FEIRAS

[texto original]

Agricultores do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) inauguraram nesta quinta, 22, a 1° Feira Nacional da Reforma Agrária. O evento que ocorre até domingo, 25, reúne aproximadamente 800 produtores de 23 estados e do Distrito Federal, no Parque da Água Branca, zona oeste da capital paulista. Os trabalhadores rurais comercializam produtos orgânicos, que plantam nos assentamentos onde vivem, a preços populares.

Há também alimentos convencionais, mas o MST quer apoio para produzir somente orgânicos. Gilmar Mauro, da coordenação do MST, explica que o objetivo da Feira é apresentar para a população os alimentos sem veneno que são produzidos nos assentamentos distribuídos pelos estados. “Nós fazemos luta e continuaremos fazendo (ocupação de terras), mas o MST também é produção de alimentos, e alimentos saudáveis”, enfatiza.

“Queremos sensibilizar a população, os governos e os meios de comunicação para mudarmos os paradigmas tecnológicos da produção brasileira. A terra é um patrimônio da humanidade. Devemos cuidar desse patrimônio para que a nossa geração viva bem e as futuras gerações também. Por isso, queremos outro tipo de agricultura e a feira mostra esse lado da produção do MST.

Ele conta que para impedir que a cultura do agrotóxico prevaleça sobre a produção agroecológica é preciso investimento público em pesquisas. “Só o MST tem cursos para a formação de técnicos e tecnólogos em agroecologia no Brasil”, revela o líder sem terra.

A preocupação com o adubo que será jogado na terra é essencial para o desenvolvimento de uma alimentação sem venenos. “Estamos propondo a utilização de restos de feiras, podas de árvores para transformar em adubo orgânico para que pequenos agricultores e da reforma agrária possam utilizar. Com isso vamos produzir alimentos muito mais saudáveis e preservar o meio ambiente. A parceira com as prefeituras é essencial porque isso vai aliviar, inclusive, os lixões.”

O período de transição de uma agricultura tradicional para uma agroecológica ou orgânica é custosa e por isso precisa de apoio do poder público. “Para fazer adubo orgânico o custo de mão de obra é muito alto. Para produzir isso em grande escala é preciso grandes equipamentos. Se fosse acessível, 70% dos produtores optariam pelo adubo orgânico ao invés do químico. Mas a humanidade vai caminhar para uma mudança de paradigmas tecnológicos, não dá pra continuar assim. Por isso, tem de ter política pública no momento de transição.”

Gilmar frisa que o problema do veneno não é prejudicial apenas para o consumidor, mas também para o agricultor que aplica o agrotóxico. “O veneno atinge o sistema nervoso central, provoca depressão. As regiões que utilizam muito veneno são regiões associadas a altos índices de suicídio. Outra doença que está associada ao uso de veneno é a dislexia, além do câncer, evidentemente. O problema no Brasil é que não há insumos (orgânicos) e os que existem são muito caros”, lamenta.

Merenda escolar

Os alimentos produzidos nos assentamentos do MST abastecem a merenda escolar de escolas municipais de São Paulo, São Bernardo do Campo e outras cidades, além de compor itens da cesta básica.

O produtor de arroz orgânico Nelson Krupinski, da Cooperativa de Assentados da Região de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, se alegra que o alimento que produz, seja consumido pela classe trabalhadora. “Sinto muito orgulho que nossa produção esteja nas cestas básicas e na alimentação escolar. Os filhos dos trabalhadores recebem nosso arroz, e me sinto bem com isso.”

A cooperativa a que ele pertence reúne 522 agricultores, de 16 assentamentos, que produzem juntos cinco mil hectares de arroz orgânico certificado. “Livramos a população de comer agrotóxico. Cada hectare de arroz produzido de forma convencional utiliza de sete a oito litros de veneno, às vezes até mais. Os benefícios da produção orgânica são incalculáveis.”

Nelson estima que a produtividade para a próxima safra gire em torno de 450 mil sacas. Eles escoam a produção em contratos com o poder público, em feiras, vendem para supermercados e também exportam o produto.

“O MST tem um balcão de negócios (na Feira da Reforma Agrária)  para vender em grande escala, se houver interesse do mercado em comprar nossos alimentos”, conta Gilmar Mauro.

Independência

A reforma agrária também trouxe independência financeira para Eliene dos Santos, da Cooperativa Mista da Agricultura Familiar do Assentamento Caraíbas, em Sergipe. São 26 mulheres e quatro homens a tirar o sustento da terra.

“Antes plantávamos a mandioca, o atravessador vinha e comprava barato. Nos reunimos para pensar como agregar valor à nossa mandioca. E com a assistência técnica fizemos um curso sobre os derivados da mandioca. Aí surgiu a necessidade de montar a cooperativa para comercializar nossos produtos.  Agora fazemos bolo, biscoito, bolachinha de goma”, afirma radiante.

Assim como Nelson, ela e os companheiros da cooperativa vendem a produção para a merenda escolar por um programa do governo federal. “Este mês tiramos mil reais pra cada mulher. Antes a gente não tinha essa renda, dependia do marido pra tudo, infelizmente. Hoje temos a nossa independência financeira”, comemora Eliene.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s