Vale/Samarco exige que idosa com osteoporose prove incapacidade de torcer roupa para repor Máquina de Lavar

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Na madrugada do dia 6 de novembro de 2015, Teófila Siqueira e Francisco Marcelino recebiam ansiosos as notícias que vinham dos moradores do distrito de Gesteira, o mais atingido na zona rural da cidade de Barra Longa (MG). “Estava uma confusão na rua: carros buzinando, pessoas correndo, gritos. Muita gente na praça. Chiquinho já estava dormindo e eu rezando. Era mais de meia-noite quando a vizinha veio nos chamar pra dizer que a enchente tava chegando.”, conta Teófila, mais conhecida como Dona Cenita.

Chiquinho lembra que, por volta das 4 horas da madrugada, estava na beira do Rio do Carmo e achava que ele não ia subir muito. “Mas certa hora, eu peguei um pedaço de pau para afastar as folhas que vinham descendo e vi que não era água. Aí eu gritei: Cenita, isto não é água, é lama!”, conta agitado o senhor de 71 anos.

Ao perceber que o rio vinha subindo, correram, pegaram os patos, as galinhas e um cachorro que estava no quintal e levaram todos, com muita dificuldade, para embaixo da casa. “Achávamos que ali não ia chegar. Moramos aqui há quase 30 anos e a maior enchente que pegamos aqui, que foi em 1996, só chegou perto da primeira coluna da casa. Mas aí não teve jeito. A lama veio subindo, subindo, tomando tudo. Nós corremos e tudo foi embora”, conta Cenita, emocionada.

Uma lama que afoga lembranças e traz violação de direitos

Chiquinho mostra da cozinha da casa o que sobrou do quintal: lama, buracos, uma montanha de barro que sufoca o pé de manga, as ruínas do galinheiro que foi encoberto pela lama, um tanquinho estragado, muita sujeira, mau cheiro. E ele recorda:

“Ei vi minhas ferramentas tudo debaixo do barro. Perdi um plaina. Quando eu quero fazer um caixote eu tenho minha plaina pra limpar a tábua. Foi uma maquita pra serrar minhas tábuas. Tava tudo embaladinha, apodreceu tudo na água. A mesa tombou justamente no lado que ela tava, assim. E eu vendo daqui descendo. Fazer o que, né?! Desceu até caminhão no barro, a maquita não vai? Vai!!”, recordou Chiquinho.

Mas, além dos prejuízos no quintal que era fonte de renda e trabalho do casal, foi-se embora muitos utensílios básicos da família. Entre eles, tanquinho e máquina de lavar. Desde a tragédia, Dona Cenita e Chiquinho, que moram sozinhos, ou conseguem ajuda de vizinhos para lavar a roupa ou eles se revezam para torcer o que não dá para esperar. Exercendo o seu direito, eles pediram a Samarco Mineração, dona da barragem que rompeu, que reponham, pelo menos, a máquina de lavar, que é de grande utilidade, até para garantir a higiene.

Para a surpresa da senhora de 69 anos, ao fazer o pedido, uma assistente social exigiu que ela provasse que tinha realmente necessidade. “Ela me pediu que eu apresentasse um laudo médico que provasse que eu não tenho força para torcer a roupa. Eu tenho osteoporose, tomo vários remédios”, conta surpresa a idosa. Quando foi levar o marido em um neurologista na cidade de Ponte Nova, aproveitou e pediu o médico para fazer o laudo. Mas ele, igualmente surpreso, disse que não poderia fazer porque não era a sua área. Dona Cenita, então, foi em um posto de saúde de Barra Longa e pediu um laudo para uma médica clínica geral que acabou dando um relatório simples que foi entregue à assistente social.

Para Thiago Alves, membro da coordenação estadual do MAB que está morando em Barra Longa para acompanhar as famílias atingidas, este é mais uma situação que mostra o descaso da empresa com a população. “Este é um episódio absurdo, inaceitável, viola direitos básicos daqueles que são os mais vulneráveis. Temos visto muito isto nesta cidade. Por isto, temos feito um trabalho de acompanhamento por família, buscando visitar, ouvir as pessoas, ser uma presença solidária, mas, ao mesmo tempo, insistindo com todos que é preciso se organizar para garantir os direitos: se a Samarco age assim em questões básicas, imagine quando formos discutir indenização e reassentamento”, questiona Thiago.

Cenita e Chiquinho moram no bairro Morro Vermelho, que tem 20 casas desocupadas e 3 condenadas. Eles mudam ainda esta semana para uma casa alugada enquanto a deles é reformada. O casal espera que a máquina seja entregue ainda esta semana. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) cobrará explicações da empresa sobre o ocorrido, exigirá que as máquinas e outros utensílios básicos sejam entregues sem pré-condições e continuará as denúncias dos desmandos da Samarco em Barra Longa e região.

Por que organizações ambientais estão em silêncio diante da Vale

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Uma das mais importantes áreas do litoral brasileiro, do ponto de vista científico e turístico, o santuário de Abrolhos tem a maior biodiversidade de corais do Atlântico.

Mancha no oceano que chegou à região sul da Bahia e já atingiu o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, local com maior biodiversidade de corais do Atlântico, está sendo monitorada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) com a suspeita de que a lama da barragem de Mariana tenha atingido o município de Caravelas.

Marilene Ramos, presidente do Ibama e conselheira do Clube de Engenharia , e Claudio Maretti, presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em entrevista coletiva, informaram que a mancha, segundo especialistas, pode ser a lama de rejeitos de mineração da Samarco, concentrada na foz do Rio Doce. A mancha vinha se espraiando no último mês para o sul do litoral do Espírito Santo, mas, nos últimos dois dias, devido às fortes chuvas na área, passou a se espalhar também na direção norte.

Onde estão os ambientalistas?

O Ibama já notificou a Samarco para realizar coletas e avaliar se a mancha vem do Rio Doce. A coleta das primeiras amostras foi feita nesta quinta-feira, 7 de janeiro, com a previsão dos resultados saírem em dez dias. O impacto ambiental causado pela mancha na biodiversidade da região será avaliado com muito cuidado e pode levar tempo para ser totalmente conhecido. “O dano imediato é a redução da produtividade da vegetação marinha, fitoplanctons e corais, o que causa prejuízo para a vida marinha. É como se eu cobrisse a Mata Atlântica ou a Amazônia com uma fumaça que dificultasse a realização de fotossíntese”, explicou Maretti. Os impactos serão sentidos a longo prazo e especialistas não descartam a possibilidade de extinção de corais.

Saiba mais: Mariana: As consequências do maior desastre ambiental do Brasil

O que chama atenção neste cenário de descaso e impunidade que marca a tragédia de Mariana é o silêncio de organizações ambientais estrangeiras, que não se manifestam acerca desse quadro de destruição. Por que se calam? De repente, desapareceu a agilidade que demonstram nas ações jurídicas e manifestações nacionais e internacionais contra empreendimentos associados ao uso de tecnologia de ponta, infraestrutura ou logística, tão necessários ao desenvolvimento soberano do país. Tão pródigas em manifestações contra a indústria nuclear, a construção de hidrelétricas com reservatórios e eclusas, eixos rodoferroviários e fluviais sumiram da mídia; quando muito a noticiam em seus sites. Por que o silêncio e o imobilismo? Não há nada a dizer sobre a maior tragédia ambiental do País?

Prefeito em MG dificulta reabertura de mina da Samarco

Por R.T. Watson.

A mina desativada da Samarco, que pertence à BHP Billiton e à Vale e já foi a segunda maior produtora mundial de pelotas de minério de ferro, enfrenta um novo obstáculo que ameaça adiar sua tão aguardada retomada: o prefeito de uma pequena cidade de Minas Gerais.

A cidade de Santa Bárbara negou, nesta semana, um plano para que a Samarco continue utilizando a água de um rio próximo. Sem a aprovação, a Samarco não conseguirá concluir o estudo ambiental que está em andamento, exigido pelo órgão regulador do estado para o reinício, disse uma pessoa com conhecimento do assunto, que pediu anonimato porque a questão é privada.

“Há impactos ambientais e hídricos e eles precisam ser bem avaliados,” disse Leris Braga, de 34 anos, prefeito da cidade de 30.000 habitantes de Minas Gerais, por telefone. Ele pede a realização de um estudo separado para testar possíveis interrupções no fluxo de água.

A joint venture Samarco Mineração está desativada desde novembro de 2015, quando ocorreu o rompimento de uma barragem de rejeitos, poluindo rios em dois estados e matando pelo menos 19 pessoas em um incidente classificado como o pior desastre ambiental do Brasil. O fechamento também deixou milhares de pessoas sem trabalho e levou a Samarco a interromper o pagamento de juros de US$ 2,2 bilhões em obrigações de títulos.

Estudo ambiental

A BHP, que tem sede em Melbourne, na Austrália, a Vale, com sede no Rio de Janeiro, e a Samarco não puderam fornecer uma estimativa exata para a retomada da mina, limitando-se a informar que têm esperanças de que ela retorne às operações em algum momento deste ano. Na semana passada, o ministro de Minas e Energia do Brasil, Fernando Coelho Filho, afirmou que a mina poderia entrar em operação dentro de dois meses.

Mesmo que a Samarco resolva as objeções de Braga, a mina provavelmente poderá concluir o estudo de impacto ambiental necessário para ter a licença de operação apenas em julho, no mínimo, disse a pessoa. Se a disputa com Braga não for resolvida, a data de conclusão do estudo pode ser adiada ainda mais, tornando mais difícil a probabilidade de retomada neste ano.

A Samarco informa que está prestando todas as informações necessárias à Prefeitura de Santa Bárbara e está tomando todas as providências cabíveis para que essa situação seja solucionada o mais rápido possível, disse um porta-voz, na quinta-feira, por e-mail.

Independentemente de Braga, quando conseguir concluir o estudo necessário, a Samarco deverá apresentá-lo ao órgão regulador do estado de Minas Gerais que supervisiona o processo de relicenciamento da empresa. Depois disso, será necessário organizar audiências públicas para que o órgão regulador possa realizar uma avaliação final, exigida antes de a concessão da licença ser colocada em votação.

“O reinício das operações é tecnicamente viável em 2017”, afirmou a BHP, na quinta-feira, por e-mail. Mas o “reinício ocorrerá apenas se for seguro e se forem recebidas as aprovações necessárias das autoridades brasileiras”. A assessoria de imprensa da Vale preferiu não comentar o assunto.

 

A Samarco e os 0,33 centavos de indenização

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O Programa de Indenização Mediada (PIM) é uma das ações previstas no acordo federal entre a Samarco (Vale\BHP Billiton) com a União e os estados de Minas Gerais e o Espírito Santo que criou a Fundação Renova. Cada família atingida, após ser cadastrada pela mineradora, deve se dirigir ao escritório de indenização onde será atendido por analistas da Fundação e “mediadores neutros” contratados pela empresa que vão apresentar a proposta com base nas informações do cadastro.

Em Mariana, os atingidos ainda não fizeram o cadastramento porque consideram que a Synergia, contratada pela Samarco, apresentou um plano de cadastro não validado pelo conjunto dos atingidos, que não respeita a história das comunidades, as condições próprias e a realidade das famílias apresentando um material cheio de “armadilhas” que pode resultar na retirada de direitos. Este é um assunto amplamente discutido pelo MAB, pela Comissão dos Atingidos, pelo Ministério Público e pela Assessoria Técnica organizada pela Cáritas Brasileira.

Sem respeitar a necessidade de uma justa e esclarecida validação do cadastramento por parte dos atingidos, a Samarco avançou com o cadastro nas cidades de Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado que estão na Comarca de Ponte Nova onde a competência do processo está na Justiça Federal.

Os atingidos responderam a um cadastro complexo sem o acompanhamento de uma Assessoria Técnica independente, que somente agora está sendo encaminhada com o Ministério Público e a Fundação. Mesmo nestas condições, o cadastramento já avançou e com ele o Programa de Indenização Mediada (PIM).

“Agora, cada família tendo em mãos o seu cadastro, deve avaliar em casa e sozinho o que respondeu. E depois se dirigir também sozinho a um escritório. Aqui está um problema fundamental: além dos atingidos não terem participado como protagonistas da construção deste Programa, são obrigados a entrar em um processo individual que não tem possibilidade de garantir uma reparação justa pela simples desproporção entre as partes”, avalia Thiago Alves, militante do MAB. “A negação do processo coletivo na validação e avaliação do cadastro e de situações complexas, como o reconhecimento de garimpeiros artesanais, é uma nova violação de direitos que terá várias consequências em toda a bacia”, avalia Thiago.

Acordo oferece indenização irrisória e faz família ficar sem terra

Para avaliar a extensão dos danos deste formato de cadastramento e indenização, pode-se considerar o que o PIM ofereceu para uma família de Gesteira que teve um lote de quase 1.000m² às margens do rio Gualaxo do Norte completamente tomada pela lama. O casal de idosos está casado há 45 anos sempre morando na comunidade. Em 1979, uma grande enchente provocou a destruição do povoado que foi reassentado em uma parte mais distante do rio, chamado hoje de Mutirão. Mas, o casal e as demais famílias que moravam na área destruída continuaram a ocupação praticando a agricultura de subsistência.

“Depois que respondemos o cadastro, recebermos o caderno das respostas, achamos que estava tudo certo. Depois, fomos chamados para ir no escritório. Nos levaram de carro. Lá, um pessoal que se apresentou como analista e outro como mediador, mas não disse de que empresa era. Eu questionei porque estavam sem crachás, não estavam identificados. Ficaram meio sem o que dizer e disseram que os crachás chegariam em 10 dias”, conta a idosa de 64 anos.

Durante a entrevista, os analistas da Fundação entregaram para o casal uma folha com todos os dados e valores propostos. Além dos valores referentes ao terreno, o documento traz a valoração de cada planta que o casal tinha, entre eles 33 centavos pela touceira de cana e 1,19 centavos pelo pé de mandioca. Todos os pés somados darão menos de 8 mil reais de indenização: mamão, laranja, limão, tangerina, além de plantação de feijão e milho e muito mais. “Achamos um absurdo, muito barato. Quem decidiu estes valores? Nossa cana chegava a 3 metros de altura cada uma e um pé de mandioca pode dar até 20kg. Se vendermos isto por 3,00 o quilo, já teremos 60,00,”, questiona o agricultor de 69 anos.

“E a questão não é só preço, porque não tínhamos a prática de vender o que tinha no lote, mas o fato de que ao aceitarmos este acordo pegaremos o dinheiro e não teremos direito ao reassentamento. Ficaremos sem terra, sem o lugar de plantio que sempre tivemos”, completa a agricultora. “O que nós queremos é uma indenização melhor e a garantia de terra no reassentamento e não tivemos esta opção no escritório. Nosso terreno não estava à venda”, completa.

Para Thiago Alves, aqui está mais um exemplo de violação de direitos. “Queremos saber quem e como foram definidos estes valores que ignoram o real valor financeiro, mas, sobretudo, a relação das famílias com a terra, a importância da economia de subsistência para esta região. Além disto, comprar a terra e a produção por um preço tão baixo e deixar a família fora do reassentamento é perverso porque tira a possibilidade dos filhos e netos usufruírem deste direito”, afirma.

Na busca de garantir um instrumento que leve informação para as famílias e a melhor possibilidade de uma justa reparação, o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Ministério Público também lutam para que Barra Longa, Rio Doce e Santa Cruz do Escalvado tenham uma Assessoria Técnica. Em Barra Longa, a expectativa é que semana vem seja autorizado o depósito para que se iniciem os trabalhos.

 

Governo se rende à Samarco (VALE/BHP Billiton)

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O acordo realizado entre governo federal e Samarco (Vale/BHP Billiton) para a suposta reconstrução do rio Doce representa a rendição ao criminoso. Realizado em gabinetes e sem participação nenhuma das vítimas que foram atingidas, acordo cede ao réu todos os poderes para decidir sobre o futuro de uma região que ele mesmo destruiu.

Através de uma fundação privada, a mineradora administrará todos os recursos destinados à mitigação dos danos incalculáveis causados pelo rompimento da barragem do Fundão. No meio destes termos, não há nenhuma linha que garanta a participação dos atingidos. Ou seja, as principais vítimas dessa tragédia foram totalmente excluídas no processo de construção do acordo e também não terão o direito de opinar sobre a reconstrução de suas próprias vidas. Na verdade, as vítimas não terão o direito nem mesmo de se declararem como tal, porque este poder será exclusivo à própria Samarco.

As vítimas terão que provar que são atingidos e os agressores terão o poder de decidir quem é atingido e o que deve ser a reparação. Uma total violação de direitos que agora terá conivência dos governos e do judiciário.

Este fato demonstra a submissão dos governos, federal e estaduais, à Vale e à BHP Billiton. Este acordo é a constatação das promíscuas relações que se estabelecem mediante os financiamentos privados de campanha que, como já é sabido, decidem quais são os candidatos que ganham as eleições.

Em nenhum momento o governo se mostrou disposto a nos consultar sobre qualquer acordo. O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), enquanto principal movimento social de atingidos por barragens no Brasil, foi completamente ignorado. Fomos informados desse acordo pela própria imprensa, nacional e internacional, que nos ligaram a partir da denúncia realizada pela Agência Pública.

Todavia, esse acordo não é um fato consumado. Nesse mês de março, que marca a data de luta internacional de resistência contra as barragens, atingidos e atingidas de todo o Brasil sairão às ruas para denunciar e exigir o nosso direito de participação. Convocamos todos/as aqueles/as que queiram se somar nessa marcha.

Minério, água e energia não são mercadorias!

São Paulo, 2 de março. Coordenação Nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens. 

Moradores de Bento Rodrigues exigem construção de novo distrito

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Edição do dia 16/11/2015

Nesta segunda-feira (16) completaram-se 11 dias desde que o vazamento de resíduos de mineração em Minas Gerais praticamente matou o Rio Doce, na avaliação dos ambientalistas. Um desastre que afetou diretamente milhões de pessoas às margens do rio.

Os 172 alunos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, distritos de Mariana que foram destruídos pela lama que vazou das barragens da Samarco, começaram a estudar novamente nesta segunda-feira (16).

Em Governador Valadares, maior cidade do leste de Minas, as casas voltaram a receber água potável. Um alívio para quem ficou sem fornecimento por quase uma semana.

O tratamento de água está sendo possível por causa a uma nova técnica. Um produto chamado polímero de acácia negra é colocado no Rio Doce. Com isso, a lama vai para o fundo do rio e a água pode ser tratada.

Na sexta-feira (13), um trem da Vale, empresa dona da Samarco junto com a anglo-australiana BHP, levou água pra Governador Valadares. No mesmo dia a prefeitura declarou que um teste encontrou alto teor de querosene na água. E que ela não servia para consumo.

Em um dos vagões, a palavra “inflamável” estava riscada. E abaixo, estava escrito água.
Nesta segunda (16), a Vale disse que mandou fazer um laudo e que o resultado ainda não ficou pronto.

“Esses vagões nunca transportaram querosene. Quatro deles fizeram a primeira viagem e para transportar água. São vagões novos e os outros quatro, nós estávamos utilizando há quatro anos só mesmo para fazer transporte de água para o nosso consumo interno”, diz Zenaldo Oliveira, diretor de Operação e Logística da Vale.

Em Alpercata, água só chega em caminhão pipa. E em Periquito, o jeito é ir até um poço artesiano que fica num terreno da prefeitura ou contar com a solidariedade dos vizinhos.

O Rio Doce nasce no centro de Minas Gerais, entre as serras da Mantiqueira e Espinhaço. Desce por um trecho de muitas serras. Percorre 879 quilômetros em Minas e no Espírito Santo, onde deságua no mar.

No total, 230 municípios dependem das águas do Rio Doce. São mais de 3 milhões de pessoas.

“Nós já podemos determinar que a vida dentro desse rio, ela praticamente não existe mais. O oxigênio não consegue mais se misturar e se associar a água”, explica
Alexandre Sylvio, professor de Recursos Hídricos.

A presidente do Ibama, Marilene Ramos, voltou à região do desastre. Ela disse que além dos R$ 250 milhões de multa, ainda devem ser aplicadas outras multas à mineradora. Ela falou ainda sobre o uso de floculantes, uma substância, de origem vegetal, que deve ajudar reduzir o volume de sedimentos e na limpeza da água do Rio Doce.

“Vai ser feito o lançamento desses floculantes na barragem de Aimorés num trecho que permita a diluição desses floculantes pra tentar fazer uma decantação dessa mancha”, explica Marilene Ramos , presidente do Ibama.

Ainda de acordo com o Ibama, a Samarco deve começar, imediatamente, a instalação de filtros nas barragens, em Bento Rodrigues, para evitar que a lama continue descendo para o Rio Doce.

Onze dias depois do rompimento, ainda é muito difícil caminhar no meio do barro. A coloração dele é meio azulada o que indica a presença de minérios. Segundo especialistas em mineração, todo o barro vai ficar duro como concreto quando secar.

Os moradores de Bento Rodrigues decidiram que não querem mais a construção da vila no mesmo lugar onde ela existe hoje. Por enquanto, as vítimas que viviam nos vilarejos de Mariana que foram destruídos pela lama estão indo para as casas que foram alugadas pela mineradora.

O Ministério Público deu um prazo de cinco dias para a Samarco informar o que será feito em definitivo para as famílias.

O Instituto de Gestão das Águas de Minas Gerais analisou amostras de 13 pontos do rio doce. E encontrou em dois deles: arsênio, cádmio, chumbo, cromo, níquel, cobre e mercúrio em níveis acima do limite permitido.

Moradores descartam retorno a vilarejo arrasado por lama de barragem

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16/11/2015

O rompimento de duas barragens em Bento Rodrigues, povoado de Mariana, em Minas Gerais, arrasou a pequena localidade de cerca de 600 habitantes. Passados 11 dias da tragédia, o futuro de seus habitantes é repleto de incertezas, mas um ponto já está definido: eles não querem voltar a viver no mesmo local.

Em uma reunião com a prefeitura de Mariana, um grupo formado por 80% dos moradores de Bento Rodrigues optou por sua reconstrução em outra área da região, relata o prefeito da cidade histórica mineira, Duarte Júnior (PPS).

“Bento Rodrigues não existe mais”, diz Duarte Júnior à BBC Brasil. “O que existe é um mar de lama, e, ainda por cima, há a questão da terceira barragem. Se as duas primeiras eram consideradas seguras e se romperam, imagina uma que está trincada?”

Segundo Duarte Júnior, a população espera que a Samarco, empresa responsável pelas barragens, arque com todos os custos da reconstrução de Bento Rodrigues. Isso envolve não apenas a construção das casas em si, mas também da compra de terrenos para o estabelecimento do novo povoado.

“Não existe ainda previsão para isso. Foi criada uma comissão formada por sete moradores para representar a comunidade em todas as reuniões. Esta comissão levantará locais possíveis para a reconstrução, mas fará isso com sigilo para que não haja especulação imobiliária”, afirma o prefeito de Mariana.

“Acreditamos que a empresa assumirá a responsabilidade, mas temos que ouvi-la primeiro.”

A Samarco disse que mantém diálogo constante com as famílias afetadas e que, nessas reuniões, elas vêm manifestando suas necessidades para futuras residências.

Por meio de nota, a companhia informou ainda ter firmado um acordo com o Ministério Público de Minas Gerais e o Ministério Público Federal, para destinar R$ 1 bilhão para “garantia de custeio de medidas preventivas emergenciais, mitigatórias, reparadoras ou compensatórias, sejam elas ambientais ou socioambientais, decorrentes do acidente ocorrido em suas barragens de Fundão e Santarém”.

“A Samarco depositará 50% do valor em até dez dias e apresentará em 30 dias as garantias em relação ao valor restante. Os gastos serão auditados por empresa de auditoria independente, escolhida pelo Ministério Público”, diz o comunicado.

Hoje, quase nada resta do bucólico distrito de Bento Rodrigues, usado como lugar de descanso por tropeiros que percorriam Minas Gerais em busca de ouro, como mostram registros feitas pela ONG Justiça Global no último final de semana.

Onde antes havia paisagens repletas de verde e casas de arquitetura colonial, hoje há um horizonte marrom criado pela lama que escoou das duas barragens.

No local onde estava a Igreja de São Bento, construída no século 18, algumas paredes ainda permanecem, mas soterradas. Ao lado, só há escombros onde antes funcionava o Bar da Sandra, um dos principais locais de confraternização do distrito. A escola municipal do povoado também ficou completamente destruída.

As imagens ainda mostram carros que foram arrastados e soterrados. Um foi parar no topo de uma casa. Quase nenhum telhado ficou no lugar, e marcas deixadas pela lama no que resta de pé de algumas construções mostra o quão destrutiva foi a onda de detritos que atingiu Bento Rodrigues.

O desastre deixou 11 mortos e 631 pessoas desabrigadas. Elas foram levadas temporariamente para hotéis e pousadas de Mariana.

No sábado, as duas primeiras famílias foram transferidas para residências alugadas pela Samarco. A empresa diz que o processo de transferência da população será feito gradualmente.

A Samarco diz já ter mapeado 300 imóveis que poderão ser usados por moradores de Bento Rodrigues até que uma “solução definitiva” seja encontrada. A prefeitura de Mariana estima que cerca de cem serão necessários para isso.

A empresa afirma ainda que “contratou três organizações de ajuda humanitária para desenvolvimento de um plano de assentamento, que inclui acolhimento às famílias, apoio psicossocial e triagem médica, além, de todas as providências para o reassentamento dessas pessoas”.

“As casas estão vistoriadas, mobiliadas e equipadas com eletrodomésticos. Cada família está sendo ouvida pela Samarco e Ministério Público para validar seu local de moradia antes da mudança, e nós continuaremos fornecendo assistência às famílias para alimentação”, diz a empresa.

 

Moradores de Bento Rodrigues conhecem área onde será novo vilarejo

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27/02/2016

Cerca de 100 ex-moradores de Bento Rodrigues, o primeiro  povoado devastado pela avalanche de lama da represa da Samarco, conheceram, na manhã de sábado, a área onde deve ser erguido o novo lugarejo. O terreno, de 100 hectares, fica a 12 quilômetros do Centro histórico de Mariana, na metade do caminho entre a cidade colonial e o antigo distrito.

A área tem as mesmas características do antigo lugar: várias espécies de árvores, nascentes de água e solo propício ao plantio de hortas, segundo a própria comunidade. O lugar também fica próximo ao trecho do rio Guapo do Norte que não foi atingido pela lama de minério.

“Por lei, a Samarco tem de nos apresentar três terrenos. A maioria das famílias gostou desse. Tudo indica que será aqui”, disse Antônio Gonçalves Pereida, o Da Lua, um dos membros da comissão dos ex-moradores de Bento Rodrigues.

A área, com diversas espécies de mata nativa, tem três nascentes de água e pertence a uma mineradora. A Samarco negocia a compra do terreno.

“Tomara que tudo dê certo. Em minha casa, havia fogão a lenha e um grande quintal. Na verdade, era uma chácara. Não vejo a hora de voltar para uma casa”, deseja Antônio Lopes, de 40 anos. Ele foi alocado pela Samarco num apartamento em Mariana.

Já no ínicio da tarde, os atingidos visitaram o que sobrou do antigo povoado de Bento Rodrigues. Algumas pessoas não seguraram as lágrimas. Dona Lenice Gonçalves do Carmo, 43, olhou desolada para o lugar onde ficava a sua casa. “Quando a lama veio, fugi apenas com a roupa do corpo”.

 

Comerciantes abandonam Regência por causa da lama no ES

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27/02/2016

Comerciantes de Regência, na região Norte do Espírito Santo, estão abandonando a vila em busca de melhores oportunidades. A mudança aconteceu por causa da chegada da lama de rejeitos da Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP Billiton, que contaminou a foz do Rio Doce.

Segundo os comerciantes, não é possível sustentar os negócio, que dependiam dos turistas que frequentavam as praias da região. Esse é o caso de Robson, que tem uma pousada em Regência. Por causa da lama, o comerciante não está recebendo hóspedes e, há um mês, teve a conta de luz cortada por falta de pagamento.

“A gente tem que tentar agora é buscar uma outra fonte de renda fora de Regência, porque aqui não dá mais, então vamos embora para nos manter e honrar nossos compromisso, é melhor sair daqui para tentar pagar o que ficou para trás”, disse Robson.

Ele e a esposa Aline estão se mudando para o município de Vila Velha, em busca de melhores oportunidades.

“A gente não tem renda, não tem mais surfista, então a gente resolveu, pelo meu filho, pela segurança e educação dele, abrimos a mão de Regência nesse momento. Mas a gente continua lutando”, contou o comerciante.

Já a padaria do Lucas de Jesus Almeida será aberta em outro lugar, ele vai se mudar para Nova Almeida, no município da Serra.

“Caiu muito do carnaval pra cá, no carnaval já não foi bom, e agora então não tem como mesmo. E a tendência agora é só piorar, enquanto o rio estiver assim, e o mar. E pra mim não tem como continuar aqui”, disse Lucas.

No entanto, para muitos comerciantes da região, ir embora de Regência não é uma opção. “Eu não tenho para onde ir, então tenho que ficar aqui mesmo. Eu abro meu restaurante todo dia, mas tem dia que não vendo nem uma bala”, disse a comerciante Zenaide Pereira Monteiro.

Para esses moradores, resta a esperança de que um dia lama vá embora e os turistas voltem para a Vila. “Vai demorar, mas um dia eu tenho fé em deus de que vai voltar a tudo que era antes”, completou Zenaide.