TECNOLOGIA RUDIMENTAR

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“Nós estamos falando de uma empresa que é composta por duas grandes gigantes da mineração mundial. São as empresas mais avançadas em termos de mineração, que é a Vale e a Billiton. As duas são as donas da Samarco. São empresas que são detentoras de altíssima tecnologia: são as maiores gigantes da mineração no mundo. A pergunta é: por que continuam usando tecnologia rudimentar e precária aqui no Brasil, em Minas Gerais?” 

A fala é de Andréa Zhouri entrevistada hoje por Érica Toledo, para o programa Opinião Minas.

Vale ver o que ela diz sobre a absurda tragédia de Mariana, sobre a mineração (“Isso é extração bruta de pedra, de minério, pra exportar para a China! (…) Mineração é atividade de país subdesenvolvido, subserviente”), o sucateamento dos órgãos ambientais e a falta de respeito dos governantes por tod@s nós. Como ela diz, “a sociedade está nas ruas. O que falta para as autoridades ouvirem a sociedade?”. Vale assistir e refletir.

OS ESQUECIDOS

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Paracatu de Baixo (Mariana) – No dia em que a zona quente da crise deflagrada pelo rompimento de barragens da Samarco foi transferida para Governador Valadares, que teve visita presidencial, anúncio de multa de R$ 250 milhões para a mineradora, batalha por água e protestos na linha da ferrovia Vitória a Minas, a situação em um dos povoados mais atingidos em Mariana denuncia o abandono de moradores afetados pelos primeiros impactos da onda de lama liberada pela tragédia. Durante um dia e uma noite, a equipe do Estado de Minas testemunhou a situação da comunidade de Paracatu de Baixo, onde, em vez de bombeiros e agentes da Defesa Civil, moradores se arriscam sozinhos em construções condenadas e improvisam passarelas atirando pedaços de pau sobre uma camada de lama e minério que varia da altura dos joelhos à do queixo de um adulto.

Sem ninguém para avaliar a solidez das casas, 80% delas destruídas pela avalanche, entram nas moradias trincadas e até sem partes das paredes para resgatar móveis, objetos de valor, utensílios domésticos, documentos e recordações de família que foram poupados da onda de rejeitos. Enquanto um vasto número de equipes atua em Bento Rodrigues, o povoado de Mariana que foi mais destruído pela avalanche de rejeitos, no dia 5, Paracatu de Baixo, a segunda comunidade mais afetada do município da Região Central, só conta com o apoio dos próprios habitantes, que não aceitaram uma remoção para Mariana, nas buscas pelo que sobrou do desastre.

Do total de uma centena de casas, restaram intactas duas dezenas. E é dessas habitações no alto da comunidade, com a luz fraca do fim da madrugada ofuscando a iluminação de postes, que surgem os primeiros a despertar em Paracatu de Baixo. São os vaqueiros, trazendo cordas, baldes de alumínio e banquinhos nas mãos. Os melhores pastos, que ficavam nas várzeas do Rio Gualaxo do Norte, foram varridos pela lama que seguiu pela calha do curso d’água e obrigou que tocassem o gado para os morros. Em um desses altos é que Livaldo Marcelino, de 37 anos, improvisou um curral para tirar leite de sete vacas. “Foi uma corrida desesperada, com a lama subindo depressa atrás da gente – e eu ainda tenho um joelho quebrado. Por causa desse aperto todo, as vacas estão estressadas, arredias. Como não deu tempo de apartar todos os bezerros, eles estão mamando à vontade. Só consigo tirar metade dos 40 litros que conseguia antes”, lamenta o vaqueiro.

Durante o dia, o movimento no distrito é intenso. O ruído dos tratores e caminhões de sucção de prestadoras de serviço da Samarco ecoa pelos quarteirões ainda tomados por lama e água barrenta, enquanto tentam desimpedir a avenida principal. Fileiras de desabrigados passam se espremendo pelas trilhas íngremes batidas de gado nas colinas que beiram a lama ou dentro do próprio terreno movediço. “Minha casa ficava no meio do lote e as dos meus filhos, em volta. Estão todas debaixo do minério. Estamos dormindo em Mariana e de dia a gente vai e volta uma 20 vezes, para carregar o que pode ser salvo. Como sou da folia de reis, estou mais preocupado com os nossos instrumentos. Por enquanto só salvei uma sanfona e uma bandeira”, conta o lavrador José Patrocínio de Oliveira, de 85.

As cercas de arame das propriedades se tornaram varais para secar roupas, equipamentos eletrônicos, elétricos e até uma bíblia. No amontoado que foi arrancado das casas e misturado pelo lamaçal se encontra de tudo: camas, geladeiras, televisores, bonecas, bicicletas, roupas, cosméticos, tacos de sinuca e livros. Engradados de cerveja entupidos de barro são empilhados perto das portas dos cinco bares que funcionavam no povoado, agora arrasados, antes famosos por fritar os melhores pastéis da região.

Os lavradores José Horta, de 50, e Raimundo Gonçalves, de 48, enfrentaram as rachaduras nas casas para recuperar pelo menos suas ferramentas de trabalho. Mas, mesmo quando conseguiram vencer a lama, improvisando passarelas com pedaços de pau, a decepção foi grande. “Desenterrei a motosserra e a moto. Mas nenhuma das duas funciona mais. Estou sem saber como fazer, porque eram meu ganha pão. Como vou conseguir serviço e ter dinheiro para minha família comer?”, indagava José Horta.

Sidney Lopes/EM/D.A Press


MATILHAS FAMINTAS
Às 19h, as máquinas da Samarco se silenciam e as vans levam para Mariana os trabalhadores e a maioria dos moradores de Paracatu de Baixo. A escuridão acentua a sensação de deserto em ruas e casas vazias. Logo os uivos de cães abandonados ecoam de todas as partes. Bandos desses animais famintos perambulam entre as ruínas sobre o lamaçal. Qualquer um que porventura trombe com a matilha é logo cercado e farejado pelos animais de rabos inquietos, sedentos por atenção.

Luzes de lamparinas e velas avistadas por entre as casas mais altas levam à dona de casa Maria de Oliveira, de 76, que vagava pela vizinhança com filhos e parentes procurando os poucos que, como ela, resistem. “Daqui, só saio morta. No dia da lama, quando me levaram para Mariana, passei a noite sem dormir, sem comer, só esperando a manhã para voltar. Comprei querosene e velas para ter luz, trouxe água e comida (doados). Agora, não saio mais”, disse. Um dos filhos dela, Pedro de Oliveira, de 26, conta que o medo de que outra barragem se rompa ressurge a cada chuva. “A gente mal dorme. Fiquei com a tragédia na cabeça. Ainda me lembro do rio sendo tomado, da lama vindo e de todo mundo correndo para o alto. As crianças choravam, as mulheres berravam, os velhos pediam socorro. Teve até quem dormisse no cemitério”, conta ele, que diz se sentir abandonado por autoridades e até por quem se dispõe a ajudar. “Estamos esquecidos”, resume.

Vídeo mostra situação de Paracatu de Baixo

TRAUMAS

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  • Bombeiro resgata cadela de dentro da lama em Paracatu de Baixo, em Mariana (MG)

    Bombeiro resgata cadela de dentro da lama em Paracatu de Baixo, em Mariana (MG)

Além de toda a tragédia humana e ambiental causada pelo rompimento das barragens da Samarco em Mariana (MG), há também um drama que foi notado pelos bombeiros que trabalham no resgate dos desaparecidos: os animais.

Os cães que viviam nas casas que foram destruídas no distrito de Bento Rodrigues se recusam a deixar o local e avançam em quem tenta tirá-los dali. Vários outros bichos como cavalos, patos e vacas têm sido resgatados, apresentando tremores, hipotermia e certa agressividade.

Para a doutora Ceres Berger Faraco, professora do curso de medicina veterinária da Uniritter e presidente da Associação Médico Veterinária Brasileira de Bem-Estar Animal, os cachorros também ficam em luto e, assim como os humanos, após uma tragédia, sentem estresse pós-traumático.

Felipe Dana/AP

Moradores carregam cachorro ferido resgatado da lama em Bento Rodrigues, em Mariana (MG)

“As pessoas que os cães confiavam não estão mais ali. Muitos deles se perderam das pessoas. Eles estão inseguros e amedrontados. Isso é uma espécie de estresse pós-traumático. Houve uma mudança abrupta da rotina deles”, afirmou.

Leo Fontes/O Tempo/Estadão Conteúdo

Cão é resgatado em área devastada pela enxurrada causada pelo rompimento das barragens da mineradora Samarco

A bióloga especialista em comportamento animal e fundadora da Ethos Animal, Helena Truksa, concorda com esta explicação. Para ela, os cães ficam completamente sem saber o que fazer em um cenário de destruição como o de Mariana (MG).

“Suas casas foram destruídas, sua família desapareceu ou morreu e eles se viram sozinhos em meio ao caos, sem saber ao certo como agir. Por terem perdido tudo, é normal que os cães prefiram ficar nos escombros da casa do que sair e se aventurar em um mundo desconhecido”, afirmou.

Segundo Faraco, os cães não são naturalmente agressivos. Esses episódios ocorrem quando os animais sentem muito medo. Assim como as pessoas, os cachorros também sentiram a tragédia e perceberam que os vínculos que tinham com as pessoas e outros bichos se perderam.

“É claro que o cachorro não sabe qual é o motivo que causou seu estresse, mas ele percebe a mudança total de seu ambiente. Para se sentir seguro e tranquilo, o animal tem de ter um controle daquelas condições que fazem sua rotina”, explicou.

Douglas Magno/AFP

Bombeiro resgata uma cadela de dentro da lama em Paracatu de Baixo, distrito de Mariana (MG)

Se não forem tratados, os animais podem ficar com traumas permanentes. Segundo a professora, há relatos de cães que passaram anos esperando a volta do dono que já havia morrido.

Leo Fontes/O Tempo/Estadão Conteúdo

Cão cheio de lama foi resgatado de área atingida pela enxurrada causada pelo rompimento das barragens

“Os cachorros esperam e sofrem de luto como a gente. A questão do estresse e da perda do ambiente é uma situação de luto. Eles ficam instáveis como nós”, contou.

Para Truksa, os cães podem, inclusive, ter lembrança do momento mais estressante que passaram ao perderem a casa e os donos.

“Caso o cachorro vivencie alguma outra situação semelhante, nem precisaria ser no mesmo nível desta, poderia ser bem menos intensa, ou até mesmo a simples visão ou cheiro de algum detalhe que o cão tenha visto no dia, pode fazê-lo se lembrar instantaneamente do dia da tragédia, futuramente, se lembrará da experiência nociva e apresentará medo acentuado”, contou.

“Os sintomas do estresse são respiração ofegante, aumento da frequência cardíaca e liberação de hormônios relacionados ao estresse na corrente sanguínea [cortisol]. A longo prazo, se não tratado, o trauma instalado pode se acentuar e comprometer a saúde do animal”, completou.

Douglas Magno/AFP

Pato coberto de lama é encontrado em meio a escombros em Paracatu de Baixo, subdistrito de Mariana (MG)

Há também de se levar em conta que cachorros são bichos extremamente apegados ao território e, por isso, geralmente são mais resistentes em deixar o local onde costumam viver. Em Bento Rodrigues, alguns bombeiros tentaram resgatar os cães que insistem em viver no meio da lama e dos escombros. No entanto, por causa da agressividade, a equipe de resgate desistiu e agora apenas alimenta os animais.

Para Faraco, após esse primeiro período de resgate das pessoas, é preciso repensar uma estratégia para tirar os cães que insistem em permanecer por ali.

“Existem pessoas treinadas para resgatar animais em acidentes. Os animais necessitam de um tempo de aproximação para conseguir a confiança “, afirmou.

Ricardo Moraes/Reuters

Integrante de equipe de resgate acaricia cavalo enquanto tenta resgatá-lo da lama no subdistrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG)

Já Truksa defende que os cães sejam retirados dos escombros de maneira rápida, com cuidado e supervisão de um veterinário.

“A operação precisa ser efetuada com agilidade, dada a situação emergencial, e em se tratando de animais que podem oferecer risco à integridade física das pessoas, pode-se buscar auxílio de um veterinário que aplicará ou autorizará o uso de sedativos leves para minimizar o estresse da captura dos animais e evitar possíveis lesões aos profissionais que efetuarão o resgate”, afirmou.

Moacyr Lopes Junior/Folhapress

Moradores tentam tirar uma vaca de dentro da lama que atingiu Barra Longa (MG), após o rompimento de barragens

O QUE ESTÁ EM SEGUNDO PLANO

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Mariana

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A barragem que rompeu histórias

“Era 11h35, eu cheguei na varanda e disse: meu Deus eu to sonhando. Dava pra ouvir as pessoas gritar. Eu pensei que ia morrer. Passei a noite toda acordada vigiando!”, são as palavras de Dona Maria, conhecida como Zoca, na comunidade de Gesteira, um dos distritos atingidos pelo rompimento das barragem de Fundão e Santarém, da Mineradora Samarco.

Zoca, 73 anos, foi precisa no horário porque foi neste exato momento, no dia 5 de novembro, que sua história foi rompida por um mar de lama que levou embora tudo o que conquistou na vida junto com seu marido, Zé Carlos, 77 anos. Ele busca esperança na expectativa de que a empresa irá restituir tudo o que ele perdeu, e lamenta: “perdi tudo o que tinha. Nem sei o que vai ser. Nossa maior renda era isso, tão cedo eu não posso mexer nesse trem. Minha pá, enxada, tudo o que eu tinha para trabalhar estava no rancho”, diz, apontando para a fazenda soterrada.

O povoado de Gesteira fica a cerca 60 km das barragens que se romperam, e não foi avisado, segundo os moradores, pela Samarco, sobre o ocorrido. Se não fora os familiares que moram em Mariana (MG) ligar e, a partir daí, a notícia se espalhar, a chance de todos morrerem seria enorme.

Os moradores da região, inclusive os das fazendas que seguem o Rio Gualacho, que corta as comunidades, e antecedem Gesteira, afirmam que somente os distritos de Bento Rodrigues e Paracatu foram informados pela empresa a respeito do rompimento. Mesmo assim, o contato não foi suficiente,  muitas pessoas dessas duas regiões afirmam não terem recebido nenhum aviso, segundo o jornal El País.

O caminho para as comunidades isoladas

Para chegar às comunidades de Gesteira, Cidreira e Mandioca, acompanhei, durante dois dias, os Bombeiros Civis de Minas Gerais e os jipeiros e socorristas voluntários da Cruz Vermelha, que, inclusive, não mediram esforços para ajudar às vitimas da tragédia.

O único acesso a Mandioca e a Cidreira era a pé pelas montanhas e pastos que cercam a região, ou aéreo, no caso, para resgates e entrega de água e alimentos. Foram aproximadamente 12 horas de caminhada para chegar às famílias e listar suas necessidades emergenciais.

Famílias de Cidreira e Mandioca

Dirceu da Luz, 72 anos, perdeu tudo. O que restou foi a roupa do corpo e angústia de ver uma vida inteira arruinada em instantes. Tudo foi adquirido ao lado da esposa, Geralda da Luz, 67 anos. E ao lado dela viu tudo se arrastar. “Tinha umas coisinhas de pobre, mas era nossa, né! Pra nós que é da roça as coisas são mais difíceis. A gente pensa em recuperar de novo as coisas que a gente perdeu, mas não sei como. Nossa idade não permite trabalhar mais, a gente não aguenta!”, conta Geralda.

O casal, que mora em Mandioca, terminou de pagar a última prestação do guarda roupa, com o dinheiro da aposentadoria, no início desse mês. O fogão novo que compraram não existe mais, foi arrastado na mesma semana que pagaram a primeira parcela, conta Mônica, filha do casal. Minha mãe comprou o fogão dos sonhos, tadinha! Tinha divido em 10 vezes, foi embora!”.

Dirceu venceu um câncer no intestino há 4 anos e, segundo a esposa, o tratamento lhe rendeu a perda da visão de um dos olhos, e frisa: “o colírio é muito caro!”. Já velho, seu corpo o trai. “Quando ele cisma trabalhar, ele sofre muito com dor”, conta a companheira. Enquanto isso, “resta esperar”.

Adão e Francisca Gonçalves são casados e moram em Cidreira. Assim como o vizinho Dirceu, perderam tudo. Da casa, sobraram apenas alguns detalhes que a lama não cobriu.

Pelo quintal, animais mortos já causam mal cheiro. Entre eles, o fusca azul da família que foi arrastado com a força do barro. “Nosso carrinho era tudo pra nós. Temos um filho doente, ele tá em Mariana, e o carro a gente usava toda semana pra levá-lo ao ponto e buscar”, lamenta, Adão. Das suas convicções após a tragédia, uma delas ele insiste em dizer: “o próprio homem que fez isso com nós, por causa da ganância por dinheiro!”.

Maria da Penha de Castro, 55 anos, mora no Sítio do Moinho, o lugar fica às margens do Rio Gualacho. Ela ficou sabendo do que estava por vir por familiares e amigos, às 15h. “Como pediram pra não ficarmos em casa, ficamos lá no meio do pasto. Ouvíamos a zueira a horas”, conta, se lembrando de que já se tinha dimensão do que viria antes mesmo de chegar. Abaixo, o depoimento de sua filha, Angélica Souza:

Zilmar Marcelo Cota e Vitor José Cota moram em Cidreira, são irmãos e produtores rurais. Zilmar perdeu tudo que tinha. Vitor, as pastagens e plantações e, devido à falta de luz e acesso fácil a sua fazenda, tem sido obrigado a jogar, diariamente, 200 litros de leite fora.

Outros depoimentos podem ser assistidos aqui.

Dei lugar aos vídeos neste post porque entendo que eu jamais conseguiria expressar a dor e a realidade de cada um dos entrevistados. Entre as vítimas, o que se guarda, acima de tudo, é o agradecimento pela vida, mas isso deixo para um deles dizer. Com a palavra, Antônio Marcos:

ANTES

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Paulo Filgueiras/EM/D.A Press

O rompimento de uma barragem de rejeitos em Mariana, nesta quinta-feira, é mais um acidente em uma trágica história de desastres deste tipo em Minas Gerais. Nós ultimos anos, foram muitos os eventos com danos ambientais sérios e mortes no estado.

O mais recente foi no dia 10 de setembro de 2014, quando o talude da barragem B1, na Mina Retiro do Sapecado, da Herculano Mineração, se rompeu e deixou três mortos e um ferido. O acidente aconteceu quando seis funcionários trabalhavam na manutenção da barragem e foram surpreendidos pela onda de lama e rejeitos de minério.

Na época, o jornal Estado de Minas destacou um estudo da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) que indicava que mais de 40 barragens no estado não tinham garantia de estabilidade.

Antes disso, em janeiro de 2007, uma barragem com rejeitos da mineradora Rio Pomba Cataguases rompeu e inundou as cidades de Miraí e Muriaé com mais de 2 milhões de litros de lama de bauxita. Mais de 4 mil pessoas ficaram desalojadas e 1.200 casas foram atingidas. A mesma barragem já tinha causado problemas em março de 2006, quando um vazamento contaminou córregos e rios, matando centenas de peixes e interrompendo o fornecimento de água. Apesar do histórico, na época do acidente de 2007, a mineradora atribuiu a causa do acidente às chuvas fortes do começo do ano.

Pior que a tragédia ambiental de 2007, em 29 de março de 2003 uma barragem de rejeitos industriais se rompeu em Cataguases. Foi um dos piores acidentes ambientais do país: cerca de bilhão e quatrocentos milhões de litros de lixívia negra, resíduo da produção de celulose, contaminaram o Rio Paraíba do Sul e córregos próximos por 200 quilômetros, atingindo também o interior do Rio de Janeiro e deixando 600 mil pessoas sem água. Peixes, animais que viviam às margens dos rios e muito da vegetação foram devastados pelo desastre.

Mas mesmo com dimensões colossais e consequências catastróficas, o desastre de 2003 não foi lição o bastante para evitar um novo incidente em 2009 em Cataguases – dessa vez, o pior foi evitado. Para impedir o rompimento de uma barragem que despejaria de uma vez 1,4 bilhões de litros de rejeitos no Rio Paraíba do Sul, foram liberados lentamente resíduos sem tratamentos no corpo d’água, uma operação que durou até agosto de 2012.

Em 2001, cinco pessoas morreram em um acidente grave em Macacos (São Sebastião das Águas Claras, distrito de Nova Lima). Lama e resíduos de mineração encobriram dois quilômetros de uma estrada, após o rompimento de uma barragem da mineradora Rio Verde (hoje Vale). O acidente também causou assoreamento, degradação de cursos hídricos e destruição de mata ciliar.

O registro mais antigo deste tipo de acidente em Minas Gerais foi em Itabirito: sete pessoas morreram no rompimento da barragem de rejeitos da Mina de Fernandinho, do grupo Itaminas. É, por enquanto, o maior número de mortes diretamente causadas por esse tipo de acidente.

SOBRE TRABALHAR NO FUTURO

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Enquanto era escrito o texto que você lê agora, surgiam na linha do tempo das redes sociais fotografias tingidas de vermelho: registros da tradicional Tomatina, a festa do tomate na Espanha. A “guerra” ocupa as ruas da cidade de Buñol uma vez por ano, sempre na última quarta-feira de agosto. As pessoas jogam tomate umas nas outras e depois tomam um banho ali mesmo. Parecem todas muito alegres. O fruto usado como munição é esmagado antes de ser arremessado, para não machucar ninguém, e os organizadores dizem que a variedade é cultivada especialmente para a festa. A batalha teve início há mais de setenta anos e virou atração turística da cidade valenciana.

Mesmo que os tomates sejam cenográficos, para muitos que observam a cena de fora é difícil não pensar em desperdício. Jogar comida pela janela, lavar a calçada com o esguicho de mangueira. Quem se esforça minimamente para entender o momento que vivemos sabe que algumas ações, mesmo se praticadas como exceção, parecem não ter lugar. Outras, por outro lado, são importantes e há pessoas que, incomodadas com a desconexão do homem e o meio ambiente e preocupadas com o futuro, agem a favor delas.

É verdade que muitos desses indivíduos, hoje, andam como se estivessem no mar, com a água na altura dos joelhos. É difícil, precisa de certo esforço. E não se tem notícias de grandes empresas em escancarada procura por profissionais ‘sustentavelmente engajados’, sobretudo em tempos de crise. Há os que conseguem trabalho em ONGs de causas socioambientais, instituições que lidam com políticas públicas, educação (é importante ensinar para mudar), escritórios de arquitetura e urbanismo ou de novo aquelas que de um jeito autônomo, mas integrado à vizinhança, começam a plantar para consumir e até vender para restaurantes, escolas e consumo doméstico. Quem tem conhecimento de sustentabilidade, porém, vai ser cada vez mais requisitado e valorizado, porque os problemas relacionados à água, aquecimento global e diversas mudanças no clima são reais e temos de lidar com eles – sua compreensão no planejamento das cidades é fundamental para prevenir e mitigar os riscos.

Os que acham que um texto sobre profissão do futuro só faz sentido se falar de emprego e dinheiro no bolso, trazendo respostas bem objetivas (o que vou estudar, aonde vou trabalhar e quanto eu vou ganhar), provavelmente já desistiram há alguns parágrafos. Aos que ficam: escolhemos encerrar esta série de treze reportagens com uma reflexão de formação social, comportamento e atitude.

Decidimos usar como fio condutor a agricultura urbana, porque é urgente nas cidades a ação de pessoas sintonizadas com o meio ambiente e seus processos naturais e sociais. A produção agrícola pequena, perto dos centros urbanos – ou dentro deles – é uma coisa boa. “A profissão do agricultor voltado à agroecologia vai crescer cada vez mais, porque na agricultura convencional você pega a sementinha da empresa X, com o adubo da empresa Y e o defensivo químico da empresa Z e teoricamente vai produzir seu alimento cheio de veneno. Mas vai causar sérios danos à saúde de quem aplica e de quem consome e vai acabar destruindo e degenerando cada vez mais a terra. Nesse sistema é muito simples de plantar. Já o agricultor que leva em conta o cuidado com a terra e o meio ambiente precisa ter um conhecimento muito grande de como fazer o adubo, a compostagem, e as pragas acabam sendo um indicador do que está faltando na horta e tem de desenvolver tecnologias sociais para combater sem usar química”, diz o consultor e coordenador de projetos de sustentabilidade Samuel Gabanyi. “Os engenheiros agrônomos vão ajudar na conversão de uma agricultura convencional para a orgânica e melhorar a produtividade. Depois, provavelmente, virão os urbanistas. As pessoas que planejam a cidade hoje não têm na cabeça a importância da agricultura urbana e você vai precisar cada vez mais dela.”

Por que a agricultura urbana é importante? – Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local. Além de diminuir as distâncias, evita desperdício (consumo consciente), gera menos poluição (menos transporte) e lixo (embalagens especiais) e contribui para a qualidade de vida. O agricultor vive melhor sem o uso agrotóxicos. O consumidor se alimenta melhor com orgânicos e locais e o meio ambiente tende a ficar mais confortável. A biodiversidade agradece e, ao redor das hortas, as pessoas se encontram e convivem e colocam energia em um projeto cheio de significado. E tem mais: elas colocam a mão na terra, plantam, entendem e acompanham de perto o ciclo produtivo. Há benefícios sociais enormes em torno do engajamento e da atividade.

“Praticar agricultura urbana é produzir alimentos dentro da cidade. Frutas, legumes, verduras, hortaliças e animais. Ao comprar diretamente do produtor, sem intermediários, o produtor recebe mais dinheiro e o comprador paga mais barato. Não tem necessidade de transporte poluidor de longa distância nem de nenhuma embalagem complexa”, diz Gabanyi. “Além disso, o alimento é fresco e de verdade, orgânico, não é comida de caixinha cheia de ingredientes que, quando você lê, não entende o que está escrito. O alimento que vem de longe perde nutrientes até chegar na sua mesa. A agricultura urbana, seja na pequena horta comunitária, seja em espaços maiores, promove a regeneração da biodiversidade, superimportante para os ciclos da natureza. Ela atrai borboletas, besouros, joaninhas, abelhas. E também ajuda a diminuir as ilhas de calor na cidade. Com o aumento das áreas verdes, a temperatura fica mais agradável, o ar mais limpo, visualmente mais bonito, a horta vira espaço de lazer e conforto.”

Gabanyi tem 33 anos, formou-se em administração pública e fez o primeiro estágio na ONG Banco de Alimentos, que arrecada produtos bons para o consumo e que seriam jogados fora e os entrega em creches, asilos, instituições de caridade, orfanatos. “Foi um choque de realidade quando eu comecei a conhecer muito a periferia da cidade e todos os dias vendo pessoas que passam fome e eu sempre tinha um prato de comida na minha frente. Acho que isso me cativou bastante. Comecei a ver que tinha alguma coisa errada nessa lógica: como tem gente jogando alimento no lixo, se tem quem precisa dele? A partir disso já são quinze anos trabalhando com projetos na área social ou na área ambiental e com a certeza de que a gente precisa agir em conjunto com o meio ambiente e não como soberano dele.”

Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local

Produzir e comprar localmente significa aproximar produtores e consumidores e fazer girar a economia local Foto: Reprodução

No meio do caminho, Gabanyi, que já frequentava horta comunitária e cultivava em casa, entrou para a formação do MudaSP, organização sem fins lucrativos voltada para a agroecologia em espaços urbanos. “Cada pessoa tem, por enquanto, um outro emprego e é voluntário na organização. Atualmente, cerca de quarenta participantes têm alguma ligação com o movimento. Desses, catorze formam o grupo gestor, cuidando do planejamento e da gestão de projetos no dia a dia. Tem arquiteto, biólogo, administrador, gestor ambiental, permacultor e pessoas de marketing, comunicação, jornalismo e design. Não temos gastos, não há despesa fixa.”

Por onde começar e o que fazer – As hortas comunitárias são um ponto de partida para projetos de agricultura urbana e relacionamentos mais saudáveis com os espaços públicos. Além disso, cada profissional pode direcionar as atividades, em sua própria área de atuação, nesse sentido. Ao erguer um prédio, o arquiteto e o engenheiro vão pensar em um pomar vertical, no uso da ventilação cruzada para promover mais conforto térmico e usar menos o ar condicionado, na luz natural e nos telhados. “A quantidade de telhado que temos em São Paulo para fazer hortas é enorme. São metros e metros quadrados de área que podem ser plantados. Os próprios urbanistas, as pessoas que fazem o planejamento da cidade têm que começar a levar isso cada vez mais em questão, aumentar o número de áreas verdes, porque cidades mais sadias têm população mais saudável. A indústria têm de entender seus impactos ambientais e a própria população têm de incorporar os conceitos de sustentabilidade”, diz Gabanyi.

Educar para a sustentabilidade – Levar hortas e educação ambiental para as escolas é outro gesto fundamental para promover a agricultura urbana. E surge como área de atuação importante. A dificuldade é conseguir apoio para essas ações. “O paulistano está muito desconexo não só dos ciclos da natureza, mas da questão do alimento. Como é o plantio, o preparo, de onde vem, para onde vai, qual é o impacto disso. Ele chega, come, joga fora e vai embora”, avalia Gabanyi. “Hoje em dia, ainda se fala em profissional da área de sustentabilidade como uma função específica. O certo seria que todos os profissionais de todas as áreas tivessem conhecimento de sustentabilidade. A primeira área da empresa que sofre cortes é essa. Não é prioridade, sobretudo na crise. Enquanto todas as profissões não incorporarem essa questão de sustentabilidade, a necessidade de levar em conta o meio ambiente e seus processos naturais e o lado social, estamos fadados ao caos. A mudança acontece quando a sustentabilidade estiver incorporada em tudo.”

SOBRE O SOL

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energia-solar-sol

O sol foi privatizado na Espanha: se autoridades espanholas surpreenderem algum cidadão espanhol instalando placas de luz solar para consumo próprio poderão aplicar-lhe multa de até 30 milhões de euros.

Na Espanha, as companhias de eletricidade morrem de medo de uma desestabilização do consumo de energia elétrica. Cometer o sacrilégio de se tornar independente, energeticamente falando, pode custar muito caro.

O sol agora é só para poucos privilegiados como ex-presidentes e ex-ministros, os quais são conselheiros oficiais destas empresas captadoras de luz solar.

A União Espanhola Fotovoltaica (UNEF), que agrupa 300 empresas e representa 85% do setor, assegura que se alguém resolve implantar receptores de luz do sol isso sairia mais caro do que recorrer ao consumo convencional.

Porém, na Espanha, o sol foi privatizado sem a consulta aos seus cidadãos, ao sistema solar ou ao universo etc… A posibilidade de produzir tua própria eletricidade utilizando recursos renováveis — placas solares ou pequenos moinhos eólicos instalados en uma propiedade privada — é algo muito atrativo para os lares espanhóis.

“De cada 50 chamadas telefónicas ao mês, 35 são de particulares interessados no auto-consumo”, assegura Francesc Mateu, gerente da Sol Gironés, empresa especializada en energia renovável e pioneira neste setor.

O Governo espanhol se propôs implantar o auto-consumo energético pouco a pouco sem que se altere o sistema elétrico vigente. Para isso se reserva o direito de elevar e baixar as taxas, ou “pedágios” (pedágios?) específicos, que denominam “de respaldo”, conforme  o setor evoluir. “Nós vamos implantar um “pedágio” para a energia recebida do sol”, resume Mario Sorinas da empresa Electrobin, com mais de 20 anos de experiência em energia solar.

A autarquia de energia é mais do que consolidada em países como os EUA ou o Japão. Muitos países europeus a têm implementado com diferentes fórmulas. “É o futuro”, dizem os especialistas em energia. Gerar sua própria eletricidade com energia renovável e dar uma pausa para o meio ambiente e o bolso.

Há também a possibilidade de transferir o excesso de energia para utilitários e recuperá-lo quando necessário ou vender diretamente, o que é conhecido como o consumo de líquido equilibrado.

Agora, na Espanha, você pode produzir energia privada e consumi-la na hora. A legislação mais recente é de 2011. Antes não era rentável. Houve uma redução de até 80% de energia fotovoltaica nos últimos cinco anos e o aumento das contas de energia elétrica tornaram-se uma opção de poupança muito interessante em tempos de crise. Quando não há sol ou vento, você tem que se envolver na rede e pagar a fatura normal.

painel-solar

Dom Gironés, por exemplo, com 14 funcionários, está se dando bem com o consumo instantâneo. “Ele está trabalhando bem, especialmente com frigoríficos de carne que dependem da armazenagem a frio, e no qual a conta de luz leva pelo menos 15% dos seus custos fixos anuais”, diz o gerente.

Com estes novos sistemas se reduz entre 20% e 30% do consumo, e até agora, não se pagam impostos de qualquer espécie para este tipo de geração de energia.

O Yacht Club Estartit, localizada em Pals (Girona), é um dos seus clientes. Eles elaboraram um plano de cinco anos para que 20% de seu consumo seja de energia renovável. Atualmente, painéis solares geram 7%. “Estamos muito perto de um parque natural com um grande impacto sobre o meio ambiente”, diz Eugeni Figa, o seu diretor. Seus planos também incluem moinhos de vento.

Na Galiza, os irmãos Dominguez detêm a liderança de energias renováveis ​​desde 1998. “Nós éramos quatro maltrapilhos”, diz Manuel. Em 2007, eles fizeram os seus próprios escritórios para o fornecimento com um painel solar.

Embora o consumo tenha projetos na Espanha, a maior parte do seu mercado está fora do país, em grandes parques do Chile, México, Roménia e Inglaterra.

A reforma energética se aqueceu enormemente em energias renováveis. “De todos os cenários possíveis, este é o pior”, fala José Donoso, presidente da Fotovoltaica União Espanhola (UNEF), que representa 85% da atividade do setor.

“Mas ainda nada específico foi aprovado para o consumo”, acrescenta ele. Donoso refere-se ao aumento da parcela fixa da conta de energia elétrica, e representará um aumento de 77% nesta seção para obter uma taxa, algo interno que os produtores nacionais não podem prescindir, e uma queda de 23% no consumo, o que reduz a auto-produção.

Com as mudanças conhecidas até agora, o tempo de retorno da energia fotovoltaica cresce consideravelmente. Se antes da reforma era necessário 12 anos para recuperar o investimento em uma instalação residencial de 2,4 quilowatts de potência agora vai exigir 23, de acordo com estimativas da UNEF.

No entanto, há sempre alguém que já trabalha olhando e percebendo tudo ao redor. Sun Gironés garante que seus clientes estão reduzindo o contrato de energia, que registrou maior aumento na conta, porque o consumo instantâneo permite que eles tenham suas necessidades energéticas cobertas. Outro de seus objetivos é fazer o consumo interno rentável.

2040

[texto original]

Daqui a apenas 25 anos, no tempo de vida da maior parte dos leitores deste texto, o Brasil poderá ter seu cotidiano e sua economia transformados – para pior – pela mudança do clima. Secas violentas impedirão o parque hidrelétrico de gerar energia para atender à população e tornarão fúteis investimentos bilionários em barragens na Amazônia. Culturas como a soja poderão ter redução de até 39% em sua área. A elevação do nível do mar deixará exposto a alto risco de destruição um patrimônio imobiliário de até R$ 124 bilhões apenas na cidade do Rio de Janeiro. Mais idosos morrerão por ondas de calor, especialmente no Norte e no Nordeste

As más notícias vêm do maior estudo já realizado sobre impactos da mudança climática no Brasil. Trata-se do “Brasil 2040 – Alternativas de Adaptação às Mudanças Climáticas”, encomendado pela Secretaria de Estudos Estratégicos da Presidência da República a diversos grupos de pesquisa do país e divulgado nesta quinta-feira (29/10), sem alarde, na página do extinto ministério na internet. O Ministério do Meio Ambiente, que herdara o estudo após a demissão de seus idealizadores pela SAE em março, se preparava para publicá-lo nos próximos dias.

O trabalho busca entender como o clima poderá variar no Brasil nos próximos 25, 55 e 85 anos, de forma a embasar políticas públicas de adaptação em cinco grandes áreas: saúde, recursos hídricos, energia, agricultura e infraestrutura (costeira e de transportes).

Os cenários para os diversos setores foram construídos a partir de dois modelos climáticos globais usados pelo IPCC, o painel do clima das Nações Unidas, e regionalizados para o Brasil pelo Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).

Esses modelos são grandes simulações da Terra, onde são incluídas variáveis como vento, oceanos e florestas. Alimentando-os com dados sobre a taxa de emissões de gases de efeito estufa, eles conseguem estimar como o clima vai variar nas próximas décadas ou séculos.

Os modelos do IPCC têm a vantagem de enxergar o planeta inteiro, porém são “míopes”: eles dividem o mundo em células de 200 km x 200 km, grandes demais para permitir investigar variações climáticas dentro de uma região geográfica menor ou um país. O que o Inpe fez foi usar dois desses modelos e aumentar sua resolução para 20 km x 20 km, dando um zoom na América do Sul. Isso permitiu montar pela primeira vez cenários detalhados de chuva e temperatura para as próximas décadas no Brasil.

Dois modelos foram utilizados: o britânico HadGEM-2 e o japonês Miroc-5. Por uma questão de personalidade matemática, por assim dizer, ambos “enxergam” o clima no futuro de jeitos diferentes: o britânico tende a apontar um mundo mais seco no futuro, enquanto o japonês vê um mundo mais chuvoso.

Cada modelo, por sua vez, foi rodado em dois cenários de emissão de gases de efeito estufa do IPCC, as chamadas “trajetórias representativas de concentração”: o RCP 8,5, que assume que a humanidade não fará nada para controlar as emissões de CO2; e o RCP 4,5, que assume esforços limitados de controle de emissões, mas ainda fora da trajetória dos 2oC considerados o limite máximo “seguro” de aquecimento.

O que a modelagem revelou foi que, em todos os cenários, o Brasil de 2040 será um país mais quente e mais seco. As temperaturas médias nos meses mais quentes do ano podem subir até 3oC em relação às médias atuais no Centro-Oeste. A região Sul tende a ficar mais chuvosa, enquanto o Sudeste, o Centro-Oeste e partes do Norte e Nordeste teriam reduções nas chuvas, em especial nos meses de verão.

O que acontece com a temperatura no Brasil nos quatro cenários avaliados pelo 2040: o melhor cenário (mapa superior esquerdo) e o pior (inferior dirteito)

O que acontece com as chuvas no Brasil nos quatro cenários avaliados pelo 2040: o melhor cenário (mapa superior esquerdo) e o pior (inferior dirteito)

O primeiro efeito disso é uma redução na vazão dos rios que abastecem a maior parte da população brasileira, como mostraram os estudos sobre recursos hídricos do “Brasil 2040”.

Um grupo liderado por Francisco de Assis Souza e Eduardo Martins, da Universidade Federal do Ceará e da Fundação Cearense de Meteorologia, usou os dados de chuva para construir um modelo de vazão – não é possível estimar quanto um rio enche ou seca apenas olhando para a média de chuvas.

O resultado é dramático para quem acha que o Sudeste do Brasil já sofreu o suficiente com falta d’água e ameaça de racionamento de energia nos últimos três anos: no melhor cenário, vários rios de Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Tocantins, Bahia e Pará terão reduções de vazão de 10% a 30%.

Transpostos para as usinas hidrelétricas, os dados de vazão trazem um desafio para o setor de energia no Brasil: as mais importantes usinas do país – Furnas, Itaipu, Sobradinho e Tucuruí – teriam reduções de vazão de 38% a 57% no pior cenário.

Na Amazônia, região eleita pelo governo a nova fronteira da hidroeletricidade no país, as quedas também seriam significativas, como adiantou o OC em abril: a vazão de Belo Monte cairia de 25% a 55%, a de Santo Antônio, de 40% a 65%, e a da usina planejada de São Luís do Tapajós, de 20% a 30%.

Vazões estimadas de algumas das principais hidrelétricas do país para o período 2011-2040. A linha verde mostra o melhor cenário; a vermelha, o pior.

HIDRELÉTRICAS EM COLAPSO

À exceção de São Luís, a maioria das novas usinas na Amazônia é a fio d’água, ou seja, não possui grande reservatório. Isso significa que seu fator de capacidade, ou seja, a quantidade de energia constante gerada ao longo do ano, é reduzido, já que a vazão dos rios amazônicos varia enormemente entre a estação da seca e a da chuva. Belo Monte, por exemplo, tem um fator de capacidade de cerca de 40%, que, reduzido à metade, daria à hidrelétrica de R$ 30 bilhões um fator de capacidade menor que o de usinas eólicas – para as quais os planejadores energéticos brasileiros e a presidente Dilma Rousseff torcem o nariz, já que essas usinas não são capazes de gerar “energia firme” nos períodos sem vento. No total, a geração hidrelétrica cai de 8% a 20% no país.

“O planejamento energético precisa ser revisto urgentemente à luz dos dados do ‘2040’, sob pena de a sociedade enterrar bilhões de reais em projetos que não se pagam”, disse Carlos Rittl, secretário-executivo do OC.

Os dados de Martins e Souza foram utilizados por uma equipe de pesquisadores da Coppe-URFJ liderada por Roberto Schaeffer para analisar o que acontece com a eletricidade do Brasil nos próximos 25 anos caso se confirmem os cenários de mudança do clima.

O grupo usou em sua análise, por sua vez, dois modelos computacionais: um deles leva em conta a matriz energética, a demanda por eletricidade e o crescimento do PIB para estimar o comportamento do sistema elétrico brasileiro – que fontes crescem na matriz, que fontes diminuem, de acordo com o custo e o fator de capacidade. O outro modelo simula como as usinas hidrelétricas e termelétricas operam no mundo real de acordo com a disponibilidade de água nos reservatórios.

A principal conclusão do estudo de Schaeffer e colegas é filosófica: o planejamento elétrico no Brasil não poderá mais ser feito como vem sendo. Hoje, os responsáveis pelo setor no governo trabalham segundo a filosofia do “estado estacionário” de variáveis climáticas, ou seja, o comportamento dos rios no futuro seguirá o comportamento do passado.

“Não dá mais para fazer isso. O futuro não vai obrigatoriamente repetir o passado”, disse Schaeffer ao OC.

A análise dos pesquisadores mostra que, em todos os cenários analisados, há uma queda na vazão das principais bacias hidrográficas brasileiras, que empurra o sistema elétrico para uma situação de desequilíbrio estrutural: o sistema não dá conta de atender a demanda, provocando cortes de carga – em português claro, apagões.

Sem medidas de corte de emissões (ou seja, no RCP 8,5), no pior cenário, a vazão dos reservatórios cai 30% e o risco de déficit em alguns anos se aproxima de 100% – a margem considerada “segura” pelo governo para evitar apagões é de 5%. No melhor cenário, a queda de vazão das hidrelétricas chega a 10%, e o risco de déficit, a 60% em alguns anos. O custo de operação do sistema, que leva em conta inclusive o acionamento de térmicas, sobe em oito vezes no melhor cenário e em 16,7 vezes no pior.

A consequência do colapso das hidrelétricas é o aumento do uso de carvão mineral e gás natural na matriz brasileira, o que tanto aumenta o custo de operação do sistema quanto as emissões de carbono, agravando ainda mais o efeito estufa. Outra consequência pode ser o retorno das usinas com grandes reservatórios, em especial na região Sul, onde vai chover mais.

Os resultados surpreenderam até os pesquisadores. “Se isso acontecer, o país para se não tiver um seguro”, disse Schaeffer.

Parte desse “seguro” não depende apenas do Brasil: é o corte de emissões dentro de um acordo global do clima. Segundo o estudo, somente o custo de expansão do sistema elétrico cairia em R$ 122 bilhões entre o cenário RCP 8,5 (sem mitigação da mudança do clima) e o cenário RCP 4,5 (com mitigação).

O “seguro” cabe ao país contratar, segundo o pesquisador, é a adaptação do sistema. E a melhor maneira de adaptar, curiosamente, é reduzindo emissões: aumentando em muito a eficiência energética e o uso de renováveis, de modo a reduzir a dependência de termelétricas fósseis e de hidrelétricas, e colocando um preço nas emissões de carbono – não necessariamente uma taxa, Schaeffer apressa-se a dizer.

Os dados de energia e recursos hídricos do “Brasil 2040” foram apresentados ao governo federal ao longo do ano e recebidos com algumas críticas – o estudo da UFCE foi considerado “alarmista” pela própria SAE.

“Uma crítica que a gente pode receber é que há incerteza. Mas também há incerteza sobre se você vai ficar doente, e nem por isso você deixa de fazer um plano de saúde”, compara Roberto Schaeffer.

MICO NO MAPITOBA

Os relatórios sobre agricultura, elaborados por equipes da Embrapa e do Agroicone, também devem causar arrepios no governo. Eles mostram que a maior aposta da ministra Kátia Abreu (Agricultura) para a futura expansão da produção no país, o chamado Mapitoba (uma zona de cerrados entre Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia), pode virar um mico na mão de investidores.

Uma das análises aponta para a tendência de desvalorização das terras por decorrência das mudanças na produção e aumento do risco climático. Em Pernambuco, as terras podem perder até 43% do seu valor. No Pará, a perda pode ser de até 36%.

No estado do Maranhão, as perdas podem variar de 2% a 16%, no Tocantins de 14% a 26% e de 3% a 14% no Piauí. Um dos cenários aponta valorização das terras na Bahia, mas esse estado também pode ter perdas de 5% no valor das terras.

Os impactos das mudanças do clima na agricultura podem levar a perdas de área agriculturável em quase todas as culturas avaliadas – o efeito mais grave deve recair sobre a área de cultivo de soja, com perdas de até 39%. O feijão, arroz e milho safrinha podem ter redução de área cultivável de 26%, 24% e 28%, respectivamente.

No caso da cana-de-açúcar, as áreas cultiváveis podem aumentar, por ser um gênero que precisa de calor, em especial para a produção de etanol. Porém, o cultivo deve migrar para regiões que hoje são mais frias. A produção de mandioca deve sair do Nordeste, muito seco, e migrar para áreas de Cerrado e Amazônia. O caupi, ou feijão-de- corda, já está migrando do Nordeste para o Centro-Oeste.

A pesquisa sugere que a própria dinâmica do mercado vai ser uma das medidas de adaptação: a redução de áreas aptas para produção deve afetar os preços das commodities agrícolas; as regiões de maior aptidão produtiva devem responder positivamente, enquanto outras regiões deverão perder produção; haverá impactos sobre os preços ao produtor e ao consumidor final; novos equilíbrios de oferta, demanda e preços serão gerados, influenciando na produção.

CALOR

O capítulo de saúde, que não está entre os relatórios disponibilizados pela SAE mas ao qual o OC teve acesso, avaliou apenas os impactos das ondas de calor sobre taxas de mortalidade. Os efeitos são heterogêneos, de acordo com a faixa etária, clima regional e as condições de saneamento. Os idosos são o grupo populacional mais vulnerável, enquanto na avaliação por região, Norte e Nordeste devem ser as mais afetadas.

No Tocantins, por exemplo, o aumento do número de mortes entre idosos pode chegar a 9%, em decorrência de doenças respiratórias agravadas por ondas de calor. Rio Grande do Norte e Paraíba também devem ter aumento superior a 5% nos índices de mortalidade no mesmo grupo.

“Temos o dado demográfico: a população vai envelhecer. Então, o Brasil vai se tornar mais vulnerável às mudanças do clima”, diz o coordenador do estudo, José Feres, do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

O estudo também alerta para a disseminação de doenças infecciosas endêmicas, que podem aumentar de acordo com as condições climáticas, como malária, dengue e leptospirose. Outra preocupação são eventos climáticos extremos como tempestades, ocasionando inundações, afogamentos, desabamentos, aglomerações, entre outros. “Nossa principal recomendação é a criação de um sistema de alerta para ondas de calor e outros eventos climáticos extremos. É uma medida simples, mas que o Brasil ainda não tem”, diz Feres.

ESTRADAS RUINS

A avaliação dos impactos sobre a infraestrutura de transportes traz a informação que os brasileiros que viajam de carro ou ônibus já sabem: nossa malha rodoviária já é ruim. Mas pode piorar. O estresse por chuvas intensas, acúmulo de umidade e altas temperaturas demanda altos investimentos em adaptação.

Combinando informações sobre sinalização, qualidade do asfalto e condições das rodovias, elaborou-se o Índice de Vulnerabilidade da Infraestrutura Rodoviária (IVIR). Quanto mais alto, mais vulneráveis são as rodovias. Observando os mapas, é possível comparar o número de rodovias vulneráveis hoje e em 2040.

Mapa mostra estradas vulneráveis (em laranja e vermelho) hoje

Mapa mostra estradas vulneráveis (em laranja e vermelho) em 2040

As regiões Sudeste e Sul, que hoje já apresentam estradas em boas condições, serão as menos afetadas. Atualmente, apenas oito estados apresentam segmentos vulneráveis, contra 22 estados no cenário futuro, além do Distrito Federal. A região Nordeste é campeã em vulnerabilidade, em especial no litoral – tanto pela possibilidade de aumento de temperaturas quanto pelas condições das rodovias.

“No Brasil, não há um banco de dados consistente sobre os efeitos de eventos climáticos na infraestrutura rodoviária e não há indícios de que essa situação irá mudar no curto prazo”, diz o relatório. “Tal banco de dados é importante para determinar a resiliência atual e para prover a base para estudos sobre impactos relacionados ao clima futuros.”

A análise ressalta que os custos de adaptação e reparos podem ser muito superiores à economia feita com obras mais baratas, que não serão satisfatórias em médio e longo prazo. Também recomenda o desenvolvimento de estudos sobre o risco de afogamento da infraestrutura rodoviária em decorrência de chuvas fortes, em todo o território nacional.

“São soluções de engenharia tradicional, mas que sairão caríssimas por causa do tamanho da rede”, disse Sérgio Margulis, economista carioca que idealizou o “Brasil 2040”.

OLHA A ONDA

A equipe do engenheiro Wilson Cabral Jr., do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) também criou um índice de vulnerabilidade para a infraestrutura costeira e portuária do Brasil, na tentativa de estimar o que aconteceria com o litoral em caso de elevação do nível do mar conforme previsto pelo IPCC.

Os pesquisadores tiveram de lidar com um problema adicional: a absoluta falta de informações sobre como o nível do mar vem subindo no país nas últimas décadas e sobre como as ondas vêm ficando mais fortes. “A rede de marégrafos no Brasil é incipiente, e a de ondógrafos mais ainda”, disse Márcia Oliveira, coordenadora de Gerenciamento Costeiro do Ministério do Meio Ambiente.

Segundo Cabral, nem mesmo as bases de dados usadas para estimar a altimetria (a altura do terreno acima do nível do mar) e a batimetria (o perfil do fundo oceânico), dois dados que precisam ser combinados para informar a elevação da lâmina d’água e o risco de inundação, conversam entre si. Há um erro sistemático nas medições que os pesquisadores não conseguem nem mesmo estimar.

Cabral e seu aluno Vítor Zanetti usaram, então, as projeções de nível do mar do IPCC para estimar risco de alagamento e ressacas em Santos e no Rio de Janeiro. Um outro grupo, da USP, estimou o impacto nos portos e as medidas de adaptação necessárias.

Os resultados mostram que quase todos os portos do país precisam já hoje de medidas de adaptação, seja para aumentar a chamada “borda livre”, o espaço seco entre o cais e a água, seja para aumentar o calado por causa de assoreamento. O custo dessas medidas, que inclui a construção de quebra-mares, foi calculado em R$ 7 bilhões – mais do que o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) investiu em portos.

Para Santos e para o Rio, foram mapeadas as zonas em risco alto e muito alto de deslizamento, ressaca e inundação, o que inclui hospitais e a infraestrutura de transporte público, além de estações de tratamento de esgotos. A Linha Vermelha, no Rio, está longe da praia, mas deve alagar com frequência ainda maior devido ao efeito de “barragem” que o mar mais alto exerce sobre os canais que a rodovia cruza. O quadro que emerge nas duas cidades é o de colapso urbano em caso de ressacas e inundações muito graves no futuro. Apenas no Rio, o patrimônio imobiliário sob alto risco foi estimado em R$ 124 bilhões.

“É de se esperar que tomadores de decisão, em seus diversos níveis, tenham conhecimento destes estudos e resultados e possam utilizá-los em abordagens de planejamento de curto, médio e longo prazos”, escreveram os pesquisadores.

MINERIO E AGUAS

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A seca prolongada ameaça o abastecimento de água e energia elétrica, mas a crise hídrica passa longe das atividades de mineração em Minas Gerais. Os minerodutos – tubulações que levam o minério de ferro em estado arenoso misturado com água, como se fosse uma polpa – operam a todo vapor, e novos projetos estão em andamento, sinalizando para a continuação do desperdício de um recurso precioso.

Os quatro projetos de mineração do Estado que têm dutos para o transporte do ferro contam com uma outorga de captação de água suficiente para suprir uma cidade de 1,6 milhão de habitantes. O uso de água pelos minerodutos chama a atenção porque muitas vezes não há o reaproveitamento do recurso hídrico, que é descartado no mar.

A Manabi, por exemplo, mineradora em implantação no município mineiro de Morro do Pilar, tem outorga para uso de 2.847 metros cúbicos (m3) de água por hora. Deste volume, um terço, ou 949 m3 por hora serão usados no mineroduto, que irá até Linhares, no Espírito Santo. A própria empresa informa: “o projeto não prevê reuso da água usada no mineroduto, mas para essa mistura que segue para Linhares, a Manabi projetou um sistema de tratamento e filtragem, garantindo atendimento da qualidade definida pelo Conama, antes do seu descarte no mar”.

Os volumes de água utilizados pelos minerodutos não foram informados, mas, caso as três outras empresas com minerodutos em operação ou em licenciamento ambiental no Estado utilizem a mesma proporção de um terço da outorga para uso no transporte via dutos, seriam 3.711 m3 por hora de água retirada dos mananciais mineiros que teriam como destino o descarte no mar. Esse volume equivale a 3,711 milhões de litros de água por hora, e é suficiente para abastecer um município com 558 mil habitantes, mais do que a população de 546 mil pessoas de Juiz de Fora, a quarta cidade mais populosa de Minas Gerais.

A conta considera o diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, do Ministério das Cidades, que apontou um consumo médio per capita de água, em Minas Gerais, de 159 litros por dia, ou 4.782 litros mensais.
Atualmente, quatro minerodutos estão em operação com captação de água em rios de Minas Gerais (três da Samarco e um da Anglo American) e outros dois (Ferrous e Manabi) estão em fase de licenciamento ambiental junto ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama). A permissão para captação de água nos cursos de água é concedida pelo Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam), órgão subordinado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

Lei prevê cobrança pelo uso de recursos hídricos

As quatro mineradoras com atuação em Minas Gerais que utilizam o mineroduto como meio de escoamento da produção foram procuradas pelo Hoje em Dia. Samarco e Ferrous foram as únicas que não informaram as outorgas que possuem, mas os dados foram informados pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).

A Anglo American, que possui um mineroduto em operação, sustenta que parte da água usada nos dutos de transporte de minério de ferro é reutilizada, mas não informa o volume e não detalha como o reuso se tornou viável.

A Manabi, em resposta aos questionamentos apresentados, ressaltou que nos estudos para verificação da viabilidade de seu projeto de mineração, a avaliação da disponibilidade hídrica foi um dos temas principais, “cercado dos cuidados demandados pela questão, com antecipação das tratativas legais associadas à obtenção da outorga de direito de uso das águas”.

Infraestrutura

A proliferação do uso do mineroduto surgiu como alternativa para o escoamento da produção, devido aos altos custos do transporte rodoviário para volumes elevados de minério de ferro e à saturação da malha ferroviária.

O investimento em novos ramais de ferrovias é considerado muito alto, o que assegura atratividade ao mineroduto. O ganho logístico gerado pelos minerodutos está ainda no fato de operarem 24 horas por dia, todos os dias.

A Política Nacional de Recursos Hídricos e a Política Estadual de Recursos Hídricos de Minas Gerais, regulamentada pelo Decreto 44.046, de 13 de junho de 2005, estabeleceu a cobrança pelo uso da água, até então sem nenhum ônus para as empresas.

Samarco e Ferrous não informaram o valor que pagaram pelas captações. A Anglo American informou que, em 2014, o pagamento foi de cerca de R$ 900 mil. A Manabi declarou ter pago R$ 542,3 mil.

Em meio à crise hídrica, minerodutos utilizam água dos rios para levar polpa de ferro ao porto

O TEMPO NÃO PÁRA

[texto original]

O Ibama concedeu nesta terça a licença de operação para o mineroduto Minas-Rio, da Anglo American, que vai levar minério de Conceição do Mato Dentro (MG) a São João da Barra (RJ). O documento foi publicado no site do Ibama, é assinado pelo presidente do órgão, Volney Zanardi Junior e válido por seis anos.

Para emitir a licença, o Ibama desconsiderou os relatos dos órgãos que acompanham o projeto, como o Ministério Público e o Grupo de Estudos em Temáticos Ambientais (Gesta), da UFMG, que apontam problemas na obra.

“Existem muitos problemas no empreendimento como um todo. É um descalabro”, diz a pesquisadora do Gesta/UFMG, Ana Flávia Santos. Em março, O TEMPO percorreu toda a extensão da obra e relatou os impactos econômicos e sociais do projeto, que corta 32 cidades em Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A crise hídrica, que ameaça o abastecimento de água e energia do país, também não impediu o licenciamento. Para funcionar, o empreendimento vai precisar de 2,5 milhões de litros de água por hora. A outorga para a captação já foi concedida pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam). A água sairá do rio do Peixe e é suficiente para abastecer cerca de 393 mil pessoas, o equivalente à população de Montes Claros, no Norte de Minas. O cálculo leva em consideração o consumo de 152,6 litros por dia para cada habitante. Esse foi o consumo médio do país nos últimos três anos, de acordo com o Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento (Snis), publicado pelo Ministério das Cidades.

Mina. A licença de operação é a última etapa do processo de licenciamento ambiental de um empreendimento. Antes dela, é preciso ter a licença prévia e a licença de instalação. Além do mineroduto, o projeto Minas-Rio tem ainda a mina, o porto e as torres de energia que precisam cumprir a última etapa do licenciamento. Cada parte está a cargo de um órgão diferente.

O licenciamento da mina será discutido em reunião da Superintendência Regional do Meio Ambiente (Supram) Jequitinhonha, ligada à Secretaria de Estado do Meio Ambiente de Minas Gerais, na próxima segunda-feira. A apreciação foi adiada por 15 dias porque o Ministério Público Estadual pediu vistas ao processo.

O Ministério Público Federal (MPF) expediu uma recomendação contra a concessão da licença. “A Supram não fiscalizou o cumprimento das condicionantes”, diz o procurador Helder Magno da Silva, que assina o documento. O Gesta/UFMG também alega que há mais de 400 condicionantes a serem cumpridas antes do licenciamento.

Obra
Não comentou. A Anglo American não comentou a concessão da licença de operação. O Minas-Rio está orçado em US$ 8,8 bilhões e sua inauguração já foi adiada várias vezes.

Após teste, córrego tem peixes mortos

No fim de agosto foi registrada uma mortandade de peixes no córrego Passa Sete, em Conceição do Mato Dentro. O fato ocorreu dias após a Anglo American realizar o primeiro carregamento no Minas-Rio, como teste. De acordo com o procurador do Ministério Público Federal (MPF), Helder Magno da Silva, a causa do problema não foi apurada pelo Ibama antes da concessão da licença ao empreendimento.

“Não tem nenhum fato que pudesse causar essa mortalidade que não seja uma contaminação decorrente do empreendimento”, afirma.