SOBRE O QUE ESTÁ ENTERRADO

[texto original]

O que é? O Cidade Azul é uma ideia que foi colocada em prática em uma semana para trazer a tona uma parte de São Paulo que estava enterrada há muito tempo. Para fazer com que o cheiro, o som e o frescor originais das centenas (sim, é isso mesmo) de rios que cortam a cidade cheguem ao maior número de pessoas possível, o projeto começou com uma série de áudio guias, mas esse é só o começo.

Águas aprofundadas

O mapa que ilustra o Cidade Azul mostra uma extensa malha de rios que correm por baixo da cidade é algo impossível de “desver”, mas difícil de assimilar. Uma vez que você fica sabendo que um recurso tão fundamental quanto a água sempre esteve presente, bem embaixo dos seus pés e a no máximo 300 metros de profundidade, não tem como continuar a olhar o ambiente artificial que criamos aqui do mesmo jeito.

O objetivo do projeto é impactar as pessoas espalhando evidências que esses rios existem e correm por lugares onde não antes não era considerada nem a possibilidade de um dia eles terem existido, ao ponto de elas se sentirem estimuladas a passar essa informação adiante. Para que isso funcione, a proposta do Cidade Azul é oferecer uma experiência sensorial como um atalho para a uma mudança da percepção que temos do ambiente urbano.

cidade_azul_corpo

Denis Russo Burgierman foi impactado pela presença inibida dos rios paulistanos quando escreveu sobre o assunto para o Isso não é normal. O jornalista conta que passou os últimos anos explorando locais estranhos da cidade, como becos e ruas sem saída que foram desenhados seguindo os caminhos dos rios. O Beco do Batman, por exemplo, é um desses lugares que só existem porque os moradores construíram suas casas de costas para o Rio Verde. Seu envolvimento com o assunto levou Barbara Soalheiro, fundadora da Mesa e Cadeira, a convidá-lo para fazer parte da equipe que colocaria o projeto na rua em cinco dias, seguindo o método de “aprender fazendo” praticado na empresa.

A iniciativa de começar o projeto partiu da Carolina Ferrés, que já também já havia trabalhado com o tema quando desenvolveu o Viva o Rio Pinheiros. A dupla Luís de Campos Júnior e José Bueno, do Rios e Ruas, também foi chamada devido ao seu histórico de envolvimento com a malha fluvial de São Paulo. Além deles, participaram dessa etapa inicial profissionais de diferentes especialidades que auxiliaram na criação do site, o logo, o nome e o áudio guia, que foi gravado sob um edredom usado para isolamento sonoro.

A gente acha que tem um poder essa caminhada, de mudança, de entender a dinâmica da cidade. No momento que a gente conseguir convencer todo mundo a querer esses rios, aí a gente vai pensar em políticas públicas.

Denis Russo Burgierman

O roteiro sugerido pelo áudio guia, o primeiro de uma série, segue o caminho do Rio Verde sugerindo que o ouvinte preste atenção nos sinais da presença das suas águas correndo pela região da Vila Madalena. Intervenções com lambe-lambes e tinta azul também foram feitas para incentivar as pessoas que passam por ali a também seguir o percurso do rio. Depois de fazer o áudio guia, eles usaram as redes sociais para juntar gente que quisesse passar por essa experiência e gravaram o vídeo abaixo.

Outra cidade onde os rios escondidos pela infraestrutura urbana estão passando por um processo de recuperação e descoberta é São Francisco, nos EUA. O projeto Ghost Arroyos também busca chamar a atenção para as águas esquecidas que cruzam o centro do município traçando suas linhas sinuosas sobre o asfalto e espalhando auto-falantes pelo caminho com sons fluviais e histórias contadas por habitantes locais.

Entender a cidade de outro jeito faz parte do processo que o Cidade Azul quer desencadear a partir da descoberta daquilo que abrimos mão em nome da ideia de desenvolvimento urbano vigente que via os rios como obstruidores do seu progresso. Mas isso é só a primeira etapa. O projeto pretende fazer com que os rios corram novamente livres e limpos, integrando e transformando a paisagem urbana.

É um projeto de longuíssima duração, queremos descobrir os rios agora no sentido figurado e depois no sentido literal. Parece impossível, mas eu acredito que é inevitável.

Denis Russo Burgierman

Uma campanha de arrecadação de recursos para viabilizar as próximas ações do Cidade Azul está atualmente em busca de apoiadores no Catarse. Cada uma das seis pessoas que participam ativamente do projeto está trabalhando em uma tarefa. Carolina, por exemplo, está cuidando da divulgação e acaba de voltar de Austin, onde a iniciativa foi finalista da competição Place by Design no SXSW Eco 2015. Denis está escrevendo o roteiro de um longa metragem e Paula Dib está mais envolvida com o crowdfunding.

O plano é que até o final do ano mais um áudio guia seja finalizado e enquanto isso o Cidade Azul também já está articulando a reintegração de seis rios que estão mais próximos de voltar a fazer parte da cidade. Também há parcerias pontuais, como a produção do áudio guia do rio Itororó, que tem apoio da Red Bull, e um outro trabalho que está sendo feito em conjunto com a atual administração do Mirante 9 de Julho.

O sonho final seria trazer esses cursos d’água à tona. Transporte sobre as águas, ciclovias acompanhando o curso dos rios e jardins são algumas das possibilidades trazidas por esse “destampamento”. A crise hídrica fez muita gente perceber a importância da água e ver que os rios não são apenas acidentes geográficos que precisam ser remendados para comportar a expansão da cidade. É um bom momento para trazê-los de volta para as conversas sobre São Paulo e, quem sabe, não nasce aí uma vontade de vê-los correr de novo, com vida, cheiro e som.

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