Moradores descartam retorno a vilarejo arrasado por lama de barragem

[TEXTO ORIGINAL]

16/11/2015

O rompimento de duas barragens em Bento Rodrigues, povoado de Mariana, em Minas Gerais, arrasou a pequena localidade de cerca de 600 habitantes. Passados 11 dias da tragédia, o futuro de seus habitantes é repleto de incertezas, mas um ponto já está definido: eles não querem voltar a viver no mesmo local.

Em uma reunião com a prefeitura de Mariana, um grupo formado por 80% dos moradores de Bento Rodrigues optou por sua reconstrução em outra área da região, relata o prefeito da cidade histórica mineira, Duarte Júnior (PPS).

“Bento Rodrigues não existe mais”, diz Duarte Júnior à BBC Brasil. “O que existe é um mar de lama, e, ainda por cima, há a questão da terceira barragem. Se as duas primeiras eram consideradas seguras e se romperam, imagina uma que está trincada?”

Segundo Duarte Júnior, a população espera que a Samarco, empresa responsável pelas barragens, arque com todos os custos da reconstrução de Bento Rodrigues. Isso envolve não apenas a construção das casas em si, mas também da compra de terrenos para o estabelecimento do novo povoado.

“Não existe ainda previsão para isso. Foi criada uma comissão formada por sete moradores para representar a comunidade em todas as reuniões. Esta comissão levantará locais possíveis para a reconstrução, mas fará isso com sigilo para que não haja especulação imobiliária”, afirma o prefeito de Mariana.

“Acreditamos que a empresa assumirá a responsabilidade, mas temos que ouvi-la primeiro.”

A Samarco disse que mantém diálogo constante com as famílias afetadas e que, nessas reuniões, elas vêm manifestando suas necessidades para futuras residências.

Por meio de nota, a companhia informou ainda ter firmado um acordo com o Ministério Público de Minas Gerais e o Ministério Público Federal, para destinar R$ 1 bilhão para “garantia de custeio de medidas preventivas emergenciais, mitigatórias, reparadoras ou compensatórias, sejam elas ambientais ou socioambientais, decorrentes do acidente ocorrido em suas barragens de Fundão e Santarém”.

“A Samarco depositará 50% do valor em até dez dias e apresentará em 30 dias as garantias em relação ao valor restante. Os gastos serão auditados por empresa de auditoria independente, escolhida pelo Ministério Público”, diz o comunicado.

Hoje, quase nada resta do bucólico distrito de Bento Rodrigues, usado como lugar de descanso por tropeiros que percorriam Minas Gerais em busca de ouro, como mostram registros feitas pela ONG Justiça Global no último final de semana.

Onde antes havia paisagens repletas de verde e casas de arquitetura colonial, hoje há um horizonte marrom criado pela lama que escoou das duas barragens.

No local onde estava a Igreja de São Bento, construída no século 18, algumas paredes ainda permanecem, mas soterradas. Ao lado, só há escombros onde antes funcionava o Bar da Sandra, um dos principais locais de confraternização do distrito. A escola municipal do povoado também ficou completamente destruída.

As imagens ainda mostram carros que foram arrastados e soterrados. Um foi parar no topo de uma casa. Quase nenhum telhado ficou no lugar, e marcas deixadas pela lama no que resta de pé de algumas construções mostra o quão destrutiva foi a onda de detritos que atingiu Bento Rodrigues.

O desastre deixou 11 mortos e 631 pessoas desabrigadas. Elas foram levadas temporariamente para hotéis e pousadas de Mariana.

No sábado, as duas primeiras famílias foram transferidas para residências alugadas pela Samarco. A empresa diz que o processo de transferência da população será feito gradualmente.

A Samarco diz já ter mapeado 300 imóveis que poderão ser usados por moradores de Bento Rodrigues até que uma “solução definitiva” seja encontrada. A prefeitura de Mariana estima que cerca de cem serão necessários para isso.

A empresa afirma ainda que “contratou três organizações de ajuda humanitária para desenvolvimento de um plano de assentamento, que inclui acolhimento às famílias, apoio psicossocial e triagem médica, além, de todas as providências para o reassentamento dessas pessoas”.

“As casas estão vistoriadas, mobiliadas e equipadas com eletrodomésticos. Cada família está sendo ouvida pela Samarco e Ministério Público para validar seu local de moradia antes da mudança, e nós continuaremos fornecendo assistência às famílias para alimentação”, diz a empresa.

 

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