Irracional

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[TEXTO ORIGINAL]

O ano é 2093 e o mundo como o conhecemos colapsou. A temperatura do planeta subiu 11°C em média, o nível do mar elevou-se em 8 metros, pelo menos 1,5 bilhão de pessoas tiveram de migrar em massa após serem deslocadas de suas casas, mais de 70% das espécies foram extintas, entre elas o icônico urso-polar. O cenário catastrófico previsto pela historiadora da ciência Naomi Oreskes, da Universidade Harvard, em seu mais recente livro – The Collapse of Western Civilization (O Colapso da Civilização Ocidental, ainda sem tradução para o português) – é uma ficção, mas fortemente amparado na realidade. Na prática, é só um pouco mais dramático do que as estimativas feitas pela ciência.

Valendo-se de dados científicos e dos acontecimentos dos últimos anos, ela e o historiador Eric M. Conway imaginam o que pode acontecer se a humanidade falhar em agir diante da informação robusta que existe sobre as mudanças climáticas. É um alerta assustador, às vésperas da Conferência do Clima da ONU, que será realizada em Paris, no final do ano, sobre como tudo pode dar muito errado. Mas é também um lembrete de que as informações disponíveis para evitar o pior estão ao alcance dos governantes. Basta agir.

Naomi se tornou uma das principais vozes nos Estados Unidos na defesa de ações contra as mudanças climáticas e no combate aos negacionistas do problema. Ela foi a primeira a mostrar que é consenso entre a esmagadora maioria da comunidade científica que o clima está mudando por ação humana e foi a responsável, junto com Conway, por desmascarar um grupo de “especialistas” que, financiados pelas mais variadas indústrias, trabalham para lançar dúvida sobre o que a ciência diz.

Esse punhado de pessoas, de acordo com a dupla, vem atuando desde as primeiras pesquisas que mostravam relação entre consumo de tabaco e o câncer até os estudos sobre as mudanças climáticas. A denúncia foi feita no livro Merchants of Doubt (Mercadores da Dúvida, sem tradução em português), de 2010, que foi transformado em um documentário de mesmo nome lançado no começo deste ano.

Em entrevista ao Aliás (em parte concedida no interior de Massachusetts, onde ela mora), Naomi analisou a política americana em relação às mudanças climáticas e as últimas ações do presidente Barack Obama (que lançou no começo de agosto um plano de corte das emissões das usinas termométricas a carvão). Ela também fala sobre o comportamento dos cientistas em relação à opinião pública sobre o tema e o impacto que o papa Francisco, que publicou sua encíclica ambiental em junho e vai visitar os Estados Unidos em setembro, pode ter sobre essa situação.

Sua publicação mais recente é justamente uma introdução à versão em livro da encíclica, que chegou às livrarias americanas no começo de agosto visando atingir um público além dos católicos. Ela escreve: “A essência da crítica (feita pelo papa) é que nossa situação não é um acidente – é a consequência da forma como nós pensamos e agimos: nós negamos as dimensões morais de nossas decisões e confundimos progresso com atividade. Nós não podemos continuar a pensar e agir desse jeito, desconsiderando tanto a natureza quanto a justiça, e esperar prosperar com isso. Não é só amoral, não é nem mesmo racional”.

Como a sra. avalia a política atual dos EUA em relação às mudanças climáticas?

Apesar de algumas tentativas do presidente Obama, a situação é totalmente terrível, porque a liderança do Partido Republicano ainda está oficialmente em negação do problema. A esperança é que isso talvez chegue a um fim logo, porque também há republicanos mais sensíveis à questão que estão se manifestando nos bastidores, como Bob Inglis (ex-deputado pela Carolina do Sul que defende que os conservadores aceitem as evidências científicas das mudanças climáticas e ajam em relação aos subsídios dados aos combustíveis fósseis) e George Schultz (secretário de Estado na administração Reagan e coautor do relatório Negócio de Risco, que mostra os danos econômicos que as mudanças climáticas podem causar aos EUA). Sabemos que há alguns líderes republicanos que já entenderam que não se trata de uma falácia, mas que ainda não se sentem capazes de falar abertamente em público. Então, acho que as próximas eleições podem ser importantes, especialmente após a divulgação da encíclica do papa Francisco. Há uma oportunidade aí para os moderados dizerem: temos de parar de ter só uma posição às escondidas sobre esse assunto e nos posicionarmos à frente dessa questão. Isso poderia acontecer. A questão é saber se de fato vai acontecer.

Como seria esse passo?

É o que eu sempre digo: eu continuo esperando por um “momento Nixon vai a China”. Richard Nixon era um notório anticomunista, mas fez uma ousada e histórica viagem para a China. Politicamente, foi chocante. Mas algumas pessoas argumentaram que ele pôde fazer isso justamente porque ele era tão anticomunista que ninguém poderia acusá-lo de estar virando comunista. Nixon pôde ir à China de um modo como nenhum democrata jamais poderia ir naquela época. A moral da história é que alguns republicanos, como Lindsey Graham (senador pela Carolina do Sul desde 2003, pré-candidato à presidência pelo Partido Republicano e que nos últimos meses têm criticado seu partido por não acreditar no que a ciência diz sobre as mudanças climáticas) ou John Boehner (presidente da Câmara dos EUA), poderiam dizer: chegou o momento para nós reformularmos o modo como pensamos sobre o ambiente e percebermos que é possível ter prosperidade e crescimento econômico e proteger o ambiente ao mesmo tempo. Dizer que não são coisas excludentes – pelo contrário: se não fizermos nada sobre as mudanças climáticas, essa será a real ameaça à prosperidade.

Falando sobre o papa, chama a atenção como a comunidade científica americana aguardava ansiosamente pelo pronunciamento dele como algo com potencial de mudar a política dos EUA sobre a questão. Por que a ciência, de repente, passou a botar tanta esperança em um pronunciamento religioso? 

Isso nos mostra como política nos EUA ficou estranha. Afinal, quão bizarro é ter os cientistas mal podendo conter a ansiedade por um pronunciamento papal sobre uma questão que concerne à ciência, à cultura e à sociedade? A minha interpretação é que houve tanta ansiedade em torno da encíclica porque cientistas são cientistas e eles não sabem como falar sobre questões culturais e morais. Não são treinados para fazer isso, não se sentem confortáveis fazendo isso. Mas nem sempre foi assim. Durante a Segunda Guerra e depois, muitos cientistas se posicionaram contra o uso de armas nucleares, mas era um tempo diferente, com pessoas diferentes. Agora, sobre as mudanças climáticas, eles falam em termos científicos: quantos graus Celsius de aquecimento, quantos milímetros por década de aumento do nível do mar… Só que isso não é uma maneira de falar ao coração das pessoas. Para a maioria das pessoas normais, isso não significa nada. Cientistas não conseguem passar a mensagem de por que isso importa. Porque, para fazer isso, é necessário colocar o problema de maneira pessoal, emocional, econômica, social e moral. Isso é um pouco o que fazemos no livro O Colapso… Tentamos contar a história do ponto de vista humano. Mas o que o papa está fazendo vai além em vários graus de magnitude, porque ele está colocando em termos morais ao dizer que o que está acontecendo é uma injustiça. É algo que os cientistas não se sentem capazes de dizer, mesmo sendo algo que eles saibam, com o qual se preocupam, se incomodam e do qual falam em privado. O papa pode fazer o que os cientistas não podem. Há 20, 30 anos eles acharam que os líderes políticos nos EUA fariam isso, mas eles não fizeram. E o papa agora resolveu assumir essa responsabilidade. Acredito que a comunidade científica de certo modo se sente aliviada com isso.

E o catolicismo nem é majoritário nos EUA.

Verdade. Mas o papa ainda é visto como uma autoridade moral por muitas pessoas, não só pelos católicos. E também é importante porque muitos dos líderes republicanos de direita neste país são católicos. Rick Santorum (pré-canditato à Presidência) e John Boehner, por exemplo. A Suprema Corte está repleta de católicos. E Santorum e Boehner têm criticado o que eles chamam de “cafeteria catholics” (algo como católicos do self-service), que escolhem quais regras da Igreja querem seguir. Bom, se eles defendem que não é certo escolher o que seguir, como vão agir com o papa dizendo que é preciso fazer algo contra as mudanças climáticas e que isso não é uma questão científica, mas moral, que é uma questão de justiça?

O que pode acontecer quando o papa se dirigir ao Congresso em setembro? Os republicanos podem ficar constrangidos, numa saia justa que talvez os faça agir?

Honestamente, acho que a maioria ali não é mais capaz de ficar constrangida. Mas o impacto pode ser grande no público. A esperança é que se o papa falar claramente sobre o assunto, pedindo ações dos EUA, e isso tiver uma ampla cobertura da imprensa, muitas pessoas comuns vão ouvir, pessoas que podem não ter dado muito atenção ao problema ou nem sabem o que pensar sobre ele. E elas vão ouvir o papa dizendo que isso é real e, veja, ele não é cientista querendo financiamento para sua pesquisa, não é alguém só querendo ganhar atenção. Afinal, oras, ele é o papa, pode conseguir toda a atenção que ele quiser. Então por que ele estaria tratando desse problema se ele não achasse que é verdade? Quando as pessoas perceberem isso, pode ser que mude o tom da conversa.

Mas mesmo do lado dos democratas a situação não é tão boa. Obama recentemente anunciou seu Plano de Energia Limpa, fez o anúncio conjunto com a China. Mas também defendeu recentemente a exploração de 

petróleo no Ártico.

Pois é, isso não faz nenhum sentido. Em muitas dessas ações eu normalmente não concordo, mas até entendo a lógica. Agora, com o Ártico, não é o caso. Fiquei muito irritada depois daquele anúncio. É como dar com uma mão e tirar com a outra. Não existe um progresso real (para uma economia verde) se o país continua investindo em novas formas de obter recursos fósseis. É por isso que me envolvi com o movimento de desinvestimento em combustíveis fósseis (proposto por alunos de Harvard para que a universidade deixe de investir no setor). Uma pessoa não pode dizer que é séria a respeito das mudanças climáticas e ao mesmo tempo dar apoio a novos investimentos em combustíveis fósseis. Se faz isso, ou está mentindo para o mundo ou para si mesma.

Seu novo livro destaca como o Ocidente vai sofrer com as mudanças climáticas. Por que a sra. acha que o Oriente, especialmente a China, será menos afetado?

Principalmente porque a China tem historicamente sido a civilização mais resiliente de todas, mas também porque – e isso é um argumento central do livro – se as coisas ficarem realmente ruins, as democracias terão mais dificuldade para responder do que os regimes mais autoritários. Democracias não podem simplesmente ordenar que as pessoas se movam para outros locais. Elas não podem simplesmente confiscar recursos – medidas que podem ser necessárias em casos de catástrofes naturais que levem a interrupção do fornecimento de comida e água, por exemplo. Mas governos autoritários fazem isso. E isso é um forte argumento de por que nós temos de agir agora em vez de esperar até que as coisas fiquem muito ruins.

No livro vocês estimam um futuro bastante pessimista, até mais dramático que os piores cenários do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas). Por que escolheram uma situação tão catastrófica?

Tentamos explorar como se pareceria o pior cenário, e nos baseamos em um trabalho anterior que fiz com Keynyn Brysse (historiadora da Universidade Princeton) e outros, que sugere que cientistas, no passado, subestimaram as ameaças ao planeta. Então extrapolamos aquela descoberta para sugerir que as estimativas atuais do IPCC também podem ser um pouco baixas. E, infelizmente, o nosso cenário está parecendo cada vez menos implausível.

Quais situações dão sinais de que os piores cenários podem se concretizar?

A evidência mais óbvia que dá suporte a isso vem do manto de gelo da Antártida Ocidental. Por décadas – literalmente, desde os anos 1970 -, cientistas sabem que o aquecimento global ameaça sua estabilidade, o que poderia levar a muitos metros, talvez dezenas de metros, de elevação do nível do mar. Mas quase todo mundo achava que a ameaça era pequena e muito distante. Muita gente achava que os efeitos não seriam vistos por séculos. Alguns chegaram a considerar que seriam essencialmente hipotéticos. Agora nós descobrimos, em um estudo científico publicado no ano passado, que cientistas encontraram evidências de que a Antártida já começou a se desestabilizar e que seu rompimento pode, na verdade, ser uma coisa certa (apesar de o tempo para isso acontecer continue incerto). Quando esse estudo foi publicado, eu pensei: meu Deus! Nós achamos que pudéssemos estar exagerando em nossa história, mas parece que o nosso “exagero”, no final das contas, não foi exagerado coisa nenhuma.

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