Bolívia: Tipnis no meio do caminho

[TEXTO ORIGINAL]

“Acredito que o Tipnis é a definição do presente e do futuro, não apenas da Bolívia, mas de uma grande parte dos povos que lutam para que a humanidade não se destrua”

Talvez a melhor maneira de apresentar Oscar Oliveira seja lembrando que, em 2000, ele foi um dos articuladores da Guerra da Água. No episódio, indígenas, camponeses e trabalhadores urbanos conseguiram desprivatizar o serviço de abastecimento de água na cidade de Cochabamba. Junto com a Guerra do Gás, a Guerra da Água abalou a política boliviana no começo do século e mudou a correlação de forças sociais do país. Como consequência, anos depois, Evo Morales seria eleito presidente.

Naquele então, Oscar, como ele mesmo diz, era apenas um operário. Mas, depois de lutar contra a ganância empresarial sobre um recurso que, acredita, é um direito humano, Oscar passou a ser também um lutador social. Já participou de debates ao lado do escritor uruguaio Eduardo Galeano, no Fórum Social Mundial de 2005, e foi convidado pelo presidente Evo Morales para assumir o Ministério da Água. Negou-se, preferindo continuar na militância popular. Pode ser que já tinha previsto o que aconteceria mais para frente.

Então apoiado e idolatrado pela população, hoje Evo Morales se encontra numa delicada situação política. O motivo é a estrada que o líder aymará quer construir sobre a Terra Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis). Oscar Oliveira está participando da resistência — que ganhou adeptos após a violenta repressão da polícia contra a marcha indígena que se desloca à capital, La Paz — e conversou conosco a respeito. Em poucas palavras, ele toca nos pontos nevrálgicos que rodeiam o projeto: IIRSA, cocaleros, destruição ambiental e modelos de desenvolvimento. Sem esquecer, claro, a incoerência do discurso oficial.

Quais os interesses em disputa no Tipnis? Existem cocaleros na região? São aliados ou inimigos políticos dos indígenas?

Sim, existe uma invasão cocalera na região. Aliás, os cocaleros do Tipnis estão pressionando Evo Morales para legalizar seus assentamentos, que obviamente são ilegais, pois há várias leis que protegem a conservação do parque — que também é um território indígena. Tipnis quer dizer Terra Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure, porque seus limites geográficos estão definidos por dois rios: o rio Isiboro e o rio Sécure. É uma reserva protegida.

Além disso, a região — o coração do Tipnis, que seria atravessado pelo trecho 2 da rodovia — é rico em gás, petróleo, madeira e outros recursos naturais que já foram loteados por empresas brasileiras, como a Petrobras, e a francesa Total. O Brasil está muito interessado numa estrada para transportar sua produção ao continente asiático, principalmente à China.

Estes projetos formam parte da IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana). Você pode procurar na internet e ver quantos projetos de saqueio existem para atender os interesses de grandes transnacionais e que estão sendo executados em parceria com os governos “progressistas” da Bolívia, Equador, Paraguai, Uruguai e Argentina. Existe um banco brasileiro com negócios aqui, mas que também tem megaprojetos no Equador e Peru. Esse banco é a ponta de lança para os interesses que chamamos “novo imperialismo brasileiro”, ao qual o governo boliviano se subordinou totalmente.

Se o governo continua incentivando o cultivo da folha de coca no Tipnis, esta coca irá ao narcotráfico e haverá uma depredação total do território. Até porque já existe um excedente de produção. Atualmente, o número de cocaleros na região é 1,5 vezes maior que o de indígenas — ou seja, já são 9 mil. A coca está sendo produzida com agrotóxicos para baratear os custos de mão de obra na colheita. Em cinco anos, os solos se empobrecem e é necessário conseguir novas terras. Por isso, os cocaleros querem ocupar o Tipnis. As consequências serão terríveis, não apenas para os indígenas, mas também para a biodiversidade.

Quais os argumentos a favor e contra a construção da rodovia passando pelo Tipnis?

Acredito que, no fundo, os argumentos favoráveis e contrários à construção desta estrada no Tipnis deu visibilidade e confrontou duas concepções diferentes do que se conhece como “desenvolvimento” ou bom-viver, um dos conceitos pregados pelo governo Evo Morales. Existe um discurso demagógico — como o do presidente — que assume a defesa dos direitos da Mãe Terra em fóruns internacionais, mas dentro do país faz o contrário, entregando nosso território e suas riquezas à voracidade das transnacionais para que continuem saqueando nossos recursos, como fazem desde a época da Colônia, seguindo um modelo de destruição. Existem, também, as exigência de nossos povos em estabelecer um novo modelo econômico e social, que talvez ainda não esteja estabelecido com nitidez, mas temos certeza de que precisamos de algo diferente do que existia com os governos neoliberais.

Então, acredito que o Tipnis é a definição do presente e do futuro, não apenas da Bolívia, mas de uma grande parte dos povos que lutam para que a humanidade não se destrua, que a Pacha Mama não seja ferida de morte. Aqui dizemos: a Pacha Mama é eterna, os Estados e governos, não. Isso é verdade. Ou você é filho da Terra, e vive, ou é filho do sistema, e morre. A luta contra essa estrada já possui uma dimensão de vida, que vai além do econômico, político, financeiro ou técnico.

Como estão as manifestações em Cochabamba? Quais setores da sociedade estão mais ativos?

Acredito que, em Cochabamba e em todo o país, começaram a mobilizar-se setores da classe média, sobre tudo jovens, não apenas para apoiar os indígenas, mas contra a soberbia e o desprezo que o governo tem dedicado às demandas e iniciativas de autonomia. Isso é grave. Há também personalidades importantes na luta, como Alejandro Almaraz, que até um ano e meio atrás era vice-ministro de Terras do governo Evo Morales.

PS. Este post passou por uma correção no dia 17/10. Ao contrário do que informava anteriormente, a Guerra da Água aconteceu em 2000 — e não em 2003.

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