“A mineração é a alma de Minas. O Estado só é o que é por causa do ouro, do diamante e do minério”Bernardo Paz, Inhotim

[texto original]

LUCAS FERRAZ
AVENER PRADO

ENVIADOS ESPECIAIS AO QUADRILÁTERO FERRÍFERO (MG)

A tragédia de proporções ainda incalculáveis que brotou do coração da região mineradora de Minas Gerais expôs os conflitos e os dilemas da atividade no Estado.

No último dia 5, cerca de 40 bilhões de litros de lama foram derramados após o rompimento de uma barragem em Mariana com rejeitos da mineradora Samarco, presidida por Ricardo Vescovi e controlada pelas gigantes Vale e a anglo-australiana BHP Billiton.

O “tsunami”, que também tinha lama de uma mina da Vale, presidida por Murilo Ferreira, destruiu um vilarejo, matou peixes, invadiu o litoral do Espírito Santo, abalou o abastecimento de água de cidades ao longo do caminho e deixou ao menos 8 mortos e 11 desaparecidos –há cinco corpos sem identificação.

Os danos do desastre –ocorrido na cidade mineira que mais arrecadou com a extração mineral neste ano– já eram registrados, numa escala imensamente menor, há décadas nas cidades do chamado Quadrilátero Ferrífero.

Área na região central que concentra a maior parte da população urbana do Estado, o Quadrilátero engloba a capital, Belo Horizonte, e municípios cuja razão de ser é a mineração, como Congonhas, Nova Lima, Itabira e Brumadinho, além de Mariana e Ouro Preto, onde as primeiras minas foram cavadas no final do século 17.

Transformações urbanísticas, mudanças inteiras de comunidades, danos ambientais e o funcionamento de barragens de rejeito em áreas urbanas são alguns dos eventos conhecidos da população dessas cidades.

Quase sempre, as mudanças foram feitas com a anuência do poder público.

Responsável por 17% do PIB de Minas, a mineração não causa dependência somente aos governos municipais e estadual: ONGs, projetos ambientais e até instituições culturais se mantêm graças ao dinheiro das empresas do setor.

No ano passado, segundo o governo mineiro, o Quadrilátero Ferrífero foi responsável quase pela metade do minério de ferro exportado pelo Brasil.

“Espero que essa tragédia ajude a repensar o modelo de mineração em Minas Gerais. Ele deve ser revisto”, diz o médico Apolo Heringer Lisboa, 72, um dos fundadores do Projeto Manuelzão, que luta pela defesa da bacia hidrográfica do rio das Velhas, um dos tantos que cortam o Quadrilátero.

Como mostrou a tragédia em Mariana, a forte dependência da mineração foi acompanhada de um afrouxamento dos órgãos de controle e fiscalização do Estado, que não têm estrutura adequada para acompanhar uma atividade tão grande e intensa.

Segundo o Ministério Público de Minas Gerais, em toda cidade mineradora há dezenas de procedimentos abertos pelo órgão que vão de queixas de moradores a inquéritos sobre eventuais danos ambientais.

O governo de Minas Gerais e seus órgãos ambientais, contudo, nem sequer têm inventariado os danos causados na região histórica pela mineração, que financia campanhas eleitorais no Executivo e no Legislativo.

DEPENDÊNCIA

No Parque Serra do Rola-Moça, que se espalha por cidades como Belo Horizonte, Nova Lima, Brumadinho e Ibirité, a mineração descontrolada deixou uma cratera numa área que circunda o local.

A exploração da mina foi liberada pelo Estado, nos anos 1990, sem que a pequena mineradora responsável –que não existe mais– apresentasse um projeto técnico. Anos depois, a Justiça embargou a área, atualmente abandonada.

“Esse é um grande exemplo do que uma mina não pode ser. Não somos contra a mineração, mas há lugares que nunca poderiam ser liberados para exploração”, diz a ambientalista Maria Dalce Ricas, da AMDA (Associação Mineira de Defesa do Ambiente).

Em Brumadinho (a 53 km da capital), logo abaixo das montanhas do Rola-Moça, o empresário Bernardo Paz utilizou as antigas minas de sua mineradora, a Itaminas, para instalar o Instituto Inhotim, museu dedicado à arte contemporânea e que se mantém graças à mineração.

A Vale, a maior mineradora do Brasil, é um “patrocinador master” do instituto de Paz, conforme suas palavras, além de também ser parceira comercial da Itaminas.

“A mineração é a alma de Minas. O Estado só é o que é por causa do ouro, do diamante e do minério”, ressalta.

Paz verbaliza a preocupação de muitos no Estado: a mineração, após o desastre de Mariana, não pode ser demonizada.

Vinte dias após a tragédia, o Legislativo mineiro aprovou projeto de lei proposto pelo governador Fernando Pimentel (PT) que acelera a concessão de licenças ambientais a empresas de mineração.

Críticos do projeto, como ambientalistas, apostavam que o clima de comoção gerado após o desastre em Mariana poderia contribuir para o texto ser barrado.

LABORATÓRIO

Itabira (a 100 km de BH), cidade onde a Vale foi criada nos anos 1940 pelo então presidente Getúlio Vargas (em 1997, foi privatizada por FHC), é um laboratório para a exploração do minério de ferro em larga escala e exemplo das contradições da indústria mineral.

Um dos municípios que mais arrecada impostos da mineração no Estado, Itabira decretou este ano estado de calamidade financeira. A queda acentuada do preço da tonelada de minério de ferro e o desaquecimento do mercado internacional embaraçaram as contas municipais.

As mudanças na geografia provocadas pela mineração são visíveis em toda a cidade. Bairros inteiros já foram removidos. O caso mais recente é o da Vila Paciência, localizado ao lado da linha ferroviária –por onde é escoado o minério– e de uma mina da empresa.

As explosões de dinamites na área afetavam a estrutura das casas e faziam com que pedras de minério fossem arremessadas no bairro.

A empresa disse que a desativação da antiga vizinhança era necessária para “aumentar a área de amortecimento” de suas operações.

Mas o processo de aquisição das casas, que começou em 2007, estancou sobretudo nos dois últimos anos. De centenas de imóveis, restaram na Vila Paciência apenas 29, alguns deles isolados em lotes que, agora, pertencem à Vale.

“Vi o bairro nascer e, agora, estou vendo ele morrer”, disse a aposentada Maria das Graças Teixeira, 65, que mora há quase 50 anos na Vila Paciência. Sua casa está rodeada por lotes vazios. “O pior de tudo foi perder os vizinhos”, conta.

Itabira tem na destruição do pico do Cauê uma das principais marcas da mineração: o antigo pico que tanto encantava o poeta itabirano Carlos Drummond de Andrade hoje é uma enorme cratera que vem sendo utilizada pela Vale justamente como área de rejeito.

Contradição é o que mais se vê nas cidades mineradoras de Minas Gerais. Em Itabira, ela pode ser personificada na figura do aposentado da Vale João Batista, 61. Sua casa, onde mora há 15 anos e adquirida graças ao trabalho na mineradora, está ao lado da barragem do Pontal, uma das seis existentes na cidade e a primeira de grande porte a ser construída no Estado. A área tem capacidade para receber mais de 122 bilhões de litros de lama.

A empresa afirma que a barragem é segura e que ela passou por fiscalização do Estado em junho. A mineradora, no entanto, diz que após o acidente na barragem de Fundão, em Mariana, fez uma “verificação detalhada das condições estruturais de suas barragens”.

A expansão do reservatório de rejeitos do Pontal nos últimos anos mudou o curso de um córrego, que agora passa a cinco metros do quintal de João Batista.

“A barragem já superou [em altura] minha casa. Não dá para ficar em paz quando chove. Eles falam que é muito seguro, mas a natureza, quando cobra, não avisa que vai cobrar. A insegurança e o medo tomam conta”, afirma.

Ao encontrar a reportagem da Folha, nesta semana, Batista terminava de escrever mais uma carta para a empresa reclamando da situação ao lado de sua casa. Nunca recebeu resposta, mas ele não se importa.

“Acho que a empresa também não vai responder a essa carta. Mas tudo bem, alguma coisa eu preciso fazer”, afirmou.

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