ECONOMIA DA AGUA: AGUA X TERRITÓRIO

[texto original]

Às margens do rio Paraopeba, cerca de 14 mil moradores de distritos e comunidades rurais mais carentes de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, estão sendo vítimas do descaso pelo poder público estadual e municipal. Há pelos menos 15 anos, a população de dezenas de localidades sobrevive sem água e sem esgoto, mas ainda com esperanças de que a dignidade um dia chegue em suas vidas.

Quando assinou o contrato de concessão com a Copasa, em 2008, o município recebeu a garantia de investimentos da ordem de R$ 27,5 milhões para implantação dos sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário em toda área da cidade até 2014. Depois de seis anos, apenas R$ 4 milhões desses recursos foram aplicados. Até hoje, a distribuição da água entre a população é feita por caminhões-pipa e poços artesianos, que geram gastos mensais de mais de R$ 700 mil por parte da prefeitura, segundo garantiu o secretário municipal de Meio Ambiente, Hernane Abdon.

Somados os valores, apenas de 2013 até hoje, período em que a nova administração está à frente do Executivo, cerca de R$ 21,7 milhões já foram gastos com recursos públicos para o abastecimento de Brumadinho, quase a totalidade do valor que a companhia de saneamento deveria ter investido. E por ironia, é na cidade que a estatal executa, desde junho, a obra de R$ 128,4 milhões para captação de mais 5.000 litros por segundo do Paraopeba, com a promessa de enterrar de vez a crise hídrica na capital mineira.

“Somos a caixa d’água de Belo Horizonte. Fornecemos a água que não pudemos desfrutar até hoje”, acusa a vereadora Renata Parreiras (PSB). Na comunidade de Salgado Filho, exatamente ao lado da torre da Copasa onde os caminhões-pipa se revezam para encher os tanques, a costureira Elaine Silva Bento, 39, conta as dificuldades que a família passa por vários dias sem uma gota de água em casa. “O mais revoltante é receber em dia a conta de água e esgoto da Copasa, entre R$ 70 e R$ 80”, lamenta.

Mais grave ainda é a situação dos habitantes do Tejuco, há 30 km da cidade. Um líquido cor de barro e denso é o que a população conhece por água. Nessas condições, a cuidadora de idosos Conceição Romão, 56, diz fazer a comida para a família, tomar banho e limpar a casa. “Quando vou lavar roupa, a água suja ainda mais as peças. Para beber, compro quatro galões de 20 litros de água mineral. Mesmo assim, todos da casa têm infecções intestinais frequentes”, admite.

Quem não tem dinheiro para comprar água, como o desempregado Wagner Alves Neto, 31, encara uma rotina diária de uma hora de caminhada até a mina mais próxima. “Consigo carregar só 20 litros. É com isso que vivo”, afirmou.

Na comunidade, todos os moradores da rua Antônio Silvério relembram o caso da vaca que foi encontrada morta, já em estado avançado de decomposição, no exato ponto em que a água é captada. “Consumimos essa água contaminada por dias. Muitos aqui na rua adoeceram”, relataram.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s