Os ‘quebra-galhos’ para a Baía de Guanabara na Rio-16

Em agosto, barreiras instaladas ao longo de dezenas de rios moribundos do Rio de Janeiro conterão o lixo que, de outra forma, pode se acumular nos trajetos por onde passarão os velejadores olímpicos. Uma frota de barcos patrulhará a área para evitar que esses resíduos danifiquem um leme ou uma quilha, custando assim a alguém uma medalha. Uma parte dos resíduos humanos não tratados que, há muito tempo, têm poluídos as praias, as docas e a pitoresca lagoa será desviada dos locais de competição; assim, os atletas que lá navegarem não precisarão se preocupar.

Pelo menos isso é o que foi prometido. Essa foi a última onda de quebra-galhos prometidos quando estava claro que a primeira onda não iria ser cumprida.

Um radiante pôr do sol delineia o perfil irregular das montanhas por trás de Martine Grael, em uma praia cheia de veleiros, após um dia de provas em uma regata internacional realizada na Baía de Guanabara. Ela tem seus receios. Martine, de 25 anos, é um membro que acaba de integrar a equipe olímpica brasileira de 2016, filha de um medalhista olímpico e verdadeiro fruto dessas águas. Ela fala com uma convicção triste de alguém que já viu uma pessoa querida sofrer.

“É muito claro que o tratamento e a educação dadas às águas são o grande foco para a sua limpeza, mas não tenho visto quase nada sendo feito”, declara Grael. “Acho que o Rio tem um litoral enorme e as pessoas amam ir à praia, mas parece que ninguém liga para o fato de que as praias estão cada vez mais sujas.

“A água continua suja e, às vezes, tem um cheiro muito ruim. Sei lá. Não é preciso ter muito estudo para perceber que isso não está nada bem”.

Em 2009, o livro de candidatura final do Rio incluía um compromisso de combater em sete anos um desastre ambiental ocorrido durante décadas. A grande ausência de um saneamento moderno virou um ativo nas mãos dos líderes da campanha para a eleição do Rio de Janeiro. O apelo direto e adulador ao Comitê Olímpico Internacional era: Concedam o poder transformador do seu evento de três semanas à nossa cidade. Precisamos dos Jogos mais do que Chicago, mais do que Madri.

O texto da candidatura declarava que 80 por cento de todo o esgoto seria coletado e tratado até 2016, e prometia a “regeneração total” da Lagoa Rodrigo de Freitas, onde os eventos de remo e canoagem/caiaque-sprint serão realizados.

O mesmo documento da candidatura afirmava que a economia brasileira era estável e chamava o financiamento para o Rio 2016 de “seguro”. Há quase seis meses da cerimônia de abertura, entretanto, reina a recessão, as taxas de inflação chegam aos dois dígitos e o orçamento para os Jogos levou um golpe significativo. O sistema público de saúde do país, já oscilante, agora deve enfrentar a crescente epidemia do vírus Zika.

Há muito tempo representantes do governo e do comitê organizacional deixaram de fingir que os objetivos da candidatura quanto à redução da poluição seriam cumpridos.

“Nada será feito porque não houve nem compromisso, nem dinheiro, nem capacidade suficientes”, declara ao Outside the Lines o porta-voz da Rio 2016 Mário Andrada. “No entanto, finalmente temos algo que a baía tanto precisava há gerações, que é a vontade pública de limpá-la.

“Ninguém quer receber hóspedes em uma casa suja. Então, se não somos capazes de cumprir o objetivo, precisamos continuar a trabalhar até o último minuto e nos certificarmos de que os atletas possam competir em águas seguras, e estamos fazendo isso.”

Esta não é a primeira vez que uma brecha foi aberta entre o discurso de vendas para as Olimpíadas e sua real execução. Sydney sofreu para atender os objetivos de limpeza do seu famoso porto antes dos Jogos de 2000 e ainda está travando essa batalha. Pequim 2008 foi considerada por pesquisadores como “a cidade olímpica mais poluída de toda a história” devido à sua poluição, apesar do governo chinês ter ordenado o rodízio de carros e o fechamento de fábricas. O resultado? Nenhuma melhoria permanente na qualidade do ar. Mesmo assim, Pequim sediará os Jogos de Inverno de 2022.

O Comitê Olímpico Internacional (única entidade com poder para supervisionar as promessas feitas na candidatura) nunca cancelou os Jogos em uma cidade, independentemente dos problemas revelados durante o período de preparação. O presidente do COI, Thomas Bach, continuou a declarar que as águas serão seguras para a competição e que qualquer progresso que possa ser atribuído aos Jogos de Verão é melhor do que nada. Representantes do COI não responderam aos vários pedidos de entrevista para o Outside the Lines.

A jornalista e autora brasileira Juliana Barbassa, cujas esperanças de mudança quanto à limpeza do Rio aumentaram quando a cidade ganhou a candidatura, acha o retrocesso profundamente angustiante. Seu livro mais recente, “Dancing with the Devil in the City of God”, pinta um cenário cru do meio ambiente e dos desafios sociais do Rio, e sua percepção de que as Olimpíadas não resultaria em uma alquimia urbana. Ela declara que a responsabilidade deve começar e terminar em casa.

“Tínhamos a faca e o queijo na mão”, declara Juliana por telefone direto do Rio. “Por um momento tínhamos o dinheiro, a vontade política, o prazo, os olhos do mundo todo para lidar com uma questão muito importante para o cotidiano dos moradores do Rio”. As janelas da casa de seus pais, no próspero bairro da Barra da Tijuca, estão abertas, diz ela, e o cheiro de esgoto sopra da Lagoa de Marapendi.

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A INCERTEZA

O mesmo cheiro invade uma janela aberta de um carro no trajeto de e para o aeroporto internacional do Rio, onde uma parte da estrada contorna lixões na Baía de Guanabara. Um motorista local informa os passageiros sem vacilar, enfiando-se na faixa mais próxima durante uma hora do rush tipicamente épica para proporcionar-lhes uma experiência olfativa.

Por mais graves e intratáveis que sejam os problemas de saneamento da cidade, os riscos exatos aos atletas olímpicos que competirão neste verão são difíceis de calcular. No ano passado, alguns atletas ficaram doentes em eventos esportivos de teste, mas nenhum caso foi ligado de forma pública e definitiva à água, ao contrário da comida ou outra fonte.

“A epidemiologia é uma ciência que estuda a saúde da população, não do indivíduo”, diz Joseph Eisenberg, um professor de epidemiologia da Universidade de Michigan que estuda as vias de doenças transmitidas pela água. “É uma associação estatística, não determinista”. No caso de um surto em grande escala, os ambientes suspeitos seriam testados, ele declara. Mas nenhuma equipe de cientistas em macacões de segurança correu até o local para investigar os micróbios que causaram infecções estomacais em um punhado de atletas.

Diversos casos receberam a atenção mundial, aumentada pelas descobertas de uma investigação em andamento feita pela Associated Press com base em um teste independente que revelou níveis alarmantes de contaminação por bactéria e vírus em e ao redor dos locais de competições olímpicas. A série promoveu o debate público sobre se as autoridades brasileiras deveriam testar se há a presença de vírus, mas o governo e os organizadores da Rio 2016 defenderam seus métodos, declarando-os consistentes com as normas da Organização Mundial da Saúde.

O caso mais visualmente impactante de provação de um atleta foi uma infecção de pele grave que talhou um pedaço da panturrilha do velejador alemão Erik Heil e, posteriormente, foi atribuída à SARM, uma bactéria multirresistente que se desenvolve em ambientes hospitalares, mas que também afligiu alguns atletas de esportes em terra.

Heil e seu médico disseram no verão passado que eles acham que o patógeno foi transmitido através da água. Mas, por enquanto, não há uma causa e efeito conclusivos para o caso de Heil, nem para outros casos recentes. Apenas há especulação, suposição e incapacidade de descartá-las. Especialistas com acesso a dados brutos utilizam modelos, tais como a AQRM (Avaliação quantitativa do risco microbiológico), para fazer projeções sobre doenças transmitidas pela água, mas a qualidade da água em qualquer um dos locais de competições olímpicas pode variar diariamente por causa da chuva, do vento, das correntes e da maré. A suscetibilidade de uma pessoa depende da sua idade, genética, sistema imunológico e exposições anteriores.

Os atletas receberão várias vacinas, terão acesso a desinfetante para as mãos, tomarão um banho o mais rapidamente possível após competir e recorrerão aos remédios caseiros, desde Listerine até Jagermeister, mas ninguém pode garantir quais precauções podem ser eficazes.

O Outside the Lines obteve um documento confidencial de planejamento do Comitê Olímpico dos EUA escrito em outubro de 2015 que declara: “O USOC está preocupado com a possível existência de contaminantes por vírus e bactérias na água. … O USOC está otimista, mas não esperamos antecipar grandes reduções [o itálico é do USOC] nos níveis patogênicos de bactérias e vírus nos locais de competição.

“Atualmente, não há nenhum modo de ‘zerar´ o risco de infecções ou doenças quando a competição ocorrer em qualquer água e, principalmente, nas águas do Rio”, assinala o documento.

O USOC não tem autoridade para ordenar atletas aquáticos a cancelar sua participação devido a tais condições. Ao invés disso, ela está se focando em fornecer informações junto com uma equipe médica reforçada, de acordo com o CEO Scott Blackmun.

“A água no Rio é suja”, declarou Blackmun ao Outside the Lines em uma entrevista na semana passada. “Precisamos fazer tudo que pudermos para evitar que nossos atletas adoeçam enquanto estiverem lá. Mas nossos atletas já competiram em condições difíceis ao redor do mundo em muitas, muitas ocasiões e é só uma questão de termos certeza que nossa preparação tem um objetivo específico para as condições que encontraremos no Rio”.

Haley Anderson, vencedora de uma medalha de prata em nado em mar aberto nas Olimpíadas de Londres 2012 e qualificada para nadar no Rio, diz que ela contará com os seus treinadores, a USA Swimming (federação americana de natação) e o USOC para a aconselharem de forma honesta sobre sua segurança.

Pessoas de fora bem-intencionadas ficam “te dizendo tantas coisas diferentes, tipo, ‘Você não deveria, você não pode nadar lá, não tem como”, declara Anderson, sentada perto de uma piscina limpíssima em Los Angeles no fim do ano passado, evidenciando uma frustração. “É tipo, ‘OK. Você consegue entrar para a equipe olímpica e depois decide não nadar. Me diz como é que se faz isso”.

Poucos atletas de qualquer nacionalidade insistem em discutir sobre o assunto. Eles são treinados para cumprir horário e se focarem no que podem controlar. Há exceções, como Martine Grael, que diz que já retirou da água estruturas de televisores descartadas durante sessões de treinamento, e o atleta de windsurf holandês Dorian van Rijsselberghe, o atual campeão olímpico. Embaixador da ONG Plastic Soup Foundation, com base na Holanda, van Rijsselberghe chamou as condições no Rio de “sujas, repugnantes e perigosas” em um blog escrito após ter ganho a Copa Brasil de Vela na Baía de Guanabara em dezembro:

“Um membro da nossa equipe de treinadores quase vomitou enquanto entrava no porto olímpico”, van Rijsselberghe escreveu em um texto traduzido e publicado no site da ONG.

“Esgoto bruto. Os atletas não falam sobre isso. … Eles não estão lá para desafiar as questões ambientais do mundo. Mas todos eles estão muito preocupados.

“Estou feliz que ganhei na semana passada. Talvez eu ganhei porque tive menos lixo preso no meu leme”.

O contraste entre a beleza topográfica do Rio e o horror das suas águas chocou van Rijsselberghe em sua primeira prova na cidade em 2013. “Na água, tivemos que desviar de cadeiras de plástico, uma geladeira, animais [mortos]”, diz ele em uma entrevista por telefone. Ele viu menos objetos flutuantes desta vez e não sabe de nenhum atleta holandês que tenha ficado doente, mas as condições ainda o incomodam. “Não é assim tão simples, colocando alguns filtros aqui e ali”, diz ele.

Outros atletas admitem algo que pode ser chamado de culpa do sobrevivente antecipada. Eles sabem que podem ir ao Rio e ficar por alguns dias ou algumas semanas, e depois voltar para águas mais limpas e para médicos atenciosos. E agora que os pesquisadores estão trabalhando intensamente para descobrir como conter o vírus Zika transmitido por mosquito vinculado a defeitos de nascença, quem vai se preocupar com um desconforto gastrointestinal ou uma erupção cutânea?

A triatleta dos EUA Sarah True, de 34 anos, está traçando planejando uma maneira de minimizar qualquer risco de doença. Ela viajará para o Rio pouco antes do seu evento, perdendo a maioria dos Jogos e evitando os treinamentos de natação no percurso da praia de Copacabana. Apesar disso, mesmo se concentrar-se em um objetivo principal, ela diz que não pode ignorar seu papel em um contexto mais amplo da situação.

“Pelo que eu entendi, o pior que pode acontecer é, alguns dias depois da prova, eu ficar um pouco doente”, declara True, que terminou em quarto lugar nas Olimpíadas de 2012. “No contexto geral das coisas, esse é um risco que quero correr. Estou muito mais preocupada com as pessoas que moram lá, para as quais foram feitas grandes promessas de melhoria do seu ambiente.

“Grandes mudanças poderiam ter sido feitas. Isso deveria ser um dos benefícios finais. O fato dessas promessas não terem sido cumpridas é estarrecedor para mim”.

Alguns confiam muito pouco neles. O legado já diluído do Rio sobre suas águas não foi nenhuma surpresa para especialistas que entendem o tamanho do desafio.

“Como foi possível o Comitê Olímpico [Internacional] proceder sob o pressuposto de que isso não seria um problema?”, questiona William Pan, um professor assistente de saúde ambiental global da Universidade Duke. “É bastante sabido entre a comunidade científica que a qualidade da água no Rio não é muito boa. Não é nenhuma surpresa que os atletas que irão competir nas Olimpíadas estejam bastante preocupados sobre serem expostos a diferentes patógenos na água, porque eles realmente o serão.

“Que bom que esse assunto está vindo à tona. Não tenho certeza o que fazer a respeito. É possível limpar as águas rapidamente”.

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O JOVEM

Pablo Nunes Meireles está impaciente em seus chinelos no deque do mini barco ecológico, ansioso para demonstrar como ele aprendeu a ajudar a policiar as águas de sua cidade natal. Ele é um menino robusto de 14 anos com óculos de hastes pretas, segurando uma pequena rede de pescar de cabo longo, junto com seu otimismo natural, e que é, atualmente, sua arma mais eficiente contra as condições desastrosas ao seu redor.

O barco começa a se mover, escavando o lixo da superfície em seu compartimento central. O jovem baixa sua rede, com suas cordas amareladas pelo uso, através de uma escotilha aberta e ergue-a para dentro do barco, esvaziando seu conteúdo (uma caixa de suco, uma embalagem de plástico, lixos diversos) em uma lata. Com suas mãos desprotegidas, ele retirou com a maior naturalidade uma camisinha usada do aro da rede e atirou-a na lata. Ser um bom cidadão nem sempre é bonito.

Pablo e seu meio-irmão mais velho Hugo moram em um bairro do estado do Rio chamado Jurujuba, do outro lado da baía da cidade do Rio, adjacente ao município de Niterói. A mãe de Pablo, uma professora, é casada com o pai de Hugo, um pedreiro.

Sua casa de estuque e blocos de concreto fica no topo de um morro em um bairro chamado Peixe Galo, uma favela sem aquela aura nefasta do interior da cidade, mas um local onde o crime e as drogas ainda ameaçam as vidas dos adolescentes. O cenário incorpora a justaposição dos ricos e dos pobres do Rio. A favela tem vista para o exclusivo iate clube Clube Naval Charitas, cujas quadras de tênis e piscina podem ser vistas através da espessa folhagem das casas construídas ao longo da encosta do morro.

Famílias como as de Pablo têm comodidades como TVs de tela plana, mas têm que construir suas próprias fossas sépticas. A água das torneiras e do vaso sanitário da família é despejada através de um pedaço de cano PVC que leva a uma máquina de lavar reaproveitada e cimentada, e depois é despejada na encosta. Outro cano espalha a água residual no chão.

As crianças no Peixe Galo e outros bairros em dificuldade na região têm acesso a um tipo diferente de oásis. Descendo o morro e atravessando a rua, temos o Instituto Rumo Náutico/Projeto Grael da família Grael, empoleirado acima da água em um antigo restaurante reformado e pintado em um tom cálido de ocre. Sua força motriz é o clã de velejadores mais proeminente do Brasil: o duas vezes medalhista de ouro olímpico Torben Grael, pai de Martine; seu irmão Lars, duas vezes medalhista de bronze; e seu irmão mais velho, Axel, cuja esposa, Christa, gerencia o instituto diariamente.

O programa ensina crianças carentes a partir dos 9 anos de idade a velejar. Ao se apaixonarem pelo vento, pelo mar e pela liberdade de escolher uma linha, a ideia é que eles aprendam a respeitar e cuidar do meio ambiente. Elas têm aulas, trabalham no barco ecológico dedicado do Projeto e aprendem ofícios como marcenaria, consertos com fibra de vidro e eletrônica.

“É a única coisa que temos”, Pablo se refere à Baía de Guanabara. “Acho que as pessoas que veem de fora enxergam algo como a sujeira, mas eu acho que dá pra consertar”.

Axel Grael é o vice-prefeito de Niterói e o antigo representante estadual de meio ambiente que participou de seu primeiro protesto antipoluição em 1980 pedindo para que os barcos de sardinha parassem de jogar vísceras de peixes na Baía de Guanabara. Desde então, ele tem visto alguns ciclos de ativismo e ímpetos de vontade que, em seguida, desaparecem.

“Se você comparar o Rio com todas as outras cidades olímpicas, não é a primeira vez que uma cidade olímpica não alcança seu objetivo”, declara Grael. “Mas, mesmo assim, tenho certeza de que o Rio de Janeiro será o pior percurso [de vela] olímpico já oferecido. É vergonhoso o fato de estarmos oferecendo condições tão ruins. Poderia ter sido muito melhor”.

Grael refere-se ao lixo jogado na Baía de Guanabara, não às possíveis doenças contraídas pelos velejadores. Ele não se lembra de alguém em sua extensa família que tenha ficado doente por causa da água e acredita que isso não será um problema para os atletas estrangeiros esse verão. Mas o lixo se tornou uma característica tão comum na paisagem marinha do Rio que ele tem que ser rastreado.

Ano passado, como parte de um plano estratégico maior, que incluía projetar as barreiras ecológicas que estão sendo construídas ao longo dos rios da região, o Projeto Grael ajudou a desenvolver um modelo inteligente para localizar os resíduos formados na Baía de Guanabara, utilizando boias com GPS para mapear as correntes. “A ideia era prever [com um dia de antecedência] onde o lixo estaria no dia seguinte”, declara Grael. “Os barcos [ecológicos] são muito lentos. Eles começam a funcionar às 8 horas da manhã. Se tiverem que localizar as faixas de resíduos, quando as encontrarem, já é hora de parar para almoçar”.

Os pequenos e bravos barcos ecológicos são melhores do que nada, mas eles são apenas curativos em uma ferida aberta. Velejadores como Brad Funk, um atleta dos EUA que compete na classe 49er, tiveram que se tornar peritos em tirar sacolas plásticas e outros objetos de lemes e quilhas o mais rapidamente possível.

“Em [outros] lugares, algas ficam presas”, declara Funk após um dia de prova na Baía de Guanabara em dezembro. “É só uma parte do nosso esporte. Mas, com certeza, aqui isso acontece mais, e certamente mais barcos são necessários por lá.

“Você anda em ziguezague pelo lixo e fica imaginando onde o centro do seu barco está, tentando desviar de pedaços de móveis ou de sacos de lixo ou de animais, etc. Em seguida, tudo é bonito e azul e você está aproveitando a brisa. Pode se tornar uma prova de obstáculos. Principalmente quando chove”.

O teste da Associated Press indicou altos níveis de contaminação por vírus na baía, mesmo distante da costa, nos percursos de prova. Mesmo assim, os velejadores dizem que amam o cenário singular do Rio e seus desafios mais puros de vento e correntes, e nenhuma consideração séria foi dada a um local alternativo. Peter Sowrey, antigo CEO do órgão regulador mundial de navegação, relatou à Associated Press que ele foi destituído do cargo apenas cinco meses depois de assumi-lo no ano passado porque insistiu neste assunto. A federação nega seu relato e não foi possível entrar em contato com Sowrey para fornecer mais comentários sobre a questão.

Mesmo no pequeno e lindo porto onde o instituto de Grael está localizado como um farol, há resíduos visíveis na água. Próximo de uma praia há alguns metros de distância, uma boneca flutua de rosto para baixo, com roupas rasgadas, cabelo espalhado de forma irregular ao redor da cabeça. É uma forma humanoide perturbadora, uma réplica muda, no melhor dos esforços.

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O BIÓLOGO

A bordo do barco de 10 metros, passando vagarosamente pela Marina da Glória, adjacente à área onde os velejadores olímpicos partirão, Mario Moscatelli está na popa, segurando uma câmera Canon com um objetiva longa. Ele aponta-a para a superfície da água quando encontra objetos flutuantes que parecem ter a cor e a consistência de matéria fecal. “Mer…. Mer…. Um monte de mer…”, declara ele posteriormente perante a câmera, enfatizando as consoantes como um tarol.

O biólogo usa tamancos de plástico, calças azuis de camuflagem, um colete com vários bolsos e um boné com o emblema da USCSS Nostromo, a espaçonave do filme “Alien”.

“Eu amo ficção científica”, declara Moscatelli em um inglês inconstante, mas determinado. “Adoro ‘Star Wars,’ ‘Alien,’ ‘O Exterminador do Futuro.’ Tenho minha mitologia sobre os problemas ambientais. Tenho um relacionamento entre a minha realidade e os filmes. É [assim] que minha mente funciona”. Ele aspira. “Porque eu combato toda essa situação”.

Moscatelli leva a poluição para o lado pessoal, como se ela fosse baba escorrendo da boca de um monstro que ameaça sua família. Na sua contagem informal, esse tour com a equipe do Outside the Lines será sua 15ª caminhada pré-Olimpíadas com repórteres, que são muito mais receptivos à sua mensagem do que seus compatriotas, diz ele. Às vezes, seus protestos atraem meros 15 ou 20 obstinados. “Eu não entendo o que se passa na cabeça dos cariocas”, declara.

Ele tem uma aliada em uma antiga colega de escola e amiga, a microbiologista Rosemary Vega, que participou de suas manifestações. Vega, uma mulher pequena e vigorosa que trabalha em um laboratório de hospital, cresceu nadando na praia do Flamengo, no coração da cidade. Ela não entra na água em nenhum lugar do Rio há oito anos porque tem medo do que há nela.

Sua preocupação aumentou após ler um artigo de uma publicação científica de 2014 que dizia que estirpes de bactérias resistentes a antibióticos (tipos normalmente encontrados em ambientes hospitalares, os mesmo que ela estuda em seu laboratório) foram encontradas em amostras singulares de água retiradas das praias do Flamengo e de Botafogo. “Elas passaram por mutações genéticas para se tornarem resistentes”, Vega declara. “Sempre digo aos alunos, ‘Sabe, elas são muito mais espertas que nós. Elas querem preservar a sua espécie”.

Moscatelli quer passar por áreas mais distantes da baía onde o lixo é depositado no litoral pelo vento e pela maré. O barco passa vagarosamente pelo aeroporto doméstico, pela área do centro da cidade e pelo impressionante perfil em formato de ondas do novo Museu do Amanhã. Em Duque de Caxias, uma comunidade onde o tratamento do esgoto quase não existe, a maré é muito baixa e não permite o acesso ao litoral, mas o mau cheiro do lodo é auto-explicativo.

Na ilha de Pombeba, o mau cheiro é, de forma impressionante e asfixiante, pútrido. Moscatelli aponta para o outro lado de pântanos negros, onde há um conjunto de árvores de mangue, apenas algumas das milhares que ele plantou em águas comprometidas ao redor do Rio, na esperança de que as toxinas da água filtradas por elas sirvam como uma ação de prevenção contra aqueles que a envenenam, os stormtroopers da sua narrativa.

Flores rosas claras florescem incongruentemente na cobertura do solo do caminho. Um bulbo fluorescente explode sob os pés. Na margem da vegetação há uma faixa de detritos. Uma área pequena, andando por uma área pequena catalogamos papéis de bala, um sutiã preto sem alça, um pneu, um para-choque de carro, um bola de futebol em miniatura murcha, uma carteira de criança rosa choque, um boneco troll sem cabeça, um animal de brinquedo com uma camisa de futebol do Brasil nº 8, uma mala com rodinhas cinza rasgada e manchada, uma mochila cheia de areia, uma chuteira com uma sola parcialmente descolada, uma lata de leite em pó, uma roda de carrinho, um tubo de pasta de dente e dezenas de sacolas, copos e garrafas plásticas que antes tinham refrigerante, enxaguante bucal, mostarda e produtos de limpeza para a casa, os principais ingredientes da “sopa” que van Rijsselberghe e outros deploram.

Uma bolsa pequena de zíper com um design em marrom e branco destaca-se entre os objetos cotidianos. Dentro dela há um RG com a fotografia e a impressão digital de uma mulher de 76 anos de idade e outros itens pessoais, encharcados e permeados pelo mesmo odor rançoso que o resto do lixo anônimo. Seu nome é bastante comum e não há endereço. Uma busca on-line por ela foi inútil. Não há como dizer se ela ainda está viva ou qual a distância que seu rosto plastificado possa ter viajado pelas correntes da baía.

A PRAIA

Na sombra de um guarda-sol perto do arco de chegada-partida da corrida Rei e Rainha do Mar, o atleta de nado em mar aberto, Chip Peterson, senta calmamente com a colega de equipe Christine Jennings. Uma multidão alegre e faladora se reúne perto do promontório na extremidade sul da praia de Copacabana, esperando para ver Peterson e o restante da equipe profissional, apenas por convite, que inclui antigos e potenciais atletas olímpicos.

Trajetos para nado de 10 quilômetros e etapa de nado do triatlo olímpicos serão definidos em agosto em relação a essa justaposição dramática do mar e das montanhas e prédios clareados pelo sol que delineiam a forma de meia-lua da areia como uma faixa de pérolas irregulares. Independentemente do cenário fotogênico, Copacabana dispõe de uma área protegida em frente à praia, agitada pelo vento e pela maré, mas não exposta como os vizinhos Ipanema e Leblon.

Peterson, de 28 anos, veio para o Rio pela primeira vez em 2007, para competir nos Jogos Pan-Americanos. Ele tinha vencido um campeonato mundial de 10 km como um jovem precoce de 17 anos e estava desejoso por um início no evento olímpica inaugural em Pequim 2008.

A poucos meses da prova, os médicos disseram a Peterson que ele tinha colite ulcerosa, uma doença crônica do intestino cujas crises exigiam hospitalizações cada vez mais longas. A doença fez descarrilar as tentativas dele de participar de duas equipes olímpicas sucessivas. Peterson decidiu então optar por ter o cólon removido. Uma vez recuperado, ele retomou as competições de elite, mas ficou aquém na sua candidatura para se qualificar para o Rio.

Pesquisadores acreditam que tanto o fator genético quanto o fator ambiental influenciem a doença. Peterson não pode provar que a água daqui o prejudicou, mas a suspeita aumentou quando a sua colega da equipe dos EUA, Kalyn Keller Robinson, soube que sofria de uma condição relacionada, a doença de Crohn, depois da mesma prova em 2007. Ela se aposentou pouco depois. Eles não sabem de nenhum outro nadador que tenha sido afetado de forma semelhante. Eles são um conjunto misterioso de dois.

Por que Peterson mergulharia novamente em águas que poderiam lhe custar tanto? Pela mesma razão pela qual muitos atletas irão se arriscar nesse verão: O risco é menos significativo do que a possível recompensa. “De certa forma, eu acho que o pior aconteceu, e talvez um raio não caia duas vezes no mesmo lugar”, diz Peterson que também competiu no Rio em 2014. “Não existe forma de saber se isso não teria sido desencadeado em algum outro lugar em algum outro momento.

“‘Vale a pena ter um pouco de diarreia por uma medalha de ouro’ é algo que eu ouvi de atletas por lá”.

A investigação da Associated Press encontrou níveis de bactéria em Copacabana dentro da faixa aceitável, menos alarmante do que na baía de Guanabara ou na lagoa, e detectou níveis baixos de contaminação por vírus no último mês de agosto. Os testes do governo mostram que ela está quase sempre adequada para o nado.

Luiz Lima, duas vezes membro da equipe brasileira de nado olímpico, treina diariamente em Copacabana com um clube chamado Gladiadores, e diz que se sente perfeitamente seguro. “O problema é o lixo”, diz ele perto da beira da água. “As pessoas no Brasil não jogam o lixo na lixeira”.

Steven Munatones, fundador e organizador da prova internacional de mar aberto da World Open Water Swimming Association, há muito tempo fez várias viagens ao Rio e diz que a qualidade da água (tendo em conta sabor, cheiro, visibilidade e a sua própria falta de sintomas) geralmente é muito boa. Das cerca de aproximadamente 60 vezes que nadou em Copacabana, ele se lembra de apenas um dia as condições estarem, conforme ele diz, “nojentas”.

Os atletas do nado em mar aberto, uma classe de atletas autossuficiente, lidam frequentemente com águas inseguras no Rio e em outros lugares aplicando Vicks VapoRub nas narinas como uma barreira contra o odor antes da prova, utilizando enxaguante bucal para matar os germes ou bebendo Coca-cola sem gás para acalmar seus intestinos. Os nadadores alemães Christian Reichert e Angela Maurer dizem que confiam em um shot de Jagermeister nas noites depois das provas. Jennings, que recentemente se aposentou da competição de elite, diz que ela e outros atletas algumas vezes recorriam a antibióticos de prevenção.

Munatones diz que existe um cenário pior para as provas olímpicas em Copacabana, que podem acontecer caso três fenômenos naturais ocorram ao mesmo tempo: chuvas fortes nos dias anteriores que levariam o escoamento de água das ruas espalhando-o pela areia, vento nordeste carregando o lixo da baía, e uma maré baixa que faria com que lixo e bactérias ficassem presos na área da prova. Ele menciona que agosto cai em uma época seca e que as chances de o vento e a maré estarem apenas certos ou apenas errados são relativamente baixas.

A FINA, órgão governamental internacional de natação, rastreou os atletas depois do do evento de teste dos 10 Km e relatou que nenhum deles ficou doente. No entanto, o dia da prova estava ventoso, e o árbitro oficial brasileiro de natação, Ricardo Ratto, diz que os últimos seis anos de dados meteorológicos mostram que aquela semana específica em agosto é a pior do ano.

Não existe um local de contingência e as provas de mar aberto e triatlo estão concentradas na segunda semana dos Jogos. O triatlo feminino está programado para o dia anterior à cerimônia de encerramento. Se as qualidades e condições da água se deteriorarem, será difícil para as autoridades se posicionarem.

Nadador de mar ao longo da vida e filho de um biólogo marinho, Peterson diz que os problemas da água do Rio precisam ser tratados por razões muito além da história dele.

“Nós estamos colocando muita ênfase nisso pois existe uma prova onde 50 atletas estão competindo, mas é uma cidade de 6 milhões de pessoas que não possui o mesmo nível de tratamento da água e todas as comodidades às quais nós estamos tão acostumados nos EUA”, diz Peterson. “Globalmente, bombear o esgoto para dentro do ecossistema não vai fazer bem para ninguém nas gerações que estão por vir”.

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A LAGOA

Andrew Kallfelz, que remou pela Cornell University no final dos anos 80, temeu pelo que as suas duas filhas poderiam encontrar quando elas competiram na categoria júnior dos campeonatos mundiais de remo, na Lagoa Rodrigo de Freitas, no último mês de agosto. Ele já tinha lido os relatórios da Associated Press e visto imagens das mortes periódicas de peixes, que cobriam totalmente a superfície da água com carcaças cinza.

Ele teve uma surpresa agradável. “Nós chegamos lá achando que aquilo seria um esgoto e foi maravilhoso”, diz Kallfelz. “Eu não vi lixo nenhum e não tinha cheiro ruim”.

Ainda assim, tendo em conta o que poderia estar escondido a nível microscópico, foi um pouco perturbador ver a sua filha de 16 anos, Eliza, virar e subir de novo para dentro do barco enquanto competia nas semifinais da prova de skiff simples. “Eu acho que teve um momento de ‘Ai meu Deus, agora estou flutuando nisso”, disse seu pai. Mas Eliza se manteve saudável, enquanto membros da delegação dos EUA, que não tinham tido nenhuma exposição direta à água, ficaram doentes.

Foi uma jornada estressante para a equipe júnior dos EUA, que virou o foco de um interesse intenso quando 13 atletas e 4 membros da comitiva ficaram doentes durante a prova, com períodos de vômito e diarreia. Os sintomas de nenhum outro time no Rio foram tão graves. O médico local da equipe e uma técnica (Susan Francia, duas vezes medalhista olímpica de ouro e que também foi afetada) disseram na época à The Associated Press que suspeitavam que a água contaminada tenha sido a culpada.

A história explodiu novamente em dezembro quando um membro de longa data do COI, Anita DeFrantz, contou ao programa de rádio Mike & Mike, da ESPN, que os jovens remadores tinham sofrido uma intoxicação alimentar através do consumo de sorvete. Mais tarde ela pediu desculpas por passar informações erradas. O CEO do remo dos EUA, Glenn Merry, diz que uma análise interna não conseguiu estabelecer nenhuma ligação em comum entre os casos.

Jo Hannafin, médica de longa data do remo dos EUA, diz que a sondagem junto de outros times também não trouxe respostas. “Os EUA foram o destaque quando olharam para os dados no quadro”, diz ela. Para evitar que o episódio se repita, a federação está confiando nas diretrizes dos Centros de Controle de Doenças e da comissão médica da FISA, o órgão governamental internacional do esporte.

A lagoa, que possui a forma de uma rechonchuda letra C, fica ao norte da praia de Ipanema, sob a montanha em cujo topo está a estátua de braços abertos do Cristo Redentor. Um canal liga a sua margem sul ao oceano. Autoridades governamentais testam a água da lagoa em seis locais diariamente para verificar o nível de bactéria E.coli e determinar se o contato secundário (remo, pescaria e vários tipos de navegação) é recomendado. Algumas vezes a visualização da lagoa codificada por cores publicada on-line é totalmente verde por dias; às vezes é vermelha; às vezes é de ambas as cores. O teste da Associated Press no ano passado encontrou níveis mais altos de contaminação por vírus lá do que em qualquer outro local, 16 vezes maior que a contagem de coliformes fecais permitida para contato secundário, de acordo com a lei nacional.

Os Estados Unidos enviarão 48 remadores para o Rio, e eles estarão tão prevenidos e precavidos quanto a federação puder deixá-los, começando pelos frascos de compressão com desinfetante para as mãos, que serão distribuídos no voo para o Brasil.

Hannafin diz que tem sido solicitado aos atletas que tomem vacinas contra a hepatite A e doses de reforço contra a poliomielite, e medicação oral contra a febre tifoide. Os punhos dos seus remos serão limpos com água sanitária e as embarcações lavadas por dentro e por fora após cada sessão de treino ou competição. Os acessórios serão lavados em uma temperatura alta o suficiente para matar micróbios. As “track bites” (feridas que os remadores têm nas panturrilhas por causa dos assentos deslizantes) serão limpas e cobertas para reduzir a chance de infecção. Os probióticos selecionados pelo USOC farão parte do cronograma de treinamento.

Como um todo, as medidas são mais extensas do que as que o time de remo dos EUA tomou no passado, mas elas também são claramente de bom senso para qualquer atleta de elite que viaja consideravelmente. As autoridades estão tentando ver a nova conscientização como uma coisa positiva. “Isso aumentou a preocupação de todos”, diz Curtis Jordan, diretor do remo de alta performance dos EUA. “Nós teremos a atenção da população quando lhe dissermos como lidar com a questão da higiene”.

Jordan viu os juniores alemães comemorarem no mundial no Rio pulando na lagoa e não tem a certeza de que poderia impedir os atletas olímpicos de fazer o mesmo. “Eles só não podem pular antes”, diz ele.

ESPN.COM

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A VISÃO A LONGO PRAZO

As Olimpíadas de Londres 2012 encerraram com a tradicional convocação, chamando a juventude do mundo todo para se reunir em 2016. E ela está vindo para o Rio de Janeiro, conduzida pela projeção daqueles momentos que só acontecem de quatro em quatro anos. Eles se arriscarão nessas águas enquanto os responsáveis pelas decisões olímpicas assistem a tudo com um certa distância de segurança, esperando que o seu próprio tiro não saia pela culatra.

O evento sonda todas as fraquezas de um país anfitrião. Os sem-teto e a população carente são constantemente deixados de lado. Os edifícios cuja durabilidade era considerada longa, no fim das contas estão vazios. As contas se acumulam. No caso do Rio, projetos financeiros necessários, tais como novas estradas e transporte público, são contrabalançados pelo que não foi feito: a oportunidade perdida de mudanças incisivas na parte mais fundamental da sua identidade.

Leonardo Espíndola, chefe do gabinete do governador do Rio de Janeiro, insiste que os Jogos não são uma linha de chegada e que as iniciativas governamentais irão continuar.
“Os Jogos também serviram de ignição para chamar a atenção de todos, de toda a sociedade (não apenas no Brasil, mas também em diversos lugares ao redor do mundo) para a importância da Baía de Guanabara”, disse ele para o Outside the Lines. “Então talvez esse seja o legado principal, o fato de termos chamado a atenção, de não termos desistido da Baía de Guanabara e de estarmos mostrando que é possível ter uma baía que está pronta para os Jogos Olímpicos”.

A autora Barbassa diz que não está convencida e tem curiosidade em saber se será atingido um momento crítico onde a sua cidade litorânea poderia ficar virtualmente sem litoral.

“Se você vem aqui e se entrega a esse lugar, você definitivamente se apaixona por ele, e dói vê-lo nessas condições”, diz ela.

“Se você quiser pensar em quem são as vítimas, são as crianças que têm de crescer perto dessas coisas, que não podem desfrutar do ambiente onde vivem sem sofrer uma grave ameaça à sua saúde”.

O último local que Moscatelli quer visitar no seu tour, fica bem no meio do ecossistema da Rio 2016, a 3 quilômetros da Marina da Glória, a apenas um quilômetro e meio de Copacabana. Em um mapa turístico oficial, um guarda-sol inclinado para um lado (o símbolo universal para caminhar e nadar) assinala a praia de Botafogo. Na vida real, os pombos bicam uma camada de lama onde a areia se encontra com a água. Tufos de algas apodrecendo balançam levemente na parte rasa. Lixo e grafite estão espalhados aleatoriamente do outro lado do enrocamento. É um dia de céu limpo, 32 graus, início do período nacional de férias, mas essa praia está vazia, cronicamente declarada como insegura para uso recreativo (link para dados de testes da praia) Um par de traves de futebol a ocupam como sentinelas solitárias.

A água perto da costa na área confinada é calma. Conforme a equipe de câmera se aproxima das vísceras encardidas de uma grande e retangular calha de águas residuais filmando a partir de uma pequena embarcação inflável, um homem passa de bicicleta na ciclovia suspensa e grita: “Mostrem para todo mundo esse lixo”.

Saindo de Botafogo, a lancha para por estriamentos de água limpa e resíduos. Na sua popa, redemoinhos giram com uma espuma indefinida no seu rastro. “Onde está o barco ecológico?” Diz Moscatelli, encolhendo os ombros para dar ênfase. “É impossível”.

Mais a frente, velejadores em formação passam rapidamente na Baía de Guanabara. Barcos de lazer limpos flutuam no porto sob o perfil majestoso e elevado do Morro do Pão de Açúcar. Um bondinho transporta os turistas pelo ar do seu cume a 396 metros de altura até perto do Morro da Urca, que está 152 metros abaixo. A vista é espetacular e imaculada a partir de lá.

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