DESAGUAR NÃO É MAIS O DESTINO FINAL

[texto original]

ALEXANDRE GUZANSHE/EM/D.A PRESS

Linhares (ES), Rio Doce, Governador Valadares, Aimorés e Ponte Nova – A agonia do maior curso d’água do Sudeste brasileiro chegou ao patamar mais crítico da história. Sem força, as águas do Rio Doce, que nascem em Minas Gerais e atravessam o estado até o Espírito Santo não deságuam mais no Oceano Atlântico no ponto tradicional. Considerado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o 10º mais poluído do país, o manancial chegou a um estágio tão grave de seca e assoreamento que a foz – que se alargava por 380 metros de comprimento e tingia a costa capixaba de sedimentos cor de barro – recuou 60 metros continente adentro e se encontra agora como uma lagoa, represada por uma faixa de areia grossa de dois metros de altura. O bloqueio ocorreu há dois meses, em Regência Augusta, um distrito do município de Linhares (ES). Mas o que ocorre no estado vizinho é apenas o estágio final de um mapa de degradação que começa já na cabeceira e se estende não só pelos 850 quilômetros do leito, mas também pela maior parte da bacia de 86 mil quilômetros quadrados. Segundo ambientalistas, biólogos e hidrólogos, foram as agressões como desmatamento, despejo de esgotos e descargas químicas em Minas Gerais, que comporta 86% da bacia, que levaram a essa situação de penúria.

A única saída do Rio Doce para o mar, atualmente, se restringe a um braço de areia a um quilômetro da foz original – que na verdade consiste em um avanço do mar rio adentro, mas que pode se fechar a qualquer momento, dependendo do regime das marés. “Essa é uma tragédia ecológica que completa uma situação de agressões ambientais que o Rio Doce vinha sofrendo. Nunca antes a foz havia se fechado completamente. E isso se deve à destruição das matas ciliares, que barravam sedimentos vindos de outras áreas desmatadas, agora transformadas em pastagens e outros cultivos”, afirma o secretário-executivo do comitê da Foz do Rio Doce, Carlos Sangália, educador ambiental do Projeto Tamar, sobre a interrupção do rio, retratada pelo jornal A Gazeta, do Espírito Santo, em 23 de junho.
Da nascente à foz, o caminho de degradação do Rio Doce acompanha o histórico de desenvolvimento predatório na bacia. Inserida em um território onde originalmente havia predomínio de 98% do bioma Mata Atlântica – um dos mais ameaçados do mundo –, o manancial hoje corre por um cenário de margens desprovidas de mata ciliar, faz desvios em bancos de areia extensos como praias, serpenteia por entre manilhas de esgoto que cospem caldos contaminados e diante de morros devastados, tomados por pastagens e erosão.
Em Regência Augusta, os impactos de tudo que é feito antes da foz trouxeram alerta à comunidade de pescadores que chega a 1.200 habitantes. Quem vive da pesca não consegue mais zarpar pelo porto do Rio Doce em direção ao mar, porque a nova desembocadura é rasa demais para a maioria dos barcos. “Não tem mais como ir para o mar. Ou jogamos a rede no que sobrou do rio ou armamos na praia. A quantidade de peixe, que já era pouca, diminuiu mais ainda. Para mim, a solução vai ser parar de pescar e trabalhar fichado (com carteira assinada)”, lamenta o pescador Edmar de Morais, de 65 anos.
A falta de peixes, como percebeu o pescador, é outro aspecto que preocupa ambientalistas. “Espécies como o robalo e a manjuba precisam subir do mar para o rio para se reproduzir. O ciclo se rompe quando os peixes não encontram caminho para o Rio Doce”, alerta o assessor do projeto Tamar, Hélio Luiz Alcântara. O Tamar é conhecido pela preservação das tartarugas marinhas ao longo da costa brasileira, principalmente por incluir as comunidades tradicionais que antes matavam esse animal. Mas as próprias tartarugas estão ameaçadas pelo bloqueio do Rio Doce. “Os espécimes mais jovens se alimentam de peixes que nadam na foz. Agora terão de se deslocar para encontrar mais comida. Fêmeas também podem botar seus ovos na área que está seca e onde pode voltar a correr água, perdendo toda a postura”, afirma Alcântara. A espécie mais ameaçada é a tartaruga-gigante ou de couro (Demochelys coriacea), que tem exatamente na praia onde deságua o Doce a única área de desova em todo o litoral brasileiro, segundo Sangalia.
O recuo das águas já vinha trazendo problemas para populações capixabas que dependem do manancial. A captação de água de Regência Augusta era feita no Rio Doce, mas a perda gradual de força da corrente fez com que o sal do mar avançasse cerca de 20 quilômetros pelo continente. Com isso, a água, que já é poluída a ponto de chegar a cobrir as areias da praia com garrafas de plástico e lixo, não pode ser dessalinizada para que se torne potável, obrigando a companhia de abastecimento e as escolas a recorrer à abertura de poços.

Agredido ao nascer

Antes mesmo de o rio iniciar sua saga do Leste mineiro até o oceano, a água que vai formar o Doce já é tomada por poluição na cabeceira, formada pela confluência dos rios Piranga e do Carmo. O Piranga foi o primeiro rio mineiro a entrar em situação de alerta – o último estágio antes de restrições de captação – devido à vazão reduzida. Ao passar por Ponte Nova, cidade com 57 mil habitantes na Zona da Mata, o Piranga recebe todo o esgoto da população, sem tratamento. A ocupação é desordenada ao longo da calha e não é difícil encontrar manilhas de diferentes diâmetros injetando resíduos dia e noite no curso d’água. O Rio do Carmo, por sua vez, também recebe cargas poluidoras poucos quilômetros depois de aflorar, em Ouro Preto, na Região Central.
O surgimento do Rio Doce também sofre com a escassez hídrica, em um ponto em que moradores locais se lembram que a água era abundante. As pedras aparentes indicam que a vazão é pouca e cerca de 200 metros à frente, já como Rio Doce, o manancial começa a ser explorado por dragas de areia.
O secretário-executivo do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce (CBH Doce), Luiz Cláudio Figueiredo, atribui a situação do rio na foz a um processo lento de degradação em toda a bacia, aliado à falta de chuvas e ao consumo de água, que se manteve normal, apesar da escassez. Ele se mostra preocupado com o futuro, pois diz não ser possível estimar qual será o comportamento das chuvas. “Da mesma forma que o que aconteceu na foz é resultado de um processo lento, a reversão do quadro também é lenta, com ações de longo prazo, como os planos de saneamento e o programa de recuperação de nascentes. Então, se não chover muito no próximo período, o problema ainda vai se alongar por muito tempo”, adverte.

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