas, é porque o uso que fazem dos recursos é, em si, um valor ambiental.

A corrente preservacionista que hoje domina o órgão em Brasília é classista: o problema é o pobre. Instalar um resort em um Parque Nacional para receber milionários é algo muito bem-vindo, mesmo que isso tenha impacto ambiental. Já a comunidade tradicional que fazia um uso absolutamente interessante e menos impactante que o hotel tem que ser expulsa. Os responsáveis pelo órgão são permissivos em relação à usina hidrelétrica de Belo Monte, mas quando veem um ribeirinho numa canoa, “deus do céu, tira esse monstro daqui, que ele vai acabar com a Amazônia”.

Como compara a situação dos beiradeiros da Terra do Meio com a dos ribeirinhos removidos por Belo Monte?

Ao passo que a descomunal degradação gerada por Belo Monte contou com benevolência dos órgãos de controle ambiental, a meia dúzia de famílias de extrativistas distribuídas ao longo em 300 quilômetros do rio Iriri é tida como intolerável, geradora de impactos inadmissíveis a uma unidade de conservação de mais de 3 milhões de hectares.

No caso de Belo Monte, a atual orientação da política ambiental mostra sua subserviência às políticas de “desenvolvimento”. Ao mesmo tempo, a dramática situação dos ribeirinhos expropriados pela usina dá uma boa amostra do quadro ao qual resistem os beiradeiros do alto Iriri: desagregação do grupo comunitário, destruição do modo de vida, perda dos meios de subsistência. Mas o modo como as famílias da Estação Ecológica foram expulsas – e outras ainda correm risco de ser – é ainda mais cruel. Elas sequer “existem” como famílias removidas. Não houve um processo instaurado para retirá-las da terra, ao contrário: sequer se admitiu que isso estava sendo feito.

Há um senso comum de que a floresta conservada é incompatível com a presença humana?

O primeiro senso comum é de que a Amazônia não é ocupada. Podemos compreender quando esse discurso é empregado pelo citadino do centro-sul, mas não quando lastreia a ação de burocratas que trabalham com isso. A arqueologia mostra que muito do que se imaginava ser floresta virgem são ambientes socialmente construídos. Arqueólogos mostram que a Amazônia já chegou a ser muito mais habitada do que hoje. Eu diria até que o que existe de mais efetivo para deter o desmatamento são justamente esses povos da floresta. E Chico Mendes, no Acre, já mostrava isso há 30 anos. O que está detendo o desmatamento são os territórios étnicos: as terras indígenas, os territórios quilombolas ou as unidades de conservação ocupadas por comunidades tradicionais.

Mas tem uma coisa que me incomoda: o discurso de que “eles detêm o madeireiro porque amam a floresta”, como se fossem essencialmente bons e puros. A relação com a floresta está mais regida pelo campo político do que pelo moral. Eles terem a floresta saudável e íntegra do lado de casa é uma necessidade para a sobrevivência. Quando eles detinham o desmatamento, o avanço do pasto do grileiro, eles estavam lutando pela própria sobrevivência.

Ter floresta saudável e íntegra do lado de casa é uma necessidade para a sobrevivência

Como essas comunidades mantêm a floresta com o uso da própria floresta?

Uma das coisas mais certas na Amazônia, depois do grileiro, é a umidade. É muito difícil fazer estocagem. Essas comunidades, herdeiras de conhecimentos indígenas, detêm uma tecnologia capaz de reconhecer na floresta uma quantidade imensa de potencialidades para garantir a manutenção de uma despensa viva e, portanto, sadia. Até nos roçados a gente encontra um sistema que imita a dinâmica da própria floresta.

As comunidades ribeirinhas têm verdadeiros bancos de germoplasmas. Lá no rio Iriri, é possível perceber uma variedade enorme de cultivares de mandioca, pouquíssimas catalogadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Na lógica da agricultura capitalista, o razoável seria: planta-se a mais produtiva, a melhor. Mas a prioridade dos beiradeiros é a necessidade da família. Então, tem uma variedade de mandioca que é para mulher grávida, uma para quem está convalescendo, outra para o idoso, outra que é muito precoce e já pode virar farinha depois de seis meses, outra que suporta e consegue ficar enterrada por até três anos e mantém essa função de estocagem viva. O grupo garante, assim, sua segurança alimentar.

Uma vez eu estava andando com um engenheiro florestal. Ele olhou para uma árvore e comentou: “com isso vocês fazem cabo de machado, não é?”. O beiradeiro disse: “não, com isso a gente faz cabo de enxada, porque isso é leve. Cabo de machado, a gente faz com tal madeira. Mas cabo de foice, a gente faz com aquela outra, e cabo de vassoura…”. Ele enumerou uma série de cabos de ferramentas, sem repetir a madeira, a espécie. Essa tecnologia de saber a propriedade de cada madeira responde por sustentabilidade. Mostra que ele vai explorar com baixa pressão uma quantidade muito grande de espécies e não vai sobrecarregar um único recurso. Não esgotar o recurso é um componente fundamental de um modo de vida construído ao longo de gerações.

Saber a propriedade de cada madeira responde por sustentabilidade. Mostra que ele  não vai sobrecarregar um único recurso

Qual a situação hoje das famílias?

Para amenizar situações de conflito – no caso de sobreposições territoriais – eram elaborados termos de ajustamento de conduta ou termos de compromisso, em que se firmava um acordo entre as duas partes, o grupo ocupante e o órgão ambiental. O termo de compromisso foi elaborado, consensuado com as famílias beiradeiras que vivem no interior da unidade de conservação, a gestora do ICMBio deu todo o encaminhamento devido e ele parou em Brasília. Assim, sem qualquer justificativa, o processo foi paralisado e as famílias continuam no limbo. Os processos de elaboração e assinatura de acordos dessa natureza foram estancados em Brasília. Isso saiu de pauta.

 

O que pode gerar esse vácuo provocado pelo Estado ao não garantir o direito dessas famílias, e entrar como o braço repressor?

Há frentes de grilagem e madeireiros que estão chegando lá, vindas da BR-163 (Cuiabá-Santarém) no sentido oeste-leste. E eles sabem muito bem como trabalhar com a cooptação ocupando o vácuo do Estado. Estamos falando dos beiradeiros do rio Iriri, tratados no livro, mas existem também os do rio Curuá, um afluente do rio Iriri, que passaram pelo mesmo processo: conforme os estudos, deveriam ser beneficiados por uma reserva extrativista e não foram, foi criado um outro tipo de unidade de conservação lá, uma floresta estadual, que é um tipo focado no fornecimento de madeira.

O caso do rio Iriri não é isolado…

Exatamente. Grileiros e madeireiros já estão equipados para o que a gente vai chamar, entre muitas aspas, de assistência social: garantem transporte, socorro num caso de doença, possibilitam que uma criança vá estudar na cidade mais próxima etc. Na ausência do Estado como garantidor de direitos, eles entram na área com o seguinte discurso: “estamos indo para ajudar os ribeirinhos abandonados”. A gente sabe muito bem o preço que isso vai ter. A entrada de um ente privado em um vácuo deixado pelo Estado, levando a essas pessoas aquilo que é seu direito, é o caminho pelo qual se formaram máfias no planeta inteiro. A postura do Estado hoje é pavimentar o caminho desses grileiros.

Há quem defenda que as unidades de conservação devem ser Florestas Nacionais em que determinada área é concedida aos madeireiros e, a partir desse ponto, devem ser de proteção integral, onde não pode ter gente. Mas e as comunidades tradicionais? Elas já estão lá.

Irracional

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[TEXTO ORIGINAL]

O ano é 2093 e o mundo como o conhecemos colapsou. A temperatura do planeta subiu 11°C em média, o nível do mar elevou-se em 8 metros, pelo menos 1,5 bilhão de pessoas tiveram de migrar em massa após serem deslocadas de suas casas, mais de 70% das espécies foram extintas, entre elas o icônico urso-polar. O cenário catastrófico previsto pela historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, em seu mais recente livro – The Collapse of Western Civilization (O Colapso da Civilização Ocidental, ainda sem tradução para o português) – é uma ficção, mas fortemente amparado na realidade. Na prática, é só um pouco mais dramático do que as estimativas feitas pela ciência.

Valendo-se de dados científicos e dos acontecimentos dos últimos anos, ela e o historiador Eric M. Conway imaginam o que pode acontecer se a humanidade falhar em agir diante da informação robusta que existe sobre as mudanças climáticas. É um alerta assustador, às vésperas da Conferência do Clima da ONU, que será realizada em Paris, no final do ano, sobre como tudo pode dar muito errado. Mas é também um lembrete de que as informações disponíveis para evitar o pior estão ao alcance dos governantes. Basta agir.

Naomi se tornou uma das principais vozes nos Estados Unidos na defesa de ações contra as mudanças climáticas e no combate aos negacionistas do problema. Ela foi a primeira a mostrar que é consenso entre a esmagadora maioria da comunidade científica que o clima está mudando por ação humana e foi a responsável, junto com Conway, por desmascarar um grupo de “especialistas” que, financiados pelas mais variadas indústrias, trabalham para lançar dúvida sobre o que a ciência diz.

Esse punhado de pessoas, de acordo com a dupla, vem atuando desde as primeiras pesquisas que mostravam relação entre consumo de tabaco e o câncer até os estudos sobre as mudanças climáticas. A denúncia foi feita no livro Merchants of Doubt (Mercadores da Dúvida, sem tradução em português), de 2010, que foi transformado em um documentário de mesmo nome lançado no começo deste ano.

Em entrevista ao Aliás (em parte concedida no interior de Massachusetts, onde ela mora), Naomi analisou a política americana em relação às mudanças climáticas e as últimas ações do presidente Barack Obama (que lançou no começo de agosto um plano de corte das emissões das usinas termométricas a carvão). Ela também fala sobre o comportamento dos cientistas em relação à opinião pública sobre o tema e o impacto que o papa Francisco, que publicou sua encíclica ambiental em junho e vai visitar os Estados Unidos em setembro, pode ter sobre essa situação.

Sua publicação mais recente é justamente uma introdução à versão em livro da encíclica, que chegou às livrarias americanas no começo de agosto visando atingir um público além dos católicos. Ela escreve: “A essência da crítica (feita pelo papa) é que nossa situação não é um acidente – é a consequência da forma como nós pensamos e agimos: nós negamos as dimensões morais de nossas decisões e confundimos progresso com atividade. Nós não podemos continuar a pensar e agir desse jeito, desconsiderando tanto a natureza quanto a justiça, e esperar prosperar com isso. Não é só amoral, não é nem mesmo racional”.

Como a sra. avalia a política atual dos EUA em relação às mudanças climáticas?

Apesar de algumas tentativas do presidente Obama, a situação é totalmente terrível, porque a liderança do Partido Republicano ainda está oficialmente em negação do problema. A esperança é que isso talvez chegue a um fim logo, porque também há republicanos mais sensíveis à questão que estão se manifestando nos bastidores, como Bob Inglis (ex-deputado pela Carolina do Sul que defende que os conservadores aceitem as evidências científicas das mudanças climáticas e ajam em relação aos subsídios dados aos combustíveis fósseis) e George Schultz (secretário de Estado na administração Reagan e coautor do relatório Negócio de Risco, que mostra os danos econômicos que as mudanças climáticas podem causar aos EUA). Sabemos que há alguns líderes republicanos que já entenderam que não se trata de uma falácia, mas que ainda não se sentem capazes de falar abertamente em público. Então, acho que as próximas eleições podem ser importantes, especialmente após a divulgação da encíclica do papa Francisco. Há uma oportunidade aí para os moderados dizerem: temos de parar de ter só uma posição às escondidas sobre esse assunto e nos posicionarmos à frente dessa questão. Isso poderia acontecer. A questão é saber se de fato vai acontecer.

Como seria esse passo?

É o que eu sempre digo: eu continuo esperando por um “momento Nixon vai a China”. Richard Nixon era um notório anticomunista, mas fez uma ousada e histórica viagem para a China. Politicamente, foi chocante. Mas algumas pessoas argumentaram que ele pôde fazer isso justamente porque ele era tão anticomunista que ninguém poderia acusá-lo de estar virando comunista. Nixon pôde ir à China de um modo como nenhum democrata jamais poderia ir naquela época. A moral da história é que alguns republicanos, como Lindsey Graham (senador pela Carolina do Sul desde 2003, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano e que nos últimos meses têm criticado seu partido por não acreditar no que a ciência diz sobre as mudanças climáticas) ou John Boehner (presidente da Câmara dos EUA), poderiam dizer: chegou o momento para nós reformularmos o modo como pensamos sobre o ambiente e percebermos que é possível ter prosperidade e crescimento econômico e proteger o ambiente ao mesmo tempo. Dizer que não são coisas excludentes – pelo contrário: se não fizermos nada sobre as mudanças climáticas, essa será a real ameaça à prosperidade.

Falando sobre o papa, chama a atenção como a comunidade científica americana aguardava ansiosamente pelo pronunciamento dele como algo com potencial de mudar a política dos EUA sobre a questão. Por que a ciência, de repente, passou a botar tanta esperança em um pronunciamento religioso? 

Isso nos mostra como política nos EUA ficou estranha. Afinal, quão bizarro é ter os cientistas mal podendo conter a ansiedade por um pronunciamento papal sobre uma questão que concerne à ciência, à cultura e à sociedade? A minha interpretação é que houve tanta ansiedade em torno da encíclica porque cientistas são cientistas e eles não sabem como falar sobre questões culturais e morais. Não são treinados para fazer isso, não se sentem confortáveis fazendo isso. Mas nem sempre foi assim. Durante a Segunda Guerra e depois, muitos cientistas se posicionaram contra o uso de armas nucleares, mas era um tempo diferente, com pessoas diferentes. Agora, sobre as mudanças climáticas, eles falam em termos científicos: quantos graus Celsius de aquecimento, quantos milímetros por década de aumento do nível do mar… Só que isso não é uma maneira de falar ao coração das pessoas. Para a maioria das pessoas normais, isso não significa nada. Cientistas não conseguem passar a mensagem de por que isso importa. Porque, para fazer isso, é necessário colocar o problema de maneira pessoal, emocional, econômica, social e moral. Isso é um pouco o que fazemos no livro O Colapso… Tentamos contar a história do ponto de vista humano. Mas o que o papa está fazendo vai além em vários graus de magnitude, porque ele está colocando em termos morais ao dizer que o que está acontecendo é uma injustiça. É algo que os cientistas não se sentem capazes de dizer, mesmo sendo algo que eles saibam, com o qual se preocupam, se incomodam e do qual falam em privado. O papa pode fazer o que os cientistas não podem. Há 20, 30 anos eles acharam que os líderes políticos nos EUA fariam isso, mas eles não fizeram. E o papa agora resolveu assumir essa responsabilidade. Acredito que a comunidade científica de certo modo se sente aliviada com isso.

E o catolicismo nem é majoritário nos EUA.

Verdade. Mas o papa ainda é visto como uma autoridade moral por muitas pessoas, não só pelos católicos. E também é importante porque muitos dos líderes republicanos de direita neste país são católicos. Rick Santorum (pré-canditato à Presidência) e John Boehner, por exemplo. A Suprema Corte está repleta de católicos. E Santorum e Boehner têm criticado o que eles chamam de “cafeteria catholics” (algo como católicos do self-service), que escolhem quais regras da Igreja querem seguir. Bom, se eles defendem que não é certo escolher o que seguir, como vão agir com o papa dizendo que é preciso fazer algo contra as mudanças climáticas e que isso não é uma questão científica, mas moral, que é uma questão de justiça?

O que pode acontecer quando o papa se dirigir ao Congresso em setembro? Os republicanos podem ficar constrangidos, numa saia justa que talvez os faça agir?

Honestamente, acho que a maioria ali não é mais capaz de ficar constrangida. Mas o impacto pode ser grande no público. A esperança é que se o papa falar claramente sobre o assunto, pedindo ações dos EUA, e isso tiver uma ampla cobertura da imprensa, muitas pessoas comuns vão ouvir, pessoas que podem não ter dado muito atenção ao problema ou nem sabem o que pensar sobre ele. E elas vão ouvir o papa dizendo que isso é real e, veja, ele não é cientista querendo financiamento para sua pesquisa, não é alguém só querendo ganhar atenção. Afinal, oras, ele é o papa, pode conseguir toda a atenção que ele quiser. Então por que ele estaria tratando desse problema se ele não achasse que é verdade? Quando as pessoas perceberem isso, pode ser que mude o tom da conversa.

Mas mesmo do lado dos democratas a situação não é tão boa. Obama recentemente anunciou seu Plano de Energia Limpa, fez o anúncio conjunto com a China. Mas também defendeu recentemente a exploração de 

petróleo no Ártico.

Pois é, isso não faz nenhum sentido. Em muitas dessas ações eu normalmente não concordo, mas até entendo a lógica. Agora, com o Ártico, não é o caso. Fiquei muito irritada depois daquele anúncio. É como dar com uma mão e tirar com a outra. Não existe um progresso real (para uma economia verde) se o país continua investindo em novas formas de obter recursos fósseis. É por isso que me envolvi com o movimento de desinvestimento em combustíveis fósseis (proposto por alunos de Harvard para que a universidade deixe de investir no setor). Uma pessoa não pode dizer que é séria a respeito das mudanças climáticas e ao mesmo tempo dar apoio a novos investimentos em combustíveis fósseis. Se faz isso, ou está mentindo para o mundo ou para si mesma.

Seu novo livro destaca como o Ocidente vai sofrer com as mudanças climáticas. Por que a sra. acha que o Oriente, especialmente a China, será menos afetado?

Principalmente porque a China tem historicamente sido a civilização mais resiliente de todas, mas também porque – e isso é um argumento central do livro – se as coisas ficarem realmente ruins, as democracias terão mais dificuldade para responder do que os regimes mais autoritários. Democracias não podem simplesmente ordenar que as pessoas se movam para outros locais. Elas não podem simplesmente confiscar recursos – medidas que podem ser necessárias em casos de catástrofes naturais que levem a interrupção do fornecimento de comida e água, por exemplo. Mas governos autoritários fazem isso. E isso é um forte argumento de por que nós temos de agir agora em vez de esperar até que as coisas fiquem muito ruins.

No livro vocês estimam um futuro bastante pessimista, até mais dramático que os piores cenários do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Por que escolheram uma situação tão catastrófica?

Tentamos explorar como se pareceria o pior cenário, e nos baseamos em um trabalho anterior que fiz com Keynyn Brysse (historiadora da Universidade Princeton) e outros, que sugere que cientistas, no passado, subestimaram as ameaças ao planeta. Então extrapolamos aquela descoberta para sugerir que as estimativas atuais do IPCC também podem ser um pouco baixas. E, infelizmente, o nosso cenário está parecendo cada vez menos implausível.

Quais situações dão sinais de que os piores cenários podem se concretizar?

A evidência mais óbvia que dá suporte a isso vem do manto de gelo da Antártida Ocidental. Por décadas – literalmente, desde os anos 1970 -, cientistas sabem que o aquecimento global ameaça sua estabilidade, o que poderia levar a muitos metros, talvez dezenas de metros, de elevação do nível do mar. Mas quase todo mundo achava que a ameaça era pequena e muito distante. Muita gente achava que os efeitos não seriam vistos por séculos. Alguns chegaram a considerar que seriam essencialmente hipotéticos. Agora nós descobrimos, em um estudo científico publicado no ano passado, que cientistas encontraram evidências de que a Antártida já começou a se desestabilizar e que seu rompimento pode, na verdade, ser uma coisa certa (apesar de o tempo para isso acontecer continue incerto). Quando esse estudo foi publicado, eu pensei: meu Deus! Nós achamos que pudéssemos estar exagerando em nossa história, mas parece que o nosso “exagero”, no final das contas, não foi exagerado coisa nenhuma.

‘Fábricas de metano’: Amazônia apodrece em lagos de novas hidrelétricas

[TEXTO ORIGINAL]

A hidrelétrica de Teles Pires deve começar a gerar energia com árvores apodrecendo dentro do seu reservatório, construído na divisa entre o Mato Grosso e o Pará, na floresta Amazônica. Boiando sobre o lago criado pela usina, o entulho pode ser visto de longe. São galhos, lenhas e toras de madeira, entre elas castanheiras e árvores de mogno. O apodrecimento dessa vegetação deve levar à morte de peixes e ao aumento da emissão do gás metano, pelo menos vinte vezes mais nocivo ao efeito estufa do que o gás carbônico. Impacto desastroso para um empreendimento que se apresenta como “fonte [de energia] limpa, renovável e ambientalmente correta.”

As fotos publicadas nesta reportagem revelam que a usina não cumpriu uma regra obrigatória para o seu funcionamento: a retirada das árvores da área a ser alagada conforme previsto no seu Plano de Desmatamento. Além da geração de metano, outra consequência é o desperdício de madeira. Oito pátios com toras foram alagados pelo reservatório da usina, e a madeira que deveria ter sido vendida ou utilizada na obra acabou apodrecendo no rio. A companhia também manteve árvores onde deveria ter desmatado totalmente, como as margens do rio Paranaíta. Além disso, a usina não retirou a vegetação necessária nas ilhas e na beira do rio Teles Pires.

Leia também: Conflito de interesses leva a falhas e omissões em estudos de impacto ambiental de hidrelétricas brasileiras

A responsável direta pela barbeiragem ambiental é a Companhia Hidrelétrica Teles Pires, consórcio formado pelas empresas Neoenergia (50,1%), Eletrobras Furnas (24,5%), Eletrobras Eletrosul (24,5%) e Odebrecht (0,9%). A usina faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal. Como órgão fiscalizador, o Ibama deveria ter detectado o problema, mas os técnicos chegaram tarde.

O Ibama só constatou que o plano não tinha sido cumprido em fevereiro de 2015, quase três meses após autorizar o funcionamento da hidrelétrica em novembro de 2014. Segundo relatório assinado por técnicos do órgão, “as atividades de limpeza da bacia de acumulação foram realizadas de forma pouco criteriosa e até mesmo negligente.”

Antes da fiscalização do Ibama, os erros da usina já haviam sido diagnosticados pelo Instituto Centro de Vida, organização que monitora os impactos de Teles Pires. O instituto revelou que a usina não havia retirado nem metade da vegetação do local em outubro do ano passado, há menos de um mês dela receber a autorização para encher o reservatório. Desta forma, 6,2 mil hectares devem ter sido alagados com vegetação – mais de mil hectares acima do que deveria ter sido retirado pela empresa, segundo o seu Plano de Desmatamento. (Clique aqui para baixar o mapa elaborado pelo ICV).

Questionada pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa da Companhia Hidrelétrica Teles Pires respondeu que está tomando as “providências adicionais necessárias ou requisitadas pelos órgãos ambientais, incluindo a limpeza do reservatório.” (Leia a íntegra das respostas da usina). Questionado sobre a demora na fiscalização, o Ibama afirmou que elas foram feitas dentro do tempo “usual”. (Leia a íntegra da reposta do Ibama)

Madeira jogada fora

Os erros cometidos pelo consórcio não afetarão só a vida no rio e o aquecimento global, mas também a floresta Amazônica e a economia da região. Isso porque a madeira que boia sobre o lago deveria ter sido explorada por serrarias certificadas e vendida legalmente, diminuindo a demanda pela derrubada de mais árvores. Com o desperdício, a madeira necessária na região, inclusive nas obras da usina, terá que sair de outro lugar.

Região de expansão da soja, o norte do Mato Grosso está entre os locais com mais desmatamento no país. O município onde fica a maior parte do lago, Paranaíta (MT), está na chamada “lista negra” do Ministério do Meio Ambiente, o ranking das cidades que mais desmatam. Por isso, a população da cidade sofre restrições de acesso a algumas políticas públicas, como o crédito a produtores rurais.

Em e-mail à reportagem, o consórcio de Teles Pires alega ainda que “realocou e removeu” as toras de valor comercial que estavam nos pátios alagados. Questionada, a empresa não respondeu as perguntas sobre como esta madeira foi comercializada.

Ibama

Em 2012, a usina de Santo Antônio cometeu o mesmo erro: a vegetação do rio Madeira não foi retirada da área alagada

Mesmo que seguido à risca, o Plano de Desmatamento da usina não teria sido suficiente para conter os impactos ao meio ambiente. Este plano, que é elaborado pelo consórcio e aprovado pelo Ibama, estabeleceu que apenas 58% da vegetação deveria ser retirada dos 10,7 mil hectares alagados. Segundo especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, o percentual contrasta com o plano de outras hidrelétricas licenciadas recentemente que fixam como meta a retirada total da vegetação.

“Não há rigor científico nos 58%. O Ibama discutiu diferentes cenários com o empreendedor, e chegaram ao que era mais econômico para a empresa,” diz Brent Millikan, diretor do programa para a Amazônia da International Rivers, ONG que acompanha o impacto de hidrelétricas em todo mundo. “Não há um processo aberto de debate com a comunidade científica, é um processo entre o Ibama e a empresa. E o Ibama não está imune a pressões políticas.”

Não foram só os cientistas que não foram ouvidos sobre os detalhes do plano ambiental da hidrelétrica, mas também a população local afetada pela obra. “A discussão chegou ao local na hora em que já estava pronto, ninguém sabia de nada [sobre como seria o desmatamento],” diz João Andrade, coordenador do Programa Governança Florestal do Instituto Centro de Vida.

Usina de metano

A principal consequência da série de erros cometidos pela usina será o aumento da emissão de metano. O gás é gerado quando uma substância orgânica se decompõe sem oxigênio, como no fundo do reservatório da hidrelétrica. Desta forma, as folhas, galhos e árvores deixados na área alagada vão se decompor e emitirão o gás metano em abundância.

Este fenômeno é estudado de perto no Brasil pelo biólogo Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ele chama as hidrelétricas em países tropicais de “fábricas de metano”, já que emitem o gás de forma constante ao longo dos anos. O problema é comum a todas as hidrelétricas no Brasil, mas foi agravado em Teles Pires devido à grande quantidade de árvores e entulhos deixados no reservatório.

Fearnside chama a atenção para outra fonte de metano em Teles Pires: o mato que cresce em locais abandonados, conhecido como juquira. Como a maior parte da vegetação do reservatório foi retirada seis meses antes do seu enchimento, a juquira cresceu nos locais de onde saíram as árvores. Inundada, a vegetação baixa se transformará toda em metano.

O mesmo problema vai se repetir devido ao ciclo natural de seca e cheia dos rios. A vegetação das margens do reservatório não está adaptada a ficar abaixo da água em parte do ano. Assim, ela vai apodrecer e gerar o gás tóxico anualmente. “Toda vez que rebaixar o nível da água, vai se expor um lamaçal em volta do lago. Ali crescem ervas e gramíneas, e tudo aquilo morre quando a água vem. A vegetação fica no fundo, onde não tem oxigênio, e isso vira metano,” explica Fearnside. A hidrelétrica não respondeu à reportagem sobre a emissão do gás tóxico.

Histórico repetido

Teles Pires não será a primeira hidrelétrica a virar uma “fábrica de metano”. O mesmo problema foi flagrado na construção da usina de Santo Antônio, em Rondônia.  As imagens abaixo foram registradas em fevereiro de 2012, quando o reservatório começava a ser alagado.

“Todo mundo sabia que isso estava acontecendo, bastava andar de barco pelos lagos. O problema é que o Ibama não fiscaliza”, diz Artur Moret, físico da Universidade Federal de Rondônia. “A empresa só retira a madeira que tem valor de mercado. Se não tem valor, eles deixam lá mesmo”. Segundo Moret, esse é um problema geral na construção de hidrelétricas no Brasil.

Construída há 25 anos, a usina de Balbina é o maior exemplo do problema. Ao norte de Manaus, foi alagada com a maior parte das árvores em pé dentro do lago. Quinze anos após ser construída, em 2005, a usina emitia dez vezes mais metano do que geraria uma termoelétrica movida a carvão com o mesmo potencial energético, segundo estudo do Inpa. O desastre de Balbina não deve acontecer na mesma escala por que a área do reservatório de Teles Pires é menor e suas turbinas são mais eficientes, e desta forma a água fica menos retida no local.

A nova usina, porém, já gera problemas ambientais antes mesmo de suas cinco turbinas funcionarem. A geração de energia está atrasada em mais de seis meses por que a linha de transmissão que vai ligá-la ao Sistema Interligado Nacional ainda não está pronta. O Ministério de Minas e Energia e a usina não souberam informar quando o problema estará solucionado. Hoje, Teles Pires é uma hidrelétrica que não gera energia, apenas gás metano.