GV

[texto original]

ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

Governador Valadares e Aimorés – Escorrendo de manilhas de concreto e canalizações abertas no meio do mato, o esgoto lançado sem tratamento e o lixo descartado sem controle transformam a área de preservação da mata ciliar do Rio Doce, em Governador Valadares, em uma espécie de mangue banhado por líquido cinzento, entre pneus velhos, vasos sanitários e entulho. Esse é o mais evidente retrato do descaso com a conservação ambiental dentro da maior cidade da Bacia do Rio Doce, com 277 mil habitantes. O agravamento das condições do manancial e de seus afluentes chegou a levar ao município reunião da Assembleia Legislativa de Minas Gerais para tratar da crise hídrica. Os participantes do encontro apontaram o desmatamento e a ocupação desordenada do território, também visíveis em Valadares, como os impactos mais severos sobre a bacia do rio, que, represado por um gigantesco banco de areia, deixou de correr para o mar pela foz tradicional.

A crise na bacia parece ainda mais grave quando se considera que as enchentes frequentes do Rio em Valadares fizeram até com que o Serviço Geológico do Brasil (CPRM) instalasse na bacia uma das três únicas redes de monitoramento federal de níveis da água do Brasil – as outras duas ficam no pantanal mato-grossense e em Manaus. Agora, a estiagem e a falta de recarga do rio pelo assoreamento e a seca das nascentes reduziram tanto a vazão que até a semana passada o Rio Doce na região tinha apenas 1,2 metro de profundidade, um terço da capacidade da calha, de acordo com a medição do CPRM. “Aqui está assim. Todo mundo sabe que não pode jogar lixo na margem, mas entra dentro da mata e joga. Os esgotos são despejados dentro da rede pluvial. O desmatamento não para. Quando chover e o rio estiver raso, a água vai parar aonde? Na minha casa”, reclama o comerciante Orestes Garcia, de 37 anos, que mora na beira do rio em Valadares e é obrigado a conviver com o mau cheiro e teme pelas enchentes quando a chuva voltar.

O biólogo e especialista em recursos hídricos Rafael Resck diz que é inadmissível, atualmente, tolerar despejo de esgoto em cursos d’água. “O esgoto interfere diretamente na qualidade da água. Se o recurso for de má qualidade, fica facilitada a transmissão de doenças e perde-se uma grande quantidade da biodiversidade. A água contaminada por esgoto favorece o crescimento de poucos organismos, que não contribuem para o meio ambiente”, diz Resck.

Problemas que se agravam ainda mais com a falta de chuvas dos últimos dois anos, que registraram 60% abaixo da média histórica, segundo a Agência Nacional das Águas (ANA). Enquanto isso, o esgoto não para de fluir e tanto o desmatamento quanto a ocupação desordenada deixam o solo exposto para que mais sedimentos sejam arrastados para o leito na próxima estação chuvosa. “O processo não ocorreu repentinamente. A ocupação da bacia com substituição das matas por pastagens degradadas e o carreamento dos sedimentos, que provocam o assoreamento, se somam à falta de estações de tratamento de esgoto em Governador Valadares, Timóteo e Coronel Fabriciano”, cita a presidente da Câmara Técnica de Gestão de Eventos Críticos do Comitê de Bacia do Rio Doce, Luciane Teixeira.


A cachoeira virou história

Ao longo do rio, na direção do Espírito Santo, o que se vê pelas margens da BR-381 são terras desmatadas, com valas escavadas pelas chuvas e morros sem a área de cume preservada. A maior parte dessas áreas serve para a formação de pastos. O reflexo é visto não apenas nos rios assoreados, mas também nas nascentes que formam os mananciais.
Em Resplendor, a localidade de Cachoeira recebeu esse nome devido a uma queda d’água de mais de 15 metros que era aproveitada para lazer e abastecia o Rio Doce. Hoje, a água mal escorre pelas pedras. Segundo Rogério Marcos Andrade, de 55, que nasceu na região e hoje trabalha na propriedade rural onde ficava a queda d’água, três nascentes que abasteciam o riacho secaram. “O vizinho cortou a mata e a capoeira. Plantou capim. Agora, a água não brota mais”, constata. A cachoeira seria a principal atração de um hotel que vem sendo construído na fazenda. Com a crise hídrica, o empreendimento tem futuro incerto.

O biólogo Rafael Resck diz que o ciclo das chuvas é diretamente proporcional à recarga das nascentes. Os efeitos da precipitação serão mais ou menos efetivos de acordo com a cobertura vegetal do solo. “A chuva em uma área de vegetação mais densa mantém o solo mais úmido e, consequentemente, essa água vai brotar em uma nascente. Quando o solo é mais exposto, boa parte da água que vem pela chuva evapora devido à maior dificuldade de penetração no solo, ou deságua direto em um rio, sem permanecer na área depois que a chuva passa”, explica o biólogo.

A cidade que perdeu seu rio

ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

O remo e o caiaque eram companheiros inseparáveis do médico Darildo Ferreira, de 63 anos, durante a década de 1990. De sua casa até o canal do córrego que levava ao Rio Doce eram apenas seis quarteirões. Mas, já naquela época, as agressões ao manancial que cortava sua cidade, Aimorés, na divisa com o Espírito Santo, preocupavam ambientalistas. “Resolvemos fazer então a primeira descida ecológica do Rio Doce, com biólogos, geógrafos, aventureiros e outros especialistas, para mapear os problemas e chamar a atenção para a situação do rio”, conta. Nem mesmo as outras duas expedições do grupo de ecologistas surtiram efeito.

O desmatamento e a poluição continuaram e, como um castigo para o médico, a chegada da Usina Eliezer Batista tirou o Rio Doce da cidade de Aimorés. “Hoje só temos um esqueleto de pedras que corre como um filete, com o que resta do Rio Suaçuí, que chega depois da usina. Os peixes nativos acabaram quase todos. Só sobreviveram espécies invasoras”, conta. “Uma das nossas esperanças é que a usina cumpra com o que prometeu e mantenha pelo menos um espelho d’água no leito seco do rio”, diz.

Contudo, a Aliança Geração de Energia S/A, que controla a usina, informou que por razões técnicas e de segurança da população, a manutenção de um espelho d’água que traria de volta a Aimorés o Rio Doce é impossível. A empresa alega também que não retém água em barragem, pois sua captação é em fio d’água, e que o desvio foi feito segundo licenciamento ambiental.

ANA: não existe solução à vista
A situação de degradação do Rio Doce, de acordo com a Agência Nacional de Águas (ANA) “é de amplo conhecimento, caracterizado pelo Plano Integrado de Recursos Hídricos (PIRH), elaborado pela ANA, estados e aprovado pelo comitê de bacia”. De acordo com o especialista em recursos hídricos Ney Murtha, da agência, trata-se de processo histórico de ocupação e uso do solo e da água. “As ações previstas no plano estão sendo implementadas pelo Instituto Bioatlântica, com verba originária da cobrança pelo uso da água. São recursos de R$ 25 milhões por ano, insuficientes para ações estruturais de grande monta, mas essenciais para ações conjuntas com municípios, como projetos de saneamento”, diz. Sobre o recuo da foz principal do rio, o especialista minimiza impactos. “O rio, por muitos meios, chega e continuará a chegar ao mar. ” Sobre os lançamentos de esgoto em Governador Valadares, a prefeitura da cidade informou que duas estações de tratamento de esgoto (ETEs) devem tratar 100% dos lançamentos. A ETE Santos Dumont está em construção e a ETE Elvamar tem início de obra previsto para este ano.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s