Flor no asfalto

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[TEXTO ORIGINAL]

Do alto do bairro Tupi, se enxerga o vale do córrego do Tamboril, de suas nascentes até sua foz, no Isidora. Frondosas espécies de árvores formam as matas ciliares, por onde perambulam aves de várias espécies, micos e lobos-guará. Crianças brincam e nadam nas águas límpidas do córrego.

Cenas como essa existiram há menos de 30 anos, quando os primeiros moradores chegaram ao bairro Jardim Felicidade, na região Norte de Belo Horizonte. O loteamento foi conquistado por um movimento de moradia atuante em bairros vizinhos. A Fazenda Velha, que ali existia, tinha dívidas de impostos com a prefeitura. A desapropriação se deu com recursos do governo, para auxiliar na construção das casas.

Os novos moradores eram pessoas de baixa renda, que viviam de aluguel. A infra-estrutura, como acontece nas periferias brasileiras, ficou para depois. No início, o bairro não tinha luz nem água encanada. A população utilizava as águas do córrego do Tamboril. Para o esgoto, cada casa tinha sua fossa séptica.

Moradores antigos contam que foi a chegada da Copasa que deixou o córrego poluído. A companhia fez a rede, mas não os interceptores, jogando todo o esgoto do bairro diretamente no Tamboril. A partir daí, a população foi se distanciando do córrego, que deixou de ser fonte de água pura e passou a ser vetor de doenças.

Escola e posto de saúde só chegaram quatro anos depois das primeiras casas. Muitas construções foram feitas sobre áreas de nascentes, o que, somado ao desmatamento, reduziu o volume de água nos córregos do bairro. Mesmo assim, ainda se encontra muita água brotando em quintais, calçadas, lotes vagos.

Uma dessas bicas aflora com força atrás da escola municipal. Ali havia uma caixa d’água improvisada, usada para banhos ocasionais, lavagem de carros e refresco de cavalos. Um projeto de qualificação dessa nascente, conduzido pelo sub-comitê da bacia do Ribeirão do Onça, em parceria com atores comunitários e a Escola de Arquitetura da UFMG, foi realizado recentemente.

A obra é simples, mas inundou de alegria aquática aquele canto do Felicidade. A água cai em uma fonte circular, mais alta, e dali para uma outra, mais rasa, quase uma piscininha. As crianças são frequentadoras assíduas. No primeiro fim de semana depois da reforma, uma ocupação espontânea, com carros de som e churrasco na via pública, ocorreu por ali.

Tudo isso poderia ser prosaico, não fosse o fato de que a imensa maioria das nascentes nas cidades brasileiras é jogada para debaixo da terra – como se devêssemos nos envergonhar da água que brota. Quem anda pela cidade com o ouvido atento volta e meia se depara com o som da água nascendo em uma boca de lobo.

A nascente do Jardim Felicidade deveria ser apenas mais um exemplo de uma série de espaços públicos em que a água faz parte da vida. Essa proposta só foi possível, ali, graças à luta da comunidade, que tem uma visão avançada do meio ambiente urbano.

A prefeitura tem um projeto para o córrego do Tamboril. Infelizmente, ele não foi construído junto com moradores – que ainda não conseguiram conhecer o projeto. Parece que o projeto da Sudecap cria uma grande avenida em torno do córrego, inviabilizando seu uso como espaço agregador do bairro.

Recentemente, lideranças locais expuseram esses pontos a representantes da PBH e de vereadores, a fim de criar um processo participativo de revitalização do córrego. Se a PBH souber aproveitar a oportunidade, pode fazer ali uma obra de referência, dentro da tendência mundial de requalificação de cursos d’água em áreas urbanas.

O córrego do Tamboril é bastante poluído, mas pode facilmente deixar de ser. Não há registro de enchentes graves, tampouco demanda viária relevante. Há todos os ingredientes para a criação de um modelo de parque linear urbano, com participação popular. O bairro e a cidade merecem.

Essa água que brota na Felicidade é como aquela flor que certa vez irrompeu o asfalto. Não custa lembrar as palavras do poeta: “Uma flor nasceu na rua! / Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego. / Uma flor ainda desbotada / ilude a polícia, rompe o asfalto. / Façam completo silêncio, paralisem os negócios, / garanto que uma flor nasceu”.

Os ‘quebra-galhos’ para a Baía de Guanabara na Rio-16

Em agosto, barreiras instaladas ao longo de dezenas de rios moribundos do Rio de Janeiro conterão o lixo que, de outra forma, pode se acumular nos trajetos por onde passarão os velejadores olímpicos. Uma frota de barcos patrulhará a área para evitar que esses resíduos danifiquem um leme ou uma quilha, custando assim a alguém uma medalha. Uma parte dos resíduos humanos não tratados que, há muito tempo, têm poluídos as praias, as docas e a pitoresca lagoa será desviada dos locais de competição; assim, os atletas que lá navegarem não precisarão se preocupar.

Pelo menos isso é o que foi prometido. Essa foi a última onda de quebra-galhos prometidos quando estava claro que a primeira onda não iria ser cumprida.

Um radiante pôr do sol delineia o perfil irregular das montanhas por trás de Martine Grael, em uma praia cheia de veleiros, após um dia de provas em uma regata internacional realizada na Baía de Guanabara. Ela tem seus receios. Martine, de 25 anos, é um membro que acaba de integrar a equipe olímpica brasileira de 2016, filha de um medalhista olímpico e verdadeiro fruto dessas águas. Ela fala com uma convicção triste de alguém que já viu uma pessoa querida sofrer.

“É muito claro que o tratamento e a educação dadas às águas são o grande foco para a sua limpeza, mas não tenho visto quase nada sendo feito”, declara Grael. “Acho que o Rio tem um litoral enorme e as pessoas amam ir à praia, mas parece que ninguém liga para o fato de que as praias estão cada vez mais sujas.

“A água continua suja e, às vezes, tem um cheiro muito ruim. Sei lá. Não é preciso ter muito estudo para perceber que isso não está nada bem”.

Em 2009, o livro de candidatura final do Rio incluía um compromisso de combater em sete anos um desastre ambiental ocorrido durante décadas. A grande ausência de um saneamento moderno virou um ativo nas mãos dos líderes da campanha para a eleição do Rio de Janeiro. O apelo direto e adulador ao Comitê Olímpico Internacional era: Concedam o poder transformador do seu evento de três semanas à nossa cidade. Precisamos dos Jogos mais do que Chicago, mais do que Madri.

O texto da candidatura declarava que 80 por cento de todo o esgoto seria coletado e tratado até 2016, e prometia a “regeneração total” da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde os eventos de remo e canoagem/caiaque-sprint serão realizados.

O mesmo documento da candidatura afirmava que a economia brasileira era estável e chamava o financiamento para o Rio 2016 de “seguro”. Há quase seis meses da cerimônia de abertura, entretanto, reina a recessão, as taxas de inflação chegam aos dois dígitos e o orçamento para os Jogos levou um golpe significativo. O sistema público de saúde do país, já oscilante, agora deve enfrentar a crescente epidemia do vírus Zika.

Há muito tempo representantes do governo e do comitê organizacional deixaram de fingir que os objetivos da candidatura quanto à redução da poluição seriam cumpridos.

“Nada será feito porque não houve nem compromisso, nem dinheiro, nem capacidade suficientes”, declara ao Outside the Lines o porta-voz da Rio 2016 Mário Andrada. “No entanto, finalmente temos algo que a baía tanto precisava há gerações, que é a vontade pública de limpá-la.

“Ninguém quer receber hóspedes em uma casa suja. Então, se não somos capazes de cumprir o objetivo, precisamos continuar a trabalhar até o último minuto e nos certificarmos de que os atletas possam competir em águas seguras, e estamos fazendo isso.”

Esta não é a primeira vez que uma brecha foi aberta entre o discurso de vendas para as Olimpíadas e sua real execução. Sydney sofreu para atender os objetivos de limpeza do seu famoso porto antes dos Jogos de 2000 e ainda está travando essa batalha. Pequim 2008 foi considerada por pesquisadores como “a cidade olímpica mais poluída de toda a história” devido à sua poluição, apesar do governo chinês ter ordenado o rodízio de carros e o fechamento de fábricas. O resultado? Nenhuma melhoria permanente na qualidade do ar. Mesmo assim, Pequim sediará os Jogos de Inverno de 2022.

O Comitê Olímpico Internacional (única entidade com poder para supervisionar as promessas feitas na candidatura) nunca cancelou os Jogos em uma cidade, independentemente dos problemas revelados durante o período de preparação. O presidente do COI, Thomas Bach, continuou a declarar que as águas serão seguras para a competição e que qualquer progresso que possa ser atribuído aos Jogos de Verão é melhor do que nada. Representantes do COI não responderam aos vários pedidos de entrevista para o Outside the Lines.

A jornalista e autora brasileira Juliana Barbassa, cujas esperanças de mudança quanto à limpeza do Rio aumentaram quando a cidade ganhou a candidatura, acha o retrocesso profundamente angustiante. Seu livro mais recente, “Dancing with the Devil in the City of God”, pinta um cenário cru do meio ambiente e dos desafios sociais do Rio, e sua percepção de que as Olimpíadas não resultaria em uma alquimia urbana. Ela declara que a responsabilidade deve começar e terminar em casa.

“Tínhamos a faca e o queijo na mão”, declara Juliana por telefone direto do Rio. “Por um momento tínhamos o dinheiro, a vontade política, o prazo, os olhos do mundo todo para lidar com uma questão muito importante para o cotidiano dos moradores do Rio”. As janelas da casa de seus pais, no próspero bairro da Barra da Tijuca, estão abertas, diz ela, e o cheiro de esgoto sopra da Lagoa de Marapendi.

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A INCERTEZA

O mesmo cheiro invade uma janela aberta de um carro no trajeto de e para o aeroporto internacional do Rio, onde uma parte da estrada contorna lixões na Baía de Guanabara. Um motorista local informa os passageiros sem vacilar, enfiando-se na faixa mais próxima durante uma hora do rush tipicamente épica para proporcionar-lhes uma experiência olfativa.

Por mais graves e intratáveis que sejam os problemas de saneamento da cidade, os riscos exatos aos atletas olímpicos que competirão neste verão são difíceis de calcular. No ano passado, alguns atletas ficaram doentes em eventos esportivos de teste, mas nenhum caso foi ligado de forma pública e definitiva à água, ao contrário da comida ou outra fonte.

“A epidemiologia é uma ciência que estuda a saúde da população, não do indivíduo”, diz Joseph Eisenberg, um professor de epidemiologia da Universidade de Michigan que estuda as vias de doenças transmitidas pela água. “É uma associação estatística, não determinista”. No caso de um surto em grande escala, os ambientes suspeitos seriam testados, ele declara. Mas nenhuma equipe de cientistas em macacões de segurança correu até o local para investigar os micróbios que causaram infecções estomacais em um punhado de atletas.

Diversos casos receberam a atenção mundial, aumentada pelas descobertas de uma investigação em andamento feita pela Associated Press com base em um teste independente que revelou níveis alarmantes de contaminação por bactéria e vírus em e ao redor dos locais de competições olímpicas. A série promoveu o debate público sobre se as autoridades brasileiras deveriam testar se há a presença de vírus, mas o governo e os organizadores da Rio 2016 defenderam seus métodos, declarando-os consistentes com as normas da Organização Mundial da Saúde.

O caso mais visualmente impactante de provação de um atleta foi uma infecção de pele grave que talhou um pedaço da panturrilha do velejador alemão Erik Heil e, posteriormente, foi atribuída à SARM, uma bactéria multirresistente que se desenvolve em ambientes hospitalares, mas que também afligiu alguns atletas de esportes em terra.

Heil e seu médico disseram no verão passado que eles acham que o patógeno foi transmitido através da água. Mas, por enquanto, não há uma causa e efeito conclusivos para o caso de Heil, nem para outros casos recentes. Apenas há especulação, suposição e incapacidade de descartá-las. Especialistas com acesso a dados brutos utilizam modelos, tais como a AQRM (Avaliação quantitativa do risco microbiológico), para fazer projeções sobre doenças transmitidas pela água, mas a qualidade da água em qualquer um dos locais de competições olímpicas pode variar diariamente por causa da chuva, do vento, das correntes e da maré. A suscetibilidade de uma pessoa depende da sua idade, genética, sistema imunológico e exposições anteriores.

Os atletas receberão várias vacinas, terão acesso a desinfetante para as mãos, tomarão um banho o mais rapidamente possível após competir e recorrerão aos remédios caseiros, desde Listerine até Jagermeister, mas ninguém pode garantir quais precauções podem ser eficazes.

O Outside the Lines obteve um documento confidencial de planejamento do Comitê Olímpico dos EUA escrito em outubro de 2015 que declara: “O USOC está preocupado com a possível existência de contaminantes por vírus e bactérias na água. … O USOC está otimista, mas não esperamos antecipar grandes reduções [o itálico é do USOC] nos níveis patogênicos de bactérias e vírus nos locais de competição.

“Atualmente, não há nenhum modo de ‘zerar´ o risco de infecções ou doenças quando a competição ocorrer em qualquer água e, principalmente, nas águas do Rio”, assinala o documento.

O USOC não tem autoridade para ordenar atletas aquáticos a cancelar sua participação devido a tais condições. Ao invés disso, ela está se focando em fornecer informações junto com uma equipe médica reforçada, de acordo com o CEO Scott Blackmun.

“A água no Rio é suja”, declarou Blackmun ao Outside the Lines em uma entrevista na semana passada. “Precisamos fazer tudo que pudermos para evitar que nossos atletas adoeçam enquanto estiverem lá. Mas nossos atletas já competiram em condições difíceis ao redor do mundo em muitas, muitas ocasiões e é só uma questão de termos certeza que nossa preparação tem um objetivo específico para as condições que encontraremos no Rio”.

Haley Anderson, vencedora de uma medalha de prata em nado em mar aberto nas Olimpíadas de Londres 2012 e qualificada para nadar no Rio, diz que ela contará com os seus treinadores, a USA Swimming (federação americana de natação) e o USOC para a aconselharem de forma honesta sobre sua segurança.

Pessoas de fora bem-intencionadas ficam “te dizendo tantas coisas diferentes, tipo, ‘Você não deveria, você não pode nadar lá, não tem como”, declara Anderson, sentada perto de uma piscina limpíssima em Los Angeles no fim do ano passado, evidenciando uma frustração. “É tipo, ‘OK. Você consegue entrar para a equipe olímpica e depois decide não nadar. Me diz como é que se faz isso”.

Poucos atletas de qualquer nacionalidade insistem em discutir sobre o assunto. Eles são treinados para cumprir horário e se focarem no que podem controlar. Há exceções, como Martine Grael, que diz que já retirou da água estruturas de televisores descartadas durante sessões de treinamento, e o atleta de windsurf holandês Dorian van Rijsselberghe, o atual campeão olímpico. Embaixador da ONG Plastic Soup Foundation, com base na Holanda, van Rijsselberghe chamou as condições no Rio de “sujas, repugnantes e perigosas” em um blog escrito após ter ganho a Copa Brasil de Vela na Baía de Guanabara em dezembro:

“Um membro da nossa equipe de treinadores quase vomitou enquanto entrava no porto olímpico”, van Rijsselberghe escreveu em um texto traduzido e publicado no site da ONG.

“Esgoto bruto. Os atletas não falam sobre isso. … Eles não estão lá para desafiar as questões ambientais do mundo. Mas todos eles estão muito preocupados.

“Estou feliz que ganhei na semana passada. Talvez eu ganhei porque tive menos lixo preso no meu leme”.

O contraste entre a beleza topográfica do Rio e o horror das suas águas chocou van Rijsselberghe em sua primeira prova na cidade em 2013. “Na água, tivemos que desviar de cadeiras de plástico, uma geladeira, animais [mortos]”, diz ele em uma entrevista por telefone. Ele viu menos objetos flutuantes desta vez e não sabe de nenhum atleta holandês que tenha ficado doente, mas as condições ainda o incomodam. “Não é assim tão simples, colocando alguns filtros aqui e ali”, diz ele.

Outros atletas admitem algo que pode ser chamado de culpa do sobrevivente antecipada. Eles sabem que podem ir ao Rio e ficar por alguns dias ou algumas semanas, e depois voltar para águas mais limpas e para médicos atenciosos. E agora que os pesquisadores estão trabalhando intensamente para descobrir como conter o vírus Zika transmitido por mosquito vinculado a defeitos de nascença, quem vai se preocupar com um desconforto gastrointestinal ou uma erupção cutânea?

A triatleta dos EUA Sarah True, de 34 anos, está traçando planejando uma maneira de minimizar qualquer risco de doença. Ela viajará para o Rio pouco antes do seu evento, perdendo a maioria dos Jogos e evitando os treinamentos de natação no percurso da praia de Copacabana. Apesar disso, mesmo se concentrar-se em um objetivo principal, ela diz que não pode ignorar seu papel em um contexto mais amplo da situação.

“Pelo que eu entendi, o pior que pode acontecer é, alguns dias depois da prova, eu ficar um pouco doente”, declara True, que terminou em quarto lugar nas Olimpíadas de 2012. “No contexto geral das coisas, esse é um risco que quero correr. Estou muito mais preocupada com as pessoas que moram lá, para as quais foram feitas grandes promessas de melhoria do seu ambiente.

“Grandes mudanças poderiam ter sido feitas. Isso deveria ser um dos benefícios finais. O fato dessas promessas não terem sido cumpridas é estarrecedor para mim”.

Alguns confiam muito pouco neles. O legado já diluído do Rio sobre suas águas não foi nenhuma surpresa para especialistas que entendem o tamanho do desafio.

“Como foi possível o Comitê Olímpico [Internacional] proceder sob o pressuposto de que isso não seria um problema?”, questiona William Pan, um professor assistente de saúde ambiental global da Universidade Duke. “É bastante sabido entre a comunidade científica que a qualidade da água no Rio não é muito boa. Não é nenhuma surpresa que os atletas que irão competir nas Olimpíadas estejam bastante preocupados sobre serem expostos a diferentes patógenos na água, porque eles realmente o serão.

“Que bom que esse assunto está vindo à tona. Não tenho certeza o que fazer a respeito. É possível limpar as águas rapidamente”.

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O JOVEM

Pablo Nunes Meireles está impaciente em seus chinelos no deque do mini barco ecológico, ansioso para demonstrar como ele aprendeu a ajudar a policiar as águas de sua cidade natal. Ele é um menino robusto de 14 anos com óculos de hastes pretas, segurando uma pequena rede de pescar de cabo longo, junto com seu otimismo natural, e que é, atualmente, sua arma mais eficiente contra as condições desastrosas ao seu redor.

O barco começa a se mover, escavando o lixo da superfície em seu compartimento central. O jovem baixa sua rede, com suas cordas amareladas pelo uso, através de uma escotilha aberta e ergue-a para dentro do barco, esvaziando seu conteúdo (uma caixa de suco, uma embalagem de plástico, lixos diversos) em uma lata. Com suas mãos desprotegidas, ele retirou com a maior naturalidade uma camisinha usada do aro da rede e atirou-a na lata. Ser um bom cidadão nem sempre é bonito.

Pablo e seu meio-irmão mais velho Hugo moram em um bairro do estado do Rio chamado Jurujuba, do outro lado da baía da cidade do Rio, adjacente ao município de Niterói. A mãe de Pablo, uma professora, é casada com o pai de Hugo, um pedreiro.

Sua casa de estuque e blocos de concreto fica no topo de um morro em um bairro chamado Peixe Galo, uma favela sem aquela aura nefasta do interior da cidade, mas um local onde o crime e as drogas ainda ameaçam as vidas dos adolescentes. O cenário incorpora a justaposição dos ricos e dos pobres do Rio. A favela tem vista para o exclusivo iate clube Clube Naval Charitas, cujas quadras de tênis e piscina podem ser vistas através da espessa folhagem das casas construídas ao longo da encosta do morro.

Famílias como as de Pablo têm comodidades como TVs de tela plana, mas têm que construir suas próprias fossas sépticas. A água das torneiras e do vaso sanitário da família é despejada através de um pedaço de cano PVC que leva a uma máquina de lavar reaproveitada e cimentada, e depois é despejada na encosta. Outro cano espalha a água residual no chão.

As crianças no Peixe Galo e outros bairros em dificuldade na região têm acesso a um tipo diferente de oásis. Descendo o morro e atravessando a rua, temos o Instituto Rumo Náutico/Projeto Grael da família Grael, empoleirado acima da água em um antigo restaurante reformado e pintado em um tom cálido de ocre. Sua força motriz é o clã de velejadores mais proeminente do Brasil: o duas vezes medalhista de ouro olímpico Torben Grael, pai de Martine; seu irmão Lars, duas vezes medalhista de bronze; e seu irmão mais velho, Axel, cuja esposa, Christa, gerencia o instituto diariamente.

O programa ensina crianças carentes a partir dos 9 anos de idade a velejar. Ao se apaixonarem pelo vento, pelo mar e pela liberdade de escolher uma linha, a ideia é que eles aprendam a respeitar e cuidar do meio ambiente. Elas têm aulas, trabalham no barco ecológico dedicado do Projeto e aprendem ofícios como marcenaria, consertos com fibra de vidro e eletrônica.

“É a única coisa que temos”, Pablo se refere à Baía de Guanabara. “Acho que as pessoas que veem de fora enxergam algo como a sujeira, mas eu acho que dá pra consertar”.

Axel Grael é o vice-prefeito de Niterói e o antigo representante estadual de meio ambiente que participou de seu primeiro protesto antipoluição em 1980 pedindo para que os barcos de sardinha parassem de jogar vísceras de peixes na Baía de Guanabara. Desde então, ele tem visto alguns ciclos de ativismo e ímpetos de vontade que, em seguida, desaparecem.

“Se você comparar o Rio com todas as outras cidades olímpicas, não é a primeira vez que uma cidade olímpica não alcança seu objetivo”, declara Grael. “Mas, mesmo assim, tenho certeza de que o Rio de Janeiro será o pior percurso [de vela] olímpico já oferecido. É vergonhoso o fato de estarmos oferecendo condições tão ruins. Poderia ter sido muito melhor”.

Grael refere-se ao lixo jogado na Baía de Guanabara, não às possíveis doenças contraídas pelos velejadores. Ele não se lembra de alguém em sua extensa família que tenha ficado doente por causa da água e acredita que isso não será um problema para os atletas estrangeiros esse verão. Mas o lixo se tornou uma característica tão comum na paisagem marinha do Rio que ele tem que ser rastreado.

Ano passado, como parte de um plano estratégico maior, que incluía projetar as barreiras ecológicas que estão sendo construídas ao longo dos rios da região, o Projeto Grael ajudou a desenvolver um modelo inteligente para localizar os resíduos formados na Baía de Guanabara, utilizando boias com GPS para mapear as correntes. “A ideia era prever [com um dia de antecedência] onde o lixo estaria no dia seguinte”, declara Grael. “Os barcos [ecológicos] são muito lentos. Eles começam a funcionar às 8 horas da manhã. Se tiverem que localizar as faixas de resíduos, quando as encontrarem, já é hora de parar para almoçar”.

Os pequenos e bravos barcos ecológicos são melhores do que nada, mas eles são apenas curativos em uma ferida aberta. Velejadores como Brad Funk, um atleta dos EUA que compete na classe 49er, tiveram que se tornar peritos em tirar sacolas plásticas e outros objetos de lemes e quilhas o mais rapidamente possível.

“Em [outros] lugares, algas ficam presas”, declara Funk após um dia de prova na Baía de Guanabara em dezembro. “É só uma parte do nosso esporte. Mas, com certeza, aqui isso acontece mais, e certamente mais barcos são necessários por lá.

“Você anda em ziguezague pelo lixo e fica imaginando onde o centro do seu barco está, tentando desviar de pedaços de móveis ou de sacos de lixo ou de animais, etc. Em seguida, tudo é bonito e azul e você está aproveitando a brisa. Pode se tornar uma prova de obstáculos. Principalmente quando chove”.

O teste da Associated Press indicou altos níveis de contaminação por vírus na baía, mesmo distante da costa, nos percursos de prova. Mesmo assim, os velejadores dizem que amam o cenário singular do Rio e seus desafios mais puros de vento e correntes, e nenhuma consideração séria foi dada a um local alternativo. Peter Sowrey, antigo CEO do órgão regulador mundial de navegação, relatou à Associated Press que ele foi destituído do cargo apenas cinco meses depois de assumi-lo no ano passado porque insistiu neste assunto. A federação nega seu relato e não foi possível entrar em contato com Sowrey para fornecer mais comentários sobre a questão.

Mesmo no pequeno e lindo porto onde o instituto de Grael está localizado como um farol, há resíduos visíveis na água. Próximo de uma praia há alguns metros de distância, uma boneca flutua de rosto para baixo, com roupas rasgadas, cabelo espalhado de forma irregular ao redor da cabeça. É uma forma humanoide perturbadora, uma réplica muda, no melhor dos esforços.

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O BIÓLOGO

A bordo do barco de 10 metros, passando vagarosamente pela Marina da Glória, adjacente à área onde os velejadores olímpicos partirão, Mario Moscatelli está na popa, segurando uma câmera Canon com um objetiva longa. Ele aponta-a para a superfície da água quando encontra objetos flutuantes que parecem ter a cor e a consistência de matéria fecal. “Mer…. Mer…. Um monte de mer…”, declara ele posteriormente perante a câmera, enfatizando as consoantes como um tarol.

O biólogo usa tamancos de plástico, calças azuis de camuflagem, um colete com vários bolsos e um boné com o emblema da USCSS Nostromo, a espaçonave do filme “Alien”.

“Eu amo ficção científica”, declara Moscatelli em um inglês inconstante, mas determinado. “Adoro ‘Star Wars,’ ‘Alien,’ ‘O Exterminador do Futuro.’ Tenho minha mitologia sobre os problemas ambientais. Tenho um relacionamento entre a minha realidade e os filmes. É [assim] que minha mente funciona”. Ele aspira. “Porque eu combato toda essa situação”.

Moscatelli leva a poluição para o lado pessoal, como se ela fosse baba escorrendo da boca de um monstro que ameaça sua família. Na sua contagem informal, esse tour com a equipe do Outside the Lines será sua 15ª caminhada pré-Olimpíadas com repórteres, que são muito mais receptivos à sua mensagem do que seus compatriotas, diz ele. Às vezes, seus protestos atraem meros 15 ou 20 obstinados. “Eu não entendo o que se passa na cabeça dos cariocas”, declara.

Ele tem uma aliada em uma antiga colega de escola e amiga, a microbiologista Rosemary Vega, que participou de suas manifestações. Vega, uma mulher pequena e vigorosa que trabalha em um laboratório de hospital, cresceu nadando na praia do Flamengo, no coração da cidade. Ela não entra na água em nenhum lugar do Rio há oito anos porque tem medo do que há nela.

Sua preocupação aumentou após ler um artigo de uma publicação científica de 2014 que dizia que estirpes de bactérias resistentes a antibióticos (tipos normalmente encontrados em ambientes hospitalares, os mesmo que ela estuda em seu laboratório) foram encontradas em amostras singulares de água retiradas das praias do Flamengo e de Botafogo. “Elas passaram por mutações genéticas para se tornarem resistentes”, Vega declara. “Sempre digo aos alunos, ‘Sabe, elas são muito mais espertas que nós. Elas querem preservar a sua espécie”.

Moscatelli quer passar por áreas mais distantes da baía onde o lixo é depositado no litoral pelo vento e pela maré. O barco passa vagarosamente pelo aeroporto doméstico, pela área do centro da cidade e pelo impressionante perfil em formato de ondas do novo Museu do Amanhã. Em Duque de Caxias, uma comunidade onde o tratamento do esgoto quase não existe, a maré é muito baixa e não permite o acesso ao litoral, mas o mau cheiro do lodo é auto-explicativo.

Na ilha de Pombeba, o mau cheiro é, de forma impressionante e asfixiante, pútrido. Moscatelli aponta para o outro lado de pântanos negros, onde há um conjunto de árvores de mangue, apenas algumas das milhares que ele plantou em águas comprometidas ao redor do Rio, na esperança de que as toxinas da água filtradas por elas sirvam como uma ação de prevenção contra aqueles que a envenenam, os stormtroopers da sua narrativa.

Flores rosas claras florescem incongruentemente na cobertura do solo do caminho. Um bulbo fluorescente explode sob os pés. Na margem da vegetação há uma faixa de detritos. Uma área pequena, andando por uma área pequena catalogamos papéis de bala, um sutiã preto sem alça, um pneu, um para-choque de carro, um bola de futebol em miniatura murcha, uma carteira de criança rosa choque, um boneco troll sem cabeça, um animal de brinquedo com uma camisa de futebol do Brasil nº 8, uma mala com rodinhas cinza rasgada e manchada, uma mochila cheia de areia, uma chuteira com uma sola parcialmente descolada, uma lata de leite em pó, uma roda de carrinho, um tubo de pasta de dente e dezenas de sacolas, copos e garrafas plásticas que antes tinham refrigerante, enxaguante bucal, mostarda e produtos de limpeza para a casa, os principais ingredientes da “sopa” que van Rijsselberghe e outros deploram.

Uma bolsa pequena de zíper com um design em marrom e branco destaca-se entre os objetos cotidianos. Dentro dela há um RG com a fotografia e a impressão digital de uma mulher de 76 anos de idade e outros itens pessoais, encharcados e permeados pelo mesmo odor rançoso que o resto do lixo anônimo. Seu nome é bastante comum e não há endereço. Uma busca on-line por ela foi inútil. Não há como dizer se ela ainda está viva ou qual a distância que seu rosto plastificado possa ter viajado pelas correntes da baía.

A PRAIA

Na sombra de um guarda-sol perto do arco de chegada-partida da corrida Rei e Rainha do Mar, o atleta de nado em mar aberto, Chip Peterson, senta calmamente com a colega de equipe Christine Jennings. Uma multidão alegre e faladora se reúne perto do promontório na extremidade sul da praia de Copacabana, esperando para ver Peterson e o restante da equipe profissional, apenas por convite, que inclui antigos e potenciais atletas olímpicos.

Trajetos para nado de 10 quilômetros e etapa de nado do triatlo olímpicos serão definidos em agosto em relação a essa justaposição dramática do mar e das montanhas e prédios clareados pelo sol que delineiam a forma de meia-lua da areia como uma faixa de pérolas irregulares. Independentemente do cenário fotogênico, Copacabana dispõe de uma área protegida em frente à praia, agitada pelo vento e pela maré, mas não exposta como os vizinhos Ipanema e Leblon.

Peterson, de 28 anos, veio para o Rio pela primeira vez em 2007, para competir nos Jogos Pan-Americanos. Ele tinha vencido um campeonato mundial de 10 km como um jovem precoce de 17 anos e estava desejoso por um início no evento olímpica inaugural em Pequim 2008.

A poucos meses da prova, os médicos disseram a Peterson que ele tinha colite ulcerosa, uma doença crônica do intestino cujas crises exigiam hospitalizações cada vez mais longas. A doença fez descarrilar as tentativas dele de participar de duas equipes olímpicas sucessivas. Peterson decidiu então optar por ter o cólon removido. Uma vez recuperado, ele retomou as competições de elite, mas ficou aquém na sua candidatura para se qualificar para o Rio.

Pesquisadores acreditam que tanto o fator genético quanto o fator ambiental influenciem a doença. Peterson não pode provar que a água daqui o prejudicou, mas a suspeita aumentou quando a sua colega da equipe dos EUA, Kalyn Keller Robinson, soube que sofria de uma condição relacionada, a doença de Crohn, depois da mesma prova em 2007. Ela se aposentou pouco depois. Eles não sabem de nenhum outro nadador que tenha sido afetado de forma semelhante. Eles são um conjunto misterioso de dois.

Por que Peterson mergulharia novamente em águas que poderiam lhe custar tanto? Pela mesma razão pela qual muitos atletas irão se arriscar nesse verão: O risco é menos significativo do que a possível recompensa. “De certa forma, eu acho que o pior aconteceu, e talvez um raio não caia duas vezes no mesmo lugar”, diz Peterson que também competiu no Rio em 2014. “Não existe forma de saber se isso não teria sido desencadeado em algum outro lugar em algum outro momento.

“‘Vale a pena ter um pouco de diarreia por uma medalha de ouro’ é algo que eu ouvi de atletas por lá”.

A investigação da Associated Press encontrou níveis de bactéria em Copacabana dentro da faixa aceitável, menos alarmante do que na baía de Guanabara ou na lagoa, e detectou níveis baixos de contaminação por vírus no último mês de agosto. Os testes do governo mostram que ela está quase sempre adequada para o nado.

Luiz Lima, duas vezes membro da equipe brasileira de nado olímpico, treina diariamente em Copacabana com um clube chamado Gladiadores, e diz que se sente perfeitamente seguro. “O problema é o lixo”, diz ele perto da beira da água. “As pessoas no Brasil não jogam o lixo na lixeira”.

Steven Munatones, fundador e organizador da prova internacional de mar aberto da World Open Water Swimming Association, há muito tempo fez várias viagens ao Rio e diz que a qualidade da água (tendo em conta sabor, cheiro, visibilidade e a sua própria falta de sintomas) geralmente é muito boa. Das cerca de aproximadamente 60 vezes que nadou em Copacabana, ele se lembra de apenas um dia as condições estarem, conforme ele diz, “nojentas”.

Os atletas do nado em mar aberto, uma classe de atletas autossuficiente, lidam frequentemente com águas inseguras no Rio e em outros lugares aplicando Vicks VapoRub nas narinas como uma barreira contra o odor antes da prova, utilizando enxaguante bucal para matar os germes ou bebendo Coca-cola sem gás para acalmar seus intestinos. Os nadadores alemães Christian Reichert e Angela Maurer dizem que confiam em um shot de Jagermeister nas noites depois das provas. Jennings, que recentemente se aposentou da competição de elite, diz que ela e outros atletas algumas vezes recorriam a antibióticos de prevenção.

Munatones diz que existe um cenário pior para as provas olímpicas em Copacabana, que podem acontecer caso três fenômenos naturais ocorram ao mesmo tempo: chuvas fortes nos dias anteriores que levariam o escoamento de água das ruas espalhando-o pela areia, vento nordeste carregando o lixo da baía, e uma maré baixa que faria com que lixo e bactérias ficassem presos na área da prova. Ele menciona que agosto cai em uma época seca e que as chances de o vento e a maré estarem apenas certos ou apenas errados são relativamente baixas.

A FINA, órgão governamental internacional de natação, rastreou os atletas depois do do evento de teste dos 10 Km e relatou que nenhum deles ficou doente. No entanto, o dia da prova estava ventoso, e o árbitro oficial brasileiro de natação, Ricardo Ratto, diz que os últimos seis anos de dados meteorológicos mostram que aquela semana específica em agosto é a pior do ano.

Não existe um local de contingência e as provas de mar aberto e triatlo estão concentradas na segunda semana dos Jogos. O triatlo feminino está programado para o dia anterior à cerimônia de encerramento. Se as qualidades e condições da água se deteriorarem, será difícil para as autoridades se posicionarem.

Nadador de mar ao longo da vida e filho de um biólogo marinho, Peterson diz que os problemas da água do Rio precisam ser tratados por razões muito além da história dele.

“Nós estamos colocando muita ênfase nisso pois existe uma prova onde 50 atletas estão competindo, mas é uma cidade de 6 milhões de pessoas que não possui o mesmo nível de tratamento da água e todas as comodidades às quais nós estamos tão acostumados nos EUA”, diz Peterson. “Globalmente, bombear o esgoto para dentro do ecossistema não vai fazer bem para ninguém nas gerações que estão por vir”.

ESPN.COM

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A LAGOA

Andrew Kallfelz, que remou pela Cornell University no final dos anos 80, temeu pelo que as suas duas filhas poderiam encontrar quando elas competiram na categoria júnior dos campeonatos mundiais de remo, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no último mês de agosto. Ele já tinha lido os relatórios da Associated Press e visto imagens das mortes periódicas de peixes, que cobriam totalmente a superfície da água com carcaças cinza.

Ele teve uma surpresa agradável. “Nós chegamos lá achando que aquilo seria um esgoto e foi maravilhoso”, diz Kallfelz. “Eu não vi lixo nenhum e não tinha cheiro ruim”.

Ainda assim, tendo em conta o que poderia estar escondido a nível microscópico, foi um pouco perturbador ver a sua filha de 16 anos, Eliza, virar e subir de novo para dentro do barco enquanto competia nas semifinais da prova de skiff simples. “Eu acho que teve um momento de ‘Ai meu Deus, agora estou flutuando nisso”, disse seu pai. Mas Eliza se manteve saudável, enquanto membros da delegação dos EUA, que não tinham tido nenhuma exposição direta à água, ficaram doentes.

Foi uma jornada estressante para a equipe júnior dos EUA, que virou o foco de um interesse intenso quando 13 atletas e 4 membros da comitiva ficaram doentes durante a prova, com períodos de vômito e diarreia. Os sintomas de nenhum outro time no Rio foram tão graves. O médico local da equipe e uma técnica (Susan Francia, duas vezes medalhista olímpica de ouro e que também foi afetada) disseram na época à The Associated Press que suspeitavam que a água contaminada tenha sido a culpada.

A história explodiu novamente em dezembro quando um membro de longa data do COI, Anita DeFrantz, contou ao programa de rádio Mike & Mike, da ESPN, que os jovens remadores tinham sofrido uma intoxicação alimentar através do consumo de sorvete. Mais tarde ela pediu desculpas por passar informações erradas. O CEO do remo dos EUA, Glenn Merry, diz que uma análise interna não conseguiu estabelecer nenhuma ligação em comum entre os casos.

Jo Hannafin, médica de longa data do remo dos EUA, diz que a sondagem junto de outros times também não trouxe respostas. “Os EUA foram o destaque quando olharam para os dados no quadro”, diz ela. Para evitar que o episódio se repita, a federação está confiando nas diretrizes dos Centros de Controle de Doenças e da comissão médica da FISA, o órgão governamental internacional do esporte.

A lagoa, que possui a forma de uma rechonchuda letra C, fica ao norte da praia de Ipanema, sob a montanha em cujo topo está a estátua de braços abertos do Cristo Redentor. Um canal liga a sua margem sul ao oceano. Autoridades governamentais testam a água da lagoa em seis locais diariamente para verificar o nível de bactéria E.coli e determinar se o contato secundário (remo, pescaria e vários tipos de navegação) é recomendado. Algumas vezes a visualização da lagoa codificada por cores publicada on-line é totalmente verde por dias; às vezes é vermelha; às vezes é de ambas as cores. O teste da Associated Press no ano passado encontrou níveis mais altos de contaminação por vírus lá do que em qualquer outro local, 16 vezes maior que a contagem de coliformes fecais permitida para contato secundário, de acordo com a lei nacional.

Os Estados Unidos enviarão 48 remadores para o Rio, e eles estarão tão prevenidos e precavidos quanto a federação puder deixá-los, começando pelos frascos de compressão com desinfetante para as mãos, que serão distribuídos no voo para o Brasil.

Hannafin diz que tem sido solicitado aos atletas que tomem vacinas contra a hepatite A e doses de reforço contra a poliomielite, e medicação oral contra a febre tifoide. Os punhos dos seus remos serão limpos com água sanitária e as embarcações lavadas por dentro e por fora após cada sessão de treino ou competição. Os acessórios serão lavados em uma temperatura alta o suficiente para matar micróbios. As “track bites” (feridas que os remadores têm nas panturrilhas por causa dos assentos deslizantes) serão limpas e cobertas para reduzir a chance de infecção. Os probióticos selecionados pelo USOC farão parte do cronograma de treinamento.

Como um todo, as medidas são mais extensas do que as que o time de remo dos EUA tomou no passado, mas elas também são claramente de bom senso para qualquer atleta de elite que viaja consideravelmente. As autoridades estão tentando ver a nova conscientização como uma coisa positiva. “Isso aumentou a preocupação de todos”, diz Curtis Jordan, diretor do remo de alta performance dos EUA. “Nós teremos a atenção da população quando lhe dissermos como lidar com a questão da higiene”.

Jordan viu os juniores alemães comemorarem no mundial no Rio pulando na lagoa e não tem a certeza de que poderia impedir os atletas olímpicos de fazer o mesmo. “Eles só não podem pular antes”, diz ele.

ESPN.COM

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

A VISÃO A LONGO PRAZO

As Olimpíadas de Londres 2012 encerraram com a tradicional convocação, chamando a juventude do mundo todo para se reunir em 2016. E ela está vindo para o Rio de Janeiro, conduzida pela projeção daqueles momentos que só acontecem de quatro em quatro anos. Eles se arriscarão nessas águas enquanto os responsáveis pelas decisões olímpicas assistem a tudo com um certa distância de segurança, esperando que o seu próprio tiro não saia pela culatra.

O evento sonda todas as fraquezas de um país anfitrião. Os sem-teto e a população carente são constantemente deixados de lado. Os edifícios cuja durabilidade era considerada longa, no fim das contas estão vazios. As contas se acumulam. No caso do Rio, projetos financeiros necessários, tais como novas estradas e transporte público, são contrabalançados pelo que não foi feito: a oportunidade perdida de mudanças incisivas na parte mais fundamental da sua identidade.

Leonardo Espíndola, chefe do gabinete do governador do Rio de Janeiro, insiste que os Jogos não são uma linha de chegada e que as iniciativas governamentais irão continuar.
“Os Jogos também serviram de ignição para chamar a atenção de todos, de toda a sociedade (não apenas no Brasil, mas também em diversos lugares ao redor do mundo) para a importância da Baía de Guanabara”, disse ele para o Outside the Lines. “Então talvez esse seja o legado principal, o fato de termos chamado a atenção, de não termos desistido da Baía de Guanabara e de estarmos mostrando que é possível ter uma baía que está pronta para os Jogos Olímpicos”.

A autora Barbassa diz que não está convencida e tem curiosidade em saber se será atingido um momento crítico onde a sua cidade litorânea poderia ficar virtualmente sem litoral.

“Se você vem aqui e se entrega a esse lugar, você definitivamente se apaixona por ele, e dói vê-lo nessas condições”, diz ela.

“Se você quiser pensar em quem são as vítimas, são as crianças que têm de crescer perto dessas coisas, que não podem desfrutar do ambiente onde vivem sem sofrer uma grave ameaça à sua saúde”.

O último local que Moscatelli quer visitar no seu tour, fica bem no meio do ecossistema da Rio 2016, a 3 quilômetros da Marina da Glória, a apenas um quilômetro e meio de Copacabana. Em um mapa turístico oficial, um guarda-sol inclinado para um lado (o símbolo universal para caminhar e nadar) assinala a praia de Botafogo. Na vida real, os pombos bicam uma camada de lama onde a areia se encontra com a água. Tufos de algas apodrecendo balançam levemente na parte rasa. Lixo e grafite estão espalhados aleatoriamente do outro lado do enrocamento. É um dia de céu limpo, 32 graus, início do período nacional de férias, mas essa praia está vazia, cronicamente declarada como insegura para uso recreativo (link para dados de testes da praia) Um par de traves de futebol a ocupam como sentinelas solitárias.

A água perto da costa na área confinada é calma. Conforme a equipe de câmera se aproxima das vísceras encardidas de uma grande e retangular calha de águas residuais filmando a partir de uma pequena embarcação inflável, um homem passa de bicicleta na ciclovia suspensa e grita: “Mostrem para todo mundo esse lixo”.

Saindo de Botafogo, a lancha para por estriamentos de água limpa e resíduos. Na sua popa, redemoinhos giram com uma espuma indefinida no seu rastro. “Onde está o barco ecológico?” Diz Moscatelli, encolhendo os ombros para dar ênfase. “É impossível”.

Mais a frente, velejadores em formação passam rapidamente na Baía de Guanabara. Barcos de lazer limpos flutuam no porto sob o perfil majestoso e elevado do Morro do Pão de Açúcar. Um bondinho transporta os turistas pelo ar do seu cume a 396 metros de altura até perto do Morro da Urca, que está 152 metros abaixo. A vista é espetacular e imaculada a partir de lá.

Fiocruz mapeia a vulnerabilidade de municípios às mudanças climáticas

[TEXTO ORIGINAL]

RIO – Diz a antiga anedota que o clima na Amazônia só existem duas estações: a que chove o dia todo e a que chove todo dia. A verdade, claro, é muito mais complexa que isso, mas outro fato é que, de acordo com as principais projeções feitas até agora, a região será uma das que mais vai sofrer com o aquecimento global. Dependendo do cenário para a evolução das emissões mundiais dos gases do efeito estufa, em algumas áreas a expectativa é de que até o fim do século a temperatura média suba em cerca de sete graus Celsius, enquanto as precipitações podem se reduzir em mais de 40%, com longos períodos de estiagem que colocam em risco o delicado equilíbrio do bioma e, consequentemente, as populações que nele vivem.

E foi justamente em busca de dar uma dimensão humana a estes números das mudanças climáticas que uma equipe de pesquisadores coordenada por Ulisses Confalonieri, do Centro de Pesquisa René Rachou da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belo Horizonte, cruzou os dados das previsões para o futuro do clima na região entre 2041 e 2070 com informações sobre a realidade social, econômica, ambiental e de saúde atual dos 62 municípios do estado do Amazonas para não só verificar o quão vulneráveis eles estão às possíveis alterações nos padrões do tempo como identificar quais são estas vulnerabilidades.

Segundo Confalonieri, o objetivo é ajudar os governos locais, estaduais e federal a priorizarem investimentos e melhor alocarem recursos em projetos que visem preparar os municípios às mudanças esperadas sobre três pilares: sua sensibilidade, que leva em conta fatores como pobreza, taxa de infecção por doenças associadas ao clima e situação demográfica (proporção de idosos na população, de famílias chefiadas por mulheres ou país muito jovens etc); sua exposição, que inclui o grau de preservação do ambiente e manutenção da cobertura vegetal e o histórico de eventos extremos, como secas ou inundações; e sua capacidade de resposta, ou seja, a qualidade da infraestrutura e instituições de cada município, como saneamento básico, acesso à água potável e a existência, ou não, de um departamento de Defesa Civil.

– A ideia deste índice de vulnerabilidade climática é guiar a tomada de decisões relativas a projetos e investimentos em políticas de adaptação às mudanças climáticas – diz Confalonieri, cujo grupo também vai publicar em breve resultados de levantamentos semelhantes para cinco outros estados: Espírito Santo, Pernambuco, Paraná, Maranhão e Mato Grosso do Sul. – Mas mais do que saber que município dentro de um determinado estado vai precisar de mais investimento e qual vai precisar de menos, os tomadores de decisão saberão também o porquê de alguns estarem em pior situação que outro, como se ele tem uma capacidade de resposta baixa por falta de infraestrutura ou tem uma exposição maior por ser mais sujeito a inundações para que se planeje sua proteção e se faça a prevenção dos efeitos dos eventos climáticos.

Aluna de doutorado no René Rachou e integrante da equipe responsável pelo estudo, Júlia Menezes destaca que o novo índice vai além dos indicadores de vulnerabilidade municipal já usualmente calculados pela Fiocruz hoje exatamente por incorporar uma dimensão climática à análise. Assim, por exemplo, se um município atualmente costuma enfrentar alagamentos e está preparado para isso, mas fica em uma região que no futuro do clima verá muito menos chuvas, os governos devem então investir adaptá-lo para um cenário de estiagem, e não de mais inundações.

– A mudança do clima é uma realidade e vai acontecer – lembra. – Construímos então uma ferramenta para que os governos saibam quais são suas deficiências de hoje em relação aos cenários futuros do clima, o que podem fazer para a população sofrer menos lá na frente. E como estas projeções são incertas, o melhor é se preparar.

 

Amigos, amigos, negócios à parte. É o recado a Evo Morales

[TEXTO ORIGINAL]

26/01/2006

CARACAS – Antes da mais nada, muito sangue indígena e camponês manchou os paralelepípedos das ruas de Cochabamba, La Paz e El Alto antes do pleito histórico que elegeu Evo Morales presidente da Bolívia. Tombaram bolivianos na luta contra a privatização da água em Cochabamba, em 2000, em 2003 na luta contra a taxação do salário mínimo, sugerida pelo FMI e que acabou derrubada por um levante de dois dias e um saldo de 30 mortos, e na guerra contra a privatização do gás, que custou 100 vidas. Houve um levante contra a multinacional Suez, em El Alto, que levou ao rompimento do contrato de privatização da água no ano passado, e dois foram os presidentes derrubados pela pressão popular.

Liderança da guerra da água de 2000 em Cochabamba, Oscar Oliveira fez questão de relembrar estes fatos em um debate quarta-feira (25) sobre a vitória de Evo, ao enviar um recado não só aos entusiastas como ao próprio companheiro e agora chefe de Estado: não foi um presidente que foi eleito, mas sim um projeto político. Que está acima de qualquer individualidade ou representação institucional.

A sinalização de que os movimentos sociais mais organizados da Bolívia – inclusive aqueles em cujas fileiras Evo se formou liderança nacional em um passado recente – devem se manter autônomos e independentes em relação ao governo é um aviso claro de que o presidente está em um ambiente político no qual qualquer deslize pode transformar a comemoração dos movimentos sociais por sua vitória em novo período de instabilidades e, por que não, gerar um outro levante contra o governo.

No cerne deste posicionamento, explica Oliveira, está a preocupação de que não se repita na Bolívia o que aconteceu basicamente no Equador com Lucio Gutierrez – apoiado e derrubado pelo movimento indígena -, no Brasil com Lula e no Uruguai com Tabaré Vasquez.

“A principal reflexão que devemos fazer é onde estão nos levando as mudança de governos. Se isso mudou a vida das pessoas, se combateu o neoliberalismo, se aumentou a participação popular. Temos que avaliar isso. Se não aconteceu, é só reformismo que mantém a estrutura de exploração. Nós na Bolívia não vamos aceitar simples reformas. Vamos apoiar o governo enquanto fizer transformações. Não queremos ser uma Argentina, um Brasil ou um Uruguai onde só ha desânimo entre as organizações sociais”, avisa Oliveira.

A prova de fogo para Evo está bem clara: terá que nacionalizar os hidrocarburos e convocar uma assembléia constituinte nos próximos cinco meses. “E não aceitamos esse discurso de nacionalização responsável, de que há multinacionais bandidas e não bandidas. Todas são, inclusive a Petrobrás, que nos desculpem nossos amigos brasileiros”, afirma Oliveira.

Contrato de casamento
A semelhança do momento boliviano com o que o Brasil viveu em 2002 com a eleição de Lula não está apenas na origem dos dois presidentes, ambos advindos do movimento popular, ou na comoção internacional que causaram. A mesma responsabilidade que a esquerda brasileira outorgou a Lula na época é dada agora a Evo pelo movimento indígena. “Evo é um companheiro de rua e rebeldia, e se fracassar ninguém mais acreditará em nós”, pondera Humberto Cholango, líder da Confederação das Nações Indígenas do Equador (Conaie). “Nesse momento, a responsabilidade é da Bolívia e de seus movimentos, que devem ser fiscalizadores de seu governo”.

Segundo Cholango, a “Evomania” que vem tomando conta da região andina já está suscitando no Equador a procura por um próprio candidato indígena, mas ele alerta: não é um presidente indígena que vai resolver, é o projeto político. “Descolonizar um país é refundar e reestruturar um novo sistema político, econômico e social. E temos que ter em conta que a oligarquia não estará disposta a perder”.

Román Loayza, líder da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia, também reforça a perspectiva de que está em jogo, na Bolívia, a implementação de um projeto gestionado pelos movimentos sociais por anos. A consolidação deste processo, defende Loayza, será acima de tudo a nova assembléia constituinte, já aprovada pelo Congresso. “É uma questão de vida ou morte, definirá como se administrará o Estado e seus recurso naturais. E não acho que ‘el hermano’ Evo Morales nos trairá. Com o que viu com seus olhos e escutou com seus ouvidos não nos trairá”.

Inquietações
A forma como vão se relacionar os movimentos sociais com o governo ainda é um fator preocupante para Oscar Oliveira. Convidado pelo presidente eleito para assumir o ministério do Trabalho, declinou em nome de uma autonomia imprescindível, em sua avaliação, para validar o projeto político que sustentou a eleição de Evo. A “cooptação” de outras lideranças pelo governo, principalmente em El Auto, para ele é um fator preocupante, assim como preocupam recentes ruídos no diálogo dos movimentos com o governo e uma aparente relutância em chamar os atores sociais para o debate sobre as decisões governamentais.
“Estou muito preocupado, e não queria expressar isso neste Fórum e diante de tanta gente tão esperançosa, mas o grande perigo que vejo no governo de Evo Morales é a intenção demonstrada nas últimas semanas de cooptar todos os movimentos. Se perdermos a autonomia, essa capacidade inventiva, de proposição, de mobilização autônoma, para construir nossos próprios espaços políticos às margens do aparato estatal, vejo um processo muito perigoso para Evo Morales. Essa capacidade do movimento indígena e camponês de se mobilizar é a nossa grande força para a construção de um novo projeto, que, creio, é irreversível. Se alguém quiser contestar essa força, vai haver novamente levantes e mortes”.

Oliveira também detectou atritos com o próprio MAS, que estaria se opondo fortemente à idéia de realização de uma assembléia dos movimentos sociais em fevereiro para preparar e discutir a Assembléia Constituinte. “Não vamos esperar sentados seis meses à espera da Constituinte. Estamos sentindo um certo autoritarismo por parte do governo, uma falta de abertura para o diálogo, que não nos chega com um bom sinal. O que queremos dizer é que há um perigo de fracasso se Evo não realizar todas as mudanças estruturais nesses primeiros meses de governo, quando tem todo o apoio popular, uma popularidade que chega a 70%. Essa é nossa demanda”.

RESPIRANDO DO CARBURADOR DE UM CARRO

[texto original]

The scene could be straight from a science-fiction film: a vision of everyday life, but with one jarring difference that makes you realise you’re on another planet, or in a distant future era.

A sports class is in full swing on the outskirts of Beijing. Herds of children charge after a football on an artificial pitch, criss-crossed with colourful markings and illuminated in high definition by the glare of bright white floodlights. It all seems normal enough – except for the fact that this familiar playground scene is taking place beneath a gigantic inflatable dome.

“It’s a bit of a change having to go through an airlock on the way to class,” says Travis Washko, director of sports at the British School of Beijing. “But the kids love it, and parents can now rest assured their children are playing in a safe environment.”

The reason for the dome becomes apparent when you step outside. A grey blanket hangs in the sky, swamping the surroundings in a de-saturated haze and almost obscuring the buildings across the street. A red flag hangs above the school’s main entrance to warn it’s a no-go day: stay indoors at all costs. The airpocalypse has arrived.
A sports class inside the inflatable clean-air dome at the British School of Beijing.

Beijing’s air quality has long been a cause of concern, but the effects of its extreme levels of pollution on daily life can now be seen in physical changes to the architecture of the city. Buildings and spaces are being reconfigured and daily routines modified to allow normal life to go on beneath the toxic shroud.

Paper face masks have been common here for a long time, but now the heavy-duty kind with purifying canister filters – of the sort you might wear for a day of asbestos removal – are frequently seen on the streets. On bad days, bike lanes are completely deserted, as people stay at home or retreat to the conditioned environments of hermetically-sealed malls. It’s as if the 21-million-strong population of the Chinese capital is engaged in a mass city-wide rehearsal for life on an inhospitable planet. Only it’s not a rehearsal: the poisonous atmosphere is already here.

The British School is the latest of Beijing’s international colleges to go to the drastic lengths of building an artificial bubble in which to simulate a normal environment beneath the cloak of smog. Earlier this year, the nearby International School of Beijing lavished £3m on a pair of domes covering an area of six tennis courts, with hospital-grade air-filtration systems, following the lead of the Beijing satellite of exclusive British private school Dulwich College, which opened its own clean-air dome last year.

“Pollution is what all the parents are talking about,” says Nicole Washko, Travis’s wife, who also works at the school where their two daughters go, too. “More and more ex-pat families are leaving this country for the sake of their kids’ health. So if all the other schools have a dome, then we’ve got to have a dome.” A non-toxic learning environment is perhaps the least parents might expect, when they’re paying £20,000-a-year fees.

The British School has recently undergone a complete filtration overhaul, as if preparing for atmospheric armageddon, with new air curtains installed above the doors and almost 200 ceiling-mounted air purifiers put in to complement the floor-standing kind in each classroom. Windows must remain closed, and pupils must adhere to the strict air safety code. Reception classes stay indoors when the air quality index (AQI) hits 180 – measured on an official scale of 500 by various sensors across the city. For primary kids the limit is 200, while the eldest students are allowed to brave the elements up to 250. Anything above 300 and school trips are called off. The World Health Organisation, meanwhile, recommends a safe exposure level of 25.

“We were finding our sports fixtures were being cancelled so often, and kids were getting cabin fever from being kept in doors so much of the time,” says Travis Washko. “But now we have the dome, it’s perfect weather all year round.”

The day I arrive in Beijing, the AQI hits 460, just 40 points away from maximum doom. It’s the kind of air that seems to have a thickness to it, like the dense fug in an airport smokers’ cubicle. It sticks in the back of your throat, and if you blow your nose at the end of the day, it comes out black. Pedalling around the city (I am one of the only cyclists mad enough to be on the road) is an eerie experience – not just for the desolation, but for the strange neon glow coming from signs at the top of invisible buildings, like a supernatural, carcinogenic version of the northern lights. The midday sun hangs in the sky looking more like the moon, its glare filtered out by the haze.

Daily talk of the AQI has become a national pastime amongst ex-pats and Chinese locals alike. Air-quality apps are the staple of every smartphone. Chinese microblogs and parenting forums are monopolised by discussions about the best air filters (sales of the top brands have tripled over the last year alone) and chatter about holidays to “clean-air destinations” like Fujian, Hainan and Tibet.

This year’s Beijing marathon, held on a day that exceeded 400 on the scale, saw many drop out when their face-mask filters turned a shade of grey after just a few kilometres. Some said it felt like running through bonfire smoke. With such hazardous conditions increasingly common, it’s not surprising that foreign companies are now expected to pay a “hardship bonus” of up to 20 or 30% to those willing to work in the Chinese capital.

And yet denial still persists. Many Beijingers tend to use the word “wumai” (meaning haze), rather than “wuran” (pollution), to describe the poor air quality – and not just because it’s the official Newspeak of weather reports. It’s partly because, one local tells me, “if we had to face up to how much we’re destroying the environment and our bodies every day, it would just be too much.” A recent report by researchers in Shanghai described Beijing’s atmosphere as almost “uninhabitable for human beings” – not really something you want to be reminded of every day.
October’s Beijing marathon saw many competitors drop out because of the pollution levels.

When I first came to Beijing in 2003, as a volunteer English teacher, my students told me that the city’s air wasn’t nearly as bad as London’s. “We know about your ‘pea-soupers’,” they would say, conjuring images of ye olde England shrouded in Dickensian gloom, happily ignoring the murky haze outside their own classroom window (then more often caused by sand storms than coal-burning power plants). Ten years later, the same former students are all too aware of the problem.

“We never used to have days as bad as this,” says Li Yutong, who has recently returned to Beijing after several years studying in Australia and working in Hong Kong. “I used to play football outside and go running, but you just can’t do that any more. School kids seem to get sick more often now – and they’re much fatter because they don’t play outside.”

Our school was sited across the street from the national Centre for Disease Control and Prevention, which proved to be an alarming neighbour when SARS broke out and we watched the constant train of ambulances. Now its attentions have turned to an airborne threat of a different kind. In June, the centre released data which suggested that the average 18-year-old Beijinger will spend as much as 40% of their remaining years in ill-health – potentially suffering from cancer, cardiovascular or respiratory disease. Breaking the usual government silence on the issue, China’s former health minister, Chen Zhu, spoke out in January to reveal that between 350,000 and 500,000 people die prematurely each year here as a result of air pollution.

In response to mounting pressure, the government has introduced a host of new laws and regulations, increasing fines for environmental violations, and attempting to shut down high carbon-emission factories. But there is little to suggest any of their measures are having an effect.

“To be able to monitor these factories, local officials are supposed to visit them in person,” says Zhang Kai, lead campaigner on air pollution at Greenpeace East Asia. “But there is just no capacity to do that, and no policy in place to punish the polluting factories effectively.”
British artist Matt Hope has designed a ‘breathing bicycle’ which filters air as you pedal, then feeds it into your mask.

The national “airmageddon” has spawned a host of other attempts to solve the problem, ranging from the miraculous to the madcap. In the western city of Lanzhou, officially deemed by the World Health Organisation to have the worst air in China, officials have proposed digging great gullies into the surrounding mountains in the hope of trapping polluted air in a gigantic landscape gutter, like an atmospheric ha-ha. But Lanzhou’s poor air quality is caused less by burning coal and car fumes than by the local penchant for blowing up mountains with dynamite. More than 700 peaks are being levelled to provide swathes of flat land for development, and blowing out a huge gulley would only add to the problem.
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Other solutions proposed in Beijing have a more futuristic air. Environmental scientist Yu Shaocai has proposed fitting water sprinklers to the tops of tall buildings, to try and “wash” the smog out of the sky. “Water should be sprayed into the atmosphere like watering a garden,” Yu wrote in the journal Environmental Chemistry Letters, noting that most urban pollution hangs below 100m, so it could be caught by an artificial shower from the city’s taller towers. An expert in “wet deposition” (how rain can clean particles from the air), he thinks he’s got the science sorted, and the main challenge is just to “design the specific spray system that can spray a good raindrop size and [ensure] the most scavenging efficiencies for the air pollution.” But his hastily Photoshopped visuals of garden sprinklers stuck on top of skyscrapers don’t do much to inspire confidence.

In fact, wet deposition has long been hailed as a possible solution by higher powers, with their lofty pretensions to control the elements. China’s Meteorological Administration issued a paper last year which ambitiously declared all local officials would be able to use artificial rain to clear away smog by 2015. And as the Washington Post reported, the idea might not be so far from reality: because of chronic water shortages, China has invested heavily in artificial rain since the late 1950s. The country now boats a battery of 7,000 cloud-seeding artillery guns, the same number of launchers for chemical-bearing rockets, and more than 50 planes – all manned by an army of 50,000 employees, ready to launch full-scale warfare on the weather.
Daan Roosegaarde’s plan for a smog-free park uses buried coils of copper to create an electrostatic field that attracts smog particles.

At the other end of the scale are the initiatives that aim to affect people’s attitudes on the ground. Driven by an effort to raise awareness of the smog problem and spur the government into action, a host of critical art projects have been spawned. British artist Matt Hope has designed a “breathing bicycle”, a home-made Heath Robinson-style contraption that filters air as you pedal along and feeds it through a tube into a fighter-pilot breathing mask. Cycling around the hutong alleys, looking like Darth Vader being attacked by a hoover, he’s certainly attracted some funny looks.

“It’s a provocational prototype,” Hope says. “It’s pretty archaic, but then burning coal is pretty archaic too. It’s an intentionally ridiculous solution to a ridiculous problem.”

Another plucky Dutch designer thinks he can turn the pollution into a lucrative commodity. Over the past few months, Daan Roosegaarde has been meeting with the mayor of Beijing to talk through his plan for “electronic vacuum cleaners” to be installed in parks across the city, to suck smog from the skies. It might sound far-fetched, but he says his working prototype should be ready by next summer.

“I want to move away from statistics and the usual factsheet discussion,” says Roosegaarde, talking at excitable break-neck speed, a man on a mission. “If you create a place that’s 75% cleaner than the rest of the city, you create a powerful incentive for people to clean the whole city.”
Roosegaarde’s ‘smog ring’ houses 1,000 cubic metres of smog in a 1mm-cube carbon crystal.

His proposal, developed in partnership with scientists at the Technological University of Delft in the Netherlands, uses buried coils of copper to create an electrostatic field that attracts smog particles, creating a kind of halo of clean air above it. “It’s similar to how static electricity attracts your hair,” Roosegaarde says. “We charge the smog particles and suck them to the ground.”

He has also developed a mobile version which uses the same technology, but housed in a vertical totem-pole structure that sits atop a small temple-like pavilion, akin to those found in Beijing’s parks. It’s here where the real alchemy will happen. “We’re going to turn dust into diamonds,” Roosegaarde says. “We will condense a 1,000 cubic metres of smog down into a millimetre-cube carbon crystal – which we will set like a diamond on a ring.” When you buy a smog ring, he says, you’re effectively donating 1,000 cubic metres of clean air to the city.

“I like the idea that you can take a problem and turn it into something desirable,” Roosegaarde adds. “Of course it’s not a practical solution, but I’m hoping that smog jewellery will get people talking about the problem – and when they see these clear circles of blue sky above the parks, they’ll demand clean air for the whole city.”

The volume of discontent has been rising since Beijingers got a chance to see exactly what clear blue skies looked like last month, when miraculous weather was laid on for visiting world leaders, in town for the high-profile Apec summit. With the kind of draconian measures unseen since the 2008 Olympics, the entire region was locked down to guarantee clear skies for the precious week. Production in all factories within a 125-mile radius of the city was suspended, half the cars were banned from the roads, schools were closed, and public-sector workers were given compulsory holidays. No weddings were registered, no passports issued, no taxes paid, no fresh products delivered, and no banks open. Bodies went uncremated and burials were partly suspended.
A Chinese soldier enjoys the ‘Apec blue’ sky after Beijing imposed drastic measures to reduce pollution levels for the recent summit.

A Chinese soldier enjoys the ‘Apec blue’ sky after Beijing imposed drastic measures to reduce pollution levels for the recent summit. Photograph: Narendra Shrestha/EPA

The result? A climatic Potemkin facade of perfect blue skies – which soon became an internet meme, coining the term “Apec blue”.
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“It’s not sky blue or ocean blue. It’s not Prussian blue or Tiffany blue,” wrote one user of the microblogging site, Weibo. “A few years ago it was Olympic blue, and now it’s Apec blue.” It quickly came to mean something of fleeting, artificial beauty, probably too good to be true. “He’s not really into you,” went one recurring online saying. “It’s just an Apec blue.”

Returning to Beijing during the Apec week was like arriving in a completely different city. What had been a ghostly world of streets that disappeared if more than a block away, became a wide-open place of grand avenues terminating at distant mountains, visible for the first time.

And back at the British School, the smog dome was empty. Pupils were enjoying a rare outdoor lesson beneath a different kind of artificial roof – the crystal clear canopy of Apec blue.

H2O

[texto original]

Começou como uma brincadeira, mas o assunto é muito sério. Uma empresa canadiana que comercializa ar fresco engarrafado esgotou em apenas quatro dias o primeiro “stock” para a China, o país mais poluente do mundo. Pequim, aliás, emitiu a 8 de Dezembro, pela primeia vez na história, um alerta vermelho devido à situação ambiental.

A Vitality Air foi fundada no ano passado em Edmonton por brincadeira, como contou ao “Telegraph” Moses Lam, que fundou a “start-up” com Troy Paquette. Tudo começou quando os canadianos colocaram à venda no Ebay um saco de plástico cheio de ar. O primeiro leilão rendeu-lhes pouco mais de 50 cêntimos, mas o segundo saco já foi vendido por cerca de 150 euros. “Foi quando percebemos que há um mercado para isso”, disse Lam à publicação inglesa.

A empresa comercializa garrafas de oxigénio e de ar puro recolhido nas Montanhas Rochosas (em Lake Louise e Banff) na América do Norte, para a Índia e para o Médio Oriente, mas hoje é a China o seu maior mercado externo. E as vendas começaram há menos de dois meses. “O nosso primeiro carregamento de 500 garrafas de ar fresco foi vendido em quadro dias”, relata o empreendedor. A caminho estão mais quatro mil garrafas, a maioria já previamente compradas. O grande desafio é, agora, continuar a responder à elevada procura, até porque cada garrafa de ar fresco é enchida manualmente. Segundo a “CNN“, é o próprio Lam que, de quinze em quinze dias, faz uma viagem de quatro horas até ao Parque Nacional Banff e passa as dez horas seguintes a engarrafar ar.

Não se pense que é barato. De acordo com o site da empresa, uma garrafa de 7,7 litros de ar fresco ronda os 21 euros, enquanto que uma de três litros ronda os 12 euros (fora portes de envio). Percebe-se, por isso, por que é que são as mulheres chinesas com elevado poder económico as principais clientes, adquirindo estes produtos para as suas famílias ou para oferecerem como presentes. “Na China, o ar fresco é um luxo, algo muito precioso”, conclui, ao “Telegraph”, Harrison Wang, representante da empresa no país.

O “Telegraph” lembra que esta não é a primeira vez que se vende ar puro no país. No ano passado, o artista Liang Kegang arrecadou cerca de 700 euros por um frasco de vidro com ar que recolheu em Provence, França. E, já em 2013, um multimilionário chinês começou a vender latas de ar oriundo supostamente de zonas menos industrializadas do país: em dez dias, foram compradas 8 milhões.

TRAUMAS

[texto original]

A Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares está há uma semana em Mariana (MG), município que sofre as consequência do rompimento das barragens de rejeitos da empresa Samarco, subsidiária da mineradora Vale do Rio Doce.

Sete profissionais – cinco médicos, um comunicador e uma psicóloga – estão na região com o propósito fazer diagnósticos de saúde da população e analisar os efeitos de médio e longo prazos que a lama tóxica pode ter.

Para Ellen Machado Rodrigues, integrante da Rede de Médicos, a prioridade para a população de Bento Rodrigues é a realocação.

“Tem cerca de 630 pessoas abrigadas em pousadas, e uma resposta definitiva do que vai acontecer com elas está demorando”, declarou. Ela conta que um dos problemas para a saúde é que a alimentação foi padronizada em marmitas, o que pode gerar dificuldades para quem tem doenças crônicas, como diabetes. “Se fosse por um tempo mais curto, talvez não tivesse muito impacto. Mas faz mais de 20 dias e não há solução”, criticou.

A alimentação e o abrigo estão sendo bancados pela empresa Samarco e há uma proposta de que a empresa alugue casas temporariamente para a população, até que ela seja realocada em um novo local e tenha moradia definitiva.

Ellen aponta, no entanto, que não será possível recuperar a forma como as pessoas viviam. “Bento Rodrigues era uma comunidade rural, com muitos agricultores familiares. Como a região foi inviabilizada por conta da lama, além do prejuízo da moradia, ficou o prejuízo do sustento econômico”, disse.

O dano psicológico causado pelo rompimento das barragens é notável na população, principalmente, as que perderam familiares e conhecidos.

“Participamos de uma reunião com familiares das pessoas desaparecidas. Muito do sofrimento está sendo prolongado porque há dificuldades para finalizar o reconhecimento dos corpos que foram encontrados. Há mais de uma semana, quatro corpos foram encontrados, mas não reconhecidos. Essa dinâmica de busca e reconhecimento está sendo realizada de maneira pouco transparente e as famílias estão sentido dificuldade nesse diálogo com o poder público e com a Samarco”, avaliou.

Com a proposta de ajudar na organização das famílias, a Rede de Médicos tem promovido espaços coletivos para facilitar o diálogo entre os moradores, além de reuniões com os familiares para conversas, orientações e apoio.

Danos imprevisíveis

Os médicos pretendem ficar por mais 15 dias em Mariana, mas o acompanhamento que a Rede quer fazer em relação às vítimas da tragéida é de longo prazo. “Os danos da contaminação são bem mais amplos. Vamos precisar de tempo para ter mais claro que tipo de efeito isso terá”, afirma Ellen.

Para ela, o papel da Rede, como ator político, é o de estar do lado da população. “As pessoas vão ter que reorganizar suas vidas e para isso vão precisar de uma rede de apoio para ter garantidos seus direitos de reparação, ressarcimento e reconstituição, inclusive de reparação do ambiente onde elas estão vivendo. A Rede tem que contribuir na busca de garantir que o poder público faça valer essa reparação junto à empresa”, avaliou.

Um diagnóstico de saúde será feito pelos médicos após entrevistas com os moradores e contato com o sistema de saúde de Mariana. A Rede espera que o material coletado sirva tanto de denúncia para a população atingida, como para orientar as pessoas sobre sua saúde, como lidar com a água e o solo após a contaminação.

“Esperamos também que isso possa pressionar o Poder Público a fazer uma grande revisão dos parâmetros de segurança de barragens, ampliar o rigor de fiscalização e obrigar uma reparação da Samarco, que não seja apenas focadas no individual e ressarcimento material das pessoas, como também ao meio ambiente”, acrescentou.

ECOLOGIZAR A ECONOMIA

[entrevista]

“‘Ecologizar a economia’ significa subordinar as empresas e seu modo de trabalhar à sobrevivência dos ecossistemas, desenvolvendo uma política ambiental correta, em que a produção não comprometa a sobrevivência do ecossistema”, diz o pesquisador.

Foto: www.folhavitoria.com.br

A ruptura da barragem da mineradora Samarco, em Mariana, Minas Gerais, “é apenas um dado alarmante que chama a atenção para uma situação que estamos tentando alertar há bastante tempo”, diz Apolo Lisboa à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

Apolo reside em Minas Gerais e acompanha de perto a situação das implicações negativas da mineração no estado, e assegura que entre as causas que contribuíram para a ruptura da barragem de rejeitos estão “a rapidez com que se promove a flexibilização de medidas de segurança” nas empresas e a “falta de fiscalização” nas mineradoras.

De qualquer maneira, pontua, “esse não foi um acidente inesperado. Das 735 barragens de rejeitos de Minas Gerais, mais de 200 foram apontadas como tendo problemas por alguns técnicos do governo. O peso excessivo dessa barragem que rompeu se deu porque estavam aumentando a barragem para receber mais carga ainda. Essa barragem descalçou outra muito maior, chamada Germano, que está com uma trinca de três metros de largura”.

Lisboa também critica a falta de um instrumento que pudesse avisar as pessoas do acidente. Segundo ele, “se a barragem tivesse rompido à noite – moravam 600 pessoas ali – a tragédia teria sido muito maior do ponto de vista humano”. Ele frisa ainda que o processo de licenciamento das barragens também tem de ser revisto, “porque os membros do conselho responsáveis por conceder o licenciamento não têm condições técnicas de viajar e conhecer o empreendimento no local” e às vezes chegam a votar “20, 30 projetos em uma reunião (…). Mas e depois, quando ocorre um acidente, essas pessoas teriam que pagar por isso? Elas deveriam ser presas? Esse tipo de licenciamento gera irresponsabilidade”, adverte.

Apolo Lisboa (foto abaixo) é formado em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG, e é um dos idealizadores do Projeto Manuelzão de despoluição do Rio das Velhas, em Minas Gerais. Atualmente é professor da UFMG.

Confira a entrevista.

Foto: hojeemdia.com.br

IHU On-Line – Quais foram as falhas que geraram a explosão da barragem de rejeitos da Samarco, em Mariana?

Apolo Lisboa – Desde a época colonial, no final do século XVII (1694-1696), as minas foram descobertas na região de Ouro Preto, Itabirito e Mariana e foram sendo espalhadas para outras cidades de Minas Gerais. Essas minas eram, nesse período, diretamente ligadas à Coroa Portuguesa, através do Rio de Janeiro. Portanto, o estado de Minas Gerais sempre foi subserviente à mineração, por causa do valor financeiro que agregava arrecadação e impostos – a própria Inconfidência Mineira aconteceu porque o governo de Portugal, após o terremoto em Lisboa, estava precisando de dinheiro e resolveu aumentar os impostos para 20%, o conhecido quinto, que gerou uma revolta em Minas.

As mineradoras inglesas que vieram depois, seguidas das mineradoras transnacionais ou multinacionais, herdaram essa tradição e esse poder que vinha desde a época de Portugal. A partir da Lei Kandir, que vem do governo Fernando Henrique, as mineradoras não pagam mais ICMS e o royalty pago é baixíssimo, nem se compara com o royalty pago pelo petróleo. Além dos mais, tem se aumentado a velocidade para possibilitar a exportação de minérios e, com isso, estão flexibilizando medidas de segurança para exportar o máximo no menor tempo possível.

A ruptura dessa barragem é apenas um dado alarmante que chama a atenção para uma situação que estamos alertando há bastante tempo, embora não houvesse espaço para tal. E eu não tenho certeza se essa ruptura implicará em alguma mudança com o tempo. A presidente falou em multa de 250 milhões de reais, o que não é nada para a mineradora, porque parece que só o seguro da Vale é de 4 bilhões de reais. Com 250 milhões não dá para recuperar nada na região e as barragens de rejeitos continuarão, mesmo todas estando com problemas. O Estado não tem técnicos para fazer a avaliação dessas barragens, e quem faz a avaliação ambiental são as próprias mineradoras, que posteriormente enviam um relatório para o Estado.

Mas respondendo a sua questão, entre os fatores que contribuíram para a ruptura da barragem, eu mencionaria a rapidez com que se promove a flexibilização de medidas de segurança, a falta de fiscalização dessas barragens, a falta de moral do Estado brasileiro, que não tem autoridade para investigar nada, porque muitos membros do Estado são financiados pelas mineradoras. Agora, de qualquer maneira, esse não foi um acidente inesperado.

Nas 735 barragens de rejeitos de Minas Gerais, mais de 200 foram apontadas como tendo problemas por alguns técnicos do governo. O peso excessivo dessa barragem que rompeu se deu porque estavam aumentando a barragem para receber mais carga ainda. Essa barragem descalçou outra muito maior, chamada Germano, que está com uma trinca de três metros de largura. Estão fazendo obras emergenciais para tentar segurá-la, mas isso gera riscos para quem está fazendo essa obra.

Já houve vários acidentes em Minas Gerais: há aproximadamente cinco anos, em uma mina chamada Herculano, houve três mortes; na Mina Rio Verde houve cinco mortos, e a empresa foi multada em 50 milhões de reais, mas essas multas não são pagas. Se você sobrevoar a região em volta de Belo Horizonte, na região onde há mais minério de ferro, você só verá buracos que são do tamanho de três ou quatro quadras, com 200 a 300 metros de profundidade; são grandes crateras para todos os lados.

“O Estado não tem técnicos para fazer a avaliação dessas barragens, e quem faz a avaliação ambiental são as próprias mineradoras”

IHU On-Line – Uma das críticas feitas à Samarco é de que ela não tinha um plano de contingenciamento. Em que deveria consistir esse plano?

Apolo Lisboa – Não havia nenhuma sirene para tocar na hora em que a barragem rompeu. Quando se deu o rompimento da barragem, havia pessoas andando de moto nas ruas, familiares buscando crianças na escola, e foram eles que saíram gritando, anunciando que a barragem havia se rompido. A empresa tampouco tinha um sistema de alto-falante. Se a barragem tivesse se rompido à noite – moravam 600 pessoas ali – a tragédia teria sido muito maior do ponto de vista humano. Mas, e a morte de todos os peixes no Rio Doce? E os pássaros e animais silvestres que precisam de água para beber, onde eles vão tomar água? Então, trata-se de uma tragédia de escala fenomenal.

Dá a impressão de que essa foi a única fez que aconteceu uma tragédia aqui em Minas Gerais, mas no dia a dia são lançados milhões de litros de esgotos nos rios; essa é uma tragédia lenta.

IHU On-Line – O que seria uma alternativa para as barragens de rejeitos? Existe algum modo de substituir essas barragens ou de tratar esses rejeitos?

Apolo Lisboa – Seria possível fazer o tratamento a seco desse rejeito. Existe essa tecnologia, que é um pouco mais cara, mas as mineradoras não querem gastar dinheiro nenhum. Os acionistas e os diretores querem bater recorde de lucratividade, é uma corrida insana ao lucro e às carreiras pessoais. Eu vi uma notícia – não posso confirmar, teria que fazer uma pesquisa – de que na China já teriam morrido milhares de pessoas por conta de tragédias nas minerações pelo rompimento de barragens de rejeitos, mas o país já está investindo no tratamento a seco, proibindo a construção de novas barragens.

IHU On-Line – Quais são os principais problemas em torno do licenciamento ambiental das barragens de rejeitos?

Apolo Lisboa – Está faltando, primeiramente, um conceito, ou seja, licenciamento tem que obedecer a qual critério de qualidade? O licenciamento, quando o governo quer, é feito via ad referendum, porque os membros do conselho responsáveis por conceder o licenciamento não têm condições técnicas de viajar e conhecer o empreendimento no local, por vezes é preciso votar 20, 30 projetos em uma reunião, e as pessoas fazem isso mecanicamente. Mas e depois, quando ocorre um acidente, essas pessoas teriam que pagar por isso? Elas deveriam ser presas? Esse tipo de licenciamento gera irresponsabilidade.

O licenciamento, a meu ver, deveria ter uma proposta: qualquer atividade econômica não pode lesar o ecossistema, ou seja, se existe um ecossistema, ele tem que ser preservado. É possível fazer uma intervenção pontual, mas que não desequilibre e que não comprometa a sobrevivência do ecossistema como um todo na bacia hidrográfica, na microbacia. O licenciamento tem de ser vinculado por GPS, tem de verificar se a obra está localizada na região da microbacia e qual será o impacto disso para a vegetação, para os peixes, para a qualidade da água. Se isso fosse feito, teríamos o que chamo de “ecologizar a economia”.

Atualmente o meio ambiente está subordinado aos interesses das empresas. O que propomos é que o meio ambiente seja soberano, ou seja, que os empreendimentos econômicos sejam feitos levando em conta os investimentos necessários para não destruir o ecossistema local. Então, é preciso ter um licenciamento vinculado por GPS a uma localização, somando os efeitos conjuntos das empresas que atuam nessa região. Hoje o licenciamento é isolado para cada empresa, e não são somados seus impactos na bacia e na microbacia, o que faz com que se possa destruir completamente uma bacia de porte médio.

Portanto, “ecologizar a economia” significa subordinar as empresas e seu modo de trabalhar à sobrevivência dos ecossistemas, desenvolvendo uma política ambiental correta, em que a produção não comprometa a sobrevivência do ecossistema.

IHU On-Line – Já é possível estimar qual é o impacto da explosão da barragem para os recursos hídricos da região? Pode nos dar um panorama de qual foi o impacto da explosão da barragem nos recursos hídricos da região? Qual é o impacto específico da lama que chegou ao leito do Rio Doce? Que outros rios e afluentes serão afetados por conta da situação do Rio Doce?

Apolo Lisboa – Governador Valadares, que é uma cidade grande que tem quase o mesmo tamanho de Montes Claros, está completamente sem água. O abastecimento de água na cidade está sendo feito por um trem de ferro, que é da própria Vale.

A cidade tem um reservatório, mas com a suspensão da captação da água no rio, não é possível abastecer a cidade. Todas as cidades às margens do Rio Doce estão comprometidas porque não podem pegar água, porque a lama que está nos rios tem muito mineral e metal e ainda não se tem a dimensão de quais serão as consequências disso. Por incrível que pareça, o governo não tinha um estudo detalhado sobre a composição da lama nas barragens.

O Ministério Público e o governo tinham que ter um estudo. Estavam esperando o rompimento da barragem para fazer o exame depois? Não tem sentido, não se pode confiar no que as mineradoras dizem, pois elas dizem que as barragens são muito seguras.

“Uma coisa interessante – e terrível – é que em todo lugar rico em ouro e em minério de ferro a população é pobre”

IHU On-Line – Quantas cidades estão na margem do Rio Doce?

Apolo Lisboa – Ao todo, na volta da bacia do Rio Doce, existem 222 cidades, mas na margem devem ser em torno de 50, porque a bacia do Rio Doce é muito espalhada e, portanto, recebe muitos afluentes. No entanto, o rio estava quase sem água porque a retirada de água do rio é muito grande e isso tem gerado um fenômeno em Minas Gerais, que é a seca subterrânea: a retirada de água através de poços artesianos e bombas é tão grande que os rios estão secando. Não há um controle nas outorgas – eu digo que são “autorgas” porque as pessoas chegam e tiram água por conta própria.

Para se ter ideia da situação, o governo do estado de Minas Gerais não tinha nenhum hidrólogo empregado no Instituto Mineiro de Gestão das Águas – IGAM, e as outorgas são dadas às cegas. Inclusive, várias pessoas que concediam outorgas no estado nos últimos anos, hoje são funcionárias das mineradoras; pessoas que já foram diretoras dos órgãos do estado, hoje são diretoras das mineradoras. É uma promiscuidade muito grande; o Estado não exerce seu papel nem cumpre as leis.

Eu fiquei sabendo, através de um ex-funcionário de uma mineradora, que quando os fiscais do estado chegam às mineradoras, já chegam brincando e dizendo: “onde vamos almoçar hoje?”, porque são bem recebidos com almoços. Por fim, o laudo deles é o que a mineradora faz, pois em geral as mineradoras se autofiscalizam. É uma vergonha a relação de promiscuidade entre o governo de Minas Gerais e as mineradoras – e essa relação se dá no governo do PT, do PSDB e outros, porque eles não têm diferença nenhuma na visão de mundo sobre a questão ambiental. Portanto, eles agem de forma corrupta porque são financiados pelas mineradoras. No caso da Assembleia Legislativa, 67% dos deputados atuais foram financiados por mineradoras e, no plano federal, há dois deputados – Leonardo Quintão, do PMDB, e Gabriel Guimarães, do PT – que são os presidentes da Comissão do Marco Regulatório da Mineração na Câmara Federal.

IHU On-Line – Quais são os principais problemas ambientais ocasionados por conta da mineração em Minas Gerais, para os quais se chama pouca atenção?

Apolo Lisboa – A mineração feita próximo a Belo Horizonte, conforme o solo, tem muito teor de arsênio, porque o arsênio é associado ao ouro e ao minério de ferro. No Rio das Velhas, a partir de Nova Lima – onde a empresa inglesa Morro Velho trabalhou durante muito tempo –, há um grande derrame de arsênio permanente, porque quando eles furam os buracos e fazem as minas, o arsênio começa a ser levado pelas águas da chuva. Em Paracatu, próximo a Brasília, tem a mina canadense Kinross, que contaminou o ar da cidade e a água.

Portanto, Minas Gerais está vivendo o flagelo da mineração. Claro que grande parte da riqueza de Minas vem da mineração, mas a mineração não precisava ser feita desse jeito, ela tem de respeitar as pessoas, os animais e os ecossistemas. No caso do Rio Doce, o prejuízo à fauna é enorme, imagine os peixes sendo sufocados pela falta de oxigênio, porque a lama grossa está ocupando todo o espaço dos rios. Além disso, os pássaros e os animais terrestres estão sem acesso à água.

Porém essa situação já ocorre normalmente em Minas Gerais. Não nesta dimensão de tragédia abrupta, mas através do lançamento de esgotos nos rios. Não existem estações de tratamento de esgotos em quase nenhum dos municípios, mesmo Belo Horizonte começou a construir as Estações de Tratamento de Efluentes – ETEs em 2001, e hoje trata 50% do esgoto, mas não 100%. Então, estamos vivendo na pré-história em matéria de saneamento.

IHU On-Line – Quais as implicações do arsênio ao meio ambiente e à saúde?

Apolo Lisboa – O arsênio tem forma orgânica e inorgânica. Então, essa forma inorgânica que está no solo, que está inerte, se torna perigosa na medida em que cai no metabolismo e é absorvida. São duas formas de arsênio, eu não posso dar detalhes do metabolismo do arsênio, mas ele é um veneno muito perigoso quando invade o corpo humano e passa a fazer parte do metabolismo.

IHU On-Line – Os municípios que têm mineradoras são social e economicamente bastante precários e pobres. Quais são os principais problemas sociais e econômicos que evidencia acerca desse aspecto? O que seria uma alternativa para mudar esse cenário?

Apolo Lisboa – Uma coisa interessante – e terrível – é que em todo lugar rico em ouro e em minério de ferro a população é pobre. Isso porque a mineração gera empregos, mas causa um transtorno doido porque transfere milhares de homens para essa região – como aconteceu em Serra Pelada – e com isso vem junto a prostituição, drogas, violência e crimes. Depois, quando passa o ciclo de mineração, ficam os pobres e a decadência das escolas e dos postos médicos. Portanto, do ponto de vista da qualidade de vida humana, a mineração é uma ilusão.

Quando uma mineradora anuncia sua ida para uma região, faz uma propaganda de que os imóveis serão valorizados e que as pessoas poderão vender seus terrenos, mas depois vem o lado cruel. Há cidades da região de Minas Gerais em que a mineração invadiu a Serra do Cipó, a Serra Geral, que era um santuário ambiental. No município de Serro, perto de Diamantina, a Câmara de Vereadores, por dez a zero, votou pela não aceitação da mineradora por conta do que vem acontecendo nas cidades vizinhas.

Outro problema enfrentado pelos municípios onde há mineradoras diz respeito à água. Em Minas Gerais, por exemplo, existe o mineroduto – canos de mais ou menos um metro de diâmetro, que, ao transportar minério dos garimpos até o porto, usam uma grande quantidade de água, a qual poderia ser usada para abastecer, por exemplo, várias vezes o município de Belo Horizonte.

“Não dá mais para admitir que deputados financiados por mineradoras sejam relatores e presidentes da Comissão que está avaliando o Marco da Mineração”

IHU On-Line – Como a ruptura da barragem da Samarco está repercutindo em Minas Gerais? Como o poder público tem se manifestado?

Apolo Lisboa – O governador Fernando Pimentel (PT) cometeu uma gafe enorme, ao conceder uma entrevista na sede da empresa Samarco Vale, no momento em que ele deveria ter concedido uma entrevista na prefeitura ou em algum espaço público. O Secretário de Assuntos Minerários de Minas Gerais [José Guilherme Ramos] é genro do presidente do Sindicato das Mineradoras – Sindicato das Indústrias Extrativas de MG / Sindiextra [José Fernando Coura] e foi nomeado subsecretário de assuntos minerários. A presidente Dilma Rousseff visitou a região uma semana depois e anunciou a multa à empresa, o que não terá impacto no sentido de resolver os problemas gerados pelo rompimento da barragem. A punição foi usada para dizer que o governo é enérgico, mas não é. Governo que é financiado por mineradoras apoia essa política. Na verdade, isso é um jogo de cena, porque a presidente está com dificuldades políticas e está precisando de apoio.

Nós não temos visto mudanças significativas na questão ambiental: a ministra do Meio Ambiente [Izabella Teixeira] não tem papel nenhum, então não temos uma política estatal séria para o meio ambiente, em defesa do território brasileiro, em defesa do ecossistema e do solo – a erosão e o desmatamento tomam conta de todo o lado. O Ministério do Meio Ambiente e autoridades tomam medidas isoladas e pontuais que não têm efeito nenhum, só para divulgar que estão fazendo alguma coisa.

O estado de Minas Gerais, em relação à mineração, herdou uma política de séculos e o governo não tem uma política ambiental. Todos os secretários de Meio Ambiente, com alguma rara exceção, são indicados pela Federação das Indústrias. A Federação das Indústrias indica o secretário de Indústria e Comércio, indica o secretário de Agricultura junto com a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais – FAEMG e indica o secretário do Meio Ambiente.

IHU On-Line – O que deve ser considerado a partir de agora, tendo em vista a pauta do Marco da Mineração?

Apolo Lisboa – Não dá mais para admitir que deputados financiados por mineradoras sejam relatores e presidentes da Comissão que está avaliando o Marco da Mineração. Também não podemos aceitar que as mineradoras financiem governadores e deputados. Não podemos aceitar financiamentos secretos, inclusive de pessoa física; tudo tem que ser declarado.

Temos que “ecologizar a economia”, a atividade econômica tem que estar dentro dos limites de sustentabilidade ecossistêmica, porque sustentabilidade também virou uma palavra oca, está virando marketing de empresas, e a economia não pode extrapolar os limites ambientais explícitos; é preciso ser rígido.

A maior mudança é a da mentalidade, mas a única forma de ter um governo que pense desse modo é se a população que foi à rua em junho de 2013 volte e defina as eleições gerais no Brasil.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Apolo Lisboa – Devemos responsabilizar criminalmente os governantes – prefeitos, governadores e presidentes – e criar o impeachment ambiental, porque a questão ambiental não entra na agenda política por causa da corrupção e também por conta de uma mentalidade atrasada, que não entende a questão ambiental. Infelizmente a nossa presidente e o governador de Minas Gerais não entendem nada de meio ambiente, eles acham que o meio ambiente é insumo: água, terra, minério; são pessoas que tiveram uma formação apenas da sociologia marxista e não incluíram Charles Darwin, os animais, a vida e a evolução no seu modo de pensar.

 

ESTRADAS

[texto original]

As ligações hidrográficas viáveis mapeadas pela Firjan (Foto: Reprodução)As ligações hidrográficas viáveis mapeadas pela Firjan (Foto: Reprodução)

Em 2013, os congestionamentos nos 21 municípios que da Região Metropolitana do Rio atingiram 130 quilômetros por dia, gerando um custo de R$ 29 bilhões. Em 2022, os engarrafamentos podem alcançar mais de 180 km por dia e os custos podem atingir R$ 40 bilhões, mesmo com a expansão e do sistema metroferroviário, os corredores exclusivos para ônibus (BRT e BRS) e a implantação do sistema de Veículos Leves sobre Trilhos (VLT) no Centro e na Zona Portuária.

Os cálculos são do Sistema Firjan, da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro. Para a Firjan, a melhoria da mobilidade urbana na Região Metropolitana do Rio passa pela criação de novas ligações hidroviárias. Estudo do Sistema Firjan indica que 14 novas ligações hidroviárias são viáveis e poderão tirar das ruas mais de cem mil carros, diminuir os prejuízos causados com os engarrafamentos.

Segundo a Firjan, essas 14 linhas divididas entre os eixos da Baía de Guanabara e da Barra da Tijuca podem absorver 272.400 viagens de passageiros por dia, o equivalente à circulação de 100.900 carros. De acordo com o estudo, a redução na extensão diária dos congestionamentos chegaria a 84,1 quilômetros, e a diminuição no custo anual causado pelo tempo perdido no trânsito, em especial durante a distribuição de cargas e pela perda de produtividade dos trabalhadores, seria de R$ 11,2 bilhões.

Somente no eixo Baía de Guanabara, que tem apenas quatro linhas, a Firjan propõe 11 novas ligações, que somarão mais de 156 mil viagens de passageiros por dia, o suficiente para tirar das ruas 57.800 veículos. Entre as linhas propostas, cinco conectam o Rio de Janeiro ao Leste Fluminense; uma a Duque de Caxias, na Baixada Fluminense; quatro às ilhas do Governador e do Fundão; e uma Charitas a Itaipu, em Niterói.

Já no eixo Barra da Tijuca, a Firjan sugere a ligação da Barra para a Praça Quinze, com potencial para até 106.400 viagens de passageiros por dia, que equivalem a mais de 39 mil veículos fora das ruas. Nessa linha, a Firjan propõe embarcações próprias para navegação em mar aberto e sugere uma estação próxima ao Terminal Alvorada, para a conexão com as estações do BRT e do metrô. De acordo com o estudo, o projeto possibilita a integração da Barra da Tijuca com todo o município, com o Leste Fluminense e com Duque de Caxias.

O estudo indica ainda que as ligações hidroviárias possíveis entre a Barra e o Complexo Lagunar podem proporcionar dez mil viagens de passageiros por dia, que substituiria 3.700 veículos. A proposta da Firjan permitiria aos usuários a integração com a futura estação da Linha 4 do metrô, no Jardim Oceânico, ligando a Barra à Zona Sul e ao Centro. Segundo a federação, a combinação das hidrovias com a Linha 4 do metrô possibilita a retirada de milhares de veículos ao longo do trajeto Barra da Tijuca-Centro, reduzindo ainda mais os congestionamentos.

Segundo a Firjan, as propostas apresentadas no estudo mostram ganhos significativos para a mobilidade do entorno da Baía de Guanabara, na ligação entre o Centro e a Barra da Tijuca e no deslocamento interno dos bairros.

“A ampliação do sistema de transporte hidroviário precisa integrar a política de transporte como parte importante da solução para os congestionamentos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, afirma o estudo.

MEXILHÕES

[texto original]

Conhecido por ter infestado as águas do Sul, Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, em especial nos reservatórios da divisa de São Paulo com Minas Gerais, o mexilhão dourado, originário da Ásia, se aproxima da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Com isso, pode atrapalhar a captação de água e a geração de energia, em Três Marias.
Nos últimos meses, pesquisadores encontraram exemplares da espécie no lago de Sobradinho, na Bahia, integrante da bacia hidrográfica do rio São Francisco, assim como BH.
Com o objetivo de alertar para os danos que a espécie pode causar à RMBH e ao médio São Francisco, o Centro de Bioengenharia de Espécies Invasoras de Hidrelétricas (CBEIH), localizado em Belo Horizonte, emitiu alerta, assinado pela equipe multidisciplinar de pesquisadores.
A RMBH se conecta ao rio São Francisco pelo rio das Velhas, que banha algumas cidades ao leste e norte de BH. Apesar de o lago de Sobradinho estar localizado há mais de 1.600 km rio abaixo, os pesquisadores alertam para a possibilidade de o molusco conquistar território subindo o rio, pela ação do homem.
O mexilhão dourado ou as larvas dele podem ser levado nos cascos de barcos; nos materiais de pescadores; em pedaços de plantas; e em água utilizada em peixamento nas barragens, por exemplo.
Consequências
Apesar de não causar danos direitos às pessoas, a introdução da espécie invasora pode trazer uma série de impactos. No viés ambiental, o mexilhão compete com as espécies nativas e reproduz sem limite. Na área econômica e de abastecimento, os principais impactos são na captação de água e na geração de energia, pois os mexilhões dourado formam colônias imensas nos dutos, dificultando a passagem de água.
A identificação do molusco em equipamentos da Usina Hidrelétrica de Sobradinho foi feita em maio deste ano por técnicos da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf).
No entanto, pescadores da região informaram à empresa que, em abril, haviam encontrado a espécie em tanques-redes, que são estruturas onde se cria peixes.
A Chesf trabalha com a hipótese de que o molusco tenha chegado a partir da importação de alevinos de tilápia trazidos na região sudeste.
“O bichinho filtra a água numa velocidade muito maior que outros organismos. Ele compete por espaço. Com isso, os organismos nativos não vão conseguir se estabelecer, e há a alteração da cadeia alimentar” – Newton P. U. Barbosa – pesquisador
Originário da Ásia, mexilhão dourado ameaça sistema de energia em Minas