AGUA PARA QUEM

[texto original]

Vanessa Martina Silva

Contra a mercantilização, o boliviano Oscar Olivera não toma água engarrafada: ‘valor de 1 litro paga um mês inteiro de abastecimento na minha região

“Não estou tomando água da garrafa porque não tomo água privada”, disse o boliviano Oscar Olivera ao recusar o líquido envasilhado. Olivera é um dos líderes da chamada Guerra da Água na Bolívia, ocorrida há 15 anos, e crítico ao processo de privatização dos recursos hídricos, não só como o que tentou ser implementado em Cochabamba, mas também do que vem ocorrendo em outros lugares do mundo, como no Brasil.


Oscar Olivera, ao centro; Wilbert Lopez, aluno do Prolam e a professora Vivian Urquidi também compuseram a mesa

“Quem tem água tem poder e poderá subordinar quem não tem. Estão vendo que diariamente se apropriam de nossas fontes de água”? comentou diante da plateia, durante evento realizado pelo Prolam (Programa de Pós-Graduação em Integração Latino-Americana) na última sexta-feira (22/05) na USP.

Sobre a questão, contou ainda que há quatro dias foi ao Rio de Janeiro e ficou em um pequeno hotel: “No banheiro, tinha uma placa que dizia: ‘o hotel não garante a qualidade da água. Não beber’. Isso queria dizer: ‘compre água engarrafada ou poderá morrer’. Pois eu tomei daquela água e não morri”, disse, ao exemplificar como funciona a campanha que converte a água em mercadoria, processo contra o qual foi travada a Guerra de Cochabamba. “Querem nos levar a crer que a água oferecida pelo sistema não é boa e que temos que comprar de garrafa”, ressalta.

Ele contou ainda que antes de embarcar rumo a São Paulo, questionou, no aeroporto boliviano, quanto custava uma pequena garrafa d’água. O valor era US$2. “Ou seja, um litro custa US$ 8. Com esse valor, eu pago um mês inteiro pelo serviço (30 mil litros) na minha região. Então dá para imaginar o quão lucrativo é o negócio da água hoje?”.

Guerra pela Água

“A Bolívia tem a benção de antecipar alguns acontecimentos da região”, disse, ao comentar que o país andino vivenciou antes de outros sul-americanos revoluções, ditaduras e mesmo o desmonte neoliberal experimentado nos anos 1990. Lá, o processo de privatização da água ocorreu em 2000. Com a medida, o custo pelo serviço de distribuição foi elevado em 300%. “Os grandes capitalistas se apropriaram e poderiam dispor dos recursos de acordo com seus interesses, sem se importar com o uso ancestral que era feito da água”, conta.

FundaciónAbril

Mobilização na praça central de Cochabamba

Por esse motivo, as pessoas se organizaram em contexto de luta envolvendo a maior parte da população de Cochabamba. A resposta do governo foi “o total descaso”. “O povo lutou sozinho e criou a Coordenadoria em Defesa da Água e da Vida, da qual participavam desempregados, ambulantes, sistemas comunitários de água, donos de hotéis, partidos políticos… Nela se discutia de tudo, desde a questão da água, até política”, conta.

Com as barricadas, organizadas em toda a cidade, o governo se viu acuado e chegou a utilizar franco-atiradores, que mataram cinco pessoas, para acabar com a mobilização — em vão. Após cinco meses, o governo teve que voltar atrás e desfazer o decreto.

Parte de como foi esse processo pode ser visto no filme También la lluvia (Conflito das Águas, em português), de Icíar Bollaín, com o ator mexicano Gael García Bernal e o boliviano Juan Carlos Aduviri, indicado ao prêmio Goya de melhor ator revelação em 2011.

Veja o trailer:
Passados 15 anos, durante o governo do presidente Evo Morales, foi criado o Ministério do Meio Ambiente e Águas no país e 2/3 do sistema de água hoje é comunitário, mas muito ainda falta, aponta Olivera.

A Agenda da Água, uma reivindicação do movimento, não foi adotada pelo mandatário e impediria, por exemplo, que garrafas d’água continuassem sendo vendida a preços exorbitantes, definidos pelas empresas. A agenda também definiria cuidados com as nascentes de água para que elas não sejam degradadas, conta Olivera.

“Não temos uma lei de água, mas temos a lei de mineração. (…) Nos últimos 20 anos, se extraiu ouro e prata em mais quantidade maior do que se extraiu em 160 anos da colônia. Então de que modelo [de desenvolvimento] falamos hoje?”

O desenvolvimento

“Eu, quando mais novo, trabalhei em uma fábrica de sapatos. Depois descobri que, para cada par, a empresa gastava oito mil litros de água. É por isso que temos que discutir o modelo de desenvolvimento. A água não pode ser para empresas, tem que ser para os povos. Quantos litros de água é preciso para fazer São Paulo funcionar?”, instigou Olivera.

Em Itu, a 80 quilômetros de São Paulo, onde esteve no dia anterior à palestra, Olivera conta que conheceu uma família que está há mais de 120 dias sem água em casa. Lá, a concessionária “Águas de Itu” é administrada pelo Grupo Betim, que, com a fusão da JBS, passou a ter participação de 25% no mercado de carnes. “O que um frigorífico entende de gestão de água?”, questiona.

“A situação é muito grave. O que está em risco é a vida das pessoas”, alerta, para depois comentar o fato de o Exército ter sido mobilizado pela gestão do governador Geraldo Alckmin para deter um eventual caos social devido à possível crise de abastecimento que poderá ocorrer até o final do ano. “Estão pensando em uma situação militar que pode significar a morte”, alertou.

Mobilização no final do ano passado em Itu atingiu grandes proporções e conseguiu frear aumento da tarifa

O líder boliviano aponta ainda que “empresários colocam a culpa [pela falta do recurso natural]  no consumo das pessoas. A questão é a gestão: pensar primeiro nas pessoas e não nos negócios”.

“Me inteirei que em São Paulo há 300 rios e 90% estão fechados [canalizados]. É uma privatização, expropriação porque evita que as pessoas possam ter acesso à água. Uma empresa pública, estatal, é privatizada porque quem administra é um partido político e é um sindicato. Não as pessoas”, considera.

Resistência

Como ocorreu na Bolívia, o líder considera que o povo tem que ser esclarecido do que está ocorrendo: “Eu avalio que estamos em um processo de ‘colocar barricadas’. Então São Paulo um dia colocará uma barricada à péssima, imoral, gestão de água em São Paulo. Como fizeram em Itu, onde colocaram uma barricada de resistência. Nesse processo entendo que as pessoas começam a falar uns com os outros e então daremos o verdadeiro significado a cada palavra”, aponta.

Assim, explica que a informação é um processo fundamental: “Nos tiraram o direito fundamental que é a informação. A luta pela água é pela informação, pela democracia, que também significa transparência. As pessoas em São Paulo não se movem porque não estão informadas. O que os meios de comunicação fazem é dizer mentiras, só que as pessoas acreditam”, comenta.

“Temos que passar de um processo de resistência para um processo de re-existência, porque queremos outra vida”, diz. E conclui: “a água nos países andinos como Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Chile e o norte da Argentina não é um recurso hídrico, mas um ser vivo. Quando uma comunidade tem que utilizar água de um poço, lagoa, rio, morro nevado, vai até a fonte e fala com ela. É uma relação de vida, não é como na cidade em que as pessoas vivem da água, lá as pessoas convivem com a água, é outra dimensão humana e de vida”.

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