Amigos, amigos, negócios à parte. É o recado a Evo Morales

[TEXTO ORIGINAL]

26/01/2006

CARACAS – Antes da mais nada, muito sangue indígena e camponês manchou os paralelepípedos das ruas de Cochabamba, La Paz e El Alto antes do pleito histórico que elegeu Evo Morales presidente da Bolívia. Tombaram bolivianos na luta contra a privatização da água em Cochabamba, em 2000, em 2003 na luta contra a taxação do salário mínimo, sugerida pelo FMI e que acabou derrubada por um levante de dois dias e um saldo de 30 mortos, e na guerra contra a privatização do gás, que custou 100 vidas. Houve um levante contra a multinacional Suez, em El Alto, que levou ao rompimento do contrato de privatização da água no ano passado, e dois foram os presidentes derrubados pela pressão popular.

Liderança da guerra da água de 2000 em Cochabamba, Oscar Oliveira fez questão de relembrar estes fatos em um debate quarta-feira (25) sobre a vitória de Evo, ao enviar um recado não só aos entusiastas como ao próprio companheiro e agora chefe de Estado: não foi um presidente que foi eleito, mas sim um projeto político. Que está acima de qualquer individualidade ou representação institucional.

A sinalização de que os movimentos sociais mais organizados da Bolívia – inclusive aqueles em cujas fileiras Evo se formou liderança nacional em um passado recente – devem se manter autônomos e independentes em relação ao governo é um aviso claro de que o presidente está em um ambiente político no qual qualquer deslize pode transformar a comemoração dos movimentos sociais por sua vitória em novo período de instabilidades e, por que não, gerar um outro levante contra o governo.

No cerne deste posicionamento, explica Oliveira, está a preocupação de que não se repita na Bolívia o que aconteceu basicamente no Equador com Lucio Gutierrez – apoiado e derrubado pelo movimento indígena -, no Brasil com Lula e no Uruguai com Tabaré Vasquez.

“A principal reflexão que devemos fazer é onde estão nos levando as mudança de governos. Se isso mudou a vida das pessoas, se combateu o neoliberalismo, se aumentou a participação popular. Temos que avaliar isso. Se não aconteceu, é só reformismo que mantém a estrutura de exploração. Nós na Bolívia não vamos aceitar simples reformas. Vamos apoiar o governo enquanto fizer transformações. Não queremos ser uma Argentina, um Brasil ou um Uruguai onde só ha desânimo entre as organizações sociais”, avisa Oliveira.

A prova de fogo para Evo está bem clara: terá que nacionalizar os hidrocarburos e convocar uma assembléia constituinte nos próximos cinco meses. “E não aceitamos esse discurso de nacionalização responsável, de que há multinacionais bandidas e não bandidas. Todas são, inclusive a Petrobrás, que nos desculpem nossos amigos brasileiros”, afirma Oliveira.

Contrato de casamento
A semelhança do momento boliviano com o que o Brasil viveu em 2002 com a eleição de Lula não está apenas na origem dos dois presidentes, ambos advindos do movimento popular, ou na comoção internacional que causaram. A mesma responsabilidade que a esquerda brasileira outorgou a Lula na época é dada agora a Evo pelo movimento indígena. “Evo é um companheiro de rua e rebeldia, e se fracassar ninguém mais acreditará em nós”, pondera Humberto Cholango, líder da Confederação das Nações Indígenas do Equador (Conaie). “Nesse momento, a responsabilidade é da Bolívia e de seus movimentos, que devem ser fiscalizadores de seu governo”.

Segundo Cholango, a “Evomania” que vem tomando conta da região andina já está suscitando no Equador a procura por um próprio candidato indígena, mas ele alerta: não é um presidente indígena que vai resolver, é o projeto político. “Descolonizar um país é refundar e reestruturar um novo sistema político, econômico e social. E temos que ter em conta que a oligarquia não estará disposta a perder”.

Román Loayza, líder da Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia, também reforça a perspectiva de que está em jogo, na Bolívia, a implementação de um projeto gestionado pelos movimentos sociais por anos. A consolidação deste processo, defende Loayza, será acima de tudo a nova assembléia constituinte, já aprovada pelo Congresso. “É uma questão de vida ou morte, definirá como se administrará o Estado e seus recurso naturais. E não acho que ‘el hermano’ Evo Morales nos trairá. Com o que viu com seus olhos e escutou com seus ouvidos não nos trairá”.

Inquietações
A forma como vão se relacionar os movimentos sociais com o governo ainda é um fator preocupante para Oscar Oliveira. Convidado pelo presidente eleito para assumir o ministério do Trabalho, declinou em nome de uma autonomia imprescindível, em sua avaliação, para validar o projeto político que sustentou a eleição de Evo. A “cooptação” de outras lideranças pelo governo, principalmente em El Auto, para ele é um fator preocupante, assim como preocupam recentes ruídos no diálogo dos movimentos com o governo e uma aparente relutância em chamar os atores sociais para o debate sobre as decisões governamentais.
“Estou muito preocupado, e não queria expressar isso neste Fórum e diante de tanta gente tão esperançosa, mas o grande perigo que vejo no governo de Evo Morales é a intenção demonstrada nas últimas semanas de cooptar todos os movimentos. Se perdermos a autonomia, essa capacidade inventiva, de proposição, de mobilização autônoma, para construir nossos próprios espaços políticos às margens do aparato estatal, vejo um processo muito perigoso para Evo Morales. Essa capacidade do movimento indígena e camponês de se mobilizar é a nossa grande força para a construção de um novo projeto, que, creio, é irreversível. Se alguém quiser contestar essa força, vai haver novamente levantes e mortes”.

Oliveira também detectou atritos com o próprio MAS, que estaria se opondo fortemente à idéia de realização de uma assembléia dos movimentos sociais em fevereiro para preparar e discutir a Assembléia Constituinte. “Não vamos esperar sentados seis meses à espera da Constituinte. Estamos sentindo um certo autoritarismo por parte do governo, uma falta de abertura para o diálogo, que não nos chega com um bom sinal. O que queremos dizer é que há um perigo de fracasso se Evo não realizar todas as mudanças estruturais nesses primeiros meses de governo, quando tem todo o apoio popular, uma popularidade que chega a 70%. Essa é nossa demanda”.

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